quarta, 11 dezembro 2019
sexta, 13 maio 2016 23:07

FIAPE: momentos de uma paisagem sazonal

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Ano após ano, há uma paisagem sazonal que faz parte da minha vida. Chamo-lhe sazonal porque dura apenas cinco breves dias e porque regressa sempre. Cinco breves dias que demoram meses a planear. Cinco breves dias que requerem muita entrega por parte de todos aqueles que participam na sua organização e construção. Trata-se de uma paisagem sazonal que me acompanha há muitos anos e da qual me habituei a gostar muito: a FIAPE.
 

Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.

Ainda me lembro muito bem das primeiras edições da FIAPE, no Rossio. Claro que não me recordo da 1.ª edição, pois em 1983 Estremoz ainda ficava muito longe para mim... Mas recordo, com alguma saudade, os tempos em que estudei em Estremoz e via o Rossio encher-se de tratores e máquinas agrícolas e eu atravessava aquela imensidão de ferro colorido, no meu caminho para a antiga Rodoviária. Dessa época, também me lembro da exposição pecuária no Pavilhão do atual Mercado Abastecedor, muito graças ao facto de sempre ter pertencido às turmas de Agropecuária na Escola Secundária. Tudo isto há de ter acontecido quando a FIAPE ainda era uma criança, mas a imagem que tenho presente é a de uma feira de grande dimensão e com uma forte componente agrícola. Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.
 
Numa fase posterior da minha vida, há cerca de 18 anos, comecei a ver a FIAPE com outros olhos. Deixei de ser apenas espetador e passei a estar do outro lado. Nos primeiros anos, ainda que de uma forma muito subtil, fui-me embrenhando nos meandros da organização e apercebendo da verdadeira dimensão do certame.
 
Durante alguns anos, a FIAPE não conseguiu fazer frente à teimosia dos que insistiam em mantê-la estrangulada, sem hipóteses de evoluir para um modelo mais adaptado às exigências impostas pelo tempo. Continuou no Rossio, a definhar e a acompanhar a crise que se vivia na agricultura portuguesa em finais do século XX. Com ela continuou o modelo das barracas de chapa, dos espaços da Feira de Artesanato sem condições, do pavilhão do gado construído com rede sombreira e o insalubre piso enlameado do Rossio (pois também nesta época chovia sempre). Há quem diga que este modelo é que era bom. Que isto é que trazia mais vida à cidade. A mim, sinceramente, dói-me a alma só de pensar nas condições em que a feira se continuava a fazer, sem qualquer perspetiva de futuro, decaindo ano após ano.
 
Felizmente, alguém teve a coragem de a libertar daquele espaço e de a levar para o local onde hoje se realiza - o Parque de Feiras. Para muitos (se calhar já não são assim tantos), este equipamento sempre foi considerado um "elefante branco", sob o pretexto de que a sua utilização anual é diminuta e não justifica o investimento. Ainda que assim fosse (e eu sei bem que não é assim), para mim bastava que existisse apenas para realizar a FIAPE, porque este certame merece um espaço assim. A nossa cidade, as pessoas que vivem em Estremoz e as pessoas que visitam a feira merecem que a FIAPE se realize num espaço assim.
 
Só com um espaço destes é possível que, passados 30 anos, a FIAPE tenha tido este ano mais de 450 expositores, devidamente acomodados em espaços dignos e com excelentes condições de exposição e venda dos seus produtos. Só neste espaço se conseguem dar mais condições de acolhimento aos mais de 60.000 visitantes que estiveram na FIAPE este ano. Devemos orgulhar-nos pelo facto de Estremoz possuir um recinto com estas características e por este ter as condições necessárias para receber um certame como a FIAPE. Sem a existência deste espaço duvido muito que a FIAPE tivesse crescido o que cresceu e que fosse hoje um dos principais certames económicos da região Alentejo.
 
Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.
 
Mas o tempo tudo dá e tudo tira. A mim, deu-me de volta a FIAPE. Mas já não era a mesma FIAPE. Estava agora repleta de marcas estranhas, depois de tocada por mãos que nunca souberam compreender bem a sua verdadeira essência. Os visitantes e os expositores estavam saturados do seu modelo.  Foi preciso um esforço enorme para que retomasse de novo o seu caminho.
 
Acredito que hoje o caminho já foi encontrado e a FIAPE é, sem qualquer sombra de dúvida, um extraordinário evento que anualmente fica na memória de todos aqueles que a vivenciam: organização, trabalhadores, expositores e visitantes.
 

Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.

Na minha memória ficarão para sempre os momentos especiais que esta experiência me proporciona: a gratidão que sinto pelo espírito de entrega de todas as pessoas que comigo trabalham na FIAPE e que tudo fazem para que ela brilhe da forma como brilha. O início das montagens. A confiança que os expositores depositam na feira e a forma como são bem tratados e que os faz voltar ano após ano a Estremoz. A constante procura de inovação, que nos faz apresentar sempre algo diferente todos os anos e tentar fazer mais e melhor. A correria para que tudo esteja pronto a horas. A cerimónia de inauguração. O pulsar diário das atividades. Os sons, os cheiros e os sabores da feira. O brilho das luzes dos divertimentos. A ansiedade das dez da noite, à espera que chegue o mar de gente. O mar de gente. O movimento das pessoas na feira. O início dos espetáculos. A cor e o barulho da massa humana a vibrar com os espetáculos. A lotação esgotada. O chegar a casa com a alegria de ter conseguido atingir os objetivos...
 
No fim, fica a triste memória do regresso das carrinhas e dos camiões, que tudo levam dali. O espaço vazio. O caos que se instala devido a algo que já aconteceu e que só irá regressar dali a um ano. A constatação final da efemeridade e da sazonalidade do evento. As dores no corpo que nos fazem recordar os bons momentos. A tristeza por a FIAPE ter terminado tão rapidamente...
 
Não é costume acontecer, mas ao escrever sobre os momentos que a FIAPE me proporciona, já me chegaram as lágrimas aos olhos por mais do que uma vez... Não me importo de chorar pela recordação de bons momentos, principalmente quando sei que, mais dia menos dia, esta paisagem sazonal estará de regresso à minha vida.
 
Arquiteto Paisagista António Serrano
 
Modificado em sexta, 13 maio 2016 23:34

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