quarta, 11 dezembro 2019
terça, 15 dezembro 2015 18:31

O que me faz lembrar o Natal...

Escrito por
Gosto do Natal. Gosto de recordar outros tempos do Natal, tempos que já não voltam. Gosto de me lembrar das noites passadas em Vila Boim. Tenho saudades de chegar à casa da minha avó e sentir aquele cheiro único. Lembro-me da lareira acesa, pronta para nos aquecer e para depois fazer o cacau que acompanhava com os "anéis" que a minha avó fazia. Nunca mais comi. 
 
Tenho saudades desses tempos. Tenho saudades de depois mudar, sempre em Vila Boim, para a casa de outra avó, com uma família bem mais numerosa, com muitos primos. Lembro-me dos cantares ao menino e dos homens que percorriam a vila a fazê-lo. 
 
Para mim, nesse tempo, o Natal era outra coisa. Era o esperar pela altura das prendas e comer doces como se não houvesse amanhã. Para nós, crianças, era quase tudo permitido. Era ter a sorte de chegar a Vila Boim ver os meus avós a terminarem de preparar tudo para comermos a sopa de cação, da qual eu nem gostava e que hoje adoro. Era espreitar para dentro de um alguidar e ver os tais "anéis" cheios de açucar à volta. Era receber o verdadeiro envelope, em que a minha avó colocava o dobro do que colocava para os outros, pois nasci perto do Natal. Como já sabia quanto ia trazer, esse dinheiro já tinha um brinquedo à espera assim que as lojas voltassem a abrir.
 

É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância.

O Natal é a prova de que por vezes não damos valor aos bons momentos que vivemos. Os momentos mais simples são os melhores. Hoje, quem me dera viver só cinco minutos daquele tempo. Quem me dera voltar a receber um envelope daqueles, geralmente aproveitados depois de se pagar a luz ou a água, com um "Z" e um "R". Quem me dera aquecer-me só mais uma vez naquele lume do qual não podíamos mesmo estar perto, pois queimava as pernas. Para mim, é verdade, é dos meus avós que me lembro nesta data. Lembro-me sempre da canção que António Sala escreveu e que o José Gonçalez e o António Pinto Basto cantaram: "O Natal é lembrar os avós e as noites da aldeia". Nada mais certo.
 
É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância. É olharmos para as crianças a abrirem os presentes e voltarmos atrás no tempo para perceber o que estão a sentir. Eles não sabem, mas estão agora a viver o melhor tempo das suas vidas. É comer de todos os doces que estiverem em cima da mesa, porque depois durante o ano vamos dizer :"agora é que me apetecia aquele doce que não comi no Natal". Aproveitar, é ouvir pela vigésima vez aquela história do mais velho que está na mesa e que ele conta sempre no Natal, porque é quando tem mais ouvintes. Temos de ouvir, como se fosse a primeira vez. Aproveitar o Natal, é fazer com que as crianças recebam uma prenda do Pai Natal, mesmo que elas desconfiem que estão a ser enganadas. 
 
Sei que falo de um Natal bom. Falo de um Natal onde há possibilidade, pelo menos, de colocar comida na mesa e de dar um brinquedo às crianças. Sei, que em muitas casas tal não é possível. É triste, muito triste mesmo. Por vezes, queixamo-nos sem dar valor ao que temos. O Natal também nos pode dar essa lição de vida. Podemos, e devemos, aprender a dar valor ao que temos. Devemos dar valor a quem temos connosco e ao que estamos a viver. O Natal também é isso. 
 
Meus amigos, façam Natal. Boas Festas para todos!
 
* jornalista José Lameiras
Modificado em terça, 15 dezembro 2015 18:34

Deixe um comentário