domingo, 20 outubro 2019

António Serrano

Faça-se a luz

sexta, 22 janeiro 2016 00:37
"No princípio, quando Deus criou os céus e a terra (...) Deus disse: 'Faça-se a luz', e a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas." (Génesis 1: 1-4)
 
Começa assim o extraordinário Livro do Génesis, o primeiro do Antigo Testamento e que se traduz na visão bíblica da criação do Universo, da Terra e da Vida, a partir da luz do Sol.
 
Quer optemos por esta visão criacionista ou por uma perspetiva evolucionista da origem do Universo, o que é certo é que a luz do Sol é essencial à existência da vida, pelo menos na forma, ou nas formas, como a conhecemos. Sem luz, não existiria alternância entre o dia e a noite, a fotossíntese não se poderia realizar, os seres vivos e os corpos inertes não receberiam energia e não a poderiam trocar entre eles, pondo em causa os diversos e complexos sistemas biofísicos do Planeta.
 

Sei que os residentes preferiam não ter a central à porta, por isso, a solução poderia ter passado por terem adquirido o terreno, deixando-o tal como está ou, em alternativa, dando-lhe uma utilização agrícola mais produtiva do que a atual.

Por outro lado, a luz é o principal elemento de construção da paisagem, na medida em que define a forma como a percecionamos. Isto porque a luz natural, proveniente do Sol ou, por vezes, da Lua (que é luz solar refletida) contém um intervalo completo de comprimentos de onda visíveis, conferindo assim cor à paisagem. A quantidade, qualidade e direção da luz tem um efeito importante na nossa perceção da forma, textura e cores. Por isso, não podemos ver o que nos rodeia sem que esteja iluminado, seja de forma natural ou artificial.
 
Para conseguirmos ver o que nos rodeia em ambientes escuros ou durante a noite, é necessário recorrermos à iluminação artificial. Muito antes da existência da eletricidade, a Humanidade recorreu ao uso do fogo para garantir esta iluminação. Hoje em dia, a eletricidade chega-nos a casa através da transformação de diversas fontes de energia (nuclear, hídrica, eólica, das marés, solar...).
 
A energia solar é uma das que apresenta mais vantagens para a obtenção de energia elétrica, pois o recurso Sol é inesgotável, pelo menos à escala da existência de vida na Terra, e porque trata-se de uma fonte de energia limpa, que não polui durante a sua utilização.
 
É de tal forma uma excelente alternativa aos restantes modos de produção de energia elétrica, que por todo o mundo se procuram formas de melhor dela tirar partido, propagando-se a construção de inúmeras centrais fotovoltaicas.
 
Apenas em Estremoz a construção de uma central fotovoltaica na freguesia do Ameixial tem feito correr tinta, em especial nas sessões de Câmara e da Assembleia Municipal, bem como nalgumas publicações que têm dado ao assunto uma certa ênfase, na minha opinião pouco justificável, tendo em conta a própria dimensão da central.
 
Trata-se de um investimento da ordem dos cinco milhões de euros no concelho de Estremoz, de uma forma limpa, eficaz e mais barata de produção de energia elétrica e, principalmente, de um empreendimento que foi devidamente licenciado pela Câmara Municipal, atendendo aos pareceres positivos emanados pelas diversas entidades (Comissão Regional da Reserva Agrícola Nacional, Direção Regional de Cultura, Agência Portuguesa do Ambiente) e depois de verificadas as disposições regulamentares do Plano Diretor Municipal.
 
Qual é, então, o problema? Ao que parece, meia dúzia de residentes serão afetados "pelo forte impacto visual" que os painéis solares irão provocar na paisagem envolvente. Isso foi suficiente para grandes notícias em "jornais especializados" e para amplas discussões nos órgãos da autarquia, estas últimas, em meu entender, com o único objetivo de tirar partido político da situação.
 
Os residentes afetados, na maioria apenas ao fim-de-semana, dizem sentir-se incomodados com a implantação dos painéis à porta de casa e num terreno com "elevada aptidão agrícola", sugerindo a sua deslocalização para qualquer outro lugar. Aqui colocam-se dois problemas. Por um lado, que se saiba, nos últimos anos o terreno em questão tem estado em pousio, logo não tem sido aproveitado para quaisquer fins agrícolas. Por outro lado, quaisquer outras soluções alternativas para a localização do empreendimento iriam afetar outras pessoas ou provocar outros impactos ambientais noutros locais. O assunto continuaria por resolver. Sei que os residentes preferiam não ter a central à porta, por isso, a solução poderia ter passado por terem adquirido o terreno, deixando-o tal como está ou, em alternativa, dando-lhe uma utilização agrícola mais produtiva do que a atual.
 

Quanto aos políticos locais afetados, já estranho mais a sua posição, ao votarem contra a implantação do empreendimento. (...) Talvez estes políticos locais, que queriam chumbar a instalação da central no concelho de Estremoz, não tenham lido os programas nacionais e as grandes opções dos partidos políticos que lhe dão a oportunidade de ter uma intervenção na vida política municipal.

Os residentes e os políticos alegam ainda a proximidade ao Padrão e ao Terreiro da Batalha do Ameixial, classificado como monumento nacional, e o impacto visual que a central terá nos mesmos e na paisagem envolvente, facto que a Direção Regional de Cultura do Alentejo, que tem a tutela da proteção do património classificado, não considerou relevante. A este propósito da defesa do património, houve até lugar à tentativa de envolvimento do Presidente da Entidade Regional de Turismo nesta situação. Como se a ERT tivesse, em algum momento, que ser consultada ou como se o Terreiro da Batalha do Ameixial fosse um importante recurso turístico do concelho de Estremoz, visitado anualmente por milhares de turistas. Não me espanta, por isso, a "surpresa" de Ceia da Silva, quando confrontado por um jornal local acerca da central fotovoltaica, nem o facto de não ter sido visto nem achado em todo o processo.
 
Quanto aos políticos locais afetados, já estranho mais a sua posição, ao votarem contra a implantação do empreendimento. E ainda mais, quando em todo o mundo se procuram formas alternativas de produção de energia limpa, quando a União Europeia faz todos os esforços nesse sentido e quando os sucessivos programas dos governos nacionais, incluindo o atual, apontam como prioridade o investimento neste tipo de soluções de produção de energia elétrica. Talvez estes políticos locais, que queriam chumbar a instalação da central no concelho de Estremoz, não tenham lido os programas nacionais e as grandes opções dos partidos políticos que lhe dão a oportunidade de ter uma intervenção na vida política municipal.
 
