sábado, 14 dezembro 2019
sexta, 27 maio 2016 15:48

Um dia todos seremos velhos

Escrito por
Crónica de opinião assinada pelo professor Luís Parente Crónica de opinião assinada pelo professor Luís Parente
Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos. Não que não soubesse que elas existem, porque sei, mas senti-me de tal forma desiludido com a regressão da espécie humana. Sim porque neste sentido tem havido um claro retrocesso e, Deus queira que não cheguemos aos tempos da Grécia Antiga em que a velhice era pouco valorizada ou mesmo a determinada altura da “Época Romana” em que essa mesma velhice era mesmo rejeitada. Estou em crer que isso não voltará a acontecer, pelo menos enquanto acreditar que a esperança existe.
 
O tipo de vida que se vive nos nossos dias em que tudo “é para ontem”, onde se valoriza mais a economia do que a vida humana, onde não há tempo para parar e reflectir porque o tempo corre incessantemente atrás do próprio tempo, é um tipo de vida que permite ao mundo ver atrocidades tais que envergonham qualquer ser humano que possua um espírito de comprometimento com os valores da humanidade, da solidariedade, da amizade, da compaixão, da cumplicidade, do reconhecimento.
 

Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos.

Depois de ver aquele programa fui, por curiosidade, ao site da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e aí descobri que em Portugal todas as semanas, em média, cerca de 20 idosos são vítimas de violência. Segundo a APAV a idade média dos idosos vítimas de maus tratos ronda os 75 anos e a grande maioria dos casos são do sexo feminino. Observei ainda que estas médias são muito superiores quando comparadas com outros países da União Europeia. Descobri que a maioria das agressões são feitas por familiares e que existem vários tipos violência contra idosos, desde logo a violência física, a psicológica, a sexual, de índole financeira, a negligência ou a violação dos seus direitos.  Todos estes tipos de violência estão bem expressos e explicados no já mencionado site da APAV, ainda assim, a estes, eu acrescentaria, só mesmo para reforçar o que pretendo, e mesmo estando já implícita nos outros, a violência contra os valores morais. Quando vejo os números da APAV questiono-me de imediato: E os outros velhotes? Aqueles que por um qualquer tipo de receio não se conseguem libertar da teia de pressão em que vivem? Aqueles que sofrem repetidamente abusos em casa ou em contextos institucionais? Aqueles que são explorados e extorquidos pelos seus próximos, sejam eles familiares, vizinhos, “amigos” ou cuidadores? Aqueles que sofrem de doenças, sejam elas incapacitantes fisicamente ou não? Aqueles a quem a medicação ministrada serve também para os prostrar? Tenho a certeza que se todos os casos fossem contabilizados estaríamos aqui a falar de números absolutamente abismais. 
 
Sobre esta problemática há uma outra coisa que me aflige ainda mais, a cumplicidade dos silêncios, o virar de costas, a inércia dos que vêem e fingem não ver. Este é um problema social e há que assumi-lo como tal. Há que aumentar e desenvolver mecanismos e estratégias de protecção da pessoa idosa de forma a evitar os abusos de que diariamente ouvimos relatos em tudo o que é comunicação social. Sinceramente não faço ideia de como se poderão desenvolver esses mecanismos mas já que temos tantas mentes brilhantes no nosso país, talvez seja a altura de os pôr a agir e não só a pensar e a mandar uns “bitaites” ou então começar a direccionar o seu próprio pensamento para aquilo que realmente tem importância… as pessoas, e neste caso particular as pessoas idosas. 
 
Na minha opinião não sei se será eficaz unicamente a aplicação de medidas legais de punição dos infractores/agressores ou somente fazendo alterações da própria legislação nesse sentido. Acho que é preciso actuar antes da velhice como forma de prevenção, não se pode actuar só depois, é preciso haver uma concertação de esforços para o agora e sobretudo para o antes, quem sabe se através de planeamentos e/ou programas que exijam aos adultos não séniores a própria preparação de auto defesas para a velhice; quem sabe talvez começando, ainda nas escolas e de uma forma mais incisiva e acentuada, a preparar uma cidadania de respeito pelos mais velhos. A este propósito eu mesmo, fruto da minha actividade profissional, já tenho vivenciado programas de excelente partilha de vivências entre idosos e jovens. Talvez seja por aqui que deve começar o apoio, talvez seja dando ao idoso o que fazer e não deixá-lo ali a um canto da casa, do lar, ou de onde quer que seja a definhar até a infinita noite chegar. Quiçá o segredo não seja aumentar a auto estima do idoso? Parar é morrer e a idade tem que voltar a ser um posto como se diz na gíria popular.
 
Ao longo da vida os nossos cabelos mudam de cor e a cor branca que adquirimos não é só física, os cabelos brancos trazem consigo a experiência, os ensinamentos. Os mais velhotes, é certo, andam mais devagar, mas muitas vezes pensam muito mais rápido, é essa tal experiência a falar do alto da idade.
 
Quando falamos em velhotes lembramo-nos certamente dos nossos avós. Eu lembro-me da minha avó “Bidá” – Claridade era difícil de dizer – (os meus outros avós, infelizmente, pouco os conheci) deliciava-me a ouvir as suas histórias sobre os seus tempos áureos de “menina e moça”. Com a minha avó aprendi a cozinhar um frango com cenouras soberbo, com ela aprendi, imagine-se, a coser à máquina numa daquelas máquinas SINGER antigas. Como já tinha muitas dificuldades de visão pediu-me para, com a sua supervisão, lhe virar um enlutado vestido de Verão que já estava muito ruço. E eu não me fiz de rogado e avancei.
 
Na casa da minha avó tudo era mais saboroso. Tive a felicidade de viver 18 anos na casa ao lado da dela e às vezes bastava a mãe passar a sopa pelo muro, para a avó, e utilizar uma mentirinha piedosa dizendo que a sopa era dela para que a mesma soubesse divinamente. Na verdade os cozinhados das avós são sempre os melhores. Há sabores e odores que ainda hoje sinto, com saudade é verdade, mas ainda os sinto. Acho que toda a gente tem na memória sabores e cheiros dos cozinhados dos avós. Têm mãos de fada os avós, adoram fazer coisas com os netos à escondida dos pais, inventam teatros, têm uma paciência de Jó. Mas quem fala em avós pode falar em pais e em tios, pode falar em avós que não o são geneticamente mas que contribuem em muito para a felicidade e para a formação pessoal e social dos “netos”. Todos eles deixam marcas profundas no coração, mesmo aqueles que não sendo nada em termos familiares acabam por ser pessoas que passam por nós e deixam atrás o seu rasto.
 

Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!

Os mais velhos transmitem-nos paz, conhecimento, sabedoria, dão-nos sábios conselhos, demonstram amadurecimento, são vigilantes, dão-nos afecto, são em muitos casos almofada, confortam-nos, dão-nos carinho, divertem-nos, dão-nos prazer, colo, são super defensores, ensinam-nos músicas, lengalengas, contos, são portadores de valores de amor incondicional, de determinação e respeito. Eles sabem benzeduras que nos tiram o “cobranto”, sabem mezinhas que nos aliviam as dores e passam de geração em geração, eles deixam raízes no mais fundo de nós.
 
Obviamente que nem tudo são rosas, com a idade vêm também problemas associados à saúde mas esses, esses não os podemos evitar, os outros sim, os tais que são afectos à violência, esses sim podemos evitá-los. Os meus velhotes sempre me disseram “Não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti.” Tento seguir este ensinamento ao máximo e se as minhas faculdades mo permitirem continuarei sempre a fazê-lo.
 
Congratulo-me, na realidade, com o que já existe no campo da prevenção, com os apoios concedidos pela APAV, por instituições como a PSP e a GNR, pelas Misericórdias, pelos Centros de Saúde, Centros de Dia, Lares e até mesmo pelas Universidades Séniores que fazem com que a 3ª idade passe com muito mais suavidade. Ainda assim é preciso mais não só porque UM DIA TODOS SEREMOS VELHOS mas para fazer ver àqueles que mesmo sendo novos são mais velhos que os próprios velhos pela forma absolutamente irracional como agem e pensam.
 
Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!
 
A infinita noite cairá para todos e nem a lua, ainda que cheia e brilhante iluminará o que quer que seja. Até lá aproveitemos para agir, para ajudar, contribuindo para um mundo melhor e façamos com que a vida seja só o dia e a noite para que, quando essa infinita noite cair, possamos dizer num último suspiro: “Valeu a pena!” 
 
Nota: No dia 15 de Junho comemora-se o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Pessoa Idosa         
                                                                                                                                                                                                                         
                                                                                                                                                                                                                              * Professor Luís Parente  
Modificado em sexta, 27 maio 2016 16:26

Deixe um comentário