quarta, 16 agosto 2017

Helena Chouriço

Desta água beberei…

Escrito por quinta, 20 abril 2017 15:01
É muito usual utilizarmos a expressão “nunca digas desta água não beberei que o caminho é longo e pode apertar a sede”. Somos feitos de vida, olhamos à nossa volta e vemos vidas tão diferentes das nossas, tão distantes às vezes, porque a vida traçará o nosso caminho e deixamo-nos ir ou seremos nós a traça-lo e a deixar a vida correr?!
 
Cruzamo-nos uns com os outros, conhecemos tantas vezes as histórias, os encontros e desencontros, somos juízes atentos e plenamente convencidos, tanta vez, que faríamos diferente, connosco jamais aconteceria isto ou aquilo porque somos e estamos convictos de um auto conhecimento quase inabalável e inflexível. Somos assim, como um ato consumado, fechamo-nos ao outro e à vida e vivemos tantas vezes com uma sede insaciável de beber, de provar as águas que correm enquanto a vida corre também, sede de viver o que ainda não vivemos mas que sonhámos, quem sabe? e ficou no fundo do baú da nossa infância e juventude, sede de sentir, sede de abraçar, sede de beijar, sede de partilhar e dizer sem medo “desta água eu vou beber porque é ela que me mata a sede” sem medo de ser feliz, sem medo do que não conheço mas que pode enriquecer-me como pessoa, sem medo de dar de peito aberto e mão estendida para acarinhar e beber da água que nos arranque das certezas que pensamos ter, sem medo de sair do que é confortável e aparentemente seguro.
 

...porque enquanto a água correr, sede eu vou sempre ter e desta água beberei porque o caminho é longo e a sede vai apertar ou terei de atracar num qualquer lugar… porque assim teve de ser ou porque esta é a água que me faz viver, mas dela precisarei sempre beber!

Continuamos com sede, porque demos de beber e não bebemos, porque matámos a sede e não saciámos a nossa e quando a sede apertar e a boca nos secar, então “desta água beberemos” da água que nos faz cair a máscara do perfeito ou imperfeito, a máscara que nos serviu tanta vez para arrancar sorrisos em vez de lágrimas, da máscara que nos despe e nos revela diante do outro como igual e semelhante e descobrimos que temos a mesma sede e bebemos da mesma água e chegamos a brindar termo-nos encontrado. Porque entende e eu entendo porque te permites e eu me permito, sentarmo-nos lado a lado e sermos apenas e somente pessoas.
 
São tantos os rios que correm, nascentes que rebentam, mares que se revoltam e a sede que aperta… Afinal todos temos sede, afinal e continuarei a afirmar que não seremos assim tão diferentes, uns navegam em mar alto, outros em rios extensos, outros ainda em pequenos riachos mas a corrente pega em todos e levar-nos-á até à margem onde descansaremos da travessia que fizemos, as tempestades que atravessámos, as paisagens que admirámos, as aventuras que vivemos, as vezes que quase naufragámos e o que deixámos pelos portos por onde passámos…
 
Sim “desta água beberei” da tua, da tua e da tua, quero beber de águas diferentes que matem a sede de aprender, de crescer, de perceber, de ouvir, de sentir e de viver, águas com sabores diferentes, cores diferentes mas que me matem a sede do que ainda não sei … porque enquanto a água correr, sede eu vou sempre ter e desta água beberei porque o caminho é longo e a sede vai apertar ou terei de atracar num qualquer lugar… porque assim teve de ser ou porque esta é a água que me faz viver, mas dela precisarei sempre beber!
 
Confuso? Talvez não… Matem a Vossa Sede enquanto Vivos e partilhem águas de Querer Ser… (Água para beber)!
* Psicóloga Helena Chouriço

No meu Encontro com Freud, falei de solidão...

Escrito por quinta, 23 março 2017 18:06
Hoje o tema foi-me proposto…
 
Muitas vezes pensamos em vários temas e situações sobre as quais gostaríamos de dar o nosso contributo, aparentemente mais fácil para quem escreve, no entanto, o desafio hoje é escrever sobre um tema que me foi proposto depois de o solicitar e que veio através de “solidão, é uma coisa que me assusta, escreva sobre a solidão...” 
 
Aceitei…
 
Quando imaginamos a solidão mentalmente, enquanto imagem, cada um de nós possivelmente atribui-lhe uma cor ou um rosto, ou um momento ou vamos buscar ao mais íntimo de nós, quando foi a primeira e última vez que nos sentimos sós. Sim, solidão é sentirmo-nos sós ou estarmos sós?
 
Provavelmente, diríamos todos, que o facto de estarmos sós não significa sentirmo-nos sós, tal como quando estamos acompanhados não significa que não sentimos uma profunda solidão. O sentir é tão diferente do estar! Ou são dois impostores que convivem muitas vezes em sintonia. Impostores porquê? Porque muitas vezes nos disfarçamos e utilizamos máscaras para esconder o que sentimos (quando me sinto só, não digo, porque não quero que sofras por mim, mas quero-te comigo para não estar tão só e talvez até consigas que não me sinta tão só, mesmo sem te dares conta).
 

A solidão vem quando o que digo não corresponde ao que sinto, quando me deixo parecer e não ser. A solidão, esta de que vos falo hoje, é aquela solidão que nos habituou a ser companhia, é aquela solidão visceral que consome a alma, é aquela solidão que não se exprime mas também não se suporta. Solidão o maior dos medos, o não ter com quem partilhar até o silêncio.

Serão então duas faces de uma mesma moeda, gostamos de estar sós quando nos sentimos confortáveis, ouvindo música, lendo um livro, um jornal, olhando a televisão, escutando rádio, escrevendo, pensando … mas então aí já não estamos sós, a nossa mente está a absorver uma série de informação, interagimos através do que pensamos sobre os assuntos, pensamos para nós mesmos como reagiríamos a isto ou áquilo, então continuaremos a estar sós? 
 
E quando efetivamente e no meio da multidão, muita ou pouca não importa, nos sentimos sós, existe um vazio entre o que somos naquele momento e tudo o que nos rodeia, há um muro entre o que somos e o que os outros representam para nós, há um deserto de dentro para fora, preenchido tantas vezes com conversas circunstanciais ou sorrisos de simpatia e enquanto isso, o vazio aumenta como aumenta o sentimento de solidão, o medo, a fragilidade, a angústia e tantos mais…que nos impedem de agir… as fraquezas não se revelam, dos fracos não reza a história e tantos clichés mais nos tornaram prisioneiros de nós próprios, a solidão vem quando eu não sou capaz de me partilhar e de me permitir dizer “eu hoje sinto-me só”.
 
A solidão vem quando o que digo não corresponde ao que sinto, quando me deixo parecer e não ser. A solidão, esta de que vos falo hoje, é aquela solidão que nos habituou a ser companhia, é aquela solidão visceral que consome a alma, é aquela solidão que não se exprime mas também não se suporta. Solidão o maior dos medos, o não ter com quem partilhar até o silêncio. 
 
Então aprendamos a estar connosco mesmos, seremos para nós a primeira descoberta, o que somos e como nos sentimos, não podemos mais adiar, permitamo-nos sentir as coisas comos elas se nos apresentam, permitamo-nos tempo para as aceitar e permitamo-nos espaços para partilhar.
 
Um dia a solidão pode chegar mas com ela quero ter uma vida inteira para contar… então não me sentirei Só!
 
* Psicóloga Helena Chouriço

Quando eu for grande quero ser…

Escrito por quinta, 23 fevereiro 2017 09:44
Quando eu for grande quero ser…
 
Esta será, provavelmente, das frases mais ditas quando somos crianças, quando nos perguntam “O que queres ser quando fores grande?”, como se toda a nossa infância fosse passada a refletir sobre o que vamos ser quando crescermos, e mais, como se tivéssemos a perfeita noção do que é SER (se é que alguma vez a teremos). Somos “formatados” que SER implica sempre, em primeira instância, uma profissão e de preferência com estatuto social e que seja reconhecida aos olhos do meio em que vivemos. Mas o que queremos realmente saber quando perguntamos “o que queres ser quando fores grande?”. SER, começamos a SER mesmo antes de nascer, somos desejados, pensados, planeados (ou não) e amados, assim devia SER. Chegamos então “ao mundo” dos humanos no qual nos deveremos sentir seguros, confortáveis, estimulados e motivados a começar a SER, assim devia SER. Mas que SER é este que esperam de nós? Ou que SER é este que querem que seremos?
 