Ou talvez os políticos locais prefiram apostar no regresso da iluminação à base de candeias de azeite e, assim, apontem como solução para aquele espaço a plantação de um enorme olival, uma forma de devolver ao terreno a sua aptidão agrícola e um verdadeiro ícone da paisagem mediterrânica. 
 
É caso para dizer, como dizem que disse o Criador: "faça-se luz nas suas mentes, para acabar de uma vez por todas com as trevas..."
 
* Arquiteto-Paisagista António Serrano
 
 
Modificado em sexta, 22 janeiro 2016 00:58

Desejos de Natal

quinta, 24 dezembro 2015 11:23
Dezembro traz com ele o fim de mais um ciclo e o começo de outro. O Solstício de Inverno, que acontece todos os anos por volta do dia 22 no hemisfério norte, assinala o início da fria estação que lhe dá o nome e brinda-nos com o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Tudo porque o sol, nesse dia, atinge a sua maior distância angular em relação ao plano que o separa da linha do equador. Mais uma vez a paisagem se altera para receber este novo ciclo e preparar o próximo. A vegetação entra num período de letargia, ou repouso vegetativo, ganhando forças para se voltar a renovar no equinócio da Primavera.
 
Com o início do Inverno chegam também o Natal e o Ano Novo, pontos altos do calendário da Humanidade, cristã ou pagã. Muito graças ao Cristianismo, com o Natal celebramos o nascimento de Jesus. Um nascimento que, segundo o Antigo Testamento, ocorreu numa humilde cabana em Belém e foi assinalado com a passagem de uma estrela que indicou o caminho a pastores e reis magos que foram adorar o Menino e entregar-lhe presentes. Começa, talvez assim, a tradição de nesta data festiva se oferecerem presentes às pessoas de quem mais gostamos.
 

Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.

Ainda me lembro de, em criança, na manhã do dia 25 de dezembro, correr disparado para a chaminé, onde na véspera tinha colocado os sapatinhos e um milhão de desejos, à procura dos presentes que o Menino Jesus lá tinha deixado, juntamente com uma poça de água que alguém improvisara, para atestar a sua passagem pela nossa casa. Sim, Jesus também tinha as suas necessidades, como qualquer menino e uma longa e árdua tarefa para uma só noite, não podendo perder um só segundo com ninharias, como uma casa de banho.
 
Hoje em dia, a maior parte das crianças já se esqueceu do Menino Jesus. Por influência da globalização, estas escrevem cartas ao Pai Natal, uma figura tipicamente nórdica e sem qualquer ligação à nossa cultura mediterrânica, mas que se apoderou do imaginário de todos, ao ponto de substituir toda a ideia da natividade. Claro que é hoje mais fácil conceber e fazer passar a ideia de um homenzinho forte, de barbas brancas, com vestes vermelhas, que vive na Lapónia com um batalhão de duendes e que se desloca no seu trenó, carregado de presentes e puxado por renas. É muito mais fácil que as crianças se apaixonem por esta figura e que, em momento algum, questionem o enorme feito que deve ser escorregar pelas chaminés de todo o mundo para lhes deixar todos os presentes que pediram nas suas cartas.
 
Não sabem estas crianças que, afinal, o trenó do Pai Natal vem carregado de horas e horas passadas pelos seus pais a percorrerem mil e uma lojas, vários centros comerciais e hipermercados para conseguir aquela boneca, aquele carrinho, a playstation ou as roupas da moda, que foram vistas pelos meninos na televisão, no intervalo dos desenhos animados, e que se materializaram em desejos escritos na carta que escreveram ao senhor das barbas brancas. O consumismo atinge o seu auge, mas vale tudo para ver um sorriso na cara das crianças. Confesso que também eu contribuo para encher o trenó do Pai Natal da mesma forma, em especial desde que nasceu a minha filha, porque nada é melhor que a alegria do seu sorriso.
 
Pessoalmente não gosto muito do Natal, mas não posso deixar de concordar que é uma época do ano carregada de magia. Por todo o lado a paisagem urbana altera-se e as ruas enchem-se de luz, de cores, de sons e de cheiros característicos. Os nossos cinco sentidos despertam para a necessidade de consumir até à exaustão, até não restar nem mais um cêntimo no fundo da algibeira. Mas pelo menos teremos o melhor de todos os natais. Uma mesa recheada de sabores, onde não faltarão o bacalhau, as filhoses, o bolo rei e uma série de outras iguarias. Uma árvore de Natal com tudo aquilo a que tem direito, desde as fitas, às luzes, às bolas e a um sem fim de outras decorações que todos os anos são diferentes. E, claro, presentes e mais presentes, para todas as idades, gostos e feitios.
 

Ao mesmo tempo, pelas ruas, pelas lojas, pelas casas, pelos emails e através dos telemóveis, multiplicam-se mensagens de boas festas. Muitas delas, acabadinhas de copiar de um site qualquer e iguais a milhares de outras. Mas, como em muitas outras coisas, o que conta é a intenção (ou a obrigação) e, por isso, partilham-se desejos de paz no mundo, de muito amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro... como se nos restantes dias do ano não precisássemos todos de paz, amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro e outras coisas positivas.
 
O Natal deve ser, realmente, tempo de partilha. Uma época do ano em que esquecemos, por momentos, aquilo que nos separa dos outros e em que nos lembramos mais facilmente daquilo que nos une. Mas deve (ou deveria) também ser tempo de reflexão. Refletir acerca daquilo que nos separa dos outros. 
 
E o que nos separa é, na realidade, um fosso enorme. É muito mais fácil deixarmo-nos levar pela magia do Natal do que refletir por que razão há milhões de pessoas que vivem na solidão, com fome, sem abrigo, sem carinho, dizimados pela guerra, doentes, longe da família, sem amor, sem amigos. Pessoas iguais a nós a quem a magia não chega.
 
Felizmente, para grande parte de nós, esta realidade não nos atinge. No entanto, devíamos fazer um esforço para, nesta época, também nos lembrarmos que esta realidade está, por vezes, mais próxima do que julgamos. Muitas vezes escondida pelos milhões de luzes que iluminam o Natal e que tão facilmente a ofuscam.
 
O Natal traz-me sempre este misto de sentimentos antagónicos. Irrita-me o deambular à procura de presentes, na maioria coisas inúteis e que temos todos os dias, mas fascina-me o frenesim, o movimento das pessoas e a alegria das crianças que têm algo para receber. Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.
 
