quarta, 16 outubro 2019
quinta, 10 dezembro 2015 12:32

Um simples “ATÉ AMANHÃ!”

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A época que se aproxima é uma época que apela ainda mais a sentimentos… sentimentos de partilha, de alegria, de amizade, fraternidade, compaixão, perdão, apela a sentimentos de esperança, união, amor, solidariedade mas também apela muito à Saudade.
 
Saudade é a tal palavra tipicamente portuguesa que gera e carrega em si toneladas de sentimentos e que dizem ser impossível de traduzir noutras línguas.
 

Para mim a Saudade vive num pequeno compartimento que está discretamente escondido algures entre uma válvula ou um ventrículo, uma artéria ou uma veia no coração de cada um. Essa Saudade está inevitavelmente ligada à memória e, de certa maneira, há memórias que quando avivadas deixam de caber no tal compartimento. A este propósito, e acerca deste compartimento, concordo em absoluto com a lucidez de quem escreveu qualquer coisa como “A Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”. Nada é mais verdadeiro e simples de entender do que esta expressão… logo eu que sou um autêntico piegas. O que é certo é que é de facto isso que pode acontecer quando, por exemplo, visionamos fotografias ou vídeos antigos, quando falamos e recordamos momentos passados, quando reencontramos pensamentos outrora pensados, pode acontecer quando temos saudades de coisas, de sons, de sabores, de cheiros, de toques, quando temos saudades dos tempos, quando temos saudades do tempo, quando temos saudades de alguém.

 

Às vezes imagino que há algo que leva os meus beijos à tua estrela, só tenho pena é que, no regresso, não traga de volta o teu cheiro nem o teu sorriso. Acredito veementemente que não foste tu que perdeste uma vida, acredito mesmo é que ela é que não imagina o que perdeu… perdeu um ser humano de excepção, isso sim!

Embora não descarte a ideia de que a Saudade também pode dizer respeito ao futuro, e apesar de viver com paixão o presente e tendo, naturalmente, uma visão desse mesmo futuro, devo confessar que sou um completo saudosista. Tenho saudades de tantas coisas, de tanta gente…
 
Hoje, 10 de Dezembro, é aquele dia em que, para mim, a Saudade mais aperta. Faz hoje precisamente oito anos que um limite nos separa, digamos que é um traço, um simples traço horizontal que parece estar aqui tão perto mas ao mesmo tempo tão longínquo… esse traço que divide a Terra do Céu e que faz com que a Saudade aumente a cada dia que passa e não caiba no meu compartimento.
 
 Às vezes imagino que há algo que leva os meus beijos à tua estrela, só tenho pena é que, no regresso, não traga de volta o teu cheiro nem o teu sorriso. 
 
Acredito veementemente que não foste tu que perdeste uma vida, acredito mesmo é que ela é que não imagina o que perdeu… perdeu um ser humano de excepção, isso sim!
 
Tenho Saudades tuas pai! Tenho Saudades de ser o teu guarda-redes (ainda hoje quando jogo à bola com o teu neto, és tu também que ali estás). Tenho Saudades das tuas criações culinárias, do teu assobio trinado, da tua boa disposição. Tenho Saudades da tua amizade pelas pessoas, aliás, essa amizade ficou bem patente no dia em que seguiste outro rumo e transpuseste o tal traço horizontal, nessa manhã fria em que o sol brilhou para te iluminar o caminho e em que até o teu orfeão cantou, só para ti, a Avé Maria de Jacob Arcadelt de que tanto gostavas… foram centenas as tais pessoas que nesse dia te demonstraram a amizade e que te acompanharam para se despedirem de ti. Logo tu que eras a mais simples das pessoas, humilde, respeitadora e justa, amigo de todos e, ao contrário do que se possa imaginar, sem qualquer relevância social. Sim porque não foste político, não foste escritor, nem sequer futebolista… no fundo não foste nada daquilo que hoje se preconiza como de grande importância social. Sabes o que te digo, pai? Ainda bem que não foste! Ainda bem que foste simplesmente tu, o “Manecas” pai, filho, marido, vizinho, irmão, colega, cunhado… o “Manecas” gerador de consensos, parceiro, divertido, simpático, brincalhão, amigo. Ainda bem que foste somente pessoa, pai.
 
Às vezes tenho vontade de, como diz o meu amigo José Gonçalez, “…te poder dar a mão” e “…Dar um murro na saudade”. Mas não consigo… é verdade, não consigo mesmo… na realidade o que me resta é ter que ir dando vida à Saudade.
 
Tenho Saudade do prazer físico de te tocar, pai… de te ver, de te abraçar, de te cheirar, de te beijar. Tenho Saudades de sermos todos, e nós sabemos que todos não fomos. Tenho até saudades de um simples “Até amanhã!” 
 
E o que pode mudar com um simples "Até amanhã!"?
 
O branco pode ficar negro...
 
O cheio, vazio...
 
A certeza pode dar em incerteza...
 
A verdade em mentira...
 
A realidade em utopia...
 
A liberdade em cárcere...
 
A luminosidade em escuridão...
 
Com um simples "Até amanhã!"... o prazer pode dar em dor...
 
A facilidade em dificuldade...
 
A vitória pode virar derrota...
 
A perseverança pode dar em renúncia...
 
A paciência em impaciência...
 
O perfeito em imperfeito...
 
A paz em guerra...
 
Com um simples "Até amanhã!" a alegria pode tornar-se tristeza...
 
A vida pode fugir para a morte...
 
Há oito anos atrás, neste dia 10 de Dezembro, acordei sem saber porquê às 5h30m da manhã... estranho... nunca acordo de noite... voltei a adormecer. Pela manhã toca o telefone e tu já tinhas ido... precisamente às 5h30m...
 
Aquele acordar talvez tenha sido um sopro teu... talvez tenha sido um até já... talvez tenha sido a tua despedida.
 
Uma coisa é certa pai, a vida que viveste, viveste-la por ti, para ti e para os outros, aliás, os teus ensinamentos dizem-me que não faz sentido viver a nossa vida sem a dar a beijar aos outros.
 
Quando há oito anos seguiste outro caminho, pensei que te tinha perdido... mas não!!! Tu não morreste, estás bem vivo em mim!!! Continuas a ser um exemplo, uma fonte de inspiração. Os valores que cá me deixaste fazem com que continues a estar aqui e a fazer parte da nossa vida.
 
Não! Não te perdi... eu encontro-te aqui no meu pequeno compartimento ... todos os dias... SEMPRE!!!!!
 
Na noite anterior à tua viagem disseste-me "Até amanhã!" 
 
O que pode mudar com um simples "Até amanhã!"?
 
PODE MUDAR TUDO!!!!...
 
MAS TAMBÉM PODE NÃO MUDAR ABSOLUTAMENTE NADA!!!!
 
ATÉ AMANHÃ, PAI!!!!!
 
AMO-TE
 
* Professor Luís Parente
 

Modificado em quinta, 10 dezembro 2015 14:19

2 Comentários

  • Ligação de comentário João Freitas sábado, 12 dezembro 2015 13:45 postado por João Freitas

    Caro Prof. Luís Parente

    Gostei de ler as tuas palavras de cumplicidade e intimidade acerca do teu Pai.

    Por falar em saudade, lembro-me dos tempos de estudante em Almada, e dos bons momentos passados.

    Já lá vão quase 20 anos....bolas que o tempo passa.....

    um abraço
    João Freitas , o Madeirense

  • Ligação de comