sábado, 21 setembro 2019
quinta, 15 setembro 2016 18:55

Feliz Ano Novo!

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Feliz ano novo numa altura destas? É verdade! Para quem está, como eu, ligado à educação o ano civil confunde-se muitas vezes com o ano lectivo. E digo mais, se calhar, quem está deste lado, até dá mais importância ao ano que inicia em Setembro do que àquele que começa em Janeiro. É certo que tudo dependerá da intensidade com que se vive a educação e da forma como a transportamos na nossa vida. Hoje começa mais um ano lectivo para milhares de crianças e jovens do nosso país. O planeamento de um ano lectivo inicia-se muito antes do mesmo ter iniciado, tudo começa ainda dentro do ano anterior com o balanço emanado de inúmeras reuniões de debate sobre o que correu bem e menos bem durante o tempo efectivamente lectivo. Quando ouço, muitas vezes, as pessoas a comentarem a “boa vida” dos docentes fico, de certa forma, triste porque não considero essas críticas justas. Só quem está na área pode, com clareza e objectividade testemunhar o que aqui descrevo. O trabalho dos professores é intenso e, muitas vezes esgotante. Quando digo esgotante refiro-me ao sem número de funções burocráticas que o docente tem que desempenhar no seu dia-a-dia, ao preenchimento de inúmeros documentos que muitas vezes não se lhe reconhece utilidade. Com isto não quero dizer que alguns não sejam, na realidade, necessários e que facilitem posteriores situações. Se o professor só ensinasse e os alunos só aprendessem tudo seria menos complicado e menos esgotante. O que eu critico é o tempo que o professor dedica aos alunos. Na minha opinião o docente gasta demasiado tempo com essas tarefas burocráticas e administrativas e deixa para segundo plano aquilo que, no meu ponto de vista é essencial, o trabalho para e com os alunos. Eu que até reconheço e valorizo as virtudes das novas tecnologias chego a pensar que em muitos casos elas vieram dificultar ao invés de facilitar. Mas a realidade da educação nos dias de hoje é esta mesmo e é com ela que temos que viver, o que não quer dizer que não tenhamos opinião e não a possamos manifestar.
 

Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família.

Desde que iniciei a minha carreira já vi “passar” pela tutela da educação mais de uma dezena de ministros. Cada equipa que chega muda tudo e mais alguma coisa, de mandatos para mandatos andamos de experiências em experiências e a consolidação dessas mesmas experiências nunca é feita e nunca se sabe a médio/longo prazo o resultado das mesmas. Talvez por aí também o trabalho dos docentes não seja beneficiado em prole dos seus alunos e comece a haver uma certa desmotivação no próprio corpo docente. Quando ainda recentemente li que grande parte dos docentes, se pudesse, mudava de vida, reflecti e cheguei à conclusão de que o que acabei de descrever podem ser alguns dos motivos para que isso aconteça. Confesso que às vezes eu próprio também me apetece “sair”. Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família. Mas depois caio na real e penso que existem milhares que gostavam simplesmente de estar no meu lugar e, para ser sincero, não sou pessoa de desistir assim às primeiras. Vou lutar! E vou lutar porque gosto disto, não das papeladas e burocracias que me passam pela frente a toda a hora mas dos alunos e da relação que se estabelece com eles. Nós, muitas vezes conhecemos melhor as crianças e jovens que passam os seus dias connosco do que propriamente as suas famílias. Quando há pouco falava das injustas acusações com que muitas vezes os professores são confrontados referia-me ao papel, muitas vezes invisível que o professor desempenha no seu dia-a-dia. A educação não é só ensinar e aprender, a educação de hoje tem um sem número de vertentes e variáveis que se devem ter em conta. O descrédito dado aos docentes, a sua perca de autoridade, a forma como muitas das vezes os mesmos são tratados na opinião pública, pelos meios de comunicação social, por alguns pais, famílias, encarregados de educação e até mesmo pelas sucessivas equipas ministeriais não valoriza nem credibiliza a complexa miríade de funções que o docente desempenha junto dos seus alunos. Ser professor é ser professor, é ser psicólogo, pai, mãe, tio, avó, amigo, vizinho, assistente social, juíz, transmissor de afectos, educador, confidente… ser professor é ser um guia, um confessor, um sociólogo, um analista… ser professor é ser dono do tempo, é viajar até ao fim do mundo, é rir, chorar, cantar, dançar, correr… ser professor é perguntar, responder, transformar, pintar, crescer… ser professor é motivar, é ensinar a lidar com os sucessos mas também com os fracassos… é ter convicção, inovar, abraçar, é alargar horizontes, é mostrar caminhos… ser professor é lidar com bons comportamentos mas também com comportamentos disruptivos, é mediar expectativas, é trabalhar para resultados, é usar distintas terminologias, é falar de diferentes formas… ser professor é trabalhar sem recursos, é trabalhar com manuais, com recursos multimédia, é avaliar processos, fazer introspecção, é ter a capacidade de fazer uma constante auto-avaliação, é ser capaz de trabalhar tanto com métodos quantitativos como qualitativos, é fazer formação para melhorar estratégias de acção, é viver com rotinas, sem rotinas… ser professor é ultrapassar obstáculos, é trabalhar com turmas grandes e com turmas pequenas, é trabalhar com brancos, pretos, amarelos, ciganos, russos, árabes, é trabalhar com ricos, com pobres, com pessoas com dificuldades cognitivas, de locomoção, com deficiência visual e auditiva… ser professor é tudo isto e mais uma panóplia de coisas. Digam-me agora que a profissão docente não é intensa, muitas vezes esgotante e de uma enorme exigência! Acredito piamente que mais de noventa por cento dos professores têm a preocupação em dar tudo isto aos seus alunos, acredito que eles dão o melhor de si, não só transmitindo-lhes os seus conhecimentos mas dando-lhes, inúmeras vezes, a tal orientação de que as famílias muitas vezes se “esquecem” de dar. Sobre tudo isto até me podem dizer que, como sou professor, estou unicamente a defender a minha classe. Meus amigos, se há classe mais desunida, é a nossa. Basta vermos a quantidade de sindicatos que existem para nos defender. Se fossemos realmente unidos um bastava para defender os nossos interesses.
 