Por isso, na Passagem de Ano, quando à meia noite estiver a comer as doze passas, os meus desejos para 2016 não serão apenas centrados naquilo que quero para mim, mas também naquilo que gostaria que os outros tivessem: saúde, amor, paz, felicidade, amizade, dinheiro e tudo de bom a que temos direito. Em especial, vou pensar naqueles para quem o Natal é apenas mais um dia, igual a tantos outros, com os mesmos receios e as mesmas dificuldades. Para eles, afinal, o Natal mais não é do que uma época do ano em que os dias são mais curtos e as noites são tremendamente mais longas e frias. Para eles, nada mais há a celebrar, senão o Solstício de Inverno.
 
A todos um melhor Natal e façam o favor de ser felizes em cada um dos 366 dias de 2016.
 
* arquiteto paisagista António Serrano
 
 
Modificado em quinta, 24 dezembro 2015 11:31

A Cozinha do Ganhão

quinta, 26 novembro 2015 02:51

 

Começa hoje mais uma Cozinha dos Ganhões. Durante quatro dias, Estremoz dá a conhecer, a todos aqueles que a visitam, um sensacional mundo de sabores que é também fruto da extraordinária interação do Homem com a Paisagem.
 
Em 1985, em boa hora se reuniu à mesa um grupo de estremocenses, apreciadores da boa gastronomia alentejana, dando assim o primeiro passo para a criação de um evento que é hoje considerado o maior certame gastronómico do Alentejo e que vai já na sua 23.ª edição.
 
Armando Alves, Jacinto Varela, João Albardeiro, João Paulo Ferrão e José Emílio Guerreiro, foram os mentores deste projeto e por isso merecem naturalmente ser referenciados, pois se não fosse esta sua ideia provavelmente a Cozinha dos Ganhões hoje não existiria.
 

Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.

A sua ideia base consistiu na realização de provas de cozinha típica alentejana e degustação de vinhos alentejanos, numa tasquinha improvisada para o efeito, no Rossio Marquês de Pombal, por ocasião da III Feira de Arte Popular e Artesanato de Estremoz, em julho de 1985. Ali, várias tascas, restaurantes e cozinheiros, em dias diferentes, tiveram oportunidade de dar a conhecer as suas especialidades aos visitantes.
 
Mas a ideia apenas se viria a formalizar como evento próprio nove anos mais tarde, em 1994, no Pavilhão do Mercado Abastecedor, pela mão do Município de Estremoz. Ali estiveram presentes onze tasquinhas, em representação das várias freguesias do concelho, cada uma com os seus pratos típicos, acompanhados com vinho novo e pela atuação de vários grupos etnográficos.
 
Muitos ainda se recordam das noites frias de final de novembro passadas naquele Pavilhão, das ambiências vivenciadas nas tasquinhas delimitadas com estruturas de madeira, do piso em terra batida e do cheiro do fumo proveniente das dezenas de assadores. Tal como nos sábados de manhã, em que a paisagem urbana de Estremoz se transforma e o campo visita a cidade no mercado tradicional, também naquela época a cidade, naquele espaço, dava as boas vindas aos sabores, cores, sons e cheiros do campo, num festival de características únicas.
 
Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.
 
As freguesias continuam lá representadas, através das tasquinhas, dos doceiros, dos artesãos, dos empresários do sector agroalimentar, dos vinhos... Os sabores, os sons, os cheiros, as cores, os saberes, tudo continua lá, nas mais diversas manifestações.
 
Contudo, tal como uma paisagem, tal como a própria vida, também a Cozinha dos Ganhões se teve de adaptar ao novo espaço e às vontades impostas pelo tempo e pelos Homens. No tempo em que vivemos, ela precisa de crescer e de acontecer num espaço que garanta as condições que deem resposta às exigências sociais, ambientais e económicas, impostas por vários agentes, designadamente em matéria de segurança, de higiene alimentar e de conforto humano.
 

Embora tenha algumas saudades dos tempos e das vivências que, seguramente, já não voltam a acontecer neste evento, confesso que gosto muito mais da Cozinha de hoje. Digo-o com a maior das convicções e com a confortável naturalidade de quem faz parte desta paisagem de sabores há 15 anos e, por isso, acompanhou a sua evolução de muito perto.
 
Com os seus altos e baixos, a Cozinha dos Ganhões evoluiu muito nestes 23 anos, mas o mais importante é que conseguiu, sempre, ser uma das melhores formas de promoção das potencialidades do concelho de Estremoz, sendo anualmente frequentada por milhares de visitantes, à procura dos sabores que só nós, alentejanos, sabemos introduzir na paisagem. Soube afirmar-se, soube conquistar o seu espaço, soube diferenciar-se e destacar-se das restantes feiras gastronómicas. Tem inovado, respeitando a tradição. É por isso que é única e merece o estatuto que adquiriu.
 
Nos últimos três anos, a Cozinha dos Ganhões tem-nos ainda remetido para um passado longínquo da humanidade, recordando-nos que todos nós temos um pouco de caçador-recoletor nos nossos genes. A Feira "Estremoz Caça e Pesca", que constitui um excelente complemento à Cozinha, é também uma mostra da forma como o Homem tira partido da paisagem para criar paladares ou para se recrear.
 
Nos próximos dias, esta minha paisagem vai encher-se de animação e de convívio, vai despertar todos os meus sentidos. Vou aproveitar, por isso, esta oportunidade que viver em Estremoz me proporciona e fazer jus ao nome que tenho. Porque afinal, esta também é a minha Cozinha...
 
Arquiteto Paisagista António Ganhão Serrano, 26/11/2015
 
 
Modificado em quinta, 26 novembro 2015 02:57

Ter dúvidas tem as suas consequências

quarta, 28 outubro 2015 13:21
Como sempre, não sabia acerca do que escrever neste artigo. Houve alguém que me disse para escrever sobre a vitória do Sporting (e a consequente derrota do Benfica) no jogo do passado domingo. Não o quis fazer, pois para além de não perceber nada de futebol, também não sou daqueles que "sofrem da bola" e considero que o meu tempo é precioso demais para dedicá-lo a esse tema. Além disso, como não sei nada sobre o assunto, corro o risco de ser vaiado nos comentários por aqueles que realmente percebem ou pelos que realmente sofrem. Assim sendo, jamais escreverei sobre futebol. Deixo isso para os entendidos.
 
