quarta, 20 setembro 2017

António Serrano

A arte na paisagem

Escrito por sábado, 01 julho 2017 18:31
As questões da arte e da beleza sempre estiveram presentes na relação do Homem com a Paisagem. Os seres humanos, ao longo da sua evolução, sempre se relacionaram com a paisagem com a finalidade de dela retirarem proveito, por razões de sobrevivência ou de recreação, e dessa relação surgiram diversas criações, mais ou menos artísticas e mais ou menos “belas”.
 
Usamos muitas vezes a palavra “belo” para adjetivar aquilo que consideramos bom, que nos provoca um sentimento prazeroso ou de que gostamos. Com efeito, em diversas épocas da nossa História houve uma ligação muito estreita entre o belo e o bom. Vejam-se os exemplos dos ideais estéticos da Antiguidade Clássica, sempre associados à proporção e à harmonia presentes nos fenómenos naturais; da beleza da simbologia da luz e da cor presentes na arte da Idade Média; da beleza da razão e do Homem, que serviu como medida de todas as coisas durante o Renascimento; da beleza inquieta das formas em movimento no Barroco; da beleza do retorno à pureza das formas neoclássicas; da beleza do bucólico no Romantismo e da extraordinária quantidade de novos ideais estéticos que surgem a partir do século XIX e se prolongaram até aos nossos dias, procurando descobrir o valor e a fecundidade presentes na matéria e que lhe conferem beleza. Por isso, Beleza e Arte sempre foram condição do tempo e do espaço com os quais conviveram. A beleza e a arte acompanham o espírito do tempo de determinada época, estando dependentes das suas características sociais, económicas e culturais. 
 

praticamente ainda não tinham sido colocadas nos locais em que estão expostas e sem que se esperasse qualquer tipo de esclarecimento sobre os motivos da exposição, muitas foram as vozes que se levantaram contra a sua instalação. Uns ficaram sem palavras, outros atribuíram-lhe adjetivos pouco felizes, outros ainda queixaram-se da falta de enquadramento, apesar do pouco conhecimento que tinham sobre o tema.

Ainda assim, a verdade é que a relação entre beleza e arte sempre foi muito ambígua, na medida em que, apesar de na maior parte das vezes a arte privilegiar a beleza dos fenómenos naturais e/ou culturais, ela pode representá-los de forma bela, ainda que aquilo que se representa não esteja conforme aquilo que se considera belo e que, pelo contrário, facilmente nos repugna ou nos influencia de forma negativa. Pode esta conversa parecer estranha, mas vejam-se os seguintes exemplos: a célebre “Guernica”, de Picasso, considerada uma das obras-primas do pintor e que, no entanto, é representativa do bombardeio da cidade espanhola com o mesmo nome, durante o regime de Franco. Poderá haver beleza na representação do extermínio de milhares de pessoas? A inquietante complexidade do tríptico do ”Jardim das delícias”, de Hieronymus Bosch, especialmente no painel referente ao Inferno. Que beleza encerra a representação de um local que a todos aterroriza? E o que dizer da cruel e tenebrosa beleza pintada por Goya na representação de “Saturno” a devorar um dos seus filhos? Estes exemplos, entre tantos outros que aqui poderiam ser citados, servem apenas para reforçar a ideia de que, na arte, até a representação daquilo que entendemos como feio pode ser feita de uma forma bela, pois induz em nós uma emoção e uma apreciação estética positiva.
 
Mais complexa é ainda esta relação entre arte e beleza se pensarmos na quantidade de correntes artísticas que surgiram desde os finais do século XIX até aos nossos dias. Com a idade contemporânea, em especial após o surgimento da corrente impressionista, a beleza da arte deixa de ser guiada por cânones ou ideais estéticos, passando a basear-se na subjetividade das emoções do observador e colocando-se-nos várias questões. Que beleza encontramos na fugacidade do momento captada pelos artistas do Impressionismo? Ou na excessiva decoração da afirmação burguesa na Arte Nova ou na arquitetura do ferro e do vidro? Ou ainda na beleza orgânica do Modernismo, tão presente por exemplo nas obras de Gaudi e seus contemporâneos? Mais subjetivo ainda – poderá um simples objeto de uso quotidiano ser considerado belo? 
 
Se consideramos a arte abstrata e todos os “ismos” que povoam a arte do século XX, rapidamente chegamos à conclusão de que não é fácil atribuir o rótulo da beleza à arte, pois dificilmente encontraremos duas opiniões iguais acerca de uma mesma obra. A estética contemporânea revaloriza a matéria, atribuindo-lhe um valor que vai muito para além da sua realidade física concreta. Na arte do nosso tempo, o mármore de uma escultura, por exemplo, não encerra apenas a forma visível da mesma, mas sim um conjunto de sensações que o artista pretende transmitir com a sua obra e que se revelam através do toque, do cheiro, dos sons ou até mesmo dos sabores. Para além disso, na arte contemporânea, as obras estão invariavelmente sujeitas às leis da física, transformando-se, desgastando-se, desenvolvendo-se. A forma deixa, assim, de obedecer a uma determinada função ou figuração, passando a ser explorada através de um número infinito de possibilidades, com o propósito único de emocionar.
 
Esta beleza, a que muitos chamam a beleza da provocação, proposta pelos vários movimentos de vanguarda e pelo experimentalismo artístico, não constitui um problema para os seus artistas. Isto acontece porque, para eles, se subentende que qualquer obra de arte é bela e não tem que seguir qualquer tipo de cânones estéticos. A proposta dos artistas contemporâneos nada tem que ver com a proporção e harmonia da natureza, mas sim com a consciencialização de que o mundo pode ser visto com olhos diferentes e de que não existem categorias de beleza facilmente definíveis.
 
Uma obra de arte, seja qual for, tem sempre subjacente ao ato criativo a intenção de provocar uma sensação em quem a produz e em quem a observa. Tem como intenção prioritária estimular o sentido estético de alguém, de uma população ou de um lugar. Tem uma finalidade, uma teleologia implícita. Teleologicamente a obra de arte propõe-se estimular, expressar e invocar a apreciação estética de quem a observa. É única e desprovida de qualquer função, distinguindo-se por isso dos objetos artísticos, que apesar de serem suscetíveis de provocar um sentimento estético (e portanto uma apreciação da beleza) possuem uma função específica – uma peça de artesanato, por exemplo.
 
O concelho de Estremoz tem patente uma exposição temporária do conceituado escultor alemão Robert Schad, que resolveu desta forma integrar a nossa cidade, Evoramonte e Veiros no seu Percurso Lusitano, que começa em Valença do Minho, atravessa o país e termina no Algarve. Trata-se de uma exposição única, não só pela dimensão de cada uma das esculturas, mas também pela distribuição espacial das mesmas no território português. As linhas que compõem estas esculturas em aço constituem, tal como o artista define o seu trabalho, um “fio condutor” que atravessa o país, permitindo novos pontos de vista e perspetivas sobre os locais em que as esculturas se encontram em exposição. 
 
Não quero, obviamente, dedicar-me à apreciação e à discussão acerca da beleza ou do valor destas obras de arte pois, como já referi, a minha apreciação estética das esculturas é naturalmente diferente de todas as outras que possam ter surgido ou vir a surgir. Contudo e na minha opinião, todos devíamos ter ficado orgulhosos e agradecidos por ter em Estremoz as obras de Robert Schad, já que mais não fosse pelo facto de um artista de renome internacional ter escolhido o nosso concelho para acolher uma exposição desta dimensão.
 
Curiosamente, praticamente ainda não tinham sido colocadas nos locais em que estão expostas e sem que se esperasse qualquer tipo de esclarecimento sobre os motivos da exposição, muitas foram as vozes que se levantaram contra a sua instalação. Uns ficaram sem palavras, outros atribuíram-lhe adjetivos pouco felizes, outros ainda queixaram-se da falta de enquadramento, apesar do pouco conhecimento que tinham sobre o tema. Outros gostaram, não lhes causou qualquer impacto ou nem sequer notaram a diferença. É natural. As pessoas foram ao encontro das expetativas do artista e, como vimos atrás, daquilo que é expetável uma obra de arte transmitir – emoções e uma apreciação estética. Só por essa razão, calculo que o Robert Schad esteja a esfregar as mãos de contente, pois pelo menos as suas obras foram faladas e vistas, nem que seja apenas pela curiosidade de ver as supostas aberrações. Centenas de partilhas, likes, dislikes e comentários nas redes sociais, conversas nos cafés, nas esplanadas e nos restantes espaços de convívio do concelho, apenas serviram para dar ainda mais propósito a esta instalação – debater e chamar à atenção para a arte contemporânea, tão incompreendida por todos nós. 
 

