quarta, 16 outubro 2019
sexta, 05 fevereiro 2016 12:04

Os meus lindos olhos azuis

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Talvez seja muito pretensiosismo da minha parte mas os textos que escrevo, por norma, falam sobre mim e sobre aquilo que penso e sinto. Este, naturalmente, não fugirá à regra e trará, com certeza, arrastado a si um misto de sentimentos que, invariavelmente, abordarão a tristeza mas também a alegria. Neste caso em particular talvez vá expôr um pouco mais da minha vida do que aquilo que eu próprio considero que deveria, ainda assim, como esta minha vida tem sido gerida por sentimentos (impulsos não, sentimentos…) sinto que é assim que devo fazer.
 
Pensei escrever sobre o Carnaval e até sobre o amor visto este ser o mês, per si, dedicado ao amor. No entanto, as circunstâncias da vida fizeram com que efetivamente escrevesse sobre o amor mas noutra perspectiva.
 
Este ano de 2016 não tem sido um ano particularmente positivo para mim. Eu não tenho por costume dividir as acções ou os acontecimentos que envolvem a minha vida por anos, prefiro encará-los por fases, umas mais positivas outras nem por isso, mas o que é certo é que este curto período que compreendeu o início do ano e o momento actual tem sido bastante difícil para mim e para os meus. De hospitais a funerais tem sido “um ver se te avias”. Quero acreditar que é só mais uma fase, mais uma etapa que fará com que haja mais aprendizagem e crescimento. Contudo, para se crescer assim, inevitavelmente haverá sofrimento, sofrimento que pode esbarrar de frente num muro e ficar ali estatelado e guardado num qualquer cantinho do coração sem sequer haver hipóteses de nos reerguermos, ou um sofrimento que, mesmo esbarrando de frente nesse muro nos obriga a levantar e a transpô-lo sem apelo nem agravo com a ansia de o ver atrás das costas e o mais longe possível de forma a esquecer o choque.
 

Pensavas o quê? Que era para ires? Então não vês que não era a hora? Tu não vês que fazes cá falta?

De certeza que à maioria das pessoas o muro já lhe apareceu à frente e o próprio chão já lhes fugiu debaixo dos pés mais do que uma vez. Quando digo isto não o digo por me referir a qualquer tipo de queda, refiro-me aos pontapés que a vida nos dá, às vicissitudes que nos vão surgindo ao longo do nosso percurso.
 
Foi assim que me senti, com o chão a fugir-me debaixo dos pés, quando um médico nos disse, há cerca de duas semanas, que havia rebentado um vaso sanguíneo no cérebro de uma das mais importantes pessoas da minha vida, provocando uma hemorragia cerebral e que a situação se afigurava como grave. As horas que se seguiram a esta notícia foram como se fossem anos, duros anos! Neste tempo tudo nos passa pela cabeça, acreditem, tudo mesmo! E o que mais nos incomoda é a dolorosa pressão de tentar afastar o pensamento de uma possível perda e não conseguir, incomoda-nos o facto de tentar controlar aquele saco lacrimal e o mesmo não respeitar a tentativa fazendo escorrer o líquido incessantemente e sem qualquer tipo de controle. Outra coisa que nos incomoda de sobremaneira é o silêncio, é a ausência de palavras, a ausência de respostas, o porquê. Ao mesmo tempo imaginamos um milhão de respostas, terá sido stress? – sabemos que o stress afecta claramente o cérebro, está provado que o mesmo faz a pressão sanguínea ser maior… terá sido um acumular de tensões? Enfim, um milhão de respostas que não nos dão garantia absolutamente nenhuma de estarem correctas.
 