Depois pensei escrever sobre a Playboy. Sim, leram bem: sobre a Playboy. Ao que parece, os editores e o fundador da revista decidiram que a mesma passará a não integrar fotografias de mulheres em nu integral. Asseguram que já não conseguem vender como antigamente, devido à facilidade com que este tipo de imagens prolifera pela Internet. Contam agora, através da publicação de imagens de mulheres apenas em poses provocantes, recuperar e alargar o público-alvo da revista, para que se dirija também aos adolescentes na faixa etária dos 13 anos. 

É bem provável que as vendas melhorem, pois é sabido que não existem na Internet milhões de imagens de mulheres em poses provocantes e as mesmas não estão acessíveis a jovens de 13 anos... Mas, tal como de futebol, também não percebo nada sobre este assunto e por isso decidi também não escrever sobre ele.
 
Atendendo à atualidade do tema, decidi escrever sobre os resultados das eleições legislativas, coisa que em Portugal é sinónimo de ir ao circo, com a óbvia vantagem de esta ida ao circo ser de graça e, mesmo assim, ter já proporcionado muitas e memoráveis gargalhadas (com o devido respeito que tenho pelas artes circenses, as minhas desculpas por esta comparação). Corro o risco de possuir ainda menos conhecimentos sobre política, mas atendendo à atual conjuntura e não obstante já terem sido escritos milhares de quilómetros de opiniões sobre o tema, parece-me que todos nós cada vez percebemos menos de política nacional.
 
Acredito piamente e apenas naquilo que os meus sentidos percecionam. E aquilo que vi foi a coligação Portugal à Frente vencer as eleições, independentemente de o ter conseguido com maioria relativa ou não. Foi a força política mais votada. A minha opinião é que deve ser esta coligação a governar, mau grado me tenha feito perder vencimento ao fim do mês, me obrigue a trabalhar mais uma hora por dia, me tenha tirado subsídios de férias e de natal e me tenha dado mais uma série de chatices, como a subida do IVA ou do IRS. Contudo, não gostava nada de ter feito todos estes sacrifícios para agora vir uma série de radicais, sabe-se lá com que ideias, arranjar maneira de ter de voltar a passar pelo mesmo daqui a meia dúzia de anos. Confesso que me causa uma certa estranheza, diria até um certo repúdio, uma maioria artificial, uma coligação pós-eleitoral, cujo programa conjunto se desconhece e não foi sufragado (aliás, duvido até que exista), vir agora reivindicar o direito de governar sem ganhar.  Tenham paciência... Como querem que o povo acredite nos partidos políticos, se eles se prestam a este tipo de manobras apenas para estar no poder? Quem os viu e ouviu durante a campanha eleitoral nunca pensou ver o PS, o PCP e o BE aos "beijinhos e abraços" uma semana depois. Cá para mim há outros interesses por detrás disto tudo, mas isto sou só eu a pensar, pois, tal como disse, eu não percebo nada de política...
 

Tato teve o Presidente da República, que indigitou quem tinha que indigitar para Primeiro-Ministro e teve a ousadia de "chamar os bois pelos nomes". Admiro a sua atitude de coragem, pois alguém tinha de chamar esta gente à razão. Há quem diga que o discurso de Cavaco Silva ainda deu mais força à "esquerda unida". Mas qual esquerda unida? Gostava que me explicassem onde existe esta união, pois eu não a consigo sentir. Parece-me que eles também não...

Tato teve o Presidente da República, que indigitou quem tinha que indigitar para Primeiro-Ministro e teve a ousadia de "chamar os bois pelos nomes". Admiro a sua atitude de coragem, pois alguém tinha de chamar esta gente à razão. Há quem diga que o discurso de Cavaco Silva ainda deu mais força à "esquerda unida". Mas qual esquerda unida? Gostava que me explicassem onde existe esta união, pois eu não a consigo sentir. Parece-me que eles também não...
 
Chego à conclusão que falar sobre política nacional se revelou uma tremenda perda de tempo e por isso prometo que não o voltarei a fazer. Há certamente por aí gente muito melhor posicionada para isso, tal como o há para falar sobre futebol.
 
Mais valia que tivesse escrito sobre a construção da Zona Industrial de Arcos, que teve início no dia 8 de outubro. A tal zona industrial que alguns políticos locais não queriam viabilizar; a tal zona industrial que segundo eles nunca iria ser construída; a tal zona industrial que, também segundo esses mesmos políticos, não terá empresas interessadas em ali se instalarem. Estou "mortinho" por ver a cara destes políticos daqui a um ano...
 
Podia ter falado sobre as alterações que esta Zona Industrial vai conferir à paisagem, sobre os empregos que vão ser criados, sobre as pessoas que vão continuar a viver em Estremoz, sobre a dinâmica económica que isso proporciona, sobre a concretização de sonhos ou ainda sobre a influência que Pedro Passos Coelho teve na sua construção. Parece que desperdicei esta oportunidade e acabei por escrever sobre assuntos sem qualquer interesse. Ter dúvidas acerca do que escrever tem as suas consequências.
 
Para a próxima, juro que vou ter mais juízo e escreverei sobre algo mais profícuo, pois imaginar uma coligação de esquerda que não existe, nunca existiu e jamais existirá, é tão mau como folhear uma Playboy sem mulheres nuas e coloca-me sérias dúvidas se o Benfica, apesar de ter perdido com o Sporting, não devia estar em primeiro lugar no campeonato.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 
 
 
Modificado em quarta, 28 outubro 2015 13:57

Estremoz e a chegada do Outono

sexta, 02 outubro 2015 01:08
Chegou o Outono e com ele um novo ciclo. A paisagem, na sua incessante mutação, pinta-se de tons quentes. Nas árvores e arbustos de folha caduca, o tom verde da folhagem dá lugar aos amarelos e aos vermelhos tão característicos desta época do ano. As folhas caem e atapetam pavimentos, relvados e prados. Estes últimos, que foram tingidos de amarelo pelo calor do Verão, começam agora a renascer e a tornar-se verdes, por terem bebido da água das primeiras chuvas. Os dias ficam mais curtos e as noites tornam-se interminavelmente longas. O frio regressa às paisagens mediterrânicas, antevendo o rigoroso Inverno que está para vir. Até aqui, nada de novo. Sempre assim foi e sempre assim será, com maiores ou menores variações, no clima mediterrânico em que nos inserimos.
 