Que me desculpem, mas não tolero demagogias. Não podemos estar em silêncio durante tanto tempo e de repente, só porque calha bem, acordamos e falamos ao jeito da maré. Muito menos se o fazemos invocando a liberdade de expressão e nos esquecemos que estamos a deixar lesada a liberdade de expressão dos outros. Neste caso concreto, por que razão não poderia o Robert Schad exprimir-se como bem entendesse?

Só não consigo entender a consternação de alguns perante esta instalação temporária, em especial quando perante outras situações mais prementes se quedam em silêncio. Questões de enquadramento com os monumentos ou os espaços em que se inserem? Estas pessoas querem mesmo falar sobre isso? Sobre o enquadramento dos monumentos? E o restante enquadramento, não fere? Que vozes se levantam contra a instalação de cabos telefónicos e elétricos nesses mesmos monumentos? Ou contra o crescimento de vegetação na sua envolvente, sem que nada façam ou diligenciem? Que têm a dizer sobre a degradação do património e sobre o facto de o Estado não intervir na sua recuperação? Não tenho visto grande preocupação por parte das pessoas que agora subscrevem opiniões sobre o enquadramento da arte na paisagem.
 
Que me desculpem, mas não tolero demagogias. Não podemos estar em silêncio durante tanto tempo e de repente, só porque calha bem, acordamos e falamos ao jeito da maré. Muito menos se o fazemos invocando a liberdade de expressão e nos esquecemos que estamos a deixar lesada a liberdade de expressão dos outros. Neste caso concreto, por que razão não poderia o Robert Schad exprimir-se como bem entendesse? Pode e deve fazê-lo, ainda mais porque foi legitimado para o fazer por quem tem a responsabilidade de gestão do espaço público, independentemente de gostarmos ou não daquilo que nos apresenta.
 
Tive muito gosto em conhecer pessoalmente o Robert Schad durante a sua permanência em Estremoz. É uma pessoa simples, humilde e com uma visão muito abrangente do mundo e das coisas, sempre muito preocupado com o tal “enquadramento” das suas obras e no diálogo que pretendia que elas fizessem com os monumentos e com a paisagem. Tanto em Estremoz, Evoramonte, Veiros ou noutros locais onde tem expostas as suas obras de arte, em minha opinião, acho que o faz de forma excecional e que as suas esculturas têm muito valor, opinião que é sempre discutível, o que aceito com a maior das naturalidades. 
 
Robert Schad ficará para sempre na minha memória, não só pela sua forma de ser, mas porque fiquei com a impressão de que, num conto de fadas, ele bem podia ser um príncipe encantado e a sua escultura o beijo que despertou a princesa, há tantos anos adormecida no castelo e que agora parece ter acordado para a vida. Fico muito feliz que esta exposição tenha servido para alguma coisa. Só não sei é se esta história vai poder terminar como os restantes contos de fadas, todos a viverem felizes para sempre, pois como todos sabemos, esta exposição é temporária…
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

Brincadeiras de Carnaval

Escrito por sexta, 03 março 2017 02:22
Nos últimos dias, a paisagem da cidade de Estremoz vestiu-se de alegria, de cor e de fantasia para brincar ao Carnaval.
 
Já na quinta-feira anterior ao Carnaval, perto de mil alunos das escolas do concelho tinham desfilado pelo Rossio e ruas envolventes, fiéis ao tema “Cientistas”, e feito a delícia de milhares de familiares, amigos e muitos outros que por ali estavam, dando o mote para aquilo que se iria passar nos dias seguintes.
 
No sábado de manhã, o mercado pululava de locais à procura dos produtos frescos criados e colhidos nas hortas periurbanas de Estremoz, de espanhóis em busca desta ou daquela antiguidade, de citadinos de segunda residência nas imediações, curiosos à descoberta dos modos de vida das nossas gentes, ou simplesmente de transeuntes, que não andavam à procura de nada, apenas vieram ver o movimento ou mostrar-se aos outros. É assim o mercado de sábado em Estremoz e nem o Carnaval fez com que fosse diferente.
 

... e centenas de foliões aproveitaram a única época do ano em que se pode ser quem nós quisermos ser, por mais estranho que isso depois seja. Os nossos heróis de banda desenhada ou do nosso filme favorito, a personagem de uma história que nos contam desde a infância, um animal ou uma planta, uma versão mal acabada do sexo oposto ou a máscara que se constrói, em primeiro ou em último recurso, com roupas e adereços que temos há muito no sótão e que nunca mais ninguém usou.

À noite o caso mudou de figura. Por todo o lado o ambiente foi de festa e centenas de foliões aproveitaram a única época do ano em que se pode ser quem nós quisermos ser, por mais estranho que isso depois seja. Os nossos heróis de banda desenhada ou do nosso filme favorito, a personagem de uma história que nos contam desde a infância, um animal ou uma planta, uma versão mal acabada do sexo oposto ou a máscara que se constrói, em primeiro ou em último recurso, com roupas e adereços que temos há muito no sótão e que nunca mais ninguém usou. Há gostos para tudo e ainda bem. Depois, pela noite fora, habitualmente em grupo e menos vezes sozinhos, os foliões dão asas à diversão nos espaços noturnos da cidade. Há que aproveitar a liberdade que o Carnaval proporciona e Estremoz sempre teve a tradição de o saber fazer.
 
No Domingo Gordo e na Terça-feira de Carnaval o centro da cidade acolheu milhares de visitantes, que vieram a Estremoz ver os corsos carnavalescos. Quase seiscentos foliões desfilaram pelas ruas e encantaram quem veio assistir. Também aqui houve máscaras para todos os gostos, pois o facto de o tema ser livre permitiu aos catorze grupos dar asas à imaginação. Do Parque Jurássico aos Piratas, passando pelo universo de Asterix e dos Simpson, pelos Extraterrestres, Angry Birds, uma Pescaria, Mariachis, Texanos e medievais, tudo desfilou ao ritmo dos sambas ou dos batuques, após os tradicionais Cabeçudos que, apesar de sempre os ter achado feios, tenho de admitir que fazem parte do ideário estremocense e que sem eles o Carnaval não seria a mesma coisa. O balanço geral parece-me muito positivo e é mais um evento que em nada envergonha a nossa cidade, pelo contrário, adiciona-lhe mais valor e coloca-a ao nível de muitas outras, por esse País fora, onde a tradição do Entrudo se continua a cumprir. Bem hajam todos os que teimam em continuar a fazer a festa, tanto aqueles que organizam, como os que participam ativamente ou como os que se deslocam a Estremoz para assistir. Muito obrigado também ao São Pedro que este ano resolveu dar tréguas, não obstante na terça-feira ter ameaçado arruinar os planos dos foliões.
 
Desde já se agradece também ao Governo por ter concedido tolerância de ponto na Terça-feira Gorda, não se percebendo porque é que, num País com fortes tradições carnavalescas, como é o caso de Portugal, esta data ainda não foi considerada feriado obrigatório, com todas as mais-valias que daí adviriam para o turismo e para o comércio. Sei que não é um assunto consensual, mas em minha opinião todos tínhamos a ganhar com este feriado – os funcionários públicos, os trabalhadores do privado e as empresas do sector turístico.
 
Esta época do ano é também propícia às brincadeiras de Carnaval. Ainda sou do tempo das bombinhas, dos “peidos engarrafados”, dos estalinhos, dos risca-pés, das cobras e aranhas de plástico… tudo coisas que se perderam, mas que felizmente continuam bem vivas na minha memória e na de tantos outros que, tal como eu, tiveram oportunidade de as vivenciar. Tal como outras tradições de que ainda me lembro com saudade e que me fazem viajar no tempo até à minha juventude, quando brincávamos na semana dos Compadres e das Comadres, construindo as “bonecas” de pano que ficavam penduradas, durante as duas semanas anteriores ao Entrudo, acompanhadas de quadras satíricas sobre os jovens que procuravam mimetizar. Outros tempos, outras vontades, outras brincadeiras.
 
Atualmente, as brincadeiras são outras e eu confesso que há dias em que leio coisas nos jornais que, de tão ridículas, parecem mesmo brincadeiras de Carnaval. Vem isto a propósito de algo que li num jornal e que, se não tivesse sido publicada em vésperas de Carnaval, teria ficado ofendido pela subtileza como muitas vezes os jornais colocam as questões e nos tentam manipular e baralhar a mente.
 

Os jornais não podem (ou melhor, não deviam) discutir rigorosamente nada. No entanto, há muitos jornais que discutem e assediam a causa pública e esses, no dicionário, têm um nome mais apropriado – os pasquins.

Afinal para que servem os jornais? Qualquer um responderá que servem para informar. Certo. Mas informar não é, nem de perto nem de longe, discutir a gestão e a defesa da causa pública nos jornais! Muito menos quando discutir a causa pública, nesses jornais, eventualmente serve outros interesses, muito diferentes daqueles que deveriam ser os verdadeiros interesses de um órgão de comunicação social.
 
Os órgãos de comunicação social servem para informar assuntos de interesse público, não para os discutir e nunca para sobre eles formular juízo. Os jornais devem ser isentos, pois a isso obriga o código deontológico dos jornalistas. Talvez o problema esteja na nossa Lei de Imprensa, que permite que qualquer pessoa possa obter a carteira de jornalista, sem ser obrigado a frequentar formação apropriada ou a prestar provas da sua verdadeira aptidão para exercer essas funções.
 
Os jornais não podem (ou melhor, não deviam) discutir rigorosamente nada. No entanto, há muitos jornais que discutem e assediam a causa pública e esses, no dicionário, têm um nome mais apropriado – os pasquins.
 
Mas, como disse atrás, dada a época do ano em que certas publicações são feitas, ainda lhe podemos dar o desconto e pensar que, se calhar, não passaram mesmo de uma brincadeira de Carnaval e, como sabemos, no Carnaval ninguém leva a mal.
 
É verdade que perguntar não ofende, mas sempre ouvi dizer que as respostas é que fazem mal…
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

Estremoz e o turismo

Escrito por sábado, 28 janeiro 2017 16:11
É quase um crime nunca ter escrito sobre turismo. Imperdoável, tendo em conta que é por demais conhecido o meu gosto por fazer turismo. É algo que está para mim como a luz está para o dia e, por isso, já há muito que me devia ter debruçado sobre este tema.
 
O turismo, ou melhor, as viagens que faço, têm-me permitido conhecer outras paisagens, culturas diferentes, lugares que nunca pensei existirem e realidades muito distintas daquela em que vivo, algumas melhores, outras muito piores.
 
Tenho-me deparado com lugares cheios de vida, onde reina a ordem, a harmonia e a beleza, mas também com sítios que, ainda que carregados de simbolismo ou bem colocados nas preferências dos demais turistas, não me provocaram nem um único arrepio quando os visitei. Quando viajamos, é muito vulgar criarmos expetativas em relação aos lugares que ainda não conhecemos e isso acontece-me frequentemente. Faço sempre uma pesquisa exaustiva acerca dos sítios onde vou e, a dada altura, parece-me que já os conheço muito bem, ao ponto de falar sobre esses lugares como se já lá tivesse ido muitas vezes. Que ilusão… apesar de hoje em dia as novas tecnologias nos colocarem muito mais próximos de tudo e de o Google Earth até nos permitir “passear” virtualmente pelas ruas de uma cidade ou pelas salas de um museu, a verdade é que, quando lá chegamos, nunca nada é igual àquilo que tanto imaginámos.
 

Pergunto-me muitas vezes, que expetativas, que preconceitos terão os turistas que visitam Estremoz. O que os faz visitar Estremoz? O que esperam encontrar aqui? Porquê Estremoz e não outro lugar qualquer? Como partem de Estremoz? Satisfeitos? Desiludidos? Com vontade de regressar?

Isso acontece porque todos os momentos são únicos e porque todos os espaços se transformam e se apresentam diferentes aos olhos de cada observador. A luz, as cores, os sons, os cheiros, as sensações de frio ou calor, os sabores, o nosso humor, a forma como olhamos para as coisas, tudo se altera e, por isso, é natural que experimentemos diferentes impressões daquilo que idealizámos.
 
Pergunto-me muitas vezes, que expetativas, que preconceitos terão os turistas que visitam Estremoz. O que os faz visitar Estremoz? O que esperam encontrar aqui? Porquê Estremoz e não outro lugar qualquer? Como partem de Estremoz? Satisfeitos? Desiludidos? Com vontade de regressar?
 
Será que vêm pelo património construído? É inegável a riqueza patrimonial do concelho de Estremoz. Três castelos com séculos de História e de estórias, monumentos que abarcam diversos estilos arquitetónicos e várias épocas, a riqueza e a particularidade que o mármore confere às inúmeras construções… são tantas as razões pelas quais os edifícios históricos de Estremoz cativam visitantes, que o difícil é não encontrar razões para os visitar.
 
Ou vêm pelo património imaterial? Porque ouviram dizer que aqui viveu e morreu a Rainha Santa Isabel, porque aos sábados de manhã, no Rossio, a cidade se enche de vida para receber o campo no mercado tradicional ou porque tiveram notícia de que em Estremoz há uns Bonecos de barro que são candidatos a Património Cultural Imaterial da Humanidade? Sim, apesar de alguns (poucos) não estarem atentos, tem sido feita uma extraordinária promoção a esta arte, que é tão nossa e que todos queremos que seja Património da Humanidade. Só mesmo quem seja do contra, por não poder ser mais nada, é que não reconhece o trabalho que tem sido feito na promoção do Figurado em barro de Estremoz.
 
Talvez venham pela gastronomia… Em Estremoz come-se bem e isso não é novidade. Vários restaurantes mantêm nos seus pratos a autenticidade e as características da cozinha alentejana, outros restaurantes optaram por inovar e dar um toque de contemporaneidade, não descurando os sabores da tradição e o Município continua a apostar na Cozinha dos Ganhões como espaço de transmissão e promoção de saberes. No conjunto, foram criadas condições propícias para que o turista regresse a Estremoz, à procura de uma gastronomia variada e de grande qualidade. Não é à toa que, pelo segundo ano consecutivo, a cidade de Estremoz foi nomeada como Destino Gastronómico do Ano pela Revista Wine – A Essência do Vinho.
 
Aliás, por falar nisso, os vinhos de Estremoz são cada vez mais uma referência nacional e internacional. A aposta dos nossos empresários na produção de vinhos de qualidade e a forma como têm sabido posicionar-se no mercado, criar rótulos apelativos e fomentar o enoturismo, muito tem contribuído para a promoção turística do concelho de Estremoz no nosso País e além-fronteiras.
 

Não devia isto ser um orgulho para todos nós? Em minha opinião, sim. Mas como sei que há quem não pense assim, não me admira nada que qualquer dia não se diga por aí que Estremoz só tem hoje mais encanto, porque isso já estava projetado…

Vêm pela paisagem, pelo espaço aberto, pela luz da Cidade Branca do Alentejo? Pela calma e pela paz que se respira em cada cantinho? Vêm porque ouviram falar de Estremoz na telenovela? Vêm pela FIAPE? Vêm participar em provas desportivas? Ou porque souberam da existência de Estremoz numa das muitas ações promocionais que têm sido feitas pelo Município? Porque nos viram no site ou no Facebook? Porque Estremoz tem mais encanto?
 
Não sei responder e também não interessa. O que é certo, é que vêm e são cada vez mais os turistas que nos visitam. Mais 13% do que no ano anterior, para ser mais preciso. Pode não parecer muito, mas é imenso para Estremoz! E esta percentagem refere-se apenas a atendimentos no posto de turismo! Não estão aqui incluídos os milhares que nos visitam sem sequer precisar de informação turística… Todos devíamos orgulhar-nos do patamar a que Estremoz chegou, enquanto destino turístico.
 
Não vale a pena alguns tentarem atirar-nos areia para os olhos e fazer crer que nada se faz ou se fez para alcançar estes resultados. Normalmente, quem fala do que não sabe, daquilo que desconhece, arrisca-se a dizer muitas asneiras. Aqueles que não acreditam, os que duvidam e os eternamente insatisfeitos “só porque sim”, não podem é esquecer que os números não mentem e muito menos mentem os resultados, que estão à vista de todos e que se traduzem no crescente fervilhar de pessoas que diariamente passeiam pela nossa cidade. 
 