De entre tantas respostas surgem medos, surgem sensações de completa impotência, surgem arrependimentos… sim arrependimentos por pensarmos que passamos pouco tempo com as pessoas que amamos, por pensarmos que, não raras vezes, nos aborrecemos com situações fúteis, sem qualquer tipo de importância.
Quando às seis da manhã desse dia 24 de janeiro nos dizem que um aneurisma cerebral havia rebentado e que a tentativa de resolução desse problema passaria por uma intervenção cirúrgica a realizar daí a duas horas, nós só queremos que o tempo passe depressa. Só de imaginarmos que num outro fim de semana, com este mesmo problema, um jovem perdeu a vida num qualquer outro hospital de Lisboa por falta de assistência médica, os arrepios sucedem-se, uns a seguir aos outros. De certeza que em circunstâncias idênticas, se crentes, todos rezarão ao seu Deus, senão, pelo menos acreditarão na competência dos profissionais que realizam o seu trabalho em prol dos outros. No meu caso específico, rezei ao meu Deus imaginando que as suas mãos eram as mãos daqueles profissionais, daqueles homens e mulheres do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. E elas estiveram lá… AQUELAS MÃOS ESTIVERAM LÁ, não para levar a esperança para outro lado mas para a trazer até nós.
 
Os serviços de saúde são muitas vezes criticados na praça pública, justa ou injustamente, por eventuais acções de negligência. Quando as boas práticas médicas são na realidade motivo de serem elogiadas, não deve haver pejo em fazê-lo, devem ser enaltecidas e divulgadas. Nesta situação em concreto, aos profissionais de saúde de serviço nesse dia nas urgências do Centro de Saúde de Estremoz, aos do Hospital do Espírito Santo de Évora e até aos do Hospital de Santa Maria em Lisboa é devido o reconhecimento por tudo terem feito para rapidamente serem desenvolvidos todos os mecanismos de apoio a esta situação em si.
 
Situações deste género servem para perceber que somos unidos, servem para perceber que o apoio da família foi precioso para ultrapassar cada degrau e aí, o papel do mano, da esposa e da cunhada têm sido fulcrais para o compreender. Estas situações também servem para perceber que temos amigos e que eles estão cá para o que for preciso.
 
Toda a gente diz que a sua mãe é a melhor do mundo. Vão desculpar-me mas terei que discordar, também tenho a certeza que todos discordarão de mim, e estão no seu direito mas, na realidade, é a minha que é a melhor mãe do mundo! Sim, tu mãe… és a melhor do mundo!
 

Quando às seis da manhã desse dia 24 de janeiro nos dizem que um aneurisma cerebral havia rebentado e que a tentativa de resolução desse problema passaria por uma intervenção cirúrgica a realizar daí a duas horas, nós só queremos que o tempo passe depressa.

Pensavas o quê? Que era para ires? Então não vês que não era a hora? Tu não vês que fazes cá falta? Ainda tens que ensinar as contas de multiplicar e dividir a muita gente… ainda tens muitos teatros para ver… ainda tens que ir muitas vezes aos bailados clássicos e ao cinema… ainda tens que partilhar o teu bom coração com muita gente… ainda tens muito para ensinar e aprender… ainda tens que passear… passear muito.
 
Tu não vês que há muitas pessoas que gostam de ti e que gostam de estar contigo?
 
Muita gente diz que tiveste uma sorte tremenda, parece que foi como se te tivesse saído o euromilhões, eu acredito mais em competência e, sinceramente, acredito que as mãos Dele estavam cá em baixo a guiar as mãos dos outros. O nosso Deus estava contigo, mãe!
 
Já imaginaste como nós nos sentiríamos se ficássemos sozinhos? Sem ti que nos geraste, que nos criaste, que nos ensinaste muito do que somos e do que sabemos, a mim até a ler e escrever foste tu que me ensinaste (esses 4 anos foram difíceis, é verdade. E sempre te disse que preferia ter sido aluno de outro professor… era tudo mentira, não trocava esses anos por nada!)
 
Será que não vês que não poderia amar mais ninguém desta maneira? (E olha que era um desperdício, a sério!)
 
Ainda não percebeste que os meus lindos olhos azuis não são os meus, são os teus?
 
* Professor Luís Parente
 
Modificado em sexta, 05 fevereiro 2016 15:15

1 comentário

  • Ligação de comentário Henriqueta Ilhicas sexta, 05 fevereiro 2016 15:03 postado por Henriqueta Ilhicas

    Lindo e sentido texto. Parabéns, Luís! Que bom não ter chegado a hora daqueles olhos azuis se fecharem... é uma dor e uma saudade inexplicável, até quando estamos a sorrir choramos, é um choro só nosso, muito profundo, invisível aos olhos azuis, castanhos, verdes, pretos ... dos outros! Beijo-te com carinho e amizade.
    Henriqueta Ilhicas

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