Novidade é que, com a chegada do Outono deste ano, Estremoz passou a ter um Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Sustentável (PEDU), iniciando também um novo ciclo para a reabilitação urbana deste concelho. Este plano, aprovado pelo Município de Estremoz, tem um horizonte temporal de cinco anos (2016/2020) e insere-se no âmbito de uma candidatura aos fundos comunitários e submetida ao Programa 
Operacional Regional do Alentejo (Alentejo 2020).

O documento elaborado e candidatado pelo Município abrange o território concelhio, mas centra-se especialmente na cidade de Estremoz e nas vilas de Evoramonte e Veiros, pois as regras ditavam que apenas os centros históricos podiam ser alvo do Programa.
 
Trata-se de uma oportunidade única para vermos satisfeitas as aspirações dos muitos estremocenses que, uns mais outros menos, se preocupam com as questões da degradação do espaço urbano. Confesso que me incluo no grupo dos estremocenses que se preocupam muito com estas questões, apesar de ter a noção de que muitas vezes não é possível reabilitar. Porque não há verbas, porque tudo tem um fim, porque também as cidades se alteram com o tempo e especialmente porque a sua manutenção, a sua existência, está sujeita à vontade dos Homens. Ainda assim, é necessário que nos preocupemos com o seu presente e com o seu futuro.
E o futuro de Estremoz, de Evoramonte e de Veiros muito irá depender da execução deste PEDU. Os investimentos municipais previstos neste plano, independentemente de concordarmos ou não com eles, contribuirão para dar uma nova vida (diria até, uma nova esperança) à cidade e àquelas duas freguesias.
 
De uma forma geral, parece-me que os objetivos definidos no plano traduzem bem aquilo que serão as necessidades efetivas de intervenção na regeneração deste três centros urbanos. Se assim não fosse, a estratégia definida neste documento não teria sido aceite de forma tão consensual e não teria merecido aprovação por unanimidade pela Assembleia Municipal de Estremoz.
 
Há uma particularidade do PEDU que me parece muito interessante e que julgo fazer todo o sentido. Cronologicamente, o plano prevê que na cidade de Estremoz se iniciem as intervenções no lugar onde tudo começou há mais de oito séculos atrás: na acrópole da cidade, que abrange a cidadela medieval e inclui o Bairro de Santiago. De acordo com o PEDU, as intervenções terão como objetivo recuperar o edificado e criar condições para a fixação de população, de comércio e de serviços. Dar vida a esta zona da cidade, promover a sua reabilitação física, social e económica, é um dos objetivos fundamentais da estratégia definida no plano. Só depois de se ter concretizado este objetivo, se avançará para a zona baixa da cidade, ligando os dois núcleos urbanos, através de intervenções consideradas estruturantes, tanto em espaço público como no edificado.
 

O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação.

Não quero, nem posso, efetuar aqui uma apresentação aprofundada do plano, mas na minha opinião há propostas no PEDU que merecem ser destacadas, nomeadamente: a recuperação e valorização das muralhas, baluartes e edifícios civis e militares da cidade de Estremoz; a reabilitação do Bairro de Santiago, em todas as dimensões a que o termo reabilitação se refere - social, ambiental e económica; a criação do Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz, como forma de potenciar e dar a conhecer esta arte única e tão característica de Estremoz; a recuperação do "Edifício Luís Campos" e do Largo General Graça, acrescentando dinâmicas a este espaço público e aproximando-o do Rossio e das pessoas; a inevitável regeneração das frentes leste e sul do Rossio, criando melhores condições de fruição, estadia e utilização da maior praça do País, sem contudo a descaracterizar; a recuperação e revitalização dos centros históricos de Evoramonte e Veiros, que tanto precisam que se olhe para eles com outros olhos... só para mencionar algumas das propostas. Para uma compreensão mais detalhada destas e de outras ações que estão incluídas no PEDU, aconselho vivamente a sua leitura e análise, quando a Câmara Municipal o tiver disponibilizado no seu site. 
 
O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação. Neste caso, beneficiarão de instrumentos financeiros (ou seja, subsídios reembolsáveis) para fazer face aos custos com as empreitadas de reabilitação de edifícios destinados a habitação, comércio ou serviços, desde que os imóveis tenham uma idade superior a trinta anos ou, não a tendo, comprovadamente se encontrem num nível de degradação que justifique a intervenção.
 
Também a propósito da reabilitação, é de salientar que foram aprovadas pelo Município de Estremoz as Áreas de Reabilitação Urbana (ARU) de Estremoz, Evoramonte e Veiros. Para além do acesso dos particulares aos instrumentos financeiros do Portugal 2020 e outros programas na área da reabilitação (Jessica, reabilitar para arrendar...), também a autarquia proporciona benefícios fiscais e incentivos a quem promover a recuperação de edifícios dentro da ARU: redução de 30% da taxa do IMI por um período de 5 anos a partir da data de conclusão da obra, redução de 10% do valor das taxas administrativas de licenciamento e IVA à taxa reduzida de 6% nas empreitadas de reabilitação.
 
Com a chegada deste Outono abriu-se mais uma janela de oportunidades para o concelho de Estremoz e, por isso, é importante que nos informemos sobre todas estas possibilidades que agora surgem e que irão melhorar este território que habitamos. Podia até parecer que este Outono não traria nada de novo, que era só mais uma preparação para um duro Inverno. Foi exatamente o contrário. Para mim, a chegada do Outono traz com ele a Primavera mais próspera que Estremoz já conheceu na sua História contemporânea.
 
* António Serrano | arquiteto paisagista
Modificado em sexta, 02 outubro 2015 09:10

Estremoz e o seu espaço aberto

quinta, 03 setembro 2015 17:04
No dia 31 de agosto a minha cidade completou 89 anos. Isto enquanto cidade, pois a povoação de Estremoz é muito mais antiga e já existe nesta paisagem há vários séculos. Merece, por isso, que este artigo seja dedicado à paisagem urbana de Estremoz e àquilo que a História conta sobre o seu desenvolvimento urbano.
 
Há referências ao termo de Estremoz que remontam ao século XIII, sendo muito provável que já existisse um qualquer outro povoado neste lugar, pelo menos desde o período de ocupação romana do território que hoje conhecemos como Portugal.
 
Há certezas da exploração das pedreiras de mármore pelos romanos e são dessa época a estrutura hidráulica conhecida como Tanque dos Mouros e a Villa rústica de Santa Vitória do Ameixial, o que atesta a ocupação deste território há, pelo menos, 2000 anos.
 

Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.

No centro interpretativo de Medina Azahara, a cidade palatina da Córdoba islâmica do século I d.C., encontrei uma curiosa referência ao facto de muitos dos seus edifícios terem sido construídos com mármore da região de Estremoz. Parece-me que se não existisse neste lugar uma povoação, com este ou com outro nome, conhecida pelos seus mármores de elevada qualidade, certamente não teriam os árabes do Califado de Córdoba viajado tantos quilómetros para carregar pedra. Por isso, acredito piamente que já existia uma povoação neste lugar, no tempo da ocupação muçulmana do território, mas naturalmente tal facto só poderá ser um dia comprovado se forem realizadas escavações arqueológicas no núcleo mais antigo da cidade.
 
Sobre este núcleo primordial existem inúmeras referências ao seu desenvolvimento durante o período tardo-medieval, nomeadamente à construção da torre de menagem, dos paços do concelho medievais e de um conjunto de edifícios civis e religiosos que foram implantados na acrópole, notavelmente protegida por uma cintura de muralhas. De grande imponência e com uma forte presença na paisagem seria a estrutura defensiva denominada Couraça e que garantia a segurança no acesso às fontes de água potável, no sopé da colina. Esta couraça ligava o núcleo medieval às duas torres que protegiam a fonte e que ainda hoje subsistem. Curiosamente, como muitas outras coisas, também a maior parte da estrutura da couraça não resistiu à ação do tempo e dos homens, tendo sido destruída.
 
A abundância de água no vale a norte da colina determinou a fixação de vários conventos nesta zona baixa, como foi o caso de S. Francisco, dos Agostinhos e das Maltezas. Tal facto determinou que a vila transpusesse as suas muralhas medievais, incluindo as que cercavam o Bairro de Santiago, e começasse a ocupar toda a vertente norte da colina a partir do século XVI.   
 
Foi precisamente a partir de meados dos século XVI e início do século XVII, durante as Guerras da Restauração da Independência, que foi construída a segunda linha de fortificações, com o objetivo de proteger o casario e, principalmente, a abundância de água que importava garantir aos exércitos portugueses que aqui assentaram praça. Esta nova cintura de muralhas consistia num aparatoso sistema defensivo, composto por baluartes, revelins, cavaleiros e outras estruturas militares, num perímetro que chegou a alcançar cinco quilómetros e que excedia em muito aquilo que hoje é visível. O desenho das fortificações foi determinado pelas suas funções militares e pelo seu papel na defesa das fontes de água e na definição das praças e largos que hoje existem. 
 
A fonte da Couraça foi tapada e a sua água conduzida para uma fonte no centro do Largo do Espírito Santo, fonte essa que foi mais tarde decorada com motivos barrocos construídos em mármore.
 
Junto ao Convento de S. Francisco as fontes estiveram na origem da emergência do Largo de S. Bento (hoje Largos Dragões de Olivença e General Graça). Era neste local que as pessoas se juntavam para se abastecerem de água, para dar água aos animais, para lavar a roupa nos tanques, para vender e para comprar produtos nas feiras que ali existiam e, mais tarde, para passear junto ao Lago.
 

Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.

O grande Lago, conhecido como "do Gadanha", foi construído em 1688 no lugar de uma fonte que ali existia, tendo a fonte da Couraça perdido a sua importância na organização da estrutura urbana. A presença do grande Lago determinou que até ao século XVIII o espaço público mais importante de Estremoz fosse o Largo de S. Bento.
 
Apenas no século XVIII, com a construção do Convento dos Congregados, foi definido o limite sul da grande praça que hoje conhecemos como Rossio Marquês de Pombal, a qual passou desde então a ser o principal espaço público de Estremoz. A construção da Fonte do Sátiro e a mudança das feiras para o Rossio reforçaram o seu papel de praça principal, que deixou de ter apenas uma função militar.
 
Junto à antiga Igreja de Santo André, que também o tempo e os homens demoliram, desenvolvia-se o Largo do Pelourinho e um outro espaço público, onde existia uma fonte e um mercado permanente que viria a ser posteriormente deslocado para o Rossio, aquando da demolição da Igreja.
 
Hoje em dia a vida social, cultural e económica da cidade de Estremoz continua a desenvolver-se em torno destes largos e destas praças, adaptadas obviamente às novas realidades e aos tempos que vivemos.
 
Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.
 
Foi a brancura do seu casario e a imensidão dos seus espaços abertos que me fizeram apaixonar por esta cidade e hoje até já sinto que ela também me pertence, ao ponto de, quando aqui não estou, sentir saudades das suas ambiências. Sentir saudades de Estremoz.
 
Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.
 
António Serrano - Arquitecto Paisagista
 
Modificado em quinta, 03 setembro 2015 17:12

O tempo e as marcas na paisagem

sexta, 07 agosto 2015 00:04

 

Todas as coisas mudam com o tempo. Também assim é a paisagem. Costumamos dizer, na linguagem profissional da arquitetura paisagista, que o tempo é a quarta dimensão da paisagem.
 
Com efeito, todos os elementos da paisagem possuem três dimensões, que lhe são conferidas pelos elementos básicos (ponto, linha, plano) e pelo volume, mas é a sua quarta dimensão, o tempo, que maior influência tem na imagem da paisagem. Tal acontece porque o tempo confere mutabilidade à paisagem e aos seus elementos. As paisagens que conhecemos hoje são muito diferentes daquelas que existiram há cem ou há dois mil anos atrás e são o resultado da sucessiva e cíclica ação do tempo, dos fenómenos naturais e do Homem.
 

...de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz?

Os ciclos naturais, como a alternância entre o dia e a noite e as estações do ano, são a expressão mais percetível das alterações que o tempo impõe à paisagem e aos seus elementos, mas a sua passagem é também observável através das marcas que o Homem vai deixando no Mundo.
 
Tudo tem um tempo e um espaço associados e estas duas variáveis estão intimamente relacionadas, dando alma e carácter específicos a uma paisagem. Aquilo que existe hoje não pode nunca ser igual àquilo que foi ontem, nem será igual amanhã. Da mesma forma, aquilo que existe num determinado lugar é exclusivo desse lugar e não existe em qualquer outro lugar da mesma forma. É uma marca desse espaço e de um certo tempo.
 
Há marcas na paisagem que nos tocam mais do que outras e há algumas que não nos dizem absolutamente nada. Faz parte da natureza humana que assim aconteça, da mesma forma que mudar essas marcas, seja por alteração seja por anulação, também é próprio do ser humano, enquanto construtor da paisagem. Isto é válido para todo o tipo de marcas e para todo o tipo de paisagens e as decisões dos seres humanos, quando alteram um determinado espaço, têm sempre associado um tempo específico. Quer isto dizer que o Homem altera o espaço, cria as suas marcas, em função das suas necessidades e do tempo em que vive. Não pode, nem deve, continuar agarrado a marcas do passado, pois dessa forma dificilmente conseguirá olhar para o futuro e construir paisagens que satisfaçam as necessidades das gerações vindouras.
 