Uma vez que os docentes têm a capacidade de fazer tudo isto, têm que ter a capacidade para também entenderem que cada vez mais as aulas não podem ser iguais para todos os alunos. Cada pessoa é uma só e os alunos não fogem à regra. Cada vez mais me convenço que o ritmo de cada um é distinto e a experiência tem-me revelado precisamente isso. O professor não pode fechar-se no seu “ninho” e ousar pensar e acreditar que é sempre eficaz nas suas decisões e na forma como vive a sua Educação. Também erramos, também falhamos mas uma coisa é certa, temos que ter a capacidade de nos renovarmos. Não estou aqui, de forma alguma, a pôr em causa as capacidades e a competência pedagógica de cada um, unicamente acho que temos que ter a capacidade de reconhecer o erro.
 
Fala-se muito na educação da Finlândia como sendo a que melhores resultados apresenta em todo o mundo. Acerca disto às vezes ponho-me a pensar: Será que os nossos alunos não estarão fartos do nosso tipo de ensino com demasiado tempo na escola, com um currículo demasiadamente cheio e sem tempo para poderem sequer brincar, tal não é o conjunto de actividades escolares e extra escolares que eles têm? Será que não seria mais benéfico se lhes dessemos a liberdade de os deixarmos brincar até chegarem ao ponto de se “aborrecerem” para que eles próprios sentissem individualmente a necessidade de procurar saber mais e mais? Será que resultava num tipo de ensino mais apelativo? Será que no nosso país funcionaria? Se querem que vos diga também não sei mas com tantas experiências que já foram feitas não me chocava nada se apostassem numa desta natureza.
 

O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos.

A este propósito e dado o extenso currículo do ensino em Portugal parece-me que por vezes se dá pouca importância àquilo que considero primordial que é a aposta na formação pessoal de cada um dos alunos que nos passam pelas mãos, o tentar fazer com que sejam pessoas equilibradas, responsáveis e assumam sem subterfúgios e receios as suas responsabilidades… o tentar fazer com que sejam honestos e humildes, dinâmicos, activos, trabalhadores e esforçados, respeitadores e justos, solidários e empreendedores. No fundo tentar fazer com que sejam boas pessoas.
 
O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos. Na minha opinião a humanização da educação é tão importante quanto a importância que se dá aos currículos e às metas.
 
É certo que não há maior satisfação profissional como aquela que sentimos quando vemos que os alunos que um dia estiveram connosco a partilhar também os seus conhecimentos (sim porque eu não consigo ensinar sem deles também aprender todos os dias) – a partilhar as suas dúvidas, as suas alegrias, tristezas, os seus segredos, as suas birras, os seus primeiros namoricos, no fundo a infância e a adolescência das suas vidas, não há, efectivamente, maior satisfação para nós do que vê-los vencer na vida… dá-nos um gozo especial, é certo, quando entram na Universidade mas, quer entrem na faculdade e se tornem investigadores, médicos, enfermeiros, gestores, professores, arquitectos, quer façam um percurso diferente e sigam a vida militar, as artes, a música, quer criem o seu posto de trabalho ou trabalhem por conta de outrem, quer sejam cozinheiros, empregados fabris, agricultores, sapateiros ou até varredores, a maior satisfação é vê-los pessoas… pessoas na verdadeira acepção da palavra com todos os verbos, substantivos e adjectivos que a si se podem agregar.
 
Sabemos que deixamos “marcas” nos nossos alunos quando nos encontram em qualquer lugar e se dirigem a nós para nos cumprimentar e falar um pouco sobre as conquistas das suas vidas.
 
Li algures que ser professor também é isto… “sentir-se realizado e feliz com as conquistas dos nossos alunos”
 
Para o ano lectivo que hoje se inicia desejo a todos: docentes, técnicos que colaboram nas escolas, alunos, assistentes operacionais e técnicos (que desempenham um papel importantíssimo no dia-a-dia das escolas) parceiros e famílias um Feliz Ano Lectivo!!!
 
* Professor Luís Parente
 
Modificado em quinta, 15 setembro 2016 19:04

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