Não devia isto ser um orgulho para todos nós? Em minha opinião, sim. Mas como sei que há quem não pense assim, não me admira nada que qualquer dia não se diga por aí que Estremoz só tem hoje mais encanto, porque isso já estava projetado…
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

Tudo o resto são paisagens

Escrito por sexta, 23 dezembro 2016 11:23
Mais um ano se aproxima a passos largos e a paisagem continua a evoluir, nas suas constantes mutações.
 
O Natal, festa alta do calendário cristão, cada vez é menos aquilo que devia ser e, ano após ano, se afunda mais no consumismo desmedido dos presentes, na falsidade das mensagens de amizade e amor que trocamos uns com os outros e na total ausência do seu significado original. Ainda assim, o Natal é tempo de reflexão sobre aquilo que somos e sobre aquilo que desejamos para nós, para a nossa família, para os nossos amigos e para o Mundo em geral.
 

Como qualquer outro ser humano, no topo da minha lista de desejos estão a saúde, a paz, a amizade e o amor, pois acredito que tudo o resto vem por acréscimo. Os meus desejos são iguais aos de milhões de outras pessoas, eu sei, mas não me interessa. 

Enquadro-me naquele grupo de pessoas para quem o Natal não diz nada. Não é de hoje, é de sempre, pois desde que me conheço e que consigo formular uma opinião sobre aquilo que me rodeia, lembro-me de sempre ter detestado o Natal. Nos últimos 15 anos o Natal apenas teve algum significado para mim porque tenho tido o dever de fazer com que alguém que amo muito acredite mais do que eu nesta quadra. Espero sinceramente ter conseguido incutir na minha filha uma opinião contrária à minha sobre o Natal, para que daqui a vinte anos não a veja escrever artigos de opinião a dizer que não gosta desta época do ano.
 
Prefiro pensar no Natal apenas como uma breve passagem para o novo ano que se aproxima, como tempo de reflexão sobre o que aconteceu até aqui e sobre aquilo que poderá vir a acontecer no futuro. Para mim, é tempo de renovação. De adeus ao ano velho e de receção ao ano novo que aí vem. Tempo de formular desejos.
 
Como qualquer outro ser humano, no topo da minha lista de desejos estão a saúde, a paz, a amizade e o amor, pois acredito que tudo o resto vem por acréscimo. Os meus desejos são iguais aos de milhões de outras pessoas, eu sei, mas não me interessa. É nisso que acredito e é por isso que continuarei a lutar em 2017, ainda que os meus desejos sejam mais do que óbvios e não venham carregados de qualquer tipo de novidade.
 
Dentro do óbvio, e a pensar na saúde, gostava muito que as pessoas se começassem a respeitar mais umas às outras. Todos temos o direito de ser diferentes e de pensar de forma distinta dos demais. Por essa razão, desejo que 2017 nos traga mais respeito pelos outros, pelas suas ideias, pelas suas opções de vida, por pensarem de forma diferente, por tentarem ser únicos. Mais respeito pelo facto de não se limitarem a subjugar às ideias dos outros ou à forma como os outros gostariam que fossem, traçando o seu caminho e as suas vidas sem imposições alheias. Tenho a plena convicção de que ao agir desta maneira, a saúde do ser humano, pelo menos a psíquica, sairá claramente beneficiada, pois assim as pessoas terão muito mais tempo para pensar nos seus próprios problemas, ao invés de se preocuparem tanto com a vida dos outros. Desejo, por isso, que 2017 nos traga muita saúde.
 
No que toca à paz, desejo imensamente que as pessoas acreditem mais nas suas capacidades. Tantas pessoas que dizem “é impossível” sem sequer pensar uma única vez no caminho para conseguir fazer possível. E tantos projetos que saem frustrados exatamente porque nem sequer nos esforçamos por acreditar neles. Desejo que em 2017 todos acreditemos nas nossas potencialidades, na nossa capacidade para fazer mais e melhor, para fazer bem, para dar mais de nós aos outros e aos projetos em que nos envolvemos. Sem contrapartidas, sem vantagens e sem esperarmos que o fazer bem implique necessariamente receber o que quer que seja. Acredito que a paz, nem que seja a paz interior, se consegue alcançar se nos entregarmos de corpo e alma às nossas empreitadas. Se emprestarmos a cada uma delas um pouco de nós, da nossa dedicação e se agirmos de acordo com aquilo que dita o nosso coração. Que 2017 nos permita alcançar esta paz.
 
A amizade encontra-se facilmente através da partilha. Desejo sinceramente que todos saibamos partilhar melhor os conhecimentos, as emoções e as experiências. Não falo, claro, na partilha de emoções através das redes sociais. Nisso somos todos exemplares! Curiosamente vivemos numa era em que valem mais mil amigos no Facebook do que dois ou três bons amigos com quem conversar, conviver ou partilhar conhecimentos. E vai de partilhar tudo o que temos, o que não temos, os nossos anseios, as nossas frustrações e as nossas experiências com todos esses “amigos” virtuais. Em troca recebemos “likes”, comentários tipificados (“que se passa ‘migo?”, “que lindos!”, “parabéns. Bjs”, <3, ;) …) e, de vez em quando, se o assunto justifica, partilhas das nossas partilhas. Com tanto “share”, “what’s on your mind?”, “favs” e “tweets”, era de esperar que todos tivéssemos mesmo muitos amigos. Infelizmente sabemos que não é assim, por muito que nos esforcemos por o negar. Com as redes sociais perdeu-se todo o sentido de convívio e de partilha, em favor de uma amizade virtual. Até quando nos juntamos com amigos reais, na mesa do café ou no jantar de aniversário, somos incapazes de deixar de parte os amigos virtuais. Como acontece com tudo aquilo que é virtual, mais cedo ou mais tarde havemos de nos cansar e voltar a preferir amizades reais. Espero que em 2017 comecemos a traçar o caminho que nos devolva a verdadeira amizade.
 
Por fim, o amor. Já várias vezes visitei o amor nestas paisagens e não me canso de o revisitar. É o amor que lubrifica as engrenagens da vida, que faz com que ela valha a pena ser vivida. Para mim, amor é sinónimo de entrega. Por isso, desejo que em 2017 continue a entregar-me, como sempre o tenho feito, às duas mulheres da minha vida e que consigamos, sempre, sobreviver a todas as contrariedades. Felizmente, temos sido bafejados pela sorte e conseguido contornar os vários obstáculos que, por vezes, nos aparecem no caminho. Mas não basta ter sorte. Tem que haver entrega à causa. Para nós, a causa são os outros dois. Viver para os outros dois. Desejo, mais do que tudo, que 2017 nos traga ainda mais amor do que até aqui nos tem proporcionado.
 
Como já perceberam, para mim não é preciso muito mais do que estes quatro ingredientes na minha receita para ser feliz. Respeitar para ter saúde, acreditar para ter paz, partilhar para ter amizade e entregar-me para ter amor. Tudo o resto, como já disse, há de vir por acréscimo. Como se costuma dizer, tudo o resto são paisagens…
 
Feliz Natal e um Ano Novo repleto de saúde, paz, amizade e amor!
* Arquiteto Paisagista António Serrano

American Horror Story

Escrito por sexta, 11 novembro 2016 02:16
O dia 9 de Novembro de 2016 ficará para sempre marcado como o dia em que o Mundo acordou abalado com a eleição do republicano Donald Trump como próximo Presidente dos Estados Unidos da América, depois de durante meses a sua opositora democrática, Hillary Clinton, ter estado sempre à sua frente nas sondagens e pese embora as polémicas afirmações, tomadas de posição e promessas eleitorais do vencedor.
 
Sem ter qualquer tipo de pretensão de que percebo de alguma coisa, confesso que ainda percebo menos de política internacional, apenas podendo basear a minha opinião naquilo que apreendi do pouco tempo que dispensei às eleições nos EUA. Contudo, não posso deixar de ficar chocado com esta eleição, apesar de naturalmente respeitar a opção da maioria dos cidadãos norte-americanos que expressaram a sua preferência por Trump. É assim que normalmente acontece em democracia: os vencedores são (na maioria dos casos, não no caso português) aqueles que reúnem o maior número de votos e assim aconteceu com Donald Trump. Esta vitória só confirma que as eleições não se vencem nas sondagens, mas sim após o exercício do direito de voto pelos cidadãos.
 
