quarta, 11 dezembro 2019
sexta, 08 julho 2016 14:52

Património, valor e salvaguarda

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Património… Termo frequentemente utilizado para designar algo que é herança dos nossos antepassados. Móvel ou imóvel, material ou imaterial, natural ou cultural, muitas são as tipologias de património presentes na paisagem e com as quais nos deparamos todos os dias.
 
Não é preciso percorrermos uma grande distância para experienciarmos uma viagem pelas múltiplas formas de património. Comecemos pelo património que nos define e diferencia dos demais – o nosso património hereditário. De seguida, olhemos para os nossos pertences – a casa, os móveis, os elementos decorativos, os utilitários, o jardim e a sua vegetação, o carro, a bicicleta, os patins e a bola de futebol… e finalmente, deliciemo-nos com a imensidão do património que é comum e propriedade de todos aqueles que já o viveram, daqueles que agora o vivem e dos muitos que ainda o viverão depois de nós – a paisagem e os seus elementos naturais e construídos. 
 
A maior parte das pessoas apenas entende como património aquilo que, à partida, tem um valor especial, tendo em conta um determinado número de critérios definidos por alguém que não conhecemos. Muitas vezes, confundimos património com “monumento” e nem sequer nos questionamos se realmente há razões para atribuir a qualquer bem esse valor especial. Deixamo-nos levar por pré-conceitos e deslumbramo-nos com o alegado valor atribuído pelos outros, o que, naturalmente, não significa que o valor não exista. Contudo, a apreciação desse valor é subjetiva, dependente da sensibilidade e das vivências individuais, razão pela qual é imperativo que olhemos sempre para todas as manifestações de património com uma atitude crítica em relação ao seu valor. 
 

Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.

É assim que olho para o património. Nas minhas viagens tento sempre conhecer mais para além daquilo que vem nos guias e que é normal todos conhecerem, procurando outras formas de interagir com o património, seja ele de que tipo for. Por exemplo, de que me serviria ter visitado a Basílica de São Pedro, se não tivesse tido também a oportunidade de espreitar a sua cúpula a partir de um buraco de fechadura no Aventino? Banal, dirão alguns, despropositado, dirão outros. Andar alguns quilómetros só para isso? No entanto, se assim não tivesse acontecido, a minha experiência pessoal com a Basílica teria sido muito semelhante à de milhões de outras pessoas. É inegável o valor patrimonial per si da Basílica de São Pedro, mas o valor que lhe atribuo é ainda maior graças àquela minha simples vivência de espreitar e vê-la, ao longe, pelo buraco de uma fechadura...
 
Se víssemos mais vezes aquilo que nos rodeia, ao invés de apenas olharmos, talvez não nos deslumbrássemos tão facilmente com aquilo que foi definido como valor patrimonial pelos outros. Damos facilmente valor ao Património Mundial e a outros tipos de património classificado, esquecendo ou não dando importância ao nosso património - aquele que pode não ter valor para a humanidade, mas que certamente se reveste de uma enorme importância nas nossas vidas diárias.
 
É certo que a classificação do património é importante, mas não o deve ser apenas por uma questão de valorização, devendo sê-lo principalmente pela sua salvaguarda. Contudo, muitas vezes a classificação de bens é feita pura e simplesmente para lhes aumentar valor e, não menos vezes, para alimentar o ego de quem promove o processo de classificação. 
 
A classificação de um bem na categoria de Património Mundial, na grande maioria dos casos, nada tem a ver com a necessidade da sua salvaguarda para a humanidade e para as gerações vindouras, mas sim com a intenção de satisfazer uma necessidade presente de exaltação do seu valor perante os outros, motivada pela procura de daí retirar dividendos económicos, à custa do turismo. 
 
Não sou contra que se explore o património através do turismo. Pelo contrário, acredito que o turismo, quando planeado e estrategicamente estruturado, é um fator de desenvolvimento sustentado de uma região. No entanto, desenvolvimento sustentado significa conjugar eficazmente três vetores: social, económico e ambiental. No caso do desenvolvimento sustentado do turismo associado ao património, significa olhar para todos os tipos de património e fazer interagir todas as suas potencialidades, conferindo-lhe mais valor e, ao mesmo tempo, salvaguardando a sua utilização no futuro. Para além disso, é fazer com que o valor possa ser visto a partir de diferentes perspetivas e não apenas da mais óbvia, igual a tantas outras e que não marca pela diferença ou pela inovação.
 
Sobre este propósito, reparei que circula pela Internet uma petição contra a venda da Antiga Casa do Alcaide-Mor de Estremoz, vulgarmente e erradamente conhecida como Antiga Casa da Câmara. Trata-se de um imóvel situado na Rua do Arco de Santarém, e que foi, também por erro, classificado como Monumento Nacional. Hoje é uma ruína em pleno núcleo medieval da cidade, ameaçando a segurança de pessoas e bens, mas sobretudo atentando contra a boa imagem da acrópole estremocense.
 

Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.

Não me interessa discutir de quem é a culpa do estado de degradação a que o edifício chegou, até porque já alguém o fez recentemente e, em minha opinião, muito bem. O que interessa é que, em boa hora, a Câmara Municipal decidiu vendê-la, com a condição de que a sua utilização futura apenas poderia ser afetada à atividade turística. Aplaudo esta decisão, pois parece-me a mais adequada para o caso do património em questão. Há muito que se perdeu o seu eventual valor, a classificação como Monumento Nacional nunca lhe adiantou muito e não vai deixar de existir, a Câmara livrou-se de mais um problema no centro histórico, a recuperação e utilização por privados criará dinâmicas sociais e económicas (mais empregos e receitas turísticas), criar-se-á mais um estabelecimento hoteleiro (que tanta falta faz a Estremoz) e, principalmente, não terão que ser todos os contribuintes a pagar por isso.
 
Embora aceite a existência de outras possibilidades para o edifício, em minha opinião a que é apontada pelos subscritores da petição nada acrescenta de novo a Estremoz. É mais do mesmo. Outro espaço museológico, desta feita sobre a história medieval da cidade, mas cuja recuperação e construção teriam de ser pagas por dinheiros públicos, bem como a sua manutenção futura.
 
Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.
 
Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.
 
* Arquitecto-Paisagista António Serrano
Modificado em sexta, 08 julho 2016 15:13

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