Outrora uma importante estação de comunicações internacionais, o complexo da antiga Companhia Portuguesa Rádio Marconi, construído nos anos 40 e localizado em Vendas Novas, está hoje desactivado e devoluto. O Município alentejano quer uma solução para preservar o seu valor patrimonial.
Muito por culpa da quantidade de antenas de grandes dimensões ainda instaladas no local, a estação receptora de Vendas Novas, situada a poucos quilómetros da cidade que pertence ao distrito de Évora, não passa despercebida a quem circula na Estrada Nacional (EN) 4.
No interior do recinto, além das antenas, existem "meia dúzia" de habitações, que davam apoio aos funcionários, e a Igreja de São Gabriel, padroeiro das comunicações, cujos vitrais foram pintados por Almada Negreiros.
O presidente da Câmara Municipal de Vendas Novas, Luís Dias, conta à LUSA que este "é um conjunto patrimonial único", que tem "uma série de casas pré-coloniais e uma capela que possui uma arquitetura completamente 'sui generis' e o único trabalho de Almada Negreiros em todo o Alentejo".
O autarca alentejano, eleito nas listas do Partido Socialista, diz que este património "é uma preocupação constante do município", por estar "devoluto". Luís Dias lamenta não ter "condições para o comprar" e desenvolver um projecto de interesse municipal.
Afirma que "não havendo esse dinheiro, o que nos resta é mediar as negociações com eventuais investidores privados que rentabilizem e preservem aquele património", revelando que "há interesse" de investidores turísticos.
Luís Dias, reforçando a importância do complexo, indica que, no âmbito do novo quadro comunitário, "foi mapeado pela Direcção Regional de Cultura do Alentejo como de interesse regional e nacional", o que significa que, "para efeitos de investimentos futuros, pode vir a receber [apoio de] fundos comunitários".
O autarca alentejano assinala que, a contrastar com a actual situação, houve tempos em que a infraestrutura assumiu "um papel importante" no país, porque "fez parte da rede estratégica nacional de comunicações".
Contudo, realça que a estação foi descontinuada "há já alguns anos" pela Portugal Telecom (PT), que "herdou" o complexo da Marconi, porque "deixou de ser necessária" com a "introdução de novas tecnologias".
Fonte oficial da PT explica à Lusa que, "por motivos de evolução tecnológica, a estação foi desativada em 2013 e feito o pedido de levantamento de servidão radioeléctrica", que só foi aprovado em Setembro pelo Governo.
Fonte da empresa acrescenta que "iremos agora proceder a uma análise para definir a melhor adequação aos interesses da população de Vendas Novas e da PT".
Do outro lado da EN4, "nasceu" um bairro que "adoptou" o nome da estação e onde mora quase uma centena de pessoas, entre as quais João António Facadas, que ainda se recorda do complexo em pleno funcionamento.
"Tinha muitos empregados, cerca de 30. E tinha muitas torres por aí fora, mas já arrancaram tudo", lembra, lamentando o abandono das casas que "estão impecáveis" e da igreja que tem "uns quadros muito bonitos de Almada Negreiros".
Também Manuel Joaquim Henriques, "vizinho" da estação há cerca de 50 anos, "reprova" o alegado abandono do complexo. "É pena, mas então a vida é assim", diz.
"Até acho que se podia fazer muita coisa. Até se podia fazer, como fazem agora, um turismo rural", propõe, considerando que, se o espaço tivesse alguma utilidade, o bairro "era outra coisa".
c/ LUSA
quarta, 24 agosto 2016 23:26
Por acaso, ou sem ser por acaso, nasci numa das casas ainda existentes e em pé, que se situam paralelamente a EN 4 e que serviam de habitação a empregados da CPR Marconi e suas famílias. A Estação Receptora em apreço foi, durante muitos anos, a porta de entrada das comunicações de todo o mundo para Portugal.
Lamento deveras o estado de abandono a que deixaram chegar umas instalações que foram de importância vital para este pobre País que se dá ao luxo de desprezar património tão emblemático.