Por todas as redes sociais na Internet, nas televisões, jornais e rádios surgiram comentários e publicações de desagrado pelo facto de Trump ter sido eleito e, desta forma, ter-se tornado no proclamado “homem mais poderoso do Mundo”. Segundo muitos, Trump não é merecedor desta vitória, em especial depois das suas mais que polémicas afirmações durante a campanha, tudo levando a crer que jamais se sentaria na cadeira do poder, nem mesmo no pior dos pesadelos. Este episódio, de proporções mundiais, é bem capaz de dar uma valente abada a qualquer uma das temporadas de American Horror Story, pelo que os produtores bem podem ir pensando em renovar esta série por mais um ano – pelo menos já têm argumento. 
 
Que se cuidem os muçulmanos, os latino-americanos e os 11 milhões de imigrantes clandestinos que vivem atualmente no território dos EUA, pois parece que as palavras de ordem são expulsão e deportação. Os mexicanos que partam à procura do “sonho americano” também não terão a vida facilitada, devido à proposta de construção de um “grande e lindo muro” na fronteira entre os dois países. O governo mexicano já fez saber que não contribuirá com um único peso para construir este muro, o que acho perfeitamente natural, pois as ideias loucas têm que ser pagas por quem as tem.
 
As futuras relações económicas com o exterior, em especial com a União Europeia, provavelmente sairão lesadas, na medida em que o mais certo é que Trump venha a tomar uma série de políticas protecionistas de proibição ou restrição do comércio livre, deitando a perder tudo aquilo por que os seus antecessores batalharam nas últimas décadas, numa perspetiva de aproximação dos Estados Unidos ao Mundo e de cooperação com as restantes nações.
 
E que dizer da sua política de segurança externa? Segundo afirmações de Trump durante a sua campanha, os aliados europeus e asiáticos da NATO terão de pagar mais para se sentirem seguros e receberem a proteção dos EUA. Parece ainda estar disposto a uma aproximação com a Rússia (resta saber se Moscovo está interessada) e a ser capaz de bombardear o Estado Islâmico “até ao tutano”. Vislumbra-se aqui uma nova Guerra do Golfo ou uma III Guerra Mundial? Não sabemos e espero que não tenhamos que vir a saber.
 
Mas a eleição de Donald Trump terá também consequências diretas sobre a paisagem, na medida em que, segundo muitos, esta sua vitória representa uma clara derrota dos ambientalistas e de todos os líderes mundiais que se têm debatido com as questões relacionadas com o aquecimento global. É mais que sabido que a emissão de gases de estufa contribui para o aquecimento global, com graves consequências em termos de alterações climáticas e da destruição de ecossistemas, habitats e espécies naturais. Trump não acredita nisso, atira as culpas do aquecimento global à política económica dos chineses e promete cancelar o dinheiro gasto em programas da ONU para combate às alterações climáticas, sob o pretexto de utilizar esses milhares de milhões de dólares na criação de mais infraestruturas nos Estados Unidos e, assim, aumentar a sua pegada ecológica. 
 

É bom que Donald Trump não se esqueça que presidentes muito mais populares do que ele tiveram os dias contados, devido a questões com as quais era bem mais fácil de lidar do que com a sua peculiar visão do Mundo.

Os Estados Unidos da América são a nação mais multicultural do Planeta, albergando milhões de pessoas que para ali foram viver à procura do tal sonho americano de que tanto ouvimos falar nos filmes de Hollywood e que agora Trump deseja renovar. Sempre foi reconhecida como uma nação onde são respeitados o direito à diferença e à igualdade, à liberdade de expressão e de crença, bem como os demais direitos fundamentais do ser humano. Com Donald Trump na Casa Branca e a avaliar pelas suas afirmações em período eleitoral, não quero imaginar como irá ser a vida futura dos emigrantes, dos homossexuais e, principalmente, das mulheres nos EUA. 
 
Seja como for, como disse, não percebo nada de política internacional e espero sinceramente estar errado quando penso que esta eleição representa um retrocesso na longa caminhada da Humanidade pelo reconhecimento dos seus direitos fundamentais, bem como na sua tentativa de construir uma relação mais harmoniosa com o Mundo que nos rodeia – uma relação de respeito pela paisagem e por todos os atores que contribuem para a sua construção, aqui se incluindo os homens e as mulheres.
 
Porventura estarei a ser pessimista ou a ser induzido por esta “onda” de pavor que se apoderou do Mundo nestes últimos dias, pelo que mais vale estar atento à política nacional e local. Ainda que provavelmente não o consiga fazer, pois todas as televisões, jornais, redes sociais e rádios nacionais fazem questão de me bombardear o juízo apenas com aquilo que se passa para lá do Oceano Atlântico.
 
De facto, valia mais que dessem atenção àquilo que de realmente bom acontece em Portugal (não me refiro, obviamente, à entrega voluntária de um criminoso às autoridades, nem à Casa dos Segredos, à “música” da Maria Leal ou às telenovelas). Ainda que tendo uma dimensão muito pequena (cabem mais de cem países com a área do nosso no território dos EUA), Portugal tem uma riqueza enorme e, infelizmente, nem sempre esse valor é reconhecido pelos próprios portuguese e muito menos pela nossa comunicação social. Só é notícia e só vende aquilo que de mau acontece em Portugal e no Mundo. Por isso Donald Trump é notícia e muito provavelmente continuará a sê-lo por algum tempo.
 
Contudo, não devemos esquecer os ensinamentos da História. No outro dia ouvi alguém dizer que o passado é um espaço grande demais para que nos estejamos sempre a preocupar com ele, mas o que é facto é que nos ensina muito para podermos definir as nossas ações no presente. É bom que Donald Trump não se esqueça que presidentes muito mais populares do que ele tiveram os dias contados, devido a questões com as quais era bem mais fácil de lidar do que com a sua peculiar visão do Mundo. Abraham Lincoln foi um fervoroso defensor dos direitos humanos, aboliu a escravatura e uniu a nação. Ainda assim, conhecemos o seu desfecho. James Garfield, William McKinley e John Kennedy também tiveram o mesmo destino, não obstante a sua popularidade e os feitos dos dois últimos (Garfield nem sequer teve tempo de aquecer a cadeira). 
 
Claro que não desejo o mesmo destino a Donald Trump, mas sinceramente não acredito que ele tenha tempo para “começar a renovar o sonho americano”, como prometeu no seu discurso da vitória. Espero ansiosamente pelo próximo capítulo.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

Evoramonte: a paisagem e as memórias

Escrito por sexta, 30 setembro 2016 01:42
A paisagem constrói-se também através das memórias daquilo que foi antes de a conhecermos. Uma das principais “regras” da intervenção na paisagem, seja à escala do projeto, seja à grande escala do ordenamento do território, é o respeito pelos seus antecedentes, por aquilo que já existia muito antes de sequer pensarmos em intervir. Por isso, podemos dizer que o carácter, ou espírito, de um lugar é definido, em grande parte, pelas memórias que transmitiu àqueles que o habitam ou vivem.
 
Todos temos memórias acerca dos lugares onde vivemos ou por onde passamos. Boas ou más, serão as memórias que nos acompanharão sempre e que definirão aquilo que pensamos acerca desses lugares.
 
Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo. Mais: por ter crescido ali, tive ainda o privilégio de poder percorrer as suas muralhas muitas vezes e de me sentir regalado com a policromia e com a beleza da paisagem que se avista daquele lugar altaneiro.
 

Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo.

Quem faz todo o circuito das muralhas, certamente não fica indiferente à diversidade de formas e texturas que a natureza e os homens construíram na envolvente de Evoramonte: de um lado a leve ondulação da peneplanície, salpicada por montados de sobro e de azinho, por olivais ou por campos de pastagem, outrora povoados por culturas cerealíferas; do outro, a Serra d’Ossa a marcar a sua presença, com a sua mancha escura de eucaliptal, lembrando-nos que estamos na sua extremidade, que é ali o seu derradeiro limite.
 
Ainda me lembro de como era a paisagem desse lado da serra, antes de ser devassada, primeiro pela autoestrada e depois, mais recentemente, pela linha de muito alta tensão. Sinais de modernidade e de evolução, que hoje aceito com naturalidade, pois dá-me muito jeito chegar mais rapidamente aonde aquela estrada me leva e vivo numa era em que não dispenso os benefícios da luz elétrica, mas que nunca se irão sobrepor à imagem da Ermida de Santa Margarida com o vale da Ribeira de São Brás por detrás, quando ainda não existiam nem o comprido viaduto nem os altos postes de metal. Como era delicioso o assado de borrego, na segunda-feira de Páscoa, comido à sombra de uma figueira (que hoje ainda lá está!), vendo a procissão, com a imagem de Santa Margarida e a imensidão da serra como pano de fundo, até onde a vista alcançava. A vastidão da serra que muitas vezes me fez percorrer montes e vales, a pé ou de bicicleta, com o objetivo de chegar ao São Gens e, dali, poder admirar o meu castelo.
 
