quarta, 16 outubro 2019
segunda, 04 abril 2016 02:08

Alguém se voluntaria?

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Quando esta pergunta é formulada por alguém, sinto que a maioria, para não dizer 99% das pessoas, tenta esconder-se atrás de quem está à frente para não ser visto ou, estando na primeira fila, desviar o olhar para não o cruzar com quem formulou a questão, “não vá o diabo tecê-las” e decidir o interlocutor chamar-nos e tornar-nos voluntários à força. A este propósito relembro que há uns anos atrás fui com as minhas filhas ao circo e, num número de um palhaço, perante uma assistência “praí” de 200 ou 300 pessoas, o palhaço escolheu 3 pessoas… adivinhem quem era uma dessas pessoas… pois é, eu mesmo. Logo eu que estava na última fila lá mesmo no cimo… Não me fiz de rogado e lá fui com o meu espírito de brincalhão aceder às palhaçadas propostas pelo palhaço-mor. Acabou por ser uma experiência divertida que pôs toda a gente a rir mas, para ser sincero eu fui um daqueles 99% a tentar esconder-se atrás dos outros. Pois é, nem sempre o facto de nos escondermos nos serve de muito, aliás, acredito mesmo que não é por nos escondermos que as coisas não nos podem acontecer.
 

O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado.

Isto de ser voluntário para coisas que aparentemente nos escapam por não sabermos para o que vamos, tem muito que se lhe diga. Mesmo para aquilo que se sabe já parece ser difícil ser-se voluntário. Muitas vezes diz-se “- Mais valia estar sossegado no meu cantinho que tinha com certeza menos trabalho!”. Até pode ser verdade mas o sal da vida pede-nos para intervirmos, eu pelo menos dificilmente rejeito um desafio onde sinto que posso ser útil. É importante sentirmo-nos úteis e contribuirmos para o bem estar dos outros. Aliás, a convivência social e as nossas próprias vidas impelem-nos para isso mesmo, para a partilha de serviços, de ajuda, de comunicação. No fundo, por intermédio desse voluntariado, há relações sociais que evoluem, relacionamentos que se solidificam.
 
Segundo a lei portuguesa voluntariado é “… o conjunto de acções de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada…”. Na realidade o voluntariado está ligado umbilicalmente ao trabalho, ainda que o mesmo seja não remunerado e funcione como um complemento ao trabalho que é desenvolvido pelas administrações, sejam elas públicas ou privadas.
 
O voluntário vê-se em todo o lado, cruza-se diariamente connosco. Ainda que oculto nas horas e nos minutos que passam por nós, ele está ali, alerta, pronto a intervir e, se assim for, disposto a dar a vida pelos outros. Veja-se o caso dos Bombeiros que para salvarem os nossos bens arriscam a vida, eles que, de quando em vez, tanta dificuldade têm em arranjar voluntários, a Cruz Vermelha, a Cáritas, as Misericórdias, enfim uma panóplia de instituições que funcionam com o apoio voluntário de muitas pessoas que continuam a despender o seu tempo em prole do bem estar comunitário. Foram-se criando os úteis Bancos do Tempo para simplesmente o trocar. Esse tempo é tempo também voluntário, tempo trocado por serviços e acções que ajudam o próximo.
 
O voluntário não tem idade. Ainda que muitas das leis internacionais restrinjam a ajuda voluntária a menores de 18 anos, eu acredito que o voluntário também é criança e jovem, não somente adulto e até mesmo idoso. O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado. No entanto há que ressalvar a diferença entre o voluntariado formal e informal. O primeiro é aquele que é feito junto das organizações sem fins lucrativos, o outro é o individual, o do dia-a-dia. 
 
O altruísmo acaba por ser, consequentemente com o voluntariado, um dos grandes impulsionadores das organizações não-governamentais, as chamadas ONG’s. Elas desenvolvem papéis de extraordinária importância num mundo demasiadamente desigual como é o nosso. 
 
Todos somos um bocadinho voluntários quando, por exemplo, doamos sangue, quando oferecemos livros, quando ajudamos a limpar florestas, quando contribuímos como “curadores” de idosos, quando ajudamos o velhote a atravessar a rua, ou quando simplesmente reciclamos. São demasiados os actos voluntários que o comprovam, basta intervirmos civicamente, de uma forma simples ou até científica, educativa, saudável, cultural, desportiva, protectora, tolerante. O voluntário pode sê-lo por inúmeros motivos, por convicção, por caridade, por educação, por fé, por amor, no fundo basta que no ADN esteja um bocadinho de personalidade, basta que se tenha prazer em ajudar os outros, os mais vulneráveis, os mais necessitados. O que é certo é que nunca saberemos se esses necessitados não poderemos ser nós um dia. Talvez como forma de agradecimento, não raras vezes, o acto voluntário é replicado por quem já um dia usufruiu directamente da ajuda.
 
Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.
 
Mais do que nunca, nos dias de hoje é importantíssimo constar num simples curriculum vitae de candidatura a um emprego, a participação voluntária em actividades colaborativas ou de cooperação social. 
 

Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.

Talvez pelo facto de trabalhar com crianças e jovens, eu próprio seja sensível ao trabalho voluntário desempenhado em prole da sua ocupação de tempos livres. Desde o trabalho desenvolvido em instituições religiosas, clubes desportivos e culturais e associações de diversa índole, destaco a transmissão de valores como elemento preponderante de cada uma das acções por eles desenvolvidas. 
 
Para o desenvolvimento da minha personalidade tenho que dar enfase aos movimentos católicos por onde andei, dos grupos de jovens aos escuteiros (dos quais fiz parte do primeiro grupo da minha cidade há mais de trinta anos), devo realçar o fantástico trabalho voluntário prestado por aqueles monitores, um trabalho que moldou consciências, formou pessoas, desenvolveu em muitos de nós o companheirismo, a lealdade, a fraternidade, a solidariedade, os laços de amizade que ainda hoje perduram, a entreajuda, a moral, a ética, a resistência, apurou-nos os sentidos, trouxe-nos humildade, honestidade, liberdade, fez-nos procurar a verdade, fez com que nos “desenrascássemos”, desenvolveu-nos a criatividade, o respeito pelo próximo e pela natureza, trouxe-nos sobretudo humanidade, responsabilidade e capacidade de intervenção.
 
Dos muitos ensinamentos que retirei na minha juventude partilho convosco um excerto da última mensagem de Baden-Powell, o fundador do escutismo, palavras essas que, ainda hoje, fazem parte da forma como vivo a minha vida: “Contentai-vos com o que tendes e tirai dele o maior proveito que puderdes. Vede sempre o lado melhor das coisas e não o pior. Mas o melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros. Procurai deixar o mundo um pouco melhor de que o encontrastes e quando vos chegar a vez de morrer, podeis morrer felizes sentindo que ao menos não desperdiçastes o tempo e fizestes todo o possível por praticar o bem.
 
O trabalho voluntário daqueles monitores conseguiu que cada um de nós moldasse o seu próprio carácter e conseguisse ter a capacidade para agradecer. Eu fiquei com a capacidade de reconhecer essa gratidão e por isso mesmo, a todas as pessoas que caminharam ao meu lado só lhes posso expressar uma palavra… OBRIGADO!
 
*Professor Luís Parente
 
 
Modificado em segunda, 04 abril 2016 09:08

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