SER, começamos a SER mesmo antes de nascer, somos desejados, pensados, planeados (ou não) e amados, assim devia SER. Chegamos então “ao mundo” dos humanos no qual nos deveremos sentir seguros, confortáveis, estimulados e motivados a começar a SER, assim devia SER. Mas que SER é este que esperam de nós? Ou que SER é este que querem que seremos?

A aprendizagem faz-se através de imitação, ou seja, imitamos os adultos. Eles são as nossas primeiras referências e através deles interiorizamos o modo como nos devemos comportar nos vários contextos, umas vezes aceitamos passivamente, outras nem por isso. Chega uma fase em que contestamos, em que impomos a nossa vontade e descobrimos que podemos também SER e queremos muito, nessa fase, SER diferentes. No modo de agir, nas opiniões e decisões mas tudo isto com uma boa dose de insegurança, medo, rebeldia e ao mesmo tempo determinação e coragem. E seguimos caminho a querer SER, podemos dar as voltas que dermos, a nossa vida pode não ser uma pintura famosa, pode não ser uma sinfonia eterna ou um poema decorado em qualquer boca, mas pode e deve ser tão somente a nossa, aquela que escrevemos nas páginas diárias dos nossos dias, sentindo o pulsar do coração e com ele na mão gritar que queremos SER, dando-o queremos SER mais Humanos, ouvindo com o coração queremos SER mais tolerantes, tocando com o coração queremos SER melhores pessoas, para nós e para os outros. Amando com o coração queremos SER livres e que ninguém nos julgue por Amar. Queremos SER sorriso à chegada e saudade na partida, queremos SER lágrima de alegria e beijo de perdão. Porque podemos SER injustos, cruéis e às vezes egoístas (afinal SOMOS tão humanos e tão iguais) mas se pensarmos por um instante, um segundo, o que queremos SER quando formos grandes… talvez todos queiramos o mesmo… SER HUMANO… e SER HUMANO não vem nos livros da escola ou das faculdades, SER HUMANO vem do encontro com o OUTRO quando olho para ELE como semelhante e quando bebo da Sua diferença (de mim) a sabedoria e o conhecimento que ainda não tenho, quando aperto as suas mãos e agradeço, quando lhe peço perdão pelo que ainda não consegui entender, quando o abraço e sinto que o que temos de melhor tem que estar ali, naquele momento e naquele espaço. Quando me revejo no seu sofrimento e me calo perante o que não sei, quando respeito cada página da sua história como sendo a minha e que guardo como relíquia porque, nunca jamais, haverá uma história igual.
 
* Psicóloga Helena Chouriço

De regresso às crónicas...

Escrito por quinta, 26 janeiro 2017 00:43
De regresso às crónicas, perdoem-me a ousadia mas esta tem a ver com o meu percurso profissional. Não podia deixar passar a oportunidade de o publicar.
 
É verdade, passaram-se 18 anos, desde que cheguei ao Centro Social Paroquial de Santo André de Estremoz. No dia 9 de Fevereiro de 1999 iniciava um percurso que me trouxe ensinamentos e vivências únicas, que guardo na memória afetiva mas também nos cadernos, agendas e afins.
 
Guardo as pessoas com que me cruzei e que permanecem comigo, guardo situações que vivi, repletas de emoção, sorrisos, lágrimas, medo, dúvidas e certezas. Cresci como pessoa e como profissional, já o disse em várias ocasiões. Aprendi que o Ser Humano é muito mais que as situações que os fazem procurar o apoio de uma instituição como esta, aprendi que o Ser Humano é repleto de dons e qualidades por descobrir independentemente de tudo e de todos, aprendi que o Ser Humano não poderia nunca estar sozinho porque aprendi a aprender com todos quanto fizeram parte deste meu caminho, desde os mais pequenos com quem tive o privilégio de partilhar momentos e sentimentos que não são possíveis de relatar no papel ou relatar apenas, como também já disse algumas vezes, há “coisas” que só nos são permitidas sentir, para o pior e para o melhor, até superiores, colegas que se transformaram em família, utentes, entidades e seus responsáveis que se transformaram em aliados e amigos.
 

