quarta, 16 outubro 2019
quinta, 24 dezembro 2015 11:23

Desejos de Natal

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Dezembro traz com ele o fim de mais um ciclo e o começo de outro. O Solstício de Inverno, que acontece todos os anos por volta do dia 22 no hemisfério norte, assinala o início da fria estação que lhe dá o nome e brinda-nos com o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Tudo porque o sol, nesse dia, atinge a sua maior distância angular em relação ao plano que o separa da linha do equador. Mais uma vez a paisagem se altera para receber este novo ciclo e preparar o próximo. A vegetação entra num período de letargia, ou repouso vegetativo, ganhando forças para se voltar a renovar no equinócio da Primavera.
 
Com o início do Inverno chegam também o Natal e o Ano Novo, pontos altos do calendário da Humanidade, cristã ou pagã. Muito graças ao Cristianismo, com o Natal celebramos o nascimento de Jesus. Um nascimento que, segundo o Antigo Testamento, ocorreu numa humilde cabana em Belém e foi assinalado com a passagem de uma estrela que indicou o caminho a pastores e reis magos que foram adorar o Menino e entregar-lhe presentes. Começa, talvez assim, a tradição de nesta data festiva se oferecerem presentes às pessoas de quem mais gostamos.
 

Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.

Ainda me lembro de, em criança, na manhã do dia 25 de dezembro, correr disparado para a chaminé, onde na véspera tinha colocado os sapatinhos e um milhão de desejos, à procura dos presentes que o Menino Jesus lá tinha deixado, juntamente com uma poça de água que alguém improvisara, para atestar a sua passagem pela nossa casa. Sim, Jesus também tinha as suas necessidades, como qualquer menino e uma longa e árdua tarefa para uma só noite, não podendo perder um só segundo com ninharias, como uma casa de banho.
 
Hoje em dia, a maior parte das crianças já se esqueceu do Menino Jesus. Por influência da globalização, estas escrevem cartas ao Pai Natal, uma figura tipicamente nórdica e sem qualquer ligação à nossa cultura mediterrânica, mas que se apoderou do imaginário de todos, ao ponto de substituir toda a ideia da natividade. Claro que é hoje mais fácil conceber e fazer passar a ideia de um homenzinho forte, de barbas brancas, com vestes vermelhas, que vive na Lapónia com um batalhão de duendes e que se desloca no seu trenó, carregado de presentes e puxado por renas. É muito mais fácil que as crianças se apaixonem por esta figura e que, em momento algum, questionem o enorme feito que deve ser escorregar pelas chaminés de todo o mundo para lhes deixar todos os presentes que pediram nas suas cartas.
 
Não sabem estas crianças que, afinal, o trenó do Pai Natal vem carregado de horas e horas passadas pelos seus pais a percorrerem mil e uma lojas, vários centros comerciais e hipermercados para conseguir aquela boneca, aquele carrinho, a playstation ou as roupas da moda, que foram vistas pelos meninos na televisão, no intervalo dos desenhos animados, e que se materializaram em desejos escritos na carta que escreveram ao senhor das barbas brancas. O consumismo atinge o seu auge, mas vale tudo para ver um sorriso na cara das crianças. Confesso que também eu contribuo para encher o trenó do Pai Natal da mesma forma, em especial desde que nasceu a minha filha, porque nada é melhor que a alegria do seu sorriso.
 
Pessoalmente não gosto muito do Natal, mas não posso deixar de concordar que é uma época do ano carregada de magia. Por todo o lado a paisagem urbana altera-se e as ruas enchem-se de luz, de cores, de sons e de cheiros característicos. Os nossos cinco sentidos despertam para a necessidade de consumir até à exaustão, até não restar nem mais um cêntimo no fundo da algibeira. Mas pelo menos teremos o melhor de todos os natais. Uma mesa recheada de sabores, onde não faltarão o bacalhau, as filhoses, o bolo rei e uma série de outras iguarias. Uma árvore de Natal com tudo aquilo a que tem direito, desde as fitas, às luzes, às bolas e a um sem fim de outras decorações que todos os anos são diferentes. E, claro, presentes e mais presentes, para todas as idades, gostos e feitios.
 

Ao mesmo tempo, pelas ruas, pelas lojas, pelas casas, pelos emails e através dos telemóveis, multiplicam-se mensagens de boas festas. Muitas delas, acabadinhas de copiar de um site qualquer e iguais a milhares de outras. Mas, como em muitas outras coisas, o que conta é a intenção (ou a obrigação) e, por isso, partilham-se desejos de paz no mundo, de muito amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro... como se nos restantes dias do ano não precisássemos todos de paz, amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro e outras coisas positivas.
 
O Natal deve ser, realmente, tempo de partilha. Uma época do ano em que esquecemos, por momentos, aquilo que nos separa dos outros e em que nos lembramos mais facilmente daquilo que nos une. Mas deve (ou deveria) também ser tempo de reflexão. Refletir acerca daquilo que nos separa dos outros. 
 
E o que nos separa é, na realidade, um fosso enorme. É muito mais fácil deixarmo-nos levar pela magia do Natal do que refletir por que razão há milhões de pessoas que vivem na solidão, com fome, sem abrigo, sem carinho, dizimados pela guerra, doentes, longe da família, sem amor, sem amigos. Pessoas iguais a nós a quem a magia não chega.
 
Felizmente, para grande parte de nós, esta realidade não nos atinge. No entanto, devíamos fazer um esforço para, nesta época, também nos lembrarmos que esta realidade está, por vezes, mais próxima do que julgamos. Muitas vezes escondida pelos milhões de luzes que iluminam o Natal e que tão facilmente a ofuscam.
 
O Natal traz-me sempre este misto de sentimentos antagónicos. Irrita-me o deambular à procura de presentes, na maioria coisas inúteis e que temos todos os dias, mas fascina-me o frenesim, o movimento das pessoas e a alegria das crianças que têm algo para receber. Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.
 
Por isso, na Passagem de Ano, quando à meia noite estiver a comer as doze passas, os meus desejos para 2016 não serão apenas centrados naquilo que quero para mim, mas também naquilo que gostaria que os outros tivessem: saúde, amor, paz, felicidade, amizade, dinheiro e tudo de bom a que temos direito. Em especial, vou pensar naqueles para quem o Natal é apenas mais um dia, igual a tantos outros, com os mesmos receios e as mesmas dificuldades. Para eles, afinal, o Natal mais não é do que uma época do ano em que os dias são mais curtos e as noites são tremendamente mais longas e frias. Para eles, nada mais há a celebrar, senão o Solstício de Inverno.
 
A todos um melhor Natal e façam o favor de ser felizes em cada um dos 366 dias de 2016.
 
* arquiteto paisagista António Serrano
 
 
Modificado em quinta, 24 dezembro 2015 11:31

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