sábado, 14 dezembro 2019
domingo, 10 janeiro 2016 02:03

O Tempo dos nossos Tempos

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A visualização de um pequeno vídeo do surpreendentemente humilde ex-presidente da república do Uruguai, José Mujica sobre os valores da sociedade actual e a forma como vivemos o tempo, fez com que eu próprio explorasse um pouco este assunto. Mas, para que melhor se entenda aquilo a que me refiro, talvez seja melhor reproduzir aqui as suas próprias palavras:
Inventámos uma sociedade de consumo em que a economia tem que crescer ou acontece uma tragédia. Inventamos uma montanha de consumos supérfluos… mas o que se gasta é tempo de vida. Quando compro algo, ou tu, não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter aquele dinheiro. Mas com uma diferença, tudo se compra menos a vida. A vida gasta-se e é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade.”
 
De facto, esta azáfama em que se vive e estes valores temporais que nos tentam incutir nos dias de hoje, só nos faz mesmo… passar tempo. Não conseguimos sequer aproveitá-lo para as coisas que realmente interessam, para as coisas que nos dão gozo, para as coisas que são efectivamente importantes para nós.
 

Não queiramos que o tempo passe tão depressa, há coisas que nos vão fazer ter saudades, mesmo sabendo que tudo valeu a pena vão fazer-nos ter saudades. Todo o tempo passado já não volta a passar pelo nosso tempo (pelo menos tal como o conhecemos), mas se o vivermos à pressa nem sequer conseguiremos saborear o momento.

O tempo consome-nos, as distracções desta e de outras vidas são mais que muitas.
 
O tempo voa e muita gente não consegue encontrá-lo para simplesmente ser feliz. 
 
O tempo passa, e passa tão velozmente que quando nos apercebemos que queremos chorar, que queremos rir, estar, amar, sorrir, que queremos tão somente olhar ou viver, o tempo já passou por nós e o tempo que passa já não regressa, só tem bilhete de ida. Quando nos apercebemos disso já ele nos ultrapassou a toda a velocidade e levou também consigo a vida que não vivemos. De certa forma, por vezes, chega a deixar-nos um amargo de boca o facto de não conseguirmos recuperá-lo, mas não conseguimos mesmo, já se perdeu, e aquele que se perdeu foi aquele que já passou.
 
O tempo urge e outros gostariam de ter mais tempo… mais tempo para perder, mais tempo para ganhar, gostariam de ter a liberdade de poder gastá-lo, vivê-lo, aproveitá-lo, senti-lo e até mesmo poder matá-lo. Mas será que não se tem mesmo essa liberdade? Eu não acredito, de todo! Cheguei à conclusão que a frase “Não tenho tempo!” pode ser uma autêntica treta! Toda a gente tem, à partida, o mesmo tempo, a sua forma de gestão é que pode diferir… o ritmo com que o mesmo se gasta é que pode ditar a liberdade que se tem para o gerir. Esqueçamo-nos então da ideia de que não se tem tempo e façamos nós o nosso próprio tempo.
 
Se repararmos o tempo está em tudo o que fazemos, está naquilo que sentimos, no que lemos. Quem não reconhece o trava-línguas “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”? O tempo está em todo o lado. Aqui por Estremoz, por exemplo, está inscrito aos pés da imagem do deus Saturno, num dos ex libris da cidade, no conhecido Lago do Gadanha, o texto “Corre o tempo velozmente, como a água da corrente. Nós também da mesma sorte, correndo vamos à morte.”
 
O tempo é, na realidade, o momento, desaparece num ápice, é verdade, mas é o momento. Uns dizem que é dinheiro, outros classificam-no de ouro. Nenhuma destas classificações se pode deixar de considerar verdadeira, porém, para mim é muito mais do que isso, para mim o tempo é professor. Ele ensina-nos tanto! Traz-nos tanta coisa!… A mim trouxe-me responsabilidade, trouxe-me a maturidade que quase não tive quando, por exemplo, nasceu a Mariana, trouxe-me a maturidade que começou a desenvolver-se mais rapidamente quando depois apareceu a Matilde e mais tarde o Miguel. Se querem que vos diga, 28 anos de tempo passado não me trouxeram a capacidade de ter a maturidade necessária para perceber, nessa altura, o que era um filho. Agora sim tenho a noção de a ter desenvolvido, foi também o tempo que ma trouxe, mas não ma trouxe sozinha, transportou consigo a experiência para que hoje o possa compreender.
 
Para ser sincero imagino o tempo de cada pessoa incrustado num chip dentro de cada um dos nossos corpos com uma espécie de cronómetro que começa a funcionar num acto de amor e que vai passando, segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia… sem nunca sabermos quando a energia acaba, sem nunca sabermos sequer quando se desliga, quiçá para sempre.
 

Se querem que vos diga, 28 anos de tempo passado não me trouxeram a capacidade de ter a maturidade necessária para perceber, nessa altura, o que era um filho. Agora sim tenho a noção de a ter desenvolvido, foi também o tempo que ma trouxe, mas não ma trouxe sozinha, transportou consigo a experiência para que hoje o possa compreender

É por isso que o tempo enquanto é tempo tem que ser doce, suave… o tempo enquanto é tempo tem que ser vivido calmamente e o nosso foco tem que estar cada vez mais direccionado para a positividade, para o que nos faça bem, para as nossas pequenas conquistas, para a simplicidade de um sorriso, de um gesto, de um abraço.
 
Não queiramos que o tempo passe tão depressa, há coisas que nos vão fazer ter saudades, mesmo sabendo que tudo valeu a pena vão fazer-nos ter saudades. Todo o tempo passado já não volta a passar pelo nosso tempo (pelo menos tal como o conhecemos), mas se o vivermos à pressa nem sequer conseguiremos saborear o momento.
 
O melhor tempo da minha vida é aquele que aproveito para passar com os meus filhos. Eu tento, a sério que tento que ele não passe tão depressa, chego mesmo a pensar que a pressa dele não é a minha pressa, mas o que é certo é que ele corre mais depressa do que eu e quando dou por isso ele já foi, no fumo dos dias, das horas, dos minutos, dos segundos e a única coisa que fica é o rasto da memória. Na verdade nós aprendemos a viver com isto mas reflectindo bem, o que efectivamente mais importa é sabermos viver o tempo que aí vem, ainda que guardemos as memórias do que se esfumou.
 
Professor Luís Parente
 
Modificado em domingo, 10 janeiro 2016 02:19

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