Este meu “Encontro com Freud” não é uma despedida mas apenas um virar de página no “livro” da minha história, e quando se vira uma página, soltam-se as expectativas, os anseios, os medos, as dúvidas, as certezas, as buscas e solta-se igualmente a esperança de me colocar, uma vez mais, ao serviço do Ser Humano, com todas as minhas limitações e com tudo o que ainda terei de aprender para continuar a “escrever”, dia após dia, o meu trabalho e desta vez com os mais idosos.

No dia 31 de Janeiro cessarei as minhas funções de psicóloga nesta casa, que levo como parte de mim e como referência de um trabalho que amo e que todos os dias me ensina que é preciso sonhar para depois realizar, que é preciso procurar para depois encontrar e que é preciso ouvir para depois entender.
 
A vida pode ser uma missão e neste caso, creio que foi isso mesmo que aconteceu, o cumprimento de uma missão, se bem ou menos bem não me caberá aqui avaliar ou justificar. 
 
A mudança acarreta sempre sentimentos ambivalentes mas quando sonhamos, e enquanto sonhamos, a vida nos coloca oportunidades únicas e pessoas especiais (novamente) no nosso caminho, a resposta é dada pelo que só nos é permitido sentir… Tenho o privilégio de me renovar e de continuar a aprender muito mais sobre o Ser Humano e os seus dons e qualidades, e de “beber” o que ainda não sei, que é imenso e o que ainda não vivi, que espero viver e desfrutar com a mesma alegria e amor à minha profissão e com isso desempenhá-la sempre da melhor maneira.
 
Este meu “Encontro com Freud” não é uma despedida mas apenas um virar de página no “livro” da minha história, e quando se vira uma página, soltam-se as expectativas, os anseios, os medos, as dúvidas, as certezas, as buscas e solta-se igualmente a esperança de me colocar, uma vez mais, ao serviço do Ser Humano, com todas as minhas limitações e com tudo o que ainda terei de aprender para continuar a “escrever”, dia após dia, o meu trabalho e desta vez com os mais idosos. Um desafio imenso e um privilégio poder partilhar e de novo em equipa, um mundo cheio de vidas com vida, cada uma feita à sua maneira e vivida da maneira possível, tantas vezes!
 
E não existe “no meu tempo” porque o nosso tempo é hoje, agora, aqui e daqui partiremos juntos na viagem mais longa, que é dignificar toda e qualquer Vida.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 
 

Era uma vez…

Escrito por segunda, 10 outubro 2016 02:44
Quantas vezes iniciámos, assim, uma história, como se fosse “uma só vez” e não voltasse a acontecer, não houvesse igual e de fato é possível que assim seja… cada um de nós, contará a sua história, quem sabe um dia, e será realmente única e tudo o que aconteceu, terá acontecido apenas uma vez e não haverá igual. Muitos caminhos se terão cruzado com o nosso, muitos sonhos terão ficado por realizar, muitos amores por viver, muitos abraços por dar e muitas emoções por sentir… ou não.
 
A vida parecer-nos-á complexa e o que somos um labirinto de perguntas e respostas que muitas vezes foram feitas e dadas em momentos que não percebemos o sentido, mas lembramos certamente que tudo foi sentido. Somos obras inacabadas e únicas, que ao longo da vida vão sendo esculpidas por nós mesmos, pelos que nos rodeiam e por tudo aquilo que vamos vivendo mas principalmente por tudo aquilo que sentimos. É isso, somos o que sentimos.
 

Da história das nossas histórias, sobrará o que sentimos em tudo o que vivemos. O sentimento é a força que nos leva a procurar o sentido, a emoção a forma que temos de o expressar e o “Era uma vez…” a maneira com que todos um dia a havemos de contar.