Por exemplo, de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz? Vale mais que pense nas vantagens que a nova Avenida Rainha Santa Isabel trouxe para a cidade, desde as relacionadas com a fluidez do trânsito e com a aproximação do centro urbano à periferia, ao contributo desta avenida como espaço gerador de convívio e de promoção da atividade física diária dos seus habitantes. O comboio e a linha foram, sem qualquer sombra de dúvida, uma marca incontornável da cidade de Estremoz, mas tiveram o seu tempo naquele espaço. Agora, a necessidade dos homens deu origem a novas espacialidades e a novas ambiências, mais adequadas ao tempo do presente e do futuro.
 

Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo.

E por que será que não temos também saudades da muralha seiscentista que foi mandada derrubar, em meados do século passado, para dar lugar à Avenida 9 de Abril e ao próprio caminho-de-ferro? Talvez porque também ela deixou de ter utilidade prática e, por isso, passou o seu tempo? Ou porque simplesmente nem nos lembramos dela existir? De facto é lamentável que tal tenha acontecido, mas acredito que, nesse tempo, tenham sido ponderadas todas as possibilidades e que a solução encontrada foi a que melhor deu resposta aos anseios da população da época. Há que respeitar isso, ainda que consideremos hoje que a destruição da muralha, que também já foi uma marca estremocense, foi um dos maiores atentados à memória e ao património da cidade. Contudo, o tempo não se deteve na época em que era necessário defender uma praça militar, nem hoje em dia dependemos dessa muralha para sobreviver.
 
Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo. Mas há quem insista em viver agarrado a essas marcas, a um tempo que já passou, não entendendo que algo só se torna memorável se for aceite e recordado por todos, ou pelo menos pela maioria. 
 
Para que as ações dos homens se tornem marcas na paisagem, seja qual for o tipo de paisagem, elas têm que significar algo para as pessoas que vivem e que habitam o território. Não vale a pena criar marcas que não são aceites e vividas pelas pessoas, pois mais rapidamente o tempo se encarregará de apagar estas marcas. É o mesmo que falar para uma plateia que não nos ouve ou escrever um artigo de opinião que ninguém lê (corro sérios riscos de isso também me acontecer...). Como disse Stephen King, um autor que muito admiro e cujas palavras são indubitavelmente uma marca nas inúmeras paisagens que escreve, "a boca pode falar, mas as histórias não existem se não encontrarmos ouvidos compreensivos para as ouvir".
 
Assim acontece com a paisagem. Por muito que as queiramos impor nos espaços em que intervimos, as marcas só continuarão a existir na paisagem se os homens as tiverem aceitado como suas no seu tempo e se forem úteis ao tempo dos homens que a seguir habitarem essa paisagem.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 
Modificado em sexta, 07 agosto 2015 00:20

A paisagem e a identidade

sexta, 03 julho 2015 14:35
Apesar de ter estudado durante sete anos da minha juventude em Estremoz, nessa época nunca me apercebi da riqueza cultural desta cidade. Acontece assim com a maior parte dos naturais de Evoramonte, cujas vidas estão sempre mais relacionadas com Évora e não têm qualquer sentido identitário com Estremoz. Aqui apenas estudam (alguns), tratam de assuntos na Câmara ou nas repartições públicas e aqui se deslocam no sábado de manhã ao tradicional mercado. Sempre assim foi e assim continuará a ser. Até costumo dizer que a Ribeira de Têra parece constituir um enorme fosso intransponível que separa e afasta os habitantes de Estremoz e de Evoramonte, apesar de partilharem o mesmo concelho.
 
Ainda assim, tal acabou por não acontecer comigo e, apesar de continuar a guardar um considerável espaço para Evoramonte no meu coração, sinto hoje que pertenço muito mais a Estremoz do que à terra que me viu nascer e crescer.
 
Vem isto a propósito da identidade dos espaços e da forma como esta influencia o modo como vemos uma determinada paisagem, como a apreendemos e como posteriormente a recordamos. As paisagens possuem determinados atributos e potencialidades que nos chamam a atenção, originando que a elas nos prendamos, ao ponto de desenvolvermos um sentimento de pertença. Esses atributos podem ser materiais ou imateriais, naturais ou culturais e mais ou menos trabalhados pelo Homem, mas o que importa é que determinam aquilo a que habitualmente chamamos o espírito do lugar, o genius loci.
 
Ainda há dias, na cerimónia de fundação do Centro UNESCO para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz, no Museu Municipal, dei comigo a pensar que, curiosamente e apesar da minha juventude estar ligada, por via dos estudos, à cidade de Estremoz, nessa altura nunca me apercebi da importância da barrística estremocense. Para a minha ignorância nesta matéria muito contribuiu o facto de nunca, em momento algum da minha formação, os meus professores terem tido a audácia de nos dar a conhecer os Bonecos. Como foi possível tal ter acontecido? Estamos a falar de uma arte secular, de uma tradição das nossas gentes, de uma arte única no Mundo! Não faria sentido que nos tivesse sido dada a conhecer?
 
Felizmente despertei a tempo para a importância dos Bonecos de Estremoz e hoje sou daqueles que acreditam que, um dia, esta manifestação artística será reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Que me perdoem os defensores dos tapetes de Arraiolos, da Arte Chocalheira (também com raízes em Estremoz), das Festas do Povo ou das jangadas de São Torpes e de mais uma catrefada de situações que almejam receber esta classificação, mas acho que o Figurado de Barro de Estremoz tem muito mais condições para ser Património da Humanidade.
 

Em meu entender são os Bonecos de barro que melhor definem o carácter e a identidade de Estremoz.

 
Contudo, para lá chegarmos é necessário reunir ainda uma série de condições que julgo serem fundamentais para o sucesso desta candidatura. Em primeiro lugar, os artesãos da barrística, que são cada vez menos, não podem continuar de costas voltadas uns para os outros. Nesta jornada terão de caminhar de mãos dadas e lutar por um objetivo comum, tão ou mais importante que o da sua divulgação: perpetuar a arte, através da captação de novos aprendizes.
 