Já naquele tempo, durante a minha tenra juventude, despontava em mim um grande gosto pelo desenho e por construir paisagem. Eu ainda não o sabia, mas aqueles desenhos que eu fazia eram já qualquer coisa parecida com arquitetura paisagista… nas folhas dos meus cadernos eu planeava a Evoramonte ideal, que viria a ser construída no futuro, com as suas grandes avenidas, os seus prédios de cinco andares, os seus jardins, estádio, piscinas, escolas e equipamentos capazes de albergar uma população muito superior àquilo que Evoramonte alguma vez teve ou terá. Incapaz, ainda, de perceber que aqueles planos só noutra dimensão ou noutro mundo paralelo poderiam acontecer, eu continuava a sonhar com uma Evoramonte à altura das grandes cidades que conhecia e que, na verdade, também ainda eram muito poucas nessa época. Também de memórias utópicas alimentamos a nossa existência.
 
A verdade é que, desde muito cedo, sempre acreditei no potencial daquela terra. Não é para menos, pois é inegável a riqueza do património de Evoramonte, com o seu castelo recheado de História, construído para gáudio dos Duques de Bragança e para afirmação do seu poder no Reino de Portugal. Não foi à toa a inserção de Evoramonte na paisagem, como que a coroar aquela colina, avistando-se de tudo quanto é lugar a muitos quilómetros de distância. “Depois de Vós, Nós”, o lema da Casa de Bragança, está bem vincado nos laços que abraçam a Torre/Paço Ducal, lembrando-nos que apenas a Casa Real estava acima dos Braganças, àquela época. 
 
A Torre de Evoramonte é uma obra de arquitetura militar renascentista, sem antecedentes nem precedentes em Portugal e, por isso, sempre acreditei que devia ser mais valorizada pela entidade que sempre teve a sua tutela – antes o IPPAR, depois o IGESPAR e hoje a Direção Regional de Cultura do Alentejo. Infelizmente, tirando as controversas, mas necessárias, obras de recuperação de que foi alvo durante os anos oitenta do século passado e a valorização da envolvente, já no início deste século, pouco tem sido feito para valorizar este monumento. As obras de recuperação da Torre são outra das minhas memórias. Nessa altura, quando abria a janela e olhava para o castelo, uma imensidão de andaimes envolvia a Torre e as muralhas, não deixando antever aquilo que estava para acontecer. Recordo-me que foi complicado convencer os Evoramontenses de que aquele reboco amarelo era semelhante ao que tinha sido aplicado no século XVI. Ainda hoje não sei se estão convencidos, pois a imagem de um castelo com a pedra à vista, sem rebocos, estará para sempre presente na memória das gerações que, tal como eu, ainda vivem e se recordam do castelo da outra forma.
 
Mas Evoramonte encerra em si muito mais que a Torre de Menagem dos Braganças! A Igreja Matriz, que esteve durante muitos anos em ruína e que abriu recentemente ao culto, depois de obras realizadas, em boa hora, pela Paróquia de Evoramonte, e que possui um altar de talha dourada extraordinariamente belo; a pequenina Igreja da Misericórdia, com o seu altar e nave revestidos a azulejos que nos relembram as obras de misericórdia; a graciosa casa onde, na tarde de 26 de maio de 1834, os representantes de D. Pedro IV e D. Miguel assinaram a Convenção que restabeleceu a paz em Portugal, após vários anos de sangrenta guerra civil; os antigos Paços do Concelho, com a sua torre do relógio e as ruínas do pelourinho. E depois disto tudo, o caminhar pelas suas ruelas de pedra, admirar o pôr-do-sol lá do alto e sentir o cheiro da giesta ou da esteva, “ver os milhanos pelas costas”, envolvido por um silêncio e uma calma que em poucos lugares se encontram, são experiências únicas que estarão para sempre na minha memória.
 

Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente.

Foi devido a tudo aquilo que Evoramonte tem para oferecer que dediquei parte da minha vida a tentar contribuir para o seu desenvolvimento, através da participação ativa nas coletividades locais, na autarquia e na vida desta terra que me viu nascer e crescer, e à qual regresso sempre que posso, através das minhas memórias.
 
Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente. Sem investimento privado na criação de condições de acolhimento turístico, nada do que se faça de investimento público será suficiente. São necessários investimentos privados que abram restaurantes típicos, espaços de venda de artesanato e alojamentos, acompanhados de investimentos na reabilitação do património e do espaço público, sustentados pela posterior criação de espaços museológicos, estruturas de acolhimento turístico e criação de oferta cultural capaz de captar visitantes. Mas, acima de tudo, é necessário que estes investimentos sejam também um convite a que mais pessoas vivam em Evoramonte e no seu centro histórico, hoje com menos de 20 habitantes.
 
O PEDU – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz abre novas perspetivas para Evoramonte, através de diversas iniciativas de reabilitação urbana do seu centro histórico e é, por isso, um momento único para esta vila. Na vida existem duas coisas importantes: o motivo e o momento. É certo que os motivos poderão repetir-se ao longo da História, mas os momentos são únicos. Este será o momento para Evoramonte renascer das cinzas.
 
É necessário que Evoramonte invista em si própria, que a maioria dos seus habitantes deixe de olhar para o castelo e veja apenas “um monte de pedras”. Que veja nessas pedras do passado, nestas memórias, a oportunidade de construir o futuro. Eu não tenho dúvidas de que é possível construir outro futuro para Evoramonte.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

Estremoz: uma paisagem de sensações

Escrito por sábado, 06 agosto 2016 16:43
Acabadinho de chegar de férias, de regresso à cidade que tem mais encanto, decidi fazer uma das coisas que me dá mais prazer: caminhar pela paisagem urbana de Estremoz. E, descansem, não o fiz à procura de Pókemons, pois orgulho-me de a minha sanidade mental ainda estar intacta.
 
Caminhar pela cidade é algo que sempre me deu muita satisfação. Faço-o com o intuito de proporcionar a mim mesmo uma vida saudável, mas também porque gosto de apreciar os encantos que se escondem para além de cada rua, de cada edifício e de cada pedra. Quando o faço, gosto de olhar e ver, não gosto de apenas olhar. Às vezes olhamos muito para as coisas e não vemos nada. E em Estremoz há tanto para ver…
 

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa.

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa. Ao caminhar, reparo na satisfação dos transeuntes por terem aquele espaço de lazer e vejo que é isso que realmente importa quando projetamos paisagem, pois de nada servem espaços extraordinariamente bem concebidos se não forem do agrado dos seus utilizadores.

 

Depois, subo a Avenida de Santo António e fico maravilhado com a beleza que a calçada de mármore e os canteiros ondulantes de arctotis e ginkgos, conferiram a uma das principais vias de acesso ao centro da cidade e que outrora mais pareceu a triste entrada de uma cidade fantasma. Em boa hora se fez esta reabilitação, que tanto serviu para adicionar mais encanto a Estremoz.
 
Passo pelo Rossio, detenho-me frente-a-frente com a imponência da Igreja dos Congregados e sinto esperança. Esperança de que seja possível, através do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz, recentemente aprovado pela Câmara Municipal, dar continuidade à recuperação da Grande Praça. Da praça que, todos os sábados, é palco do nosso mercado tradicional, aquele que é constantemente referido em publicações nacionais e internacionais, como um dos mais pitorescos e encantadores mercados do Mundo, pelas suas características únicas, pela explosão de sensações que proporciona a quem o visita e pela forma como faz relacionar o campo com a cidade. O Rossio merece uma intervenção paisagística que lhe confira ainda mais valor e estou convicto de que é esta a oportunidade para a concretizar. 
 