…e Era uma vez… um sentimento que fez com que tudo acontecesse, não o vou definir nem dar nome, porque muitos são os sentimentos possíveis e muitas as consequências de cada um deles. Afinal não somos assim tão diferentes, procuramos no outro o que nos faz bem e queremos dar o que temos de melhor.
 
Mas teremos o poder de querer ou não sentir? Facilmente responderemos “Não, não temos”. A nossa história está repleta de sentimentos que nos fizeram e fazem, rasgar sorrisos e gargalhadas e outros que queríamos tanto apagar da nossa memória, mas todos estão lá, são argumento dessa história que inevitavelmente será única e muito provavelmente não se repetirá e também muito provavelmente estará inacabada … quando chegar o “Fim”.
 
Da história das nossas histórias, sobrará o que sentimos em tudo o que vivemos. O sentimento é a força que nos leva a procurar o sentido, a emoção a forma que temos de o expressar e o “Era uma vez…” a maneira com que todos um dia a havemos de contar.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

Encontro com Freud - Crónica XII

Escrito por sexta, 20 maio 2016 08:26
O meu encontro com Freud e a Auto-Estima, “Era uma vez uma coruja, que necessitando deixar temporariamente o ninho e os filhotes para procurar alimento, colocou o problema de que estes pudessem ser comidos pela águia sua vizinha. Em missão de paz, procurou a águia e pediu-lhe que não comesse os seus filhos porque os amava muito e sem eles não poderia viver.
 
A águia perguntou-lhe como os reconheceria entre os outros pássaros, para os poupar, a coruja respondeu:
 
- Não tem dificuldade nenhuma, são os pássaros mais bonitos da floresta, reconhecê-los-ás pela sua beleza e perfeição…
 
A águia comeu os filhotes da coruja, que lhe pareceram aves feias e empenadas”.
 
Esta atitude de sobrevalorização revelou-se fatal para os seus filhos. Passando para os Humanos, a desvalorização sistemática das capacidades e competências das crianças, revela-se como igualmente grave.
 

Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.

O papel dos pais ou seus substitutos é determinante na construção da auto-estima das crianças desde a primeira infância. As crianças a quem foram valorizados os primeiros passos, as primeiras autonomias, as primeiras barreiras ultrapassadas, são crianças que nutrem a seu respeito expectativas mais positivas. São crianças que, ao saírem do seu meio social restrito, a família, estão mais apetrechadas para no inicio do seu percurso escolar, continuarem a construir o seu auto-conceito sem sobressaltos.
 
Por um lado, é na comparação com os pares e no contacto com os mesmos que resultará grande parte da imagem de si próprios. Os companheiros de brincadeiras, sucessos e fracassos têm um papel decisivamente regulador da sua posição no contexto social. Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.
 
Verbalize, o quanto está contente com comportamentos adequados e ajustados, com resultados escolares positivos e ao mesmo tempo incentive a superação das dificuldades, acreditando de forma genuína com a certeza de que as conseguirão superar.
 
Valorize-se e a criança aprenderá a valorizar-se, valorize a escola e a aprendizagem e a criança, aprenderá a valorizá-la igualmente. Verbalize sentimentos, compreenda o choro como forma de expressar uma frustração ou um qualquer insucesso e a criança aprenderá a expressar o que sente sem sentimentos de culpa e vergonha. O modelo que proponho neste encontro é tão somente para que cada vez mais facilitarmos e produzirmos felicidade e segurança, nas mais diferentes idades. As crianças serão adultos autónomos, com imagem positiva de si mesmos, capazes de incentivar e ao mesmo tempo ultrapassar obstáculos e gerir frustrações.
 
Queremos construir um mundo melhor, comecemos pelas crianças e desde já, o tempo corre e sem pressa mas com tempo, tornemo-nos efectivamente modelos saudáveis e capazes de valorizar e fazer crescer o melhor de cada um para com todos. 