Em segundo lugar, depois de criadas as condições para a salvaguarda da tradição barrística, deve ser realizado um vasto trabalho de promoção por parte do Município, das Freguesias, do Museu Municipal e das Escolas, em todos os níveis de ensino, para que daqui a vinte anos ninguém se queixe, tal como eu, de que pouco sabe acerca dos Bonecos de Estremoz. Felizmente já existe muito deste trabalho promocional em desenvolvimento, tanto ao nível da promoção turística que o Município faz dos Bonecos, como ao nível das atividades educativas do Museu Municipal ou da integração das técnicas de modelação do barro nas disciplinas de expressão artística nas Escolas. Mas é preciso fazer mais.
 
No outro dia dizia-me um empresário estremocense que Estremoz precisa de se afirmar enquanto destino turístico, através daquilo que a diferencia de todas as outras cidades. Concordo em absoluto. É bem verdade que o mercado de sábado, o mármore, o urbanismo, o património arquitetónico, a nossa história, a gastronomia e os vinhos são tudo marcas identitárias da paisagem de Estremoz, que lhe conferem beleza e singularidade por todos reconhecidas. Mas em meu entender são os Bonecos de barro que melhor definem o carácter e a identidade de Estremoz, pela sua singularidade e pela forma como reproduzem os usos e tradições alentejanos, ou seja, pela forma como também eles reproduzem parte da nossa paisagem e das emoções humanas que a caracterizam. São, sem qualquer sombra de dúvida, uma das manifestações culturais que mais contribuem para a definição do espírito deste lugar e que lhe conferem um carácter único.
 
Por essa razão, deverão ser também os Bonecos os nossos embaixadores no Mundo e os principais atores na definição da estratégia que venha a ser desenvolvida, a curto ou a médio prazo, para a criação do destino turístico Estremoz.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 
Modificado em sexta, 03 julho 2015 14:46

Os desafios do novo PDM de Estremoz

terça, 17 março 2015 23:54
A arte e ciência de ordenar o espaço exterior ao Homem, tal como foi definida por um dos grandes nomes da arquitectura paisagista portuguesa, Gonçalo Ribeiro Telles, é mais do que o simples desenho de jardins e espaços verdes. Pelo contrário, é uma profissão que nos permite ter uma maior atitude crítica perante o Mundo e antever ou planear os resultados das constantes interacções entre o Homem e a Natureza, com o objectivo de construir, de uma forma ordenada e sustentada, os habitats que suportam a vida, nas suas mais diversas manifestações. Devido à abrangência desta arte/ciência, que me leva muitas vezes a pensar que tirei um curso de "cultura geral", os arquitectos paisagistas estão aptos a realizar uma série de estudos, projectos e planos, os quais lhes permitem intervir a diversas escalas da paisagem.
 
Uma dessas escalas é, precisamente, o Plano Director Municipal (PDM), um dos principais instrumentos de gestão territorial que vigoram no nosso País e que abrange toda a área territorial de um concelho, estabelecendo o modelo de organização espacial desse território, bem como a estratégia de desenvolvimento que lhe está implícita, através da classificação do solo e das regras e parâmetros que se aplicam à sua ocupação, uso e transformação. É, por isso, um instrumento fundamental para definir a forma como a paisagem vai ser intervencionada pelo Homem e, ao mesmo tempo, o modo como as gerações actuais tiram o melhor partido possível das potencialidades do território, garantindo a sua manutenção para as gerações futuras.
 
É um processo que não diz respeito apenas aos políticos ou aos técnicos. É um processo que diz respeito a todos os cidadãos, na medida em que todos somos actores no vasto palco que é o território, porque nele vivemos e com ele interagimos. Muito menos o PDM pode ser encarado como um simples documento em que se descrevem normas ou índices urbanísticos, pois a gestão do território e a sua estratégia de desenvolvimento não se esgota nas questões relacionadas com a construção. O PDM define também estratégias relacionadas com a defesa do património cultural, com a salvaguarda dos valores naturais, com a protecção civil, com a regulação do ciclo hidrológico, com o desenvolvimento económico e social, com o desenvolvimento turístico, entre outros.
 
Está neste momento a decorrer a discussão pública da revisão do PDM de Estremoz. Trata-se de um processo que dura há já algum tempo e o actual PDM está francamente desactualizado (vigora há precisamente 20 anos), face à constante evolução das condições sociais, económicas e ambientais. Por essa razão, é importante que o novo PDM de Estremoz, que vai estar em vigor durante os próximos 10 anos, seja um documento que reflicta a realidade actual, que defina objectivos para o concelho e que, acima de tudo, estabeleça as principais linhas de intervenção que permitam que Estremoz encare positivamente os desafios que o futuro vai impor e que, como sabemos, são cada vez mais exigentes.
 

(...) o documento que está em discussão pública permitirá ao concelho de Estremoz dar mais um passo em frente (...)

 
É necessário que as linhas de orientação estratégica do PDM garantam que Estremoz seja um concelho competitivo, tirando partido das enormes potencialidades endógenas que possui, a diversos níveis - turismo, vinhos, produtos agro-alimentares e mármores, só para citar algumas.
 
Tenho acompanhado esta revisão do PDM e, em minha opinião, o documento que está em discussão pública permitirá dar uma boa resposta à maior parte destas questões, permitindo ao concelho de Estremoz dar mais um passo em frente, a caminho do desenvolvimento sustentado, contrariando a tendência de despovoamento do interior do País. Assim saibamos todos tirar partido das opções que o plano proporciona e consigamos antever as oportunidades que nele estão apontadas.
 
A participação de todos neste processo é fundamental. É este o momento certo para todos formularem questões, apresentarem sugestões e reclamações. Mas que esta participação não seja apenas centrada na velha questão "posso construir no meu terreno?", como tenho assistido na maioria das sessões públicas de esclarecimento que já decorreram... é preciso ir mais além e apresentar também sugestões ou soluções para dinamizar a economia ou para garantir a sustentabilidade dos sistemas naturais e humanos.
 
Já que nos é dada esta possibilidade de participar, o maior desafio que se coloca à participação pública é o de apresentar sugestões para o desenvolvimento global do concelho, ao invés de, como sempre, vivermos apenas preocupados com a nossa pequena "quintinha", com a nossa "parcela de paisagem". 
 
Percebamos, de uma vez por todas, que apenas conseguiremos ser mais competitivos e mais desenvolvidos se começarmos a olhar para a paisagem do geral para o particular, pois o futuro, também ele se constrói de forma global.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 
Modificado em domingo, 21 junho 2015 23:04