quarta, 16 agosto 2017

Quase 12 anos

Escrito por terça, 04 julho 2017 16:25
Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lado a Margarida, que havia sido minha chefe um ano antes, disse-me que precisava de falar comigo e perguntou-me se podia dirigir-me à Escola de Avis. Sem hesitar disse que sim, que iria falar com ela, mas logo me surgiu o porquê e, da mesma forma que sem hesitar lhe disse que sim, lhe coloquei a questão. Na altura disse-me que não queria falar por telefone e eu, naturalmente acedi e respeitei a sua posição, tendo-me então deslocado à escola no dia seguinte. Quando lá cheguei, com o cabelo quase tão comprido como quando tinha 18 anos, os cumprimentos e as conversas de ocasião preencheram uma parte do dia. Foi então que a Margarida, a Lena e a Luísa puxaram o assunto que me levara lá. Começaram por dizer que tinham pensado em mim para um projeto que era a minha cara, ser Coordenador de um PIEF. Para os menos familiarizados com estas coisas das siglas da Educação, um PIEF é um Programa Integrado de Educação e Formação que integra alunos com algumas particularidades como são o exemplo dos comportamentos disruptivos ou do abandono escolar precoce. No entanto a proposta traria mais qualquer coisa, anexa a ela vinha também o convite para integrar a Direcção do Agrupamento de Escolas de Avis. Na altura confesso que fiquei em estado de choque e duvidei mesmo das minhas próprias capacidades para desempenhar tal cargo, para ser sincero ainda hoje duvido um bocadinho que as tivesse. O que me disseram era que seria só um ano lectivo ao que eu respondi que era demasiadamente desorganizado com papéis para poder aceitar. De imediato a Lena disse-me que também não percebia nada de papéis (tudo mentira!) e aí a minha insegurança esbateu-se um pouco. Propus então falar com a minha família para rapidamente lhes transmitir a nossa decisão. E assim fiz. Questionei a Zézinha, os meus pais, o meu irmão e todos me deram força para aceitar o desafio. Aceitei-o numa de viver a experiência do outro lado, e como era só um ano, talvez não fosse tão doloroso tratar de papéis. Depois de passado esse ano, e sem que tivesse sequer dado pelo tempo passar, vieram quase mais 11. Saiu a Lena, entrou a Ana Rosa… saiu a Luísa e a Ana Rosa, entraram a Ana Isabel e a Joana… saiu a Joana entrou a Lina… e eu que era só para ficar um ano fui-me mantendo com a Margarida até hoje.
 

 Aceitei-o numa de viver a experiência do outro lado, e como era só um ano, talvez não fosse tão doloroso tratar de papéis. Depois de passado esse ano, e sem que tivesse sequer dado pelo tempo passar, vieram quase mais 11. Saiu a Lena, entrou a Ana Rosa… saiu a Luísa e a Ana Rosa, entraram a Ana Isabel e a Joana… saiu a Joana entrou a Lina… e eu que era só para ficar um ano fui-me mantendo com a Margarida até hoje.

A primeira reunião a que assisti enquanto membro da Direcção da escola foi em Portalegre e a ordem de trabalhos era constituída por um único ponto, a abertura do ano lectivo. Começou às três e meia da tarde e terminou quase às dez e meia da noite. Foram quase 7 horas de “seca”. Sim, confesso que detesto reuniões! E tudo o que seja mais de duas horas e meia, três horas já não consigo ouvir nada. Sempre fui assim, muito mais prático que teórico. Felizmente consegui arranjar estratégias para me entreter nas horas seguintes, normalmente eram passadas a desenhar ou a pensar disparates. Quando o tempo de reunião ultrapassa o tolerável para mim, observo as particularidades de cada um, a forma como os oradores se expressam, se são fanhosos, se são meio gagos, se repetem determinadas palavras ou expressões. Sobre isto, chego mesmo a contar o número de vezes que o fazem. Observo a conjugação da roupa, os tiques, os penteados. Imagino-os a fazerem as coisas mais absurdas que se podem imaginar e chego mesmo a esboçar uns sorrisos que, muitas vezes, quase passam a risos incontroláveis só de pensar no absurdo das situações. O que é certo é que tenho que controlar o meu cérebro para não me deixar adormecer. Enfim, como podem imaginar, esta minha primeira reunião foi para mim um suplício e no final da mesma perguntei à Margarida se isto era sempre assim, é que se fosse eu recusava-me a ir a mais alguma. Ela descansou-me e disse-me que não. Felizmente nunca mais, nestes anos todos, tive uma reunião tão longa.
 
Foram quase 12 anos de muitas reuniões, é um facto. Mas também foram quase 12 anos de muita aprendizagem, de partilhas, de cumplicidade, de entreajuda, de comprometimento… Não querendo, de forma alguma, fazer o papel de um político em campanha (Deus me livre!!) acho que é importante espelhar aqui o que foram estes quase 12 anos. Foram quase 12 anos de obrigados mas também de desculpas… foram quase 12 anos de cooperação, de planeamento, de confiança, de adaptação, de criatividade… foram quase 12 anos de flexibilidade, de comunicação, de esforço… foram quase 12 anos de amizade, de risos (“muuuitos” risos), de choro, de angústia, de compreensão, de alegria mas também de tristeza, de desilusão e de sacrifício pessoal e familiar. Nestes quase 12 anos acertámos mas também errámos, trabalhámos todos em equipa, em sinergia, ouvimos, inovámos, motivámos, fomos proactivos, dinâmicos, tomámos decisões fáceis mas também difíceis… Nestes quase 12 anos relaxámos, concordámos, discordámos, tivemos visão, olhámo-nos nos olhos, discutimos, zangámo-nos, criticámos, fomos criticados, obtivemos resultados bons, menos bons, gerimos conflitos, trocámos experiências, descentralizámos, trouxemos modernidade, personalidade, transformámos a Biblioteca em Centro de Recursos, equipámos a escola com material didáctico, informático, construímos o tão ambicionado campo de jogos para os alunos, transformámos uns antigos balneários e arrecadações num auditório para 147 pessoas, criámos, com a ajuda de muita gente, um Centro de Formação Desportiva de Remo, fizemos a manutenção e recuperação dos espaços da escola e principalmente tentámos apoiar os nossos colegas e funcionários respondendo, sempre que possível às suas solicitações, angústias, e tentando sempre resolver os problemas que surgiram com equidade e equilíbrio. Fundamentalmente tentámos dar aos nossos alunos a auto-estima necessária para que pudessem aprender e participar na vida da escola de forma autónoma, natural, equilibrada, em paz, com alegria, espírito de entreajuda e promovendo os valores do respeito, da honestidade, da humildade, do amor.
 
Em Janeiro último pediram-me para escrever o editorial do jornal da escola e nesse editorial fiz questão de expressar a minha opinião sobre o que é para mim a escola, a minha escola. Partilho-o aqui convosco:  
 
A existência de um jornal numa escola é fundamental para transmitir a toda a comunidade o que realmente se passa cá dentro. No fundo é como que um abrir das portas às pessoas para que elas entendam que aqui há vida, que aqui se aprende, que aqui se sente… que aqui se partilham saberes, momentos… que aqui se aprendem valores essenciais para se viver em comunidade… que aqui se aprende a ser dialogante, cooperante, autónomo… que aqui há liberdade, trabalho e responsabilidade… para que as pessoas percebam que aqui se transformam crianças em jovens e que se pretende que esses jovens saiam daqui com vivências, aprendizagens e experiências fantásticas para a vida e se formem cidadãos responsáveis… Aqui, ensinar é o caminho… aprender é caminhar. Mas não é só.
 
Se perguntarmos aos antigos alunos da nossa escola qual o sentimento que nutrem por ela, a quase totalidade vos dirá que têm saudades desses tempos, das amizades, das brincadeiras, de alguns cheiros, de alguns sabores… lembrar-se-ão dos dias de chuva, de calor, dos dias de festa, de determinadas matérias, daquela conversa, daquele teatro, daquela música, daquele beijo às escondidas… lembrar-se-ão dos colegas, dos funcionários, dos professores. Fruto das suas próprias experiências de vida, muitos deles dirão também que se pudessem voltar atrás e estudar mais do que o que fizeram, talvez a vida se encarregasse de lhes dar mais e melhores oportunidades.
 
Todos sabemos que nem todos podem ser doutores mas todos também sabemos que sem esforço, determinação, sacrifício e trabalho nada se consegue. No fundo, o que mais orgulho me dá, é ver que os nossos alunos se tornaram boas pessoas, sejam eles doutores ou não, tenham mais ou menos sucesso nos seus percursos de vida. Na realidade é a colocação do meu grãozinho de areia na construção da identidade de cada um que me dá mais prazer. 
 
A escola não é só aprender e ensinar, é viver! É, naturalmente, uma fase das nossas vidas que ao passar não mais regressará e que devemos aproveitar positivamente enquanto podemos. 
 