Encontro com Freud - Crónica XI

Escrito por quinta, 21 abril 2016 17:24
Encontrei-me com Freud, para reflectir sobre o envelhecimento, o que é isto de envelhecer? Da idade nos trazer obrigatoriamente, mais experiência, mais conhecimento, mais tolerância, menos preconceitos, mais maturidade, menos saúde e mais dependência… Ou não. Se imaginarmos o nosso organismo e a nossa mente, enquanto máquina, compreenderemos facilmente que a forma como a desgastamos ao longo da vida, influencia o envelhecimento da mesma. No entanto, e no que à minha área diz respeito, o envelhecimento como processo natural também está dependente da forma como ao longo da vida, e até ao dia de hoje, nós expressámos emoções, aprendemos e apreendemos dos outros o melhor de todos, como tolerámos atitudes, crenças, culturas e gostos diferentes dos nossos, como gerimos conflitos nos vários contextos em que nos movemos. Por outro lado, como lidámos com as perdas, separações, mortes, entre tantas outras. O que escolhemos, para nós mesmos? Foi efectivamente o que decidimos naquele momento ou fomos pressionados por vontades alheias as quais não quisemos ou não conseguimos contrariar? O tempo passa, olhamos para trás e tendemos a ver o que não conseguimos, o que perdemos, o que não fizemos bem, então pergunto, e o que alcancei mesmo quando achei que já não tinha forças, e o que ganhei quando achei que já não haveria nada para mim, e o que perdoei quando num reencontro sorri e me deixei ficar?
 

E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.

Somos filhos de um tempo, num tempo que é de todos, onde bebemos das fontes mais diversas e únicas, porque também elas são filhas de um tempo, num tempo que foi de todos. Então, “eu não sou do tempo”, não, eu recuso-me a ser de um tempo, como algo estático, que não avança, que não progride, que não evolui, que não aprende, que não se adapta, que não escuta, que não vê, que não ouve, recuso … o meu tempo é hoje, o meu lugar é este ou outro qualquer porque estarei sempre a tempo de, enquanto viver, fazer do tempo um lugar qualquer. Beber das mesmas fontes e de outras fontes quaisquer, aprender no tempo o que ainda não sei, receber do tempo o que ainda não tive, tolerar e aceitar com tempo o que é diferente de mim, acarinhar e guardar todo o tempo que estiveres aqui.
 
E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

Encontro com Freud - Crónica X

Escrito por domingo, 06 março 2016 15:35
…hoje fui ao serviço de oncologia do hospital de Évora. Tranquilos, fui entregar uma carta, embora uma carta de um dos meus. Entrei no serviço e gelei por completo, quase como quando entrei pela primeira vez no IPO de Lisboa, com a minha amiga Ana Bastos, e dessa vez por um dos dela, que de alguma forma se tornam nossos, porque o que nos liga é mais forte e porque “O” dos nossos, através desse laço, passam a ser nossos também.
 
Ou quando a minha amiga Lena me deu o diagnóstico, acabadinhas de nos conhecermos, ou quando o meu tio Jaime entrou nessa viagem de luta e desespero, ou quando a minha madrinha de Crisma, Lina, recebe a notícia por telefone que iria travar uma nova batalha, ou quando soube do nosso André e um “acreditar coletivo” se instalou nos nossos corações… e quando a luz se apagou… ou quando… entre tantos outros, mais ou menos próximos, (desculpem os que não nomeei, a memória já falha) nos deram momentos de tranquilidade, de serenidade, de paz, porque as batalhas foram sendo vencidas, porque o final feliz estava cada vez mais perto…e sorri, por Vós mas também por mim e talvez tenha tido apenas isto para Vos dar, o meu Sorriso, mesmo interior, principalmente para os que não conheço tão bem.
 

A senhora do atendimento / informação, respondeu a uma das utentes como se estivesse a falar com uma familiar, gostei. Quando me dirigi ao balcão, sorriu, gostei. Quando saí e um senhor se aproximava da máquina das senhas, entreguei a que não cheguei a utilizar, sorriu, gostei. Pequenos gestos, diante de um turbilhão de sentimentos, medos, angústias, tristeza…

… hoje em cada olhar quis tanto ver esperança, Fé, entrega e um sorriso, apenas um sorriso que me dissesse que apesar de tudo, estamos bem, hoje estamos bem. Egoísmo o meu, é difícil confrontar-nos com o sofrimento dos outros e com o nosso, claro! E ser Psicóloga(o) não nos dá imunidade nem tão pouco nos torna vazios de sentimentos e empatia… ainda bem. 
 
