quarta, 16 outubro 2019
sexta, 18 março 2016 01:21

Um ensaio sobre a cegueira

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Durante a apresentação de mais uma iniciativa que vai acontecer na nossa cidade, o projeto Miss Estremoz, integrado na organização da Miss Portuguesa 2016, disseram-me que Estremoz tem atualmente uma das melhores dinâmicas culturais do Alentejo. É algo que me deixa muito feliz e orgulhoso, como estremocense, e com o qual concordo em absoluto.
 
Não percebo, por isso, por que razão algumas pretensas personalidades desta terra continuam a procurar fazer passar a ideia de que em Estremoz nada acontece e que não existe "cultura".
 
Em primeiro lugar, o que se entende por Cultura? Será que o fazer Cultura se esgota apenas na realização das ditas "iniciativas culturais"? Na realização de eventos ou atividades artísticas? Não. Cultura é mais, muito mais...
 

Sempre ouvi dizer que o maior cego é aquele que não quer ver. No que me diz respeito, continuarei a tentar ver mais além e a combater acerrimamente todos aqueles que teimem em continuar na sua cegueira, pelo menos enquanto houver pessoas cujo único objetivo é tentar afundar o barco, ao invés de ajudar a remar para que ele chegue a bom porto e a criar algo culturalmente positivo.

Obviamente que não será necessário munirmo-nos de um dicionário da Língua Portuguesa e procurar o significado do termo para perceber isso. Cultura terá sempre que ser entendida como todas as interações entre o Homem e o seu meio envolvente, ou seja, a paisagem. O próprio conceito de paisagem encerra em si uma forte componente cultural, uma vez que aquela resulta do somatório das diversas manifestações naturais (solo, ar, água, vegetação, fauna...) com as atividades humanas que decorrem nesse suporte biofísico. Assim sendo, à exceção dos elementos que a Natureza fabrica sem a intervenção do Homem, podemos dizer que todos os restantes elementos que existem na paisagem e que resultam da sua humanização, são formas de Cultura.
 
A oliveira é um elemento natural. Não temos quaisquer dúvidas em relação a este facto. No entanto, o olival plantado pelo Homem é um elemento cultural, pois resulta da manipulação de um elemento natural para atingir um fim produtivo e útil para a humanidade. Plantar um olival também é fazer Cultura, se a entendermos como um conjunto de respostas, contrastantes com a Natureza, para satisfazer as necessidades e os desejos humanos.
 
A Cultura é, assim, um conjunto de ideais, símbolos, comportamentos e práticas humanas que são transmitidas de geração em geração, através da nossa vivência em sociedade. Por isso, fazer Cultura é criar algo. Criar espaço, criar formas, criar nova vida, criar alternativas, criar soluções, criar vontades, criar utilidade, criar prazer, criar lazer, criar trabalho, criar identidade... deixar a nossa marca no tempo e no espaço em que vivemos e transmitir os nossos conhecimentos às gerações seguintes, que os poderão utilizar ou renovar.
 
Todos os dias estamos a conceber Cultura e em Estremoz obviamente isso também acontece. Seja através das criações dos indivíduos, das famílias, das coletividades, das empresas, das escolas, das instituições públicas e privadas ou da comunidade.
 
No desenvolvimento cultural de uma comunidade parece-me de grande relevância o papel das coletividades e dos municípios.
 
As coletividades, com mais ou menos história ou existência, pela forma como transmitem a outros indivíduos os mais diversos saberes e tradições da comunidade. No concelho de Estremoz existem cerca de meia centena de coletividades, desde ranchos folclóricos a clubes desportivos, sociedades filarmónicas, orfeão, grupos de dança, grupos de teatro, grupos musicais, comissões de festas, sociedades recreativas e muitas outras instituições que têm sabido, ao longo do tempo, criar a Cultura e a identidade estremocense. E continuam a fazê-lo muito bem. Não é à toa que praticamente todos os fins-de-semana existem inúmeras atividades organizadas pelas diversas coletividades, de acordo com as suas respetivas missões, para além das atividades que dinamizam durante os restantes dias da semana, quer se trate do ensino da música, do aperfeiçoamento das técnicas de dança, do treino desportivo ou pura e simplesmente do convívio entre os seus associados. 
 

...mesmo que eu fosse daqueles que entendem a Cultura de uma forma muito minimalista, continuaria sem perceber qual a razão que os leva a afirmar que em Estremoz não se faz Cultura. Ou a resumir, como alguns já o tentaram fazer, a atividade cultural do concelho de Estremoz a duas ou três iniciativas de carácter individual, independentemente do mérito que elas tenham ou que se lhes reconheça.

Aos municípios cabe gerir o desenvolvimento cultural do concelho, apoiar as atividades desenvolvidas pelas associações, divulgar e guardar conhecimento, recuperar património e, naturalmente, organizar atividades de enriquecimento cultural da comunidade. Em Estremoz, centenas de pessoas trabalham diariamente para conseguir atingir estes objetivos, designadamente nos Museus, no Arquivo Municipal, na Biblioteca, no Posto de Turismo, nos equipamentos culturais, nos equipamentos desportivos, e em muitos outros sectores da atividade administrativa e operacional do Município. Ainda que resumíssemos a Cultura apenas àquilo que é mais óbvio e comummente aceite como tal - as iniciativas ditas culturais - era-me impossível enumerar, no espaço que disponho para escrever, todas as atividades que o Município realiza anualmente e que contribuem para fazer Cultura, no âmbito das suas atribuições e competências (e, não raras vezes, muito para além delas).
 
Por isso, e mesmo que eu fosse daqueles que entendem a Cultura de uma forma muito minimalista, continuaria sem perceber qual a razão que os leva a afirmar que em Estremoz não se faz Cultura. Ou a resumir, como alguns já o tentaram fazer, a atividade cultural do concelho de Estremoz a duas ou três iniciativas de carácter individual, independentemente do mérito que elas tenham ou que se lhes reconheça. Isso será, no mínimo, ter uma visão muito redutora da Cultura e um total desrespeito para com todos os indivíduos, empresas, associações e instituições que todos os dias contribuem para o desenvolvimento cultural de Estremoz, nas suas mais variadas formas.
 
Desconheço se o fazem por ignorância, por mesquinhez ou simplesmente pela sua incapacidade de ver mais além, de fazer igual ou de fazer melhor do que aquilo que é feito. Ou talvez porque são daquele tipo de pessoas que apenas gostam de ser do contra, ou que se julgam entidades superiores e, por isso, acham que a sua opinião tem tão especial importância que deve ser partilhada...
 
Sempre ouvi dizer que o maior cego é aquele que não quer ver. No que me diz respeito, continuarei a tentar ver mais além e a combater acerrimamente todos aqueles que teimem em continuar na sua cegueira, pelo menos enquanto houver pessoas cujo único objetivo é tentar afundar o barco, ao invés de ajudar a remar para que ele chegue a bom porto e a criar algo culturalmente positivo.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 
Modificado em sexta, 18 março 2016 01:32

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