Nos dias de hoje os alunos quase que passam mais tempo na escola do que em casa, por isso mesmo é importante que possam partilhar com as suas famílias e amigos um pouco do seu trabalho diário, um pouco das suas próprias vidas…
 
 Mas a escola, no seu sentido mais lato, não é só isto. Trabalhar como docente numa escola, nos dias de hoje, é uma tarefa quase hercúlea dada a quantidade de burocracia e de papéis que existem. Sobre a escola de hoje li há dias um texto que quero aqui reproduzir e cujo autor desconheço por completo mas que me fez reflectir bastante. Partilho convosco: 
 
"Somos o país das escolas vazias. E dos mega agrupamentos lotados. Onde há muitos professores sem trabalho e outros a enlouquecer pela quantidade do mesmo.
Somos o país onde na mesma sala há dois, ou três ou quatro anos escolares distintos. Mas não interessa, porque não há dinheiro para dois professores. Somos o país onde os programas escolares são gigantes e muitas vezes desenquadrados das necessidades de aprendizagem. Somos o país onde desde cedo se tem explicações, não porque os nossos alunos não sejam suficientemente inteligentes, mas porque o programa é louco. Onde os pais não conseguem ajudar a fazer os trabalhos de casa, agora mais exigentes e em maior quantidade. Somos o país onde não há praticamente psicólogos nas escolas, porque não há verba. Somos o país onde as crianças ou não têm tempo para brincar, ou já não sabem brincar. Somos o país onde o ensino especial é só para alguns e a diferença não é contemplada, sendo grande parte das vezes, só alvo de rótulo. Somos o país onde cada vez mais há crianças a entrar com 5 anos para a escola, anulando-lhe a possibilidade de mais um ano de brincadeira para melhor crescer e para desenvolver de forma consistente a concentração e atenção, fundamentais para o processo de aprendizagem. Somos o país onde o número de crianças com hiperatividade e de défice de atenção é, no mínimo, bizarro, onde a imaturidade reina e a falta de controlo de comportamento também. E de regras, com certeza. Somos o país com programa de ensino desfasado do desenvolvimento das suas crianças. Somos o país onde algumas crianças trabalham mais horas que adultos. Somos o país que premeia os quadros de mérito, mas não premeia a excelência humana. Que pena, talvez se assim fosse, os níveis de violência nas escolas fossem menores. Somos o país de pais cansados e desorientados. Somos o país de professores angustiados e revoltados. Somos um país de cortes. Que corta em tudo. E mais precisamente, no futuro do seu próprio país. Somos um país cheio de tanta coisa, mas vazio do que realmente interessa. Somos um país que precisa de dar um murro na mesa e defender aquilo que é seu. Nosso. A escola. As crianças."
 
Este texto reflecte, na generalidade, a parte pior daquilo que penso da escola de hoje, a escola que dá mais importância aos números do que às pessoas. Para ser o mais sincero possível, desde o primeiro dia que comecei a dar aulas até hoje, não senti que houvesse evolução no estado da educação no nosso país. A quantidade de vezes que se mudam os modelos educativos ou os conteúdos programáticos por exemplo, à medida que há mudanças de governos, proporciona e propicia uma completa rebaldaria que só confunde os agentes educativos, principalmente os alunos. Não existe consolidação de nenhum modelo pelo menos desde que comecei a dar aulas há quase 20 anos e isso reflecte-se no estado a que isto chegou. Interessa passar alunos para que os números dos relatórios sobre a educação em Portugal melhorem, não interessa transitá-los com qualidade nas suas aprendizagens. Com isto não estou sequer a abordar a sempre polémica transição ou não dos alunos, o que, na realidade, me importa é que eles saiam da escola não só com conhecimento mas também com valores humanos consolidados para viverem saudavelmente em sociedade. Os nossos governantes esquecem-se sempre daquilo que os docentes nunca esquecem, os jovens de hoje são os Homens de amanhã. Na educação não importa só o agora, importa sempre o depois, e mais que os números estão as pessoas.
 
Durante estes quase 12 anos, mesmo cumprindo as orientações da nossa tutela (concordando ou não com elas), tentámos que a vida na nossa escola fosse vivida pelos nossos alunos baseada em valores de humanidade. Se conseguimos ou não, não sei. Sei que trabalhámos com honestidade, responsabilidade e empenho para o conseguirmos.
 
Trabalhar na escola de Avis não é fácil. Não é fácil trabalhar em escola nenhuma. Nenhum dia é igual ao outro, não existem muitas rotinas, a não ser as do toque da campainha (quando existe). Fazendo um breve balanço destes quase 12 anos, o que mais detestei foi dar “castigos” aos alunos… a sério, não faz parte da minha personalidade! Nem tudo foram rosas neste tempo, é um facto. Esta história de gerir recursos humanos tem muito que se lhe diga. E quando os recursos são adultos ainda mais difícil se torna. É impossível evitar o choque de personalidades. Gerir egos e personalidades completamente díspares é muitíssimo complicado, há que ter um jogo de cintura absolutamente brutal. Era, de facto, interessante que todos os docentes pudessem passar por uma Direcção de uma escola para observarem não só esta realidade mas também a imensidão de coisas que têm que ser feitas, de forma a entenderem que, não raras vezes, a implementação de determinadas regras são oriundas das hierarquias e que as decisões tomadas não são autónomas mas, muitas vezes, impostas. Também era importante que, de X em X anos os docentes fossem conhecer outras realidades, viverem um ano ou dois noutras escolas, mesmo que próximas, para perceberem que ser “dinossauro” numa escola nem sempre é bom, pelo menos não lhes dá o direito de quererem que, por exemplo, o orçamento de uma escola seja gerido como se de um orçamento familiar se tratasse, até porque as diferenças são abismais, ou quererem que a escola seja como era antigamente. Os paradigmas mudaram. Mudam dia após dia e há que seguir em frente.
 
Passados quase 12 anos é altura de dizer adeus a Avis. Cheguei aqui com menos 30 quilos, sem cabelos brancos e a fumar desalmadamente. Saio daqui enriquecido pelas vivências que vivi, pelas pessoas que conheci, pelas amizades que fiz e levo comigo não só uma vila mas um concelho lindíssimo que merece ser visitado.
 

Passados quase 12 anos é altura de dizer adeus a Avis. Cheguei aqui com menos 30 quilos, sem cabelos brancos e a fumar desalmadamente. Saio daqui enriquecido pelas vivências que vivi, pelas pessoas que conheci, pelas amizades que fiz e levo comigo não só uma vila mas um concelho lindíssimo que merece ser visitado.

Da escola levo muito mais, levo o meu coração cheio… cheio com muito mais do que a amizade dos assistentes técnicos e operacionais, levo a simpatia do Sr. Feijão e da D. Elisa, a disponibilidade, cumplicidade e lealdade do Sr. Domingos, as artes manuais do Sr. Antunes, do Sr. António Corrula e do malogrado Sr. João Silva, levo comigo as constantes e hilariantes brincadeiras da D. Celestina, a competência e solidariedade da D. Maria José Carago e a cordialidade da D. Maria José Varela e do Sr. António Joaquim, levo a excelente comidinha da D. Maria do Rosário (hum!!!), da D. Ana Maria e da D. Isabel Lopes, a humildade da D. Margarida Matias, a presença da Elsa, do Sr. Zé e da D. Maria José e o fundamental apoio da D. Paula e da D. Maria Joana, levo comigo as fantásticas coseduras da D. Margarida Carrilho, a cortesia da D. Fernanda, as sábias benzeduras da D. Vitória e a elegante perspicácia da D. Aurora, levo os belos bolinhos com creme da Zéfinha e da Belinha, o chão molhado e o equilíbrio da Filomena, a sobriedade da Carmen, a criatividade do Tiago e a lealdade da Cristiana e levo finalmente comigo a sabedoria, a experiência, a cumplicidade, a responsabilidade e o altruísmo da D. Rosa que foi muitas vezes quase nossa mãe.  A todos, sem excepção… MUITO OBRIGADO!
 
Para além disso, e como tenho um coração muito grande, levo muito mais gente, levo centenas de alunos (de que não me esquecerei, nunca!) e a maioria dos colegas que comigo compartilharam a vida na escola. No cantinho mais especial deste músculo que nos faz estar por aqui, levo as horas partilhadas com a Lena, as brincadeiras da Luísa, a seriedade da Ana Rosa e a invulgar capacidade de trabalho da Joana e levo, fundamentalmente, a parceria e habilidade da fantástica Lina, o genial profissionalismo e empenho da magnífica Ana Isabel, e o apoio, cumplicidade, solidariedade, inteligência e amizade da extraordinária Patrícia e da impetuosa mas versátil, sincera e honesta Margarida. Todas deram o melhor de si, de todas retirei ensinamentos e todas foram profissionais 5 estrelas… por isso… MUITO OBRIGADO!
 
Passados quase 12 anos é altura de dizer adeus a Avis. Saio daqui com a consciência tranquila do dever cumprido e de tudo ter feito em prole dos alunos. Saio com mais 30 quilos, com milhares de cabelos brancos mas pelo menos, deixei de fumar. É verdade, vou ter saudades do caminho, sempre diferente de dia para dia. Reafirmo que saio enriquecido pelas vivências que vivi, pelas pessoas que conheci, pelas amizades que fiz e levo comigo não só uma vila mas um concelho lindíssimo que merece ser visitado. Até sempre… ou até um dia AVIS!
 
* Professor Luís Parente

Vamos dançar?