A senhora do atendimento / informação, respondeu a uma das utentes como se estivesse a falar com uma familiar, gostei. Quando me dirigi ao balcão, sorriu, gostei. Quando saí e um senhor se aproximava da máquina das senhas, entreguei a que não cheguei a utilizar, sorriu, gostei. Pequenos gestos, diante de um turbilhão de sentimentos, medos, angústias, tristeza… Sorri e quis ficar, quis tanto ficar ali, não, não para saber nada em especial de nenhuma daquelas pessoas, porque sei o suficiente para ter vontade de ficar ali, só ficar. 
 
Enquanto a vida passa, cá fora, entre atropelos, muros, zonas cinzentas, lá dentro o peso da Vida que se quer agarrar é tão grande, que às vezes e quase sempre tem de ser a quatro, seis, oito e infinitas mãos para a segurar e eu quis tanto ficar, só para serem mais duas e sorrirmos! 
 
A todos quanto trabalham, se dedicam, vivem com a Dor do Outro e a Todos quanto nos ensinam que difícil não é impossível.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

Encontro com Freud - Crónica IX

Escrito por quinta, 21 janeiro 2016 23:50
…”encontro com Freud” de hoje tem título “Quando te divorciei do nosso filho”, a Alienação Parental existe e já é tempo de proteger as crianças e jovens deste “terrorismo” psíquico e emocional, cujas consequências a médio e longo prazo, poderão ser demasiado penosas e irreversíveis. A Alienação Parental, tal como se nos apresenta, é induzir na criança a “inexistência” de um dos progenitores. Como é possível? As formas com que se apresenta são variadas, culpabilizar o progenitor que pretendemos “matar” pela separação dos pais, fantasiar situações de maus-tratos e abusos que supostamente o progenitor “morto” terá cometido à criança entre outras, sempre de forma sistemática e persuasiva. Primeiro objectivo, atingir de forma deliberada o progenitor que se pretende “apagar” da memória da criança paralelamente às vivências do mesmo com essa mesma figura.
 

As Crianças Merecem que façamos muito mais, e aos pais que resolvam as suas questões pessoais utilizando os meios adequados, e nunca, jamais, OS SEUS PRÓPRIOS FILHOS.

O divórcio dos pais pode aparecer como um cataclismo para a criança, sobretudo quando nada deixa prever esse acontecimento. De algum modo ela deseja a separação parental, no entanto, nos casos de violência grave, afectivamente ela deseja a continuidade da vida em comum, mas intelectualmente sabe que a separação é inevitável. O que aqui importa é que havendo ruptura na ligação parental esta não implica ruptura entre os pais e a criança. Ela precisa também saber como é que a sua vida vai decorrer no futuro, pois o desconhecido causa-lhe receios. O sofrimento da criança é real, aparecendo fortes sentimentos de culpabilidade, sentimentos de agressividade para o que desejou a separação e proximidade para com aquele que sofre as consequências da mesma. É urgente desmistificar a culpabilização da criança face à ruptura parental e mais urgente será, não apontar responsabilidades ao progenitor que toma essa decisão, criando além dos sentimentos inerentes à separação, o do abandono por parte desse mesmo progenitor.
 
Depois da separação, a criança deverá fazer o luto da vida anterior e não o luto de um dos progenitores como nestes casos tantas vezes acontece. A partir desta altura vai definir-se em função de dois pólos, desenvolvendo-se a partir do interesse criado pelos seus pais. Porém, se os conflitos persistem e um dos progenitores trabalha no sentido de “apagar” o outro da vida da criança, a dificuldade vai aumentar com o sentimento de desvalorização da criança.
 