Sigo em direção ao castelo, pela Porta da Frandina, e o meu coração bate mais forte. Não devido ao cansaço da subida, mas pela emoção que sinto a cada vez que entro no Largo D. Dinis, o núcleo medieval de Estremoz – a acrópole, como gosto de lhe chamar. Inspiro o ar que ali se respira e sinto a história e as estórias que são transmitidas por cada bloco de pedra mármore que dá sustento às paredes da Torre de Menagem. É impressionante a harmonia existente entre cada edifício naquele espaço. É quase indescritível a vista panorâmica sobre o vale da Ribeira de Têra e a Serra d’Ossa, com o (meu) castelo de Evoramonte a coroar a sua extremidade ocidental, enquadrado pelo verde-escuro dos montados de sobro e de azinho, pelos tons quentes de um pôr-do-sol ou pelas centenas de pontos brilhantes que, à noite, dão mais luz àquele vale, que de dia se veste do amarelo-torrado das pastagens estivais e, cada vez mais, do verde vivo das vinhas donde se extrai o excelente vinho de Estremoz.
 
Enquanto ali estou, lembro-me que mesmo ao lado, no Museu Municipal, mora a Coleção Reis Pereira de Bonecos de Estremoz, que também acredito que um dia será classificada como Tesouro Nacional, assim como a Produção de Figurado em Barro será Património da Humanidade. No cantinho da Praça, escondida por detrás de um trabalhado portão de ferro, vejo a Capela da Rainha Santa, a Isabel de Aragão, que ainda hoje continua a inspirar os estremocenses. Por vezes, dou uma espreitadela à cidade a partir de uma janela que ali foi deixada propositadamente naquele miradouro e não me admira nada se ela estiver ocupada por um casalinho qualquer, tão apaixonado pelo seu par como pela vista que tem à sua frente.
 
Desço quase sempre pelo Bairro de Santiago, deixando para trás a Porta do Arco de Santarém. Encanta-me a Rua Direita e a matriz ortogonal das restantes ruas, com a Igreja de Santiago ao fundo e o casario abraçado pelas fortificações seiscentistas. Um bom exemplo, que ainda hoje se conserva, de cidade medieval planeada, tão ao estilo das bastides francesas.
 
Algures pelo caminho, já não me lembro bem onde, mas também não tem qualquer importância, há um cheiro de grelhados no ar. Na cozinha ou no quintal de uma habitação ou de qualquer restaurante, assam-se carnes ou peixes, temperados com ervas aromáticas e acompanhados de sabores e saberes ancestrais. Também na gastronomia Estremoz é rainha.
 
Depois de me refrescar na fonte do Espírito Santo, que ali está no largo do mesmo nome, à sombra das Torres da Couraça, lamento que esta última tenha sido sacrificada para dar lugar à Rua D. Afonso III. Sei de que nada vale lamentar-me, pois isso faz parte da normal evolução dos lugares, mas confesso que gostava de poder ter caminhado também por entre as paredes desta estrutura medieval, que há de ter sido impressionante.
 
Chego ao Lago do Gadanha e logo a presença da água me dá novo ânimo. A luz que emana do plano de água, o enquadramento que proporciona ao castelo lá no alto e o som da água em movimento constante nos repuxos, faz do Gadanha um dos espaços que considero mais espetaculares em Estremoz. Nunca me canso de por ali passar, de olhar para todo aquele espaço aberto, enquadrado pelo verde da vegetação, pela singular fachada da Igreja de São Francisco e pelo mármore. Sempre o mármore…
 
A minha caminhada por Estremoz continua sobre as calçadas do mesmo mármore, adornadas com dezenas de motivos, algumas evocando marcos históricos da vida estremocense ou das suas tradições. Aceno de fugida ao Teatro Bernardim Ribeiro, rodeado de bonitos exemplares de edifícios Art Noveau e alcanço a Avenida 9 de Abril, quase no fim deste meu périplo pela urbe.
 

Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!

Terminada a caminhada, enquanto regresso a casa e já ao volante do meu carro, penso nas boas sensações que experimentei durante esta hora em que olhei para a cidade com olhos de ver. Também experimentei sensações menos boas, é verdade, pois Estremoz também as tem, como qualquer cidade. Registo-as e denuncio-as no sítio certo, sempre com a intenção de lhes pôr um fim ou de as melhorar. Nunca com qualquer outro tipo de motivação. Para isso, já cá temos os do costume.
 
Prefiro fazer uma abordagem positiva, pois Estremoz assim o merece, pela sua excecional singularidade, pela diversidade de estilos artísticos que está presente na sua arquitetura e urbanismo, pela monumentalidade dos espaços e edifícios, pela forma como é vivida pelas pessoas. Mas merece-o principalmente porque é nela que experimentamos a sensação de habitar. É ela o palco em que se desenrolam as nossas vidas e é a ela que retornamos sempre. Merece, por isso, o nosso respeito e que gostemos dela.
 
Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!
 
* Arquiteto-paisagista António Serrano
 

Património, valor e salvaguarda

Escrito por sexta, 08 julho 2016 14:52
Património… Termo frequentemente utilizado para designar algo que é herança dos nossos antepassados. Móvel ou imóvel, material ou imaterial, natural ou cultural, muitas são as tipologias de património presentes na paisagem e com as quais nos deparamos todos os dias.
 
Não é preciso percorrermos uma grande distância para experienciarmos uma viagem pelas múltiplas formas de património. Comecemos pelo património que nos define e diferencia dos demais – o nosso património hereditário. De seguida, olhemos para os nossos pertences – a casa, os móveis, os elementos decorativos, os utilitários, o jardim e a sua vegetação, o carro, a bicicleta, os patins e a bola de futebol… e finalmente, deliciemo-nos com a imensidão do património que é comum e propriedade de todos aqueles que já o viveram, daqueles que agora o vivem e dos muitos que ainda o viverão depois de nós – a paisagem e os seus elementos naturais e construídos. 
 
A maior parte das pessoas apenas entende como património aquilo que, à partida, tem um valor especial, tendo em conta um determinado número de critérios definidos por alguém que não conhecemos. Muitas vezes, confundimos património com “monumento” e nem sequer nos questionamos se realmente há razões para atribuir a qualquer bem esse valor especial. Deixamo-nos levar por pré-conceitos e deslumbramo-nos com o alegado valor atribuído pelos outros, o que, naturalmente, não significa que o valor não exista. Contudo, a apreciação desse valor é subjetiva, dependente da sensibilidade e das vivências individuais, razão pela qual é imperativo que olhemos sempre para todas as manifestações de património com uma atitude crítica em relação ao seu valor. 
 

Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.

É assim que olho para o património. Nas minhas viagens tento sempre conhecer mais para além daquilo que vem nos guias e que é normal todos conhecerem, procurando outras formas de interagir com o património, seja ele de que tipo for. Por exemplo, de que me serviria ter visitado a Basílica de São Pedro, se não tivesse tido também a oportunidade de espreitar a sua cúpula a partir de um buraco de fechadura no Aventino? Banal, dirão alguns, despropositado, dirão outros. Andar alguns quilómetros só para isso? No entanto, se assim não tivesse acontecido, a minha experiência pessoal com a Basílica teria sido muito semelhante à de milhões de outras pessoas. É inegável o valor patrimonial per si da Basílica de São Pedro, mas o valor que lhe atribuo é ainda maior graças àquela minha simples vivência de espreitar e vê-la, ao longe, pelo buraco de uma fechadura...
 
Se víssemos mais vezes aquilo que nos rodeia, ao invés de apenas olharmos, talvez não nos deslumbrássemos tão facilmente com aquilo que foi definido como valor patrimonial pelos outros. Damos facilmente valor ao Património Mundial e a outros tipos de património classificado, esquecendo ou não dando importância ao nosso património - aquele que pode não ter valor para a humanidade, mas que certamente se reveste de uma enorme importância nas nossas vidas diárias.
 
É certo que a classificação do património é importante, mas não o deve ser apenas por uma questão de valorização, devendo sê-lo principalmente pela sua salvaguarda. Contudo, muitas vezes a classificação de bens é feita pura e simplesmente para lhes aumentar valor e, não menos vezes, para alimentar o ego de quem promove o processo de classificação. 
 
A classificação de um bem na categoria de Património Mundial, na grande maioria dos casos, nada tem a ver com a necessidade da sua salvaguarda para a humanidade e para as gerações vindouras, mas sim com a intenção de satisfazer uma necessidade presente de exaltação do seu valor perante os outros, motivada pela procura de daí retirar dividendos económicos, à custa do turismo. 
 