Escrito por sexta, 28 abril 2017 20:20
Para ser sincero sou aquilo a que se pode chamar de autêntico “pé de chumbo”. Não tenho o mínimo jeito para dançar. Coreografias, movimentos amplos, movimentos curtos, de pés, de mãos, de ancas, não percebo nada, mesmo. Naturalmente que ao longo da minha vida, muitas foram as ocasiões em que tive mesmo que dançar, quer dizer… dançar não é o termo mais correto, talvez seja melhor chamar-lhe qualquer coisa como “ocasiões em que fui quase obrigado a efectuar movimentos ritmados ao som de uma música”. Adoro música, adoro bater o pé ao ritmo de uma música, adoro fingir que toco bateria, transformo qualquer coisa em baquetas para tentar reproduzir o som da percussão, canetas, talheres, as próprias mãos, tudo serve para fazer “barulho”, ao ponto de, por vezes, em casa, ter alguém a dizer-me que já chega… eu tenho a noção que às vezes é difícil controlar-me neste aspecto. Mas quando toca a dançar… Ui!!! Valha-me Deus!!! Quando era mais novo, para não fazer figuras tristes nos bailes ou nas discotecas, optei por uma situação que, de alguma forma me pudesse proteger para não cair no ridículo, em primeiro lugar observava atentamente tudo o que me rodeava (a bater ritmadamente o pé ao som da música), a forma de uns e de outros se movimentarem, o local onde punham as mãos, se elas próprias faziam ou não parte das criativas coreografias que por lá apareciam. Algumas eram talvez um pouco excêntricas. Ao fim e ao cabo depois de tanta observação eu já conseguia distinguir as clássicas das excêntricas, pelo menos pensava eu…
 
A este propósito, de danças estranhas, recordo-me, numas férias no Luso irmos com o nosso grupo de jovens amigos, que se juntavam todos os anos no INATEL daquela localidade, à discoteca do Grande Hotel curtir a música daqueles finais dos anos 80. De entre dez a quinze jovens rapazes e raparigas destacou-se claramente na inovação da sua dança o amigo Filipe, um rapaz de Matosinhos com um sentido de humor fantástico (típico das gentes do norte) que com os seus movimentos como se estivesse a fazer exercícios de ginástica ou a correr (parado), sempre naqueles 50 centímetros quadrados, fazia com que ao seu redor ninguém ficasse indiferente… era uma risada geral. O que mais me intrigou na altura foi o sucesso da sua coreografia, se é que assim lhe posso chamar, junto do público feminino. Como é que aquele rapaz franzino, que dançava de forma ridícula (fala o entendido…) conseguia dominar a pista de dança e… as meninas? Ele lá sabia! Sabia que os seus movimentos atraíam a gargalhada e tinham sucesso no sexo oposto, e por isso, descomplexadamente, não hesitava um único segundo e continuava a dar o seu “show” para gáudio do pessoal. 
 

Para ser sincero, o meu relacionamento com a dança é estranho, como disse não tenho jeitinho nenhum, mas há músicas que me fazem alterar completamente a noção de equilíbrio, há músicas que me fazem apetecer movimentar-me como um louco. Se estiver em casa ou até num grupo restrito de amigos até sou capaz de fazer a malta rir um bocadinho, se for em público adopto, naturalmente o “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”.

Depois de reflectir não só sobre o que tinha ali assistido, mas também sobre a memória, sempre viva, dos meus pais a dançarem nos bailes da Sociedade dos Artistas (eles sim bons dançarinos!), onde o meu pai (que era de tamanho pequeno) dançava agarrado à minha mãe com a cabeça encostada ao seu peito, por ser até aí que a sua estatura o levava, formando ali um cenário igualmente engraçado e igualmente descomplexado, cheguei à conclusão que era altura de parar de só bater o “pézinho” e passar àquele que até hoje utilizo e se pode assemelhar a um passo de dança, o por mim chamado “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”. Que nome mais estranho e comprido! (nem queiram saber o nome que eu inventaria se o passo de dança fosse mais complicado). Deste modo consegui arranjar uma boa forma de colocar e movimentar ritmadamente os pés, acompanhando com clareza a métrica da música. E então as mãos? O que é que fazia às mãos? Para saber o que fazer com elas também tive os meus momentos de observação, observei todas as suas formas de movimentos e a conclusão a que cheguei é que, nada melhor que dançar com uma bebida na mão, pelo menos só temos que nos preocupar com a outra, visto que uma já fica ocupada. 
 
Ultrapassada que foi a vergonha ou o receio do ridículo, comecei a desenvolver a técnica nos bailaricos das aldeias e em algumas discotecas da região. 
 
Na irreverência dos meus 18 anos entendi deixar crescer o cabelo e, quando o mesmo já estava efectivamente grande, sucedeu comigo o impensável. Eu era talvez 50 quilos mais magro e um dia, numa tarde de domingo, num grupo de amigos, resolvemos ir a uma matiné a uma discoteca em Elvas (naquela altura ainda havia matinés, agora, sinceramente, não sei se há). Montados na carrinha Peugeot 504 do João Carlos, aí fomos nós até à discoteca “Luigi”. Até aqui nada de estranho, o estranho passou-se lá dentro quando, pouco depois de me ter aventurado na arte do “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”, um cromo, certamente com falta de vista, me confundiu com um elemento do sexo feminino e me pediu para dançar. Naquela altura a minha reacção foi só uma: “Desaparece daqui antes que te parta os…” enfeites, para não ser malcriado. O rapazito meteu o rabo entre as pernas e, obviamente, marchou-se. Naquele dia fiquei de novo a duvidar se a minha técnica de dança já estaria suficientemente consolidada para ser exposta ao público, cheguei a pensar se a mesma seria até efeminada. No entanto cheguei à conclusão que o problema era mesmo o tamanho do cabelo, ainda assim, e porque gostava de me ver com ele comprido, não o cortei mas tomei uma outra decisão para que não voltasse a acontecer nenhum episódio semelhante, deixar crescer a barba. Deu resultado! 
 
Talvez por não perceber nada da prática de dança (sim, porque a teoria sei-a toda!) tenha insistido para que, mais tarde, as minhas filhas frequentassem aulas de ballet na Classe de Dança do Orfeão de Estremoz “Tomaz Alcaide”, pelo menos tenho a certeza que não passarão muito tempo a observar, tímida e parvamente como o pai, as danças dos outros.
 
Para ser sincero, o meu relacionamento com a dança é estranho, como disse não tenho jeitinho nenhum, mas há músicas que me fazem alterar completamente a noção de equilíbrio, há músicas que me fazem apetecer movimentar-me como um louco. Se estiver em casa ou até num grupo restrito de amigos até sou capaz de fazer a malta rir um bocadinho, se for em público adopto, naturalmente o “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”. 
 
Bem, mas o propósito que me faz trazer este tema ao “Ardina” não é demonstrar os meus feitos ou peripécias na arte da dança. O que me faz trazer este tema é, efectivamente, enaltecer e dar destaque a todos quantos fazem da dança uma forma de vida, ainda que não profissionalmente mas que vivem a dança com intensidade e o demonstram publicamente e com uma qualidade absolutamente extraordinária através dos inúmeros grupos que vão proliferando por esse país fora. 
 
Existem inúmeros géneros de dança, a primitiva, a étnica, a cerimonial, a tradicional, a clássica, o ballet, a dança contemporânea, a dança de rua, o fandango, o flamenco, a dança teatral, o funaná, o hip-hop, o jazz, o Kizomba, o kuduro, a lambada, o samba, a polca, o folclore, o swing, a salsa, a dança de salão, o sapateado, o zumba, a dança no gelo, o break dance, a dança do ventre, de sedução, o tango, as danças africanas, orientais, enfim estaríamos aqui, seguramente, muitíssimo tempo só a falar de tipos de dança e das suas infindáveis variações. Há, de facto, alguns géneros que criam em mim algum fascínio pela sua beleza estética, como são o caso do tango ou da salsa, no entanto, noutro sentido, delicio-me com a perfeição e rigor do ballet clássico e com a liberdade criativa da dança contemporânea.
 
No próximo sábado, dia 29 de Abril, comemora-se o Dia Internacional da Dança. O objectivo da UNESCO em 1982 foi o de criar um dia que pudesse universalizar aquela arte, independentemente dos povos, das culturas, da ética, da religião ou dos sistemas políticos. 
 
Ainda que a UNESCO o não tivesse feito, teríamos sempre que reconhecer a importância da dança ao longo dos tempos, desde a pré-história, ao antigo Egipto, à Grécia antiga, à Idade Média, ao Renascimento, até mesmo aos nossos dias. De uma forma ou outra a dança revelou-se de extrema importância para a evolução do Homem, por isso mesmo há que a celebrar. Celebrar a dança é respeitar o rigor e movimentar-se entre silêncios… é revelar controlo no descontrolo… é ensinar mas também é aprender… Celebrar a dança é valorizar a expressão das emoções, dos sentimentos… Celebrar a dança é dar ao corpo a capacidade do movimento articulado ao som da música… Celebrar a dança é trazer para fora o que a alma transmite… é trazer liberdade ao som e à expressão corporal… Celebrar a dança é viver de ideias, é viver de ideais… Celebrar a dança é trazer o amor para fora… Celebremos então a dança! 
 
