quarta, 11 dezembro 2019
sexta, 29 abril 2016 13:06

Até sempre… nossa gente!!!

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Acho que não sou muito dado a superstições. Para mim uma sexta-feira pode ser treze… o gato pode ser preto e atravessar-se à minha frente… os talheres podem estar cruzados… posso até entrar com o pé esquerdo em qualquer lugar… abrir um guarda-chuva dentro de casa… contar as estrelas até me apetecer… pendurar um quadro e deixá-lo torto… uma ferradura, para mim, não é nenhum amuleto… o trevo de quatro folhas é só um capricho da natureza… se a minha orelha está quente é só porque não está fria… se vestir uma peça de roupa do avesso é só uma chatice porque tenho que a despir e voltar a vesti-la das “direitas”… não encontro problema algum em brindar com bebidas não alcoólicas… para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei… já visionei centenas de estrelas cadentes e formulei o mesmo número de desejos, ainda assim, só como mero exemplo, ainda não me saiu o euromilhões… cada vez que comemoro mais um aniversário peço também um desejo e, sinceramente, não sei se algum me foi atendido… contudo, a este respeito, há uma coisa que não consigo fazer, passar por baixo de uma escada. Não me perguntem porquê que nem eu próprio consigo responder. Esta coisa das superstições tem muito que se lhe diga. Quem é que, por exemplo, nunca bateu três vezes na madeira para afastar o azar?
 

...para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei…

Na realidade, com o constante progresso que o nosso mundo vai evidenciando, é surpreendentemente estranho que, nas sociedades desenvolvidas dos dias de hoje, se continuem a valorizar as crendices e as superstições. Muitos não concordarão comigo, mas o que é certo é que elas existem e até mesmo nos países mais desenvolvidos.
 
No mundo do futebol as superstições, as rezas, as crenças são mais que muitas e a esse respeito, na ordem do dia, há até um jogador do Arsenal de Londres, chamado Aaron Ramsey, que dizem carregar consigo uma maldição, o que acontece é que cada vez que o mesmo marca um golo, há uma dita celebridade que morre. Obviamente que para mim são meras coincidências, no entanto como as pessoas ouvem isto repetidamente nos órgãos de comunicação social começam a partilhar da coincidência e a acreditar que tal pode ser verdadeiro.
 
Mesmo sem partilhar dessas crenças ou superstições, que são por vezes exacerbadas, tenho que reconhecer que, para já, este ano de 2016 tem sido surpreendentemente fértil em acontecimentos trágicos para o mundo do “show business”, sendo por esse facto motivo de análise em tudo quanto é sítio. Deste modo, dada a actualidade do assunto, pode ser interessante escalpelizar um pouco o sentimento que nos assola quando vemos partir do nosso dia-a-dia personagens, intérpretes, sítios ou sons que mais não são do que pessoas como nós, por vezes endeusados é certo, mas simples mortais que fizeram e fazem parte do nosso passado, do nosso presente e até do nosso futuro através de uma coisa tão fantástica que é a memória de cada um de nós. No fundo essas pessoas são parte das nossas vidas, temo-las quase como fazendo parte das nossas próprias famílias e também sofremos com a sua ausência física, chegamos mesmo a ficar chocados com o seu desaparecimento. Na verdade, nem sequer os conhecemos pessoalmente e ainda que só os conheçamos unicamente através de uma pequena caixa mágica, o tal ecrã de televisão ou o monitor do computador, parece-nos irreal que tal individualidade tenha a ousadia de desaparecer assim sem mais nem menos.
 
Este ano tem sido pródigo em desaparecimentos de gente da “família”. Todos os anos acontece, é verdade. Sempre irá acontecer, é um facto. Contudo, para a minha geração, tudo se torna um pouco mais inquietante, se assim lhe posso chamar. Ver partir referências da música, da representação, da arte, do humor, da cultura, faz com que nos apercebamos ainda mais que “todos somos pó” e que uma simples brisa nos pode levar para longe, num ápice. Na realidade todos somos iguais, não há ricos nem pobres, altos nem baixos, pretos ou brancos, muçulmanos ou católicos, ainda mais quando o que mais certo temos é mesmo a morte, e essa, calha a todos. Aí não há discriminações de qualquer género.
   
Para mim não existem celebridades ou famosos, para mim existem indivíduos que se evidenciam um pouco mais do que os outros na sua actividade profissional e com as quais as pessoas se vão identificando, quer seja pela forma como agem, como falam, como cantam, como vivem, como representam, como escrevem, como desenham. De alguma forma, houve algo nessas pessoas que despertou emoções, sentimentos… uma letra de uma canção sentida num momento especial (quem não tem uma música que considera a sua?)… um livro que descreveu de uma forma de tal maneira real determinada situação que nos fez entrar nele e fazer de nós próprios a personagem principal…  um simples conjunto de traços que formaram um desenho que nos fez soltar um “Uau!!” … um filme que nos levou às lágrimas e nos fez suspirar por determinada atriz (ou actor)… uma peça de teatro que também nos levou às lágrimas mas de tanto rirmos… uma jogada de génio de um futebolista, basquetebolista ou jogador de ténis… uma dança de tal forma harmoniosa que nos fez levitar como uma pena ao vento… uma voz de arrepiar numa simples emissão de rádio.
  

Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias.

Nos nossos dias são principalmente as redes sociais que fazem com que o luto sentido com o desaparecimento de uma dessas pessoas, que denominam de “famosos”, seja ainda mais intenso e prolongado no tempo. Proliferam os comentários, os “posts” de vídeos, as imagens com os rostos com pequenas frases associadas aos indivíduos, tudo isso se revela um motivo para o homenagear e assim prolongar no tempo a memória do mesmo.
 
Quando num acidente de viação no tão propalado “Tunnel de l’Alma” em Paris faleceu a princesa Diana de Gales, o mundo ficou em estado de choque, não só por ser a pessoa mais fotografada por “paparazzis” em todo o mundo, mas por ser uma pessoa boa de quem toda a gente gostava e dotada da humildade que normalmente a sobranceira realeza não tem.
 
Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias. Em Portugal José Boavida, Nicolau Breyner e Francisco Nicholson deixaram o sorriso, a simpatia e os ensinamentos a muitos realizadores e escritores, actores e actrizes em ascensão… Nuno Teotónio Pereira deixou o nosso país mais rico pela sua arquitectura… O mundo ficou melhor com o legado musical deixado pelo camaleónico David Bowie e pelo multi-instrumentista Prince… beneficiou com o brilhantismo de Johan Cruijff no futebol, com a voz e a extraordinária representação de Alan Rickman no teatro e no cinema e com o fantástico discorrer de palavras do notável Umberto Eco.
 
E porque esta gente merece e todos somos gente… até sempre, nossa gente!!!
 
* Professor Luís Parente
Modificado em sexta, 29 abril 2016 13:16

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