Alguns pais neuróticos podem ser tão perniciosos para a criança quanto um progenitor doente mental. Enquanto este vê a criança num quadro protegido, o primeiro vê a criança sem nenhum observador. A nível da psicopatologia parental existem dois tipos de manifestações: as perturbações anteriores e as que aparecem depois da separação e que são uma reacção pós-traumática individual ou colectiva, as crianças, não podem ser utilizadas, de forma,  irracional, narcísica e egocêntrica, não é e nunca será a criança a divorciar-se.
 
Quando as perturbações aparecem na vida em comum são frequentemente problemas psicóticos que motivaram a parentalidade. Nessa altura há necessidade de avaliar as capacidades parentais e evitar que a criança assista a manifestações traumatizantes.
 
Alguns pais continuam a guerra após a separação, porque o conflito alimenta as suas necessidades psíquicas. As leis não são respeitadas e muitas vezes estão acima das leis pois consideram que são o progenitor que sabe o que é melhor para a criança, exercendo sobre a mesma chantagem emocional e reforçando a incapacidade do outro progenitor enquanto cuidador e protector.
 
O progenitor denegativo é aquele que se atribui todas as qualidades parentais varrendo o outro da cena relacional com a criança. É o caso dos pais dissimuladores que vão utilizar o sistema judiciário posicionando-se como vítimas e impondo à criança escolhas impossíveis.
 
O papel da criança é diferenciado, isto é, há a criança que utiliza a estratégia de desempenhar o papel de “criança” pondo os pais numa atitude de rivalidade e obrigando-os, desta forma, a comunicar sobre a atitude educativa. A criança “adulta” é aquela que inventa mil estratagemas para manter o contacto parental. A criança “terapeuta” é aquela que se ocupa de um progenitor que teve dificuldades em superar a separação, são crianças que necessitarão de um apoio psicológico mais tarde. A criança “vingativa” ultrapassa linhas fronteiriças, denunciando inclusive comportamentos violentos, maus-tratos, abusos por parte do outro progenitor que nunca foram praticados. A criança “objecto” tem uma personalidade só para responder ao desejo parental e, sobretudo, daquele ferido narcisicamente. Se a criança não se valoriza, torna-se perigoso pois poderá ir do delito ao abuso como forma de empatia com o suposto progenitor vitimizado.
 

Em nome de que “Amor” teremos o direito de provocar tamanho sofrimento, em nome de que “Amor” teremos o direito de privar as crianças de um bem tão precioso, como o de ter Mãe e Pai, independentemente de haver ou não relação parental.

Em qualquer dos casos, as consequências são nefastas para as crianças colocando em risco a sua saúde mental e desenvolvimento. Pode provocar danos, emocionais, afectivos, relacionais, cognitivos e comportamentais.
 
Em nome de que “Amor” teremos o direito de provocar tamanho sofrimento, em nome de que “Amor” teremos o direito de privar as crianças de um bem tão precioso, como o de ter Mãe e Pai, independentemente de haver ou não relação parental. 
 
É urgente legislação, como forma de evitar demasiadas vezes, decisões judiciais desadequadas e inconsequentes.
 
Alienação Parental é: 
I – realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade;
II – dificultar o exercício da autoridade parental;
III – dificultar o contato da criança ou adolescente com genitor;
IV – dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar;
V – omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;
VI – apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou o adolescente;
VII – mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós.
 
Vale ressaltar que não se trata de rol taxativo, havendo a possibilidade, ainda, de atos diversos declarados pelo Juiz ou constatados por perícia.
As consequências são gravíssimas: as suas vítimas são mais propensas a:
a) Apresentar distúrbios psicológicos como depressão, ansiedade e pânico;
b) Utilizar drogas e álcool como forma de aliviar a dor e a culpa;
c) Cometer suicídio;
d) Não conseguir uma relação estável quando adulta;
e) Possuir problemas de género, em função da desqualificação do genitor atacado; 
f) Repetir o mesmo comportamento quando tiver filhos.
 
As Crianças Merecem que façamos muito mais, e aos pais que resolvam as suas questões pessoais utilizando os meios adequados, e nunca, jamais, OS SEUS PRÓPRIOS FILHOS.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 
 

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