Da minha parte celebrá-la-ei sempre com o seguro, discreto e habitual “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”.
* Professor Luís Parente

Idiotas precisam-se

Escrito por sexta, 31 março 2017 12:10
A ideia hoje é falar de idiotas. Há idiotas em todo o lado, literalmente. No futebol, na igreja, no café, no espectro político, na rua, enfim, em todo o lado… mesmo! Onde quer que haja uma pessoa há um idiota. Quando falo em idiotas não falo só da forma depreciativa que o termo acarreta, falo também da maravilha da ideia. As duas palavras (ideia e idiota) diferem bastante quanto ao seu significado. De acordo com os dicionários que consultei, para tentar entender um bocadinho mais sobre os seus significados e estabelecer, de certa forma, um paralelismo, verifiquei, efectivamente, a diferença entre eles. Se por um lado a ideia nos traz palavras como pensamento, lembrança, memória e fantasia entre muitos outros, idiota leva-nos mesmo para a imbecilidade, para a estupidez, para a ignorância, para a palermice ou mesmo para a burrice. Ainda assim continuo a achar que faz todo o sentido interligar uma com a outra, sim porque há ideias aparentemente idiotas que se provaram mais que acertadas quando efectivamente provadas.
 
Inúmeras ideias que foram surgindo no decorrer dos tempos, muitas delas absolutamente geniais que acabaram por mudar os diferentes paradigmas do mundo, terão partido certamente de completas idiotices, palermices sem aparente sentido. O que é certo é que acabaram por se revelar de grande utilidade para a humanidade em determinada altura. A roda que fez com que tudo mudasse, a bússola que se revelou de extrema importância na expansão do mundo que se conhece principalmente dos séculos XV a XVII, a imprensa do alemão Johannes Gutenberg, a lâmpada eléctrica de Thomas Edison, o telefone de Graham Bell ou mais recentemente a rádio, a televisão, a internet e todo um novo mundo que se desenvolveu a partir destas e de outras supostas idiotices sem qualquer nexo.
 

Quando falo em idiotas não falo só da forma depreciativa que o termo acarreta, falo também da maravilha da ideia. As duas palavras (ideia e idiota) diferem bastante quanto ao seu significado.

Há riscos, quanto a mim, ao se ser idiota. Os riscos que se correm podem ser divididos em diferentes dimensões, a dimensão do crer (acreditar), do querer (ter vontade de), do tentar, do almejar o sucesso mas também do esbarrar no ingrato insucesso. Senão vejamos, como completo absurdo (ou não… não sabemos… ainda) eu creio que aquando da morte na Terra, o nosso ser nasce num outro planeta, um planeta com um centro gravitacional idêntico ao nosso, numa outra galáxia não de nome via láctea (que é aquela onde ainda estamos), mas uma galáxia ainda sem nome. Proponho que ela se chame “AMOR” (sim, assim mesmo em Português). Quero muito que nessa galáxia haja planetas como o nosso mas que o ciclo da vida seja inverso, como já li algures num texto muito discutido sobre a sua verdadeira autoria, ou seja, quero que a vida comece pela morte, siga para a velhice, da velhice para a vida activa, para a adolescência, posteriormente para a infância e que termine num prazeroso acto físico. Quero que nos planetas dessa galáxia viva unicamente o amor nas suas mais variadas derivações (daí o nome para a galáxia), a amizade, a partilha, a verdade, e todos os verbos, adjectivos, etc. que demonstrem positividade. No fundo o que eu quero é um mundo perfeito. Será possível? Não sei! Aqui na Terra, no nosso mundo, não me parece! Ainda que eu e muitos outros continuemos a tentar fazer dele um mundo melhor, esbarramos mais vezes no insucesso do que almejamos o sucesso. No entanto cada pequeno sucesso é uma alegria e por isso mesmo continuaremos a ser os idiotas suficientes para que, quem sabe algum dia, algum ignorante, não tenha uma ideia completamente absurda, estúpida e sem qualquer sentido que consiga mudar o rumo do mundo. Será possível? Se calhar, enquanto estivermos nesta galáxia não! Mas alguém cá ficará e, mesmo na estupidez, poderá fazer acontecer algo que muitas vezes já aconteceu, mudar isto tudo. O mundo precisa mesmo de idiotas… e de ideias!
 
Enquanto a nossa mente for efectivamente maior do que o nosso corpo… enquanto nós conseguirmos que o nosso consciente viva da persistente emoção positiva… enquanto houver estímulos químicos, eléctricos ou mecânicos que façam acontecer os impulsos nervosos para os neurónios trabalharem… enquanto tudo isto acontecer, para falar com sinceridade, ainda acredito na humanidade… nem que seja noutra galáxia!
 
* Professor Luís Parente

Cuidar

Escrito por terça, 07 março 2017 02:38
Já não é a primeira vez que trago o assunto da terceira idade ao conjunto de palavras que mensalmente escrevo, (já que alguém encontrou em mim, digamos que, uma laranja com sumo suficiente - o limão é um bocadinho o oposto do que sou - para poder escorrer linha sobre linha nesta plataforma de notícias). Resolvi então voltar ao assunto dos idosos e voltarei a fazê-lo sempre que sentir que o devo fazer.
 
Eu costumo dizer que tenho “às minhas expensas” oito velhotes com idades entre os 69 e os 89 anos. Felizmente, e ainda bem para todos, as expensas são divididas por mais pessoas. Hoje só quero falar de cinco, vou retirar desta equação a minha mãe e os meus sogros. Hoje quero mesmo é falar daquelas cinco pessoas que também foram e continuam a ser peças de importante relevância e valia no puzzle que é a minha vida. Falo orgulhosamente e com um enorme sentido de gratidão dos meus tios. Poucas vezes se fala dos tios e, da parte que me toca, acho que é da mais elementar justiça enaltecer o papel que eles sempre tiveram na construção das nossas personalidades. Quando digo nossas, falo na minha mas também na do meu irmão, que se reverá certamente naquilo que aqui escrevo. De todos retirámos ensinamentos e todos eles “plantaram penas” no nosso ser para que pudéssemos voar pelo mundo fora.
 
Para sermos o que somos, ouvimos mil e uma histórias da História de Portugal contadas quase até à exaustão e até encenadas pela sabedoria ímpar do tio António.
 

Hoje quero mesmo é falar daquelas cinco pessoas que também foram e continuam a ser peças de importante relevância e valia no puzzle que é a minha vida. Falo orgulhosamente e com um enorme sentido de gratidão dos meus tios. Poucas vezes se fala dos tios e, da parte que me toca, acho que é da mais elementar justiça enaltecer o papel que eles sempre tiveram na construção das nossas personalidades.

Para amarmos, mas também para sofrermos com o futebol, contámos com a paixão única e desmesurada de quem nos levou à bola e nos fez apaixonar por um BENFICA de dimensão inigualável, o tio Jorge fê-lo na perfeição.
 
Para conhecermos o Alentejo à nossa volta, a disponibilidade e enorme paciência do tio Zé transportou-nos de “camionete” inúmeras vezes para muitas terras à nossa volta, tudo para ficarmos a conhecer aquilo que nos rodeia. Se nos dias de hoje isto de se conhecer as terras à nossa volta pode ser considerado, de certa forma, banal, há trinta e tal anos isso afigurava-se quase como um luxo.
 
Para pensarmos mais à frente do nosso tempo terão contribuído as personalidades evoluídas e emancipadas da tia Madalena e da Helena (que não sendo tia é como se fosse… pelo menos assim a consideramos).
 
Naturalmente que nas nossas memórias não está só o que aqui mencionei como meros exemplos, no hipocampo do nosso cérebro estão e estarão um sem número de histórias, de partilhas, de vivências, de palavras e também de afectos transmitidos pelos nossos tios. Poderei reconhecer que ter tios solteiros ou mesmo casados e sem filhos, não sendo assim tão linear, pode evidenciar mais a proximidade entre todos. Ainda assim estou certo que o amor que sempre nos deram seria igualmente próximo e intenso se assim não fosse. Eu costumo dizer que à dádiva da partilha das suas vidas connosco terá sempre que haver um retorno, ou seja, esse amor transmitido por palavras ou actos terá sempre que ser retribuído nem que seja como uma forma de agradecimento, e não, não considero que seja uma obrigação, acho que é um dever retribuir esse amor.
 