Não sou contra que se explore o património através do turismo. Pelo contrário, acredito que o turismo, quando planeado e estrategicamente estruturado, é um fator de desenvolvimento sustentado de uma região. No entanto, desenvolvimento sustentado significa conjugar eficazmente três vetores: social, económico e ambiental. No caso do desenvolvimento sustentado do turismo associado ao património, significa olhar para todos os tipos de património e fazer interagir todas as suas potencialidades, conferindo-lhe mais valor e, ao mesmo tempo, salvaguardando a sua utilização no futuro. Para além disso, é fazer com que o valor possa ser visto a partir de diferentes perspetivas e não apenas da mais óbvia, igual a tantas outras e que não marca pela diferença ou pela inovação.
 
Sobre este propósito, reparei que circula pela Internet uma petição contra a venda da Antiga Casa do Alcaide-Mor de Estremoz, vulgarmente e erradamente conhecida como Antiga Casa da Câmara. Trata-se de um imóvel situado na Rua do Arco de Santarém, e que foi, também por erro, classificado como Monumento Nacional. Hoje é uma ruína em pleno núcleo medieval da cidade, ameaçando a segurança de pessoas e bens, mas sobretudo atentando contra a boa imagem da acrópole estremocense.
 

Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.

Não me interessa discutir de quem é a culpa do estado de degradação a que o edifício chegou, até porque já alguém o fez recentemente e, em minha opinião, muito bem. O que interessa é que, em boa hora, a Câmara Municipal decidiu vendê-la, com a condição de que a sua utilização futura apenas poderia ser afetada à atividade turística. Aplaudo esta decisão, pois parece-me a mais adequada para o caso do património em questão. Há muito que se perdeu o seu eventual valor, a classificação como Monumento Nacional nunca lhe adiantou muito e não vai deixar de existir, a Câmara livrou-se de mais um problema no centro histórico, a recuperação e utilização por privados criará dinâmicas sociais e económicas (mais empregos e receitas turísticas), criar-se-á mais um estabelecimento hoteleiro (que tanta falta faz a Estremoz) e, principalmente, não terão que ser todos os contribuintes a pagar por isso.
 
Embora aceite a existência de outras possibilidades para o edifício, em minha opinião a que é apontada pelos subscritores da petição nada acrescenta de novo a Estremoz. É mais do mesmo. Outro espaço museológico, desta feita sobre a história medieval da cidade, mas cuja recuperação e construção teriam de ser pagas por dinheiros públicos, bem como a sua manutenção futura.
 
Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.
 
Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.
 
* Arquitecto-Paisagista António Serrano

FIAPE: momentos de uma paisagem sazonal

Escrito por sexta, 13 maio 2016 23:07
Ano após ano, há uma paisagem sazonal que faz parte da minha vida. Chamo-lhe sazonal porque dura apenas cinco breves dias e porque regressa sempre. Cinco breves dias que demoram meses a planear. Cinco breves dias que requerem muita entrega por parte de todos aqueles que participam na sua organização e construção. Trata-se de uma paisagem sazonal que me acompanha há muitos anos e da qual me habituei a gostar muito: a FIAPE.
 

Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.

Ainda me lembro muito bem das primeiras edições da FIAPE, no Rossio. Claro que não me recordo da 1.ª edição, pois em 1983 Estremoz ainda ficava muito longe para mim... Mas recordo, com alguma saudade, os tempos em que estudei em Estremoz e via o Rossio encher-se de tratores e máquinas agrícolas e eu atravessava aquela imensidão de ferro colorido, no meu caminho para a antiga Rodoviária. Dessa época, também me lembro da exposição pecuária no Pavilhão do atual Mercado Abastecedor, muito graças ao facto de sempre ter pertencido às turmas de Agropecuária na Escola Secundária. Tudo isto há de ter acontecido quando a FIAPE ainda era uma criança, mas a imagem que tenho presente é a de uma feira de grande dimensão e com uma forte componente agrícola. Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.
 
Numa fase posterior da minha vida, há cerca de 18 anos, comecei a ver a FIAPE com outros olhos. Deixei de ser apenas espetador e passei a estar do outro lado. Nos primeiros anos, ainda que de uma forma muito subtil, fui-me embrenhando nos meandros da organização e apercebendo da verdadeira dimensão do certame.
 
Durante alguns anos, a FIAPE não conseguiu fazer frente à teimosia dos que insistiam em mantê-la estrangulada, sem hipóteses de evoluir para um modelo mais adaptado às exigências impostas pelo tempo. Continuou no Rossio, a definhar e a acompanhar a crise que se vivia na agricultura portuguesa em finais do século XX. Com ela continuou o modelo das barracas de chapa, dos espaços da Feira de Artesanato sem condições, do pavilhão do gado construído com rede sombreira e o insalubre piso enlameado do Rossio (pois também nesta época chovia sempre). Há quem diga que este modelo é que era bom. Que isto é que trazia mais vida à cidade. A mim, sinceramente, dói-me a alma só de pensar nas condições em que a feira se continuava a fazer, sem qualquer perspetiva de futuro, decaindo ano após ano.
 
Felizmente, alguém teve a coragem de a libertar daquele espaço e de a levar para o local onde hoje se realiza - o Parque de Feiras. Para muitos (se calhar já não são assim tantos), este equipamento sempre foi considerado um "elefante branco", sob o pretexto de que a sua utilização anual é diminuta e não justifica o investimento. Ainda que assim fosse (e eu sei bem que não é assim), para mim bastava que existisse apenas para realizar a FIAPE, porque este certame merece um espaço assim. A nossa cidade, as pessoas que vivem em Estremoz e as pessoas que visitam a feira merecem que a FIAPE se realize num espaço assim.
 
Só com um espaço destes é possível que, passados 30 anos, a FIAPE tenha tido este ano mais de 450 expositores, devidamente acomodados em espaços dignos e com excelentes condições de exposição e venda dos seus produtos. Só neste espaço se conseguem dar mais condições de acolhimento aos mais de 60.000 visitantes que estiveram na FIAPE este ano. Devemos orgulhar-nos pelo facto de Estremoz possuir um recinto com estas características e por este ter as condições necessárias para receber um certame como a FIAPE. Sem a existência deste espaço duvido muito que a FIAPE tivesse crescido o que cresceu e que fosse hoje um dos principais certames económicos da região Alentejo.
 
Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.
 
Mas o tempo tudo dá e tudo tira. A mim, deu-me de volta a FIAPE. Mas já não era a mesma FIAPE. Estava agora repleta de marcas estranhas, depois de tocada por mãos que nunca souberam compreender bem a sua verdadeira essência. Os visitantes e os expositores estavam saturados do seu modelo.  Foi preciso um esforço enorme para que retomasse de novo o seu caminho.
 
Acredito que hoje o caminho já foi encontrado e a FIAPE é, sem qualquer sombra de dúvida, um extraordinário evento que anualmente fica na memória de todos aqueles que a vivenciam: organização, trabalhadores, expositores e visitantes.
 

Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.

Na minha memória ficarão para sempre os momentos especiais que esta experiência me proporciona: a gratidão que sinto pelo espírito de entrega de todas as pessoas que comigo trabalham na FIAPE e que tudo fazem para que ela brilhe da forma como brilha. O início das montagens. A confiança que os expositores depositam na feira e a forma como são bem tratados e que os faz voltar ano após ano a Estremoz. A constante procura de inovação, que nos faz apresentar sempre algo diferente todos os anos e tentar fazer mais e melhor. A correria para que tudo esteja pronto a horas. A cerimónia de inauguração. O pulsar diário das atividades. Os sons, os cheiros e os sabores da feira. O brilho das luzes dos divertimentos. A ansiedade das dez da noite, à espera que chegue o mar de gente. O mar de gente. O movimento das pessoas na feira. O início dos espetáculos. A cor e o barulho da massa humana a vibrar com os espetáculos. A lotação esgotada. O chegar a casa com a alegria de ter conseguido atingir os objetivos...
 
No fim, fica a triste memória do regresso das carrinhas e dos camiões, que tudo levam dali. O espaço vazio. O caos que se instala devido a algo que já aconteceu e que só irá regressar dali a um ano. A constatação final da efemeridade e da sazonalidade do evento. As dores no corpo que nos fazem recordar os bons momentos. A tristeza por a FIAPE ter terminado tão rapidamente...
 
Não é costume acontecer, mas ao escrever sobre os momentos que a FIAPE me proporciona, já me chegaram as lágrimas aos olhos por mais do que uma vez... Não me importo de chorar pela recordação de bons momentos, principalmente quando sei que, mais dia menos dia, esta paisagem sazonal estará de regresso à minha vida.
 
Arquiteto Paisagista António Serrano
 

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