Esta semana li algures numa publicação nacional que os idosos portugueses são dos mais abandonados da Europa. Segundo parece, e de acordo com dados de 2016 há mais de quarenta mil idosos a viverem sozinhos ou isolados. Será que aquelas pessoas não fizeram o suficiente durante a vida para ter alguém que pudesse CUIDAR delas numa das fases mais difíceis das suas vidas? Acredito que sim, acredito que, na generalidade, as suas consciências estarão tranquilas e que o apoio que muitas vezes lhes falta terá certamente, para os seus mais próximos, uma justificação mais ou menos plausível. Mas existe algum tipo de justificação para deixar alguém abandonado à sua sorte numa fase tão fragilizada da vida? Creio que não! Dir-me-ão que cada um tem a sua vida, os seus trabalhos e que os tempos de hoje não nos deixam margem nem tempo para CUIDAR daqueles que já foram nossos e que, assim sendo, creio, a pouco e pouco vão deixando de ser. Às vezes não basta colocá-los num qualquer lar, por muito boas que as condições sejam, por muito afecto que haja por parte das pessoas que estão na instituição, é preciso que as famílias sejam presentes, é preciso que aos idosos seja dado um motivo para quererem estar, para quererem ser, para quererem viver. Tenho para mim que quem tem o papel de cuidador tem que ter uma enorme capacidade de planeamento. Reconheço que não deve ser fácil esse papel, no entanto, há que se fazer uma reflexão intensa e ponderada para se tomar a decisão de ser cuidador de idosos, devem ser analisados com muito cuidado os prós e os contras duma decisão dessa natureza. São inúmeras as questões que têm que ser formuladas antes dessa tomada de decisão, do espaço à segurança, da mobilidade ao apoio da restante família, da conciliação da vida profissional à higiene do idoso. Ter um idoso em casa não é com certeza tarefa fácil. Felizmente as opções são algumas, da casa ao lar, do centro de dia à Universidade Sénior tudo tem que ser pensado para que o idoso consiga ter uma qualidade de vida que lhe permita fazer algo com alguma independência. Sim porque sentir-se, na totalidade, dependente deve ser o pior que lhes pode acontecer. Daí eu achar que o papel das famílias é preponderante para o bem-estar, nem que seja psicológico, já que o físico, naturalmente vai quebrando com o passar do tempo. Seja em casa, no lar ou onde quer que seja, nestas idades, eles precisam é de apoio e amor, mais do que tudo o resto. Eu costumo dizer que para percebermos o que os outros sentem devemos sempre tentar pôr-nos no seu lugar, e eu acredito que nesta fase da vida eles precisam de alguém que os oiça, que os ajude e que os ame.
 

Da minha parte, tudo farei para que aqueles que muito me deram tenham aquilo que merecem ter. Quero muito fazer valer como certa a expressão não material de “dar para receber”.É bom ouvir das minhas tias velhotas expressões como: “Oxalá quando fores velhinho também tenhas quem cuidar de ti como nos fazes a nós!” ou “És um anjinho que caíste nas nossas vidas”.

Nestes dias, por motivo de saúde de um dos tios, tive que me deslocar ao Hospital de Évora por dois dias. Certamente muitos dos leitores já terão tido, por uma razão ou outra, essa experiência da espera de resultados num qualquer hospital. O que eu observei naqueles dias deixa-me, por um lado esperançoso no futuro da medicina mas por outro triste. Se por um lado observei mais humanidade nos profissionais de saúde com quem lidei, destaco as duas médicas de tenra idade que tudo fizeram para nos dar respostas, agindo profissionalmente de forma humilde e carinhosa para com os doentes, afastando de mim o pensamento de sobranceria que muitas vezes vejo recair naquela classe, por outro lado verifiquei que o número de profissionais é claramente insuficiente para que não surjam as habituais reclamações de tempo de espera.
 
A propósito do apoio das famílias aos idosos, durante o tempo que estive nas urgências do Hospital de Évora, houve uma coisa que me chocou, ver uma idosa, seguramente com mais de oitenta anos, talvez mesmo próxima dos noventa, completamente desorientada e aparentemente esquecida pela família, perguntando incessantemente pela condição do seu marido que estaria no interior das urgências e entrando e saindo do local inúmeras vezes procurando também no exterior o apoio familiar que tardou (várias horas), sabe-se lá porquê, em aparecer. Tenho a certeza que aquelas horas terão parecido dias para aquela senhora. É certo que, no interior, muitas pessoas se aperceberam do seu desnorte e se disponibilizaram para a ajudar, mas aquela falta de apoio familiar, que com certeza teria uma justificação, tocou-me de sobremaneira.
 
Da minha parte, tudo farei para que aqueles que muito me deram tenham aquilo que merecem ter. Quero muito fazer valer como certa a expressão não material de “dar para receber”.
 
É bom ouvir das minhas tias velhotas expressões como: “Oxalá quando fores velhinho também tenhas quem cuidar de ti como nos fazes a nós!” ou “És um anjinho que caíste nas nossas vidas”. Já lhes disse milhares de vezes que não aceito obrigados. Eu é que tenho que lhes agradecer, a todos, aquilo que sou. Com eles, até onde puder ajudar, cá estarei. Quando não puder pelo menos uma coisa eu sei, presente sempre estarei, nem que seja só para os amar… podem ter a certeza!
* Professor Luís Parente

Mais ou menos um poema

Escrito por domingo, 12 fevereiro 2017 12:44
Gosto de verbos! Gosto de os conjugar, 
de brincar com eles, de os entrelaçar noutros, 
gosto que o verbo me agarre e me sujeite ao significado, que me empurre e derrube no tempo…
gosto de, com eles, fazer misturas como se de tintas numa tela se tratassem… 
gosto de ver neles submissão, mas também ditadura (como se uma palavra e outra não estivessem intimamente ligadas…)…
gosto quando o verbo me dá tudo e quando nada me traz …
gosto dos regulares, dos irregulares…
gosto deles no passado, no presente e mais ainda no futuro…
gosto quando o cantar traz o dançar, quando o comer traz o prazer, quando o saber traz o lugar…
gosto quando o verbo ir me leva incerteza, quando arriscar me obriga à coragem…
gosto de gostar que o amar traga o sonhar, que o desejar traga o amar
gosto de ver nos verbos os sentidos… gosto de os observar, de os cheirar, de os saborear, gosto não só de lhes tocar mas também de os ouvir
gosto deles em português, em inglês, em espanhol, francês, italiano e até alemão, e só não gosto em japonês porque a minha língua não me levou tão distante…
gosto quando o dar me leva a mim, quando o kiss vem com o beijo, quando ao reír se segue a gargalhada ou até quando o avoir traz a coisa, quando o sentire traz o coração e quando o haben vem com a saúde…
gosto sempre que o abraçar traga o sorrir e que nascer traga o crescer
gosto que no divertir esteja o saltar e no ajudar o merecer
gosto de beijar só por beijar, de namorar sem hesitar
gosto da junção do criar com o surpreender e do imaginar sem limitar
gosto do cozinhar sem o esturrar e do beber sem o tombar
gosto que no desfrutar esteja a amizade e nela o partilhar…  
gosto de chorar só com o rir e de pensar sem me obrigar
gosto de me passar com o golo e de enlouquecer com a vitória…
gosto de observar o luar, de contemplar o pôr do sol, de analisar o desenho das nuvens, de desenhar o que vejo no emaranhado de ramos de uma árvore despida…
gosto de dormir sobre um sonho de cheiro a mar e nesse mar encontrar respostas a para tudo o que me incomodar
Mesmo com o adjectivo, o substantivo, o advérbio ou o pronome por perto, gosto que o verbo seja verbo… Há até palavras que não são verbos mas que eu gostava que fossem… Saudade, por exemplo, não sei porquê mas gostava que saudade fosse um verbo, não imagino sequer como se conjugaria…
Mas… há verbos e verbos, para mim gosto dos bonitos mas se bonitos não são, talvez não goste deles não…
não gosto do sofrer muito menos para morrer, do perder para a seguir se ganhar
não gosto do chover junto com o trovejar, do escutar sem opinar, do cair e magoar
não gosto do correr para cansar nem do ocultar para não assumir
quase nunca gosto de ver nos verbos o levar para nunca mais trazer, o fazer sem a acção, o roubar sem o prender
não gosto do gritar sem o escutar, do obedecer sem questionar, do escaldar até queimar…
não gosto do hesitar sem decidir, do dividir para reinar nem do ingrato esquecer
gosto de acreditar, de estar, de ficar, de entregar… gosto de me emocionar, de proteger, de acompanhar, de estimular, de querer, de confiar… gosto de estimar, de respeitar, de apreciar, de entender, de ter, de oferecer… mas fundamentalmente gosto de gostar, de amar, de sonhar, de viver e gosto mesmo muito de ser… o que seria o Ser sem ser?
Felizmente são mais os verbos que gosto do que aqueles que não gosto… dependendo da perspectiva muitos dos que gosto não gosto e dos que não gosto, gosto. 
No fundo… eu gosto mesmo é de verbos, pronto!
* Professor Luís Parente

Esperança... e mais esperança!

Escrito por sexta, 09 dezembro 2016 17:09
A palavra Esperança foi a última que utilizei no texto do mês anterior. Com a aproximação da época natalícia e do final do ano, a mesma palavra tem uma força em si só ainda maior. Num ano difícil como este parece-me ser de bom-tom realçá-la como forma de ambicionar um novo ano muito melhor do que este de 2016.
 
Este ano trouxe, de facto, muitas complicações ao mundo, trouxe muitas perdas de gente, famosa ou não, que sempre fez parte das vidas de cada um de nós, mas, na realidade, também trouxe coisas boas. Veja-se por exemplo o desporto. Como amante do futebol em particular e do próprio desporto em geral, ainda que possa ser criticado por ocultar outros feitos do desporto nacional, devo realçar cinco acontecimentos marcantes neste ano, a conquista do Tri Campeonato de futebol do meu BENFICA, a conquista inédita do Campeonato Europeu de Futebol por parte da selecção de PORTUGAL, a conquista, também por PORTUGAL, do Campeonato Europeu de Hóquei em Patins, algo que não acontecia há 18 anos, a conquista de uma medalha olímpica no Rio de Janeiro por parte da judoca Telma Monteiro, que na realidade, para o nosso país soube a pouco, e finalmente o primeiro apuramento de sempre da selecção portuguesa de futebol feminino para uma grande competição internacional que, no caso, se trata do Campeonato da Europa a realizar na Holanda no próximo ano.
 
Para ser sincero, a nível pessoal, este ano não me vai deixar saudades nenhumas, tive saúde é certo, mas a nível familiar essa mesma saúde não esteve como todos esperávamos. O mês de Janeiro foi, quanto a mim, o pior de todos, aquele que mais “abalo” deu ao psicológico da família.
 

Dizem que a esperança é a última a morrer, que é verde e que é a que faz superar o desespero. Eu digo que a esperança não tem cor, ou então que tem todas as cores, não só é verde, é azul, amarela, vermelha, branca, laranja, ocre, anil, violeta, púrpura, carmim, bordeaux. A esperança pode sim fazer superar o desespero mas acredito que, para muitos, os que sofrem de incessantes dores físicas mas também de dores psicológicas, seja o fim da vida a derradeira esperança. Se calhar teríamos que dividir aqui a esperança em boa e má mas como isso é de tal forma subjectivo, se calhar é melhor nem continuar este assunto e parar por aqui.

Uma coisa é certa, já tenho idade suficiente para começar a perceber que a vida nem sempre é como esperamos e que a todos os segundos que passam estamos com mais idade. Não quero nunca pensar que os meus “velhotes”, um dia, caminharão rumo a outras paragens, eu juro que me tento mentalizar que isso um dia acontecerá mas não consigo não ter esperança que seja só um dia muito, muito longínquo. Sim, eu sei que quanto mais idade temos mais maleitas nos aparecem e a esperança de vida vai diminuindo. Mas não diminui ela todos os dias? todas as horas? todos os minutos? todos os segundos? toda a vida? Eu tenho essa consciência, no entanto quero acreditar que todos viverão até, pelo menos, aos 150 anos com qualidade de vida.
 
Irracional! É verdade, às vezes (muitas) consigo ser assim, irracional mas, na verdade, é também essa irracionalidade que faz com que tenha bem viva a luz da esperança. É essa irracionalidade que me faz acreditar que o mundo viverá em paz, com as iguais diferenças de cada um, com o respeito mútuo por opiniões divergentes, com justiça, com responsabilidade, com alegria, amizade… é essa irracionalidade que me faz ter a confiança no equilíbrio, naquilo que tem faltado nos dias de hoje que é sabermos colocar-nos no lugar do outro, olharmos para o outro e não só para o nosso umbigo… é essa irracionalidade que me faz crer que as pessoas vivam as suas vidas e não as dos outros, que me faz ter a expectativa de não haver preconceitos, que me faz ter a ilusão de vivermos todos unidos e embriagados de um amor infinito. Talvez seja utópico da minha parte pensar desta maneira mas, de certa forma, a esperança também é utopia, fantasia, sonho. No entanto está mais que provado que há sonhos que se realizam, certo? Também é certo que diariamente a esperança é posta à prova pelos inúmeros acontecimentos quase irreais do nosso mundo. Muitas vezes chego a pensar se não será pela esperança que surge a infelicidade, por exemplo por não se conseguir almejar algo que sonhávamos e para o qual a esperança fez o favor de nos alimentar a expectativa, mas depois há sempre uma nova esperança que surge, que faz voltar a alimentar a ilusão e me faz desacreditar daquele pensamento. É como que uma espécie de ciclo que vive de esperança em esperança.
 
Dizem que a esperança é a última a morrer, que é verde e que é a que faz superar o desespero. Eu digo que a esperança não tem cor, ou então que tem todas as cores, não só é verde, é azul, amarela, vermelha, branca, laranja, ocre, anil, violeta, púrpura, carmim, bordeaux. A esperança pode sim fazer superar o desespero mas acredito que, para muitos, os que sofrem de incessantes dores físicas mas também de dores psicológicas, seja o fim da vida a derradeira esperança. Se calhar teríamos que dividir aqui a esperança em boa e má mas como isso é de tal forma subjectivo, se calhar é melhor nem continuar este assunto e parar por aqui. Nem consigo sequer imaginar, e para ser sincero também não quero, a enorme dificuldade de quem sofre e a quem a esperança insiste em empurrar a vida para a hora ou para o dia seguinte. É como que um ciclo dentro de outro ciclo, dentro do outro tal ciclo das esperanças. Não sei se me fiz entender com esta confusão toda.
 
Mas eu sou positivo, e como positivo que sou, entendo a esperança presente mas com ambição de futuro. No fundo quase que me considero um “vendedor” de esperança. Talvez vendedor não seja o termo correcto, se calhar é mais transmissor de esperança. Sim porque eu acredito veementemente e tenho esperança num futuro melhor para todos e como o futuro deste estranho ano de 2016 é o mesmo de todos os anos, terminar em 31 de Dezembro, só há a esperança que o próximo seja bem melhor do que o anterior.
 
A todos um Feliz Natal e um ano de 2017 cheio de boa? esperança.
 
* Professor Luís Parente

Coitado do Donald... Duck!

Escrito por segunda, 14 novembro 2016 00:13
Parecia que estava a adivinhar… esperei até hoje para escrever o texto deste mês e, por coincidência ou não, muitos de nós acordaram com a mais surpreendente das notícias, o anúncio da eleição do novo presidente dos Estados Unidos. Não sou analista político nem sequer almejo vir um dia a sê-lo, no entanto, e mesmo não gostando muito de comentar os assuntos “do momento” entendo que hoje devo fazê-lo.  
 
Em outras ocasiões eleitorais daquele país era, para nós portugueses, mais ou menos indiferente que quem fosse gerir os destinos da maior economia do mundo fosse democrata ou republicano. No entanto, este ano de 2016, já de si estranho, revelou aquilo que todos já sabemos… ainda não terminou e “até ao lavar dos cestos é vindima”, o que quer dizer que muito pode ainda acontecer ao enfermo mundo em que vivemos, aliás diariamente surgem notícias que nos fazem duvidar se algum dia o conseguiremos regenerar. 
 

Estas eleições revestiram-se de uma importância acrescida pelo facto de haver um candidato com um discurso, na minha opinião, deplorável, absolutamente demente e completamente fora do tão propalado discurso do politicamente correcto, um sujeito que, pelo seu raciocínio, podemos classificar de xenófobo, misógino, incitador de violência e ódio, homofóbico e preconceituoso. Nunca tal havia sido observado no mundo moderno e nem mesmo a campanha a favor do Brexit do ex Mayor de Londres e membro do partido conservador Boris Jonhson, ou do eurocéptico líder do Partido da Independência do Reino Unido, mais conhecido por UKIP, Nigel Farage, chegou ao baixo nível da campanha eleitoral norte americana. 
 
Em Agosto último escrevia nestas linhas do ARDINA o seguinte excerto: “Nos Estados Unidos da América, por exemplo, foi recentemente nomeado pelo partido republicano, como candidato à presidência do país, uma pessoa que, na minha opinião, é desprovida de qualquer tipo de sensibilidade e como consequência sem capacidade para presidir um dos países mais influentes do mundo. Pior do que isso é a sociedade que foi criada para que essa situação fosse hoje possível, não se conseguindo discernir um propagandista, aproveitador e ainda por cima xenófobo que se arrisca a ser presidente (lagarto… lagarto… lagarto) daquele que por muitos é considerado o país mais multicultural e multiétnico do mundo.” Passados três meses a minha opinião sobre o senhor continua a ser a mesma. No entanto, àquilo que escrevi, pode agora ser adicionada uma nova variável, a sua efectiva eleição para presidente dos Estados Unidos da América. Ainda assim, continuo a achar que não tem capacidade para presidir os destinos do seu país e considero mesmo que não tem sequer a noção do que lhe aconteceu nem daquilo que lhe foi “oferecido” pela livre vontade dos americanos expressa em votos nas urnas de cada um dos 50 estados daquele país. As notícias que hoje nos chegam da terra do “tio Sam” dão-nos conta de uma vitória absolutamente esmagadora do candidato republicano que consegue a maioria no Senado e no Congresso. 
 
O resultado destas eleições reflecte agora, mais que nunca, que as pessoas estão efectivamente descontentes com a forma como os políticos gerem as suas vidas. Quem sabe, tudo isto do Brexit e das eleições norte americanas, não seja até bom para que os decisores políticos reflictam e comecem a pensar efectivamente nas pessoas e não só na economia. É que as pessoas têm necessidades… muito maiores que a economia… é que as pessoas são pessoas e é para elas que os governantes devem governar. Se essa reflexão for célere quiçá não se chegue a tempo de evitar mais preocupações do género das que aconteceram hoje noutros países do mundo.
 
Durante o dia de hoje (9 de Novembro) dei-me ao trabalho de ir lendo os comentários que iam surgindo nas diferentes redes sociais sobre a inesperada vitória do candidato republicano, onde nem as próprias sondagens lhe davam algum tipo de vantagem, daí a vitória se revelar surpreendente e inesperada. As opiniões que surgiram foram inúmeras e parece que toda a gente tinha uma sobre o assunto do dia. Umas mais sarcásticas, outras furiosas, umas mais tristes (a maior parte), outras muito divertidas, umas a favor, outras contra, umas que comparavam a série de desenhos animados dos Simpsons com a realidade, outras irónicas, outras ainda sobre teorias da conspiração, enfim, uma panóplia de opiniões que continuarão a proliferar nos próximos tempos por essa web fora. 
 
Na minha opinião nenhum dos dois candidatos tem o perfil para ser presidente dos Estados Unidos, nem Trump nem Clinton. O primeiro por demonstrar tudo o que já aqui referi e a segunda não só por eventualmente se subjugar a interesses obscuros que quiçá lhe tenham financiado a própria campanha eleitoral como por não lhe reconhecer capacidade decisória para o exercício do cargo. 
 
Dos muitos comentários que li, ainda antes destas eleições, o mais consensual, se assim lhe posso chamar, foi o “de um ao outro venha o diabo e escolha”. No entanto também li muitos a preferir o “sistema” de Hillary ao abuso de autoridade de Trump a quem muita gente considerou de perigoso. Talvez eu próprio também preferisse o mal menor do sistema instituído. 
 

Na minha opinião nenhum dos dois candidatos tem o perfil para ser presidente dos Estados Unidos,nem Trump nem Clinton. O primeiro por demonstrar tudo o que já aqui referi e a segunda não só por eventualmente se subjugar a interesses obscuros que quiçá lhe tenham financiado a própria campanha eleitoral como por não lhe reconhecer capacidade decisória para o exercício do cargo.

Eu tenho para mim que o agora eleito 45º Presidente dos Estados Unidos não vai concretizar a maior parte das promessas eleitorais que fez. Concordo com o escritor Miguel Esteves Cardoso que escreveu um artigo de opinião sobre o assunto que diz que Donald Trump "conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito. Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose". Aguardemos então essa metamorfose, talvez Trump se transforme em Donald Duck para animar isto um bocadinho mais. Não! Coitado do Donald Duck! (Walt Disney de certeza que se viraria na tumba só de pensar nisso).
 
Não costumo ser muito pessimista mas confesso que este acontecimento de hoje me deixou algo apreensivo e, no deslizar do dedo pelo meu smartphone, encontrei, através de uma amiga e colega, um pequeno texto, que quero aqui partilhar convosco, de uma entrevista de Al Berto à revista Ler em 1989 que reflecte um pouco daquilo que é o meu sentimento no dia de hoje: "Este Não-Futuro que a Gente Vive -
Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros". É um facto que me preocupa muitíssimo esta ausência de valores mas também me preocupa a pouca consciência que temos dos trilhos por onde andámos para chegarmos aqui, ao ponto em que estamos, ao mundo que temos. Ainda assim, e como sou uma pessoa de fé, tenho esperança que o mundo mude para melhor.
 
Do que li, a propósito do resultado destas eleições para a “Casa Branca” quero ainda destacar o que Gabriela Ruivo Trindade, vencedora do Prémio LeYa em 2013, a viver no Reino Unido, escreveu no seu Facebook:  
Não fossem os teus olhos, o mundo seria hoje um lugar muito mais feio.
(Devíamos enviar mensagens de amor. Eu dedico esta a todos os que amo. Hoje ganhou, mais uma vez, o ódio. Aconteceu o mesmo aqui com o Brexit e a doença vai continuar a espalhar-se. O pior é que já vimos este filme, e não sabemos como pará-lo: quanto mais inseguras e assustadas, quanto mais desesperadas, mais as pessoas se tornam presas fáceis do discurso do ódio. Porque é tão mais fácil arranjar bodes expiatórios do que procurar em si o que está mal. Dá tanto jeito arranjar culpados, desde que sejam os outros. O outro. É a união, a solidariedade, a empatia, o amor pelo outro que estão ameaçados. E contra o ódio, só existe um remédio: amor. Muito amor.)
 
É verdade! Estão ameaçados… mas há defesas e essas não vivem só no amor, elas vivem também na palavra ESPERANÇA. 
 
* Professor Luís Parente
 

Pensar "Fora da Caixa"

Escrito por terça, 18 outubro 2016 11:57
Gosto de pensar “Fora da Caixa”. Pensar “Fora da Caixa” pode ser assim como que deter uma capacidade de resistência à tentação do óbvio, pode ser conseguir esquecer ou pôr de parte, ali num cantinho, aquilo que nos inflama, aquilo que, de certa forma nos enraivece, aquilo que nos dá a volta às entranhas e nos pode fazer reagir sem reflectir, “disparar” por impulso - que é uma coisa que não faz muito parte da minha forma de ser. Se calhar às vezes até perco por isso, umas vezes por não conseguir outras por não querer. Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior. De certa forma, e como acredito que nada acontece por acaso, entendo que talvez tenha mesmo que ser assim, no fundo também serve como forma de aprendizagem e crescimento pessoal.
 

Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior.

Quem vai lendo o que por aqui escrevo já percebeu, certamente, que poucas vezes escrevi sobre a actualidade. Tento sempre fugir àquilo que os “opinion makers” trazem à luz do dia diariamente nas televisões, nos jornais, na blogosfera ou nas redes sociais, até porque eu acho que, não raras vezes, o que os mesmos pretendem é tentar influenciar opiniões e, desse modo, não existe, para mim, compatibilidade com o pensamento que quero independente e racional. Seria muito fácil opinar sobre a crescente tensão entre russos e norte americanos sobre o que se passa na Síria, sobre o orçamento de estado para o próximo ano, sobre a recente eleição do engenheiro António Guterres para Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, sobre a forma absurda como os agentes de autoridade portugueses são tratados pelos sucessivos governos, cuja autoridade é posta em causa a cada acção mais… tensa, digamos assim, ou até mesmo sobre se o Prémio Nobel da Literatura foi ou não bem atribuído ao letrista e cantautor Bob Dylan. 
 
Mas pensar “Fora da Caixa” não é só o que referi anteriormente, pensar “Fora da Caixa” é pensar alternativamente, é sair do convencional, quebrar convenções, é não seguir ideias pré-concebidas, é ter a liberdade para ousar pensar diferente… pensar “Fora da Caixa” é imaginar mundos de vida, sonhos de canela, calçadas de estrelas, céus de algodão, grãos de areia falantes – Jesus!! Se os grãos de areia falassem ninguém poderia estar na praia, dificilmente se conseguiria entender o que quer que fosse, nem o som das ondas do mar se faria ouvir. Pensar “Fora da Caixa” é mesclar a imaginação com a memória e recorrer a ela e às vivências passadas… é ter a capacidade de criar, inventar, sujar o pensamento com pinceladas de tudo e de todas as cores… é falar sobre o pêlo da marta, sobre o cheiro do campo, a cor da cidade, a textura dos mundos, o sabor da vida… pensar “Fora da Caixa” é contar histórias fantásticas, viver os sonhos sonhados, saborear o som do silêncio, observar o toque do tempo. No fundo é baralhar os sentidos, misturá-los e encadeá-los no mundo.
 
Já várias vezes aqui escrevi sobre a forma como o mundo em que vivemos está e sobre o resquício de valores adjacentes à vida dos nossos dias. Na realidade há algo que me faz acreditar que esta decadência pode ser revertida. Essa reversão só pode mesmo passar pelo facto de podermos pensar “Fora da Caixa”. Se calhar tudo dará mais trabalho mas acredito que esta pode ser a medida mais eficaz e duradoura para um mundo menos mau.
 

Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?

Quantos medicamentos e curas, por exemplo, não foram já descobertos pelo simples facto de ter havido um mero investigador que se lembrou de pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas soluções simples não foram já apresentadas para resolver problemas complexos só porque alguém arriscou a pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas vidas não foram já salvas porque o bombeiro, o enfermeiro ou o médico decidiram algo não convencional pensando “Fora da Caixa”?
 
Quantos novos cheiros não se sentiram só porque houve alguém que pensou “Fora da Caixa” e decidiu aquela mistura de fragâncias que ditaram um novo perfume?  
 
Quantos sabores novos e bons não se saborearam pelo simples facto do cozinheiro ter pensado “Fora da Caixa” e ter experimentado adicionar aquele ingrediente que ninguém imaginava?
 
Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?
 
Percebem agora, só por estes simples exemplos, o motivo pelo qual eu acho que uma das soluções para o mundo é pensar “Fora da Caixa”? Sinceramente eu sou daqueles que não acreditam que só consegue pensar “Fora da Caixa” quem conhece muito bem o interior da mesma. Para mim não é preciso conhecer cada canto interior da “Caixa”, é preciso é fazer com que a tampa da “Caixa” salte, ainda que de quando em vez, e o pensamento se espalhe para fora dela, pelo mundo fora.
 
* Professor Luís Parente

Feliz Ano Novo!

Escrito por quinta, 15 setembro 2016 18:55
Feliz ano novo numa altura destas? É verdade! Para quem está, como eu, ligado à educação o ano civil confunde-se muitas vezes com o ano lectivo. E digo mais, se calhar, quem está deste lado, até dá mais importância ao ano que inicia em Setembro do que àquele que começa em Janeiro. É certo que tudo dependerá da intensidade com que se vive a educação e da forma como a transportamos na nossa vida. Hoje começa mais um ano lectivo para milhares de crianças e jovens do nosso país. O planeamento de um ano lectivo inicia-se muito antes do mesmo ter iniciado, tudo começa ainda dentro do ano anterior com o balanço emanado de inúmeras reuniões de debate sobre o que correu bem e menos bem durante o tempo efectivamente lectivo. Quando ouço, muitas vezes, as pessoas a comentarem a “boa vida” dos docentes fico, de certa forma, triste porque não considero essas críticas justas. Só quem está na área pode, com clareza e objectividade testemunhar o que aqui descrevo. O trabalho dos professores é intenso e, muitas vezes esgotante. Quando digo esgotante refiro-me ao sem número de funções burocráticas que o docente tem que desempenhar no seu dia-a-dia, ao preenchimento de inúmeros documentos que muitas vezes não se lhe reconhece utilidade. Com isto não quero dizer que alguns não sejam, na realidade, necessários e que facilitem posteriores situações. Se o professor só ensinasse e os alunos só aprendessem tudo seria menos complicado e menos esgotante. O que eu critico é o tempo que o professor dedica aos alunos. Na minha opinião o docente gasta demasiado tempo com essas tarefas burocráticas e administrativas e deixa para segundo plano aquilo que, no meu ponto de vista é essencial, o trabalho para e com os alunos. Eu que até reconheço e valorizo as virtudes das novas tecnologias chego a pensar que em muitos casos elas vieram dificultar ao invés de facilitar. Mas a realidade da educação nos dias de hoje é esta mesmo e é com ela que temos que viver, o que não quer dizer que não tenhamos opinião e não a possamos manifestar.
 

Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família.

Desde que iniciei a minha carreira já vi “passar” pela tutela da educação mais de uma dezena de ministros. Cada equipa que chega muda tudo e mais alguma coisa, de mandatos para mandatos andamos de experiências em experiências e a consolidação dessas mesmas experiências nunca é feita e nunca se sabe a médio/longo prazo o resultado das mesmas. Talvez por aí também o trabalho dos docentes não seja beneficiado em prole dos seus alunos e comece a haver uma certa desmotivação no próprio corpo docente. Quando ainda recentemente li que grande parte dos docentes, se pudesse, mudava de vida, reflecti e cheguei à conclusão de que o que acabei de descrever podem ser alguns dos motivos para que isso aconteça. Confesso que às vezes eu próprio também me apetece “sair”. Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família. Mas depois caio na real e penso que existem milhares que gostavam simplesmente de estar no meu lugar e, para ser sincero, não sou pessoa de desistir assim às primeiras. Vou lutar! E vou lutar porque gosto disto, não das papeladas e burocracias que me passam pela frente a toda a hora mas dos alunos e da relação que se estabelece com eles. Nós, muitas vezes conhecemos melhor as crianças e jovens que passam os seus dias connosco do que propriamente as suas famílias. Quando há pouco falava das injustas acusações com que muitas vezes os professores são confrontados referia-me ao papel, muitas vezes invisível que o professor desempenha no seu dia-a-dia. A educação não é só ensinar e aprender, a educação de hoje tem um sem número de vertentes e variáveis que se devem ter em conta. O descrédito dado aos docentes, a sua perca de autoridade, a forma como muitas das vezes os mesmos são tratados na opinião pública, pelos meios de comunicação social, por alguns pais, famílias, encarregados de educação e até mesmo pelas sucessivas equipas ministeriais não valoriza nem credibiliza a complexa miríade de funções que o docente desempenha junto dos seus alunos. Ser professor é ser professor, é ser psicólogo, pai, mãe, tio, avó, amigo, vizinho, assistente social, juíz, transmissor de afectos, educador, confidente… ser professor é ser um guia, um confessor, um sociólogo, um analista… ser professor é ser dono do tempo, é viajar até ao fim do mundo, é rir, chorar, cantar, dançar, correr… ser professor é perguntar, responder, transformar, pintar, crescer… ser professor é motivar, é ensinar a lidar com os sucessos mas também com os fracassos… é ter convicção, inovar, abraçar, é alargar horizontes, é mostrar caminhos… ser professor é lidar com bons comportamentos mas também com comportamentos disruptivos, é mediar expectativas, é trabalhar para resultados, é usar distintas terminologias, é falar de diferentes formas… ser professor é trabalhar sem recursos, é trabalhar com manuais, com recursos multimédia, é avaliar processos, fazer introspecção, é ter a capacidade de fazer uma constante auto-avaliação, é ser capaz de trabalhar tanto com métodos quantitativos como qualitativos, é fazer formação para melhorar estratégias de acção, é viver com rotinas, sem rotinas… ser professor é ultrapassar obstáculos, é trabalhar com turmas grandes e com turmas pequenas, é trabalhar com brancos, pretos, amarelos, ciganos, russos, árabes, é trabalhar com ricos, com pobres, com pessoas com dificuldades cognitivas, de locomoção, com deficiência visual e auditiva… ser professor é tudo isto e mais uma panóplia de coisas. Digam-me agora que a profissão docente não é intensa, muitas vezes esgotante e de uma enorme exigência! Acredito piamente que mais de noventa por cento dos professores têm a preocupação em dar tudo isto aos seus alunos, acredito que eles dão o melhor de si, não só transmitindo-lhes os seus conhecimentos mas dando-lhes, inúmeras vezes, a tal orientação de que as famílias muitas vezes se “esquecem” de dar. Sobre tudo isto até me podem dizer que, como sou professor, estou unicamente a defender a minha classe. Meus amigos, se há classe mais desunida, é a nossa. Basta vermos a quantidade de sindicatos que existem para nos defender. Se fossemos realmente unidos um bastava para defender os nossos interesses.
 

Uma vez que os docentes têm a capacidade de fazer tudo isto, têm que ter a capacidade para também entenderem que cada vez mais as aulas não podem ser iguais para todos os alunos. Cada pessoa é uma só e os alunos não fogem à regra. Cada vez mais me convenço que o ritmo de cada um é distinto e a experiência tem-me revelado precisamente isso. O professor não pode fechar-se no seu “ninho” e ousar pensar e acreditar que é sempre eficaz nas suas decisões e na forma como vive a sua Educação. Também erramos, também falhamos mas uma coisa é certa, temos que ter a capacidade de nos renovarmos. Não estou aqui, de forma alguma, a pôr em causa as capacidades e a competência pedagógica de cada um, unicamente acho que temos que ter a capacidade de reconhecer o erro.
 
Fala-se muito na educação da Finlândia como sendo a que melhores resultados apresenta em todo o mundo. Acerca disto às vezes ponho-me a pensar: Será que os nossos alunos não estarão fartos do nosso tipo de ensino com demasiado tempo na escola, com um currículo demasiadamente cheio e sem tempo para poderem sequer brincar, tal não é o conjunto de actividades escolares e extra escolares que eles têm? Será que não seria mais benéfico se lhes dessemos a liberdade de os deixarmos brincar até chegarem ao ponto de se “aborrecerem” para que eles próprios sentissem individualmente a necessidade de procurar saber mais e mais? Será que resultava num tipo de ensino mais apelativo? Será que no nosso país funcionaria? Se querem que vos diga também não sei mas com tantas experiências que já foram feitas não me chocava nada se apostassem numa desta natureza.
 

O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos.

A este propósito e dado o extenso currículo do ensino em Portugal parece-me que por vezes se dá pouca importância àquilo que considero primordial que é a aposta na formação pessoal de cada um dos alunos que nos passam pelas mãos, o tentar fazer com que sejam pessoas equilibradas, responsáveis e assumam sem subterfúgios e receios as suas responsabilidades… o tentar fazer com que sejam honestos e humildes, dinâmicos, activos, trabalhadores e esforçados, respeitadores e justos, solidários e empreendedores. No fundo tentar fazer com que sejam boas pessoas.
 
O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos. Na minha opinião a humanização da educação é tão importante quanto a importância que se dá aos currículos e às metas.
 
É certo que não há maior satisfação profissional como aquela que sentimos quando vemos que os alunos que um dia estiveram connosco a partilhar também os seus conhecimentos (sim porque eu não consigo ensinar sem deles também aprender todos os dias) – a partilhar as suas dúvidas, as suas alegrias, tristezas, os seus segredos, as suas birras, os seus primeiros namoricos, no fundo a infância e a adolescência das suas vidas, não há, efectivamente, maior satisfação para nós do que vê-los vencer na vida… dá-nos um gozo especial, é certo, quando entram na Universidade mas, quer entrem na faculdade e se tornem investigadores, médicos, enfermeiros, gestores, professores, arquitectos, quer façam um percurso diferente e sigam a vida militar, as artes, a música, quer criem o seu posto de trabalho ou trabalhem por conta de outrem, quer sejam cozinheiros, empregados fabris, agricultores, sapateiros ou até varredores, a maior satisfação é vê-los pessoas… pessoas na verdadeira acepção da palavra com todos os verbos, substantivos e adjectivos que a si se podem agregar.
 
Sabemos que deixamos “marcas” nos nossos alunos quando nos encontram em qualquer lugar e se dirigem a nós para nos cumprimentar e falar um pouco sobre as conquistas das suas vidas.
 
Li algures que ser professor também é isto… “sentir-se realizado e feliz com as conquistas dos nossos alunos”
 
Para o ano lectivo que hoje se inicia desejo a todos: docentes, técnicos que colaboram nas escolas, alunos, assistentes operacionais e técnicos (que desempenham um papel importantíssimo no dia-a-dia das escolas) parceiros e famílias um Feliz Ano Lectivo!!!
 
* Professor Luís Parente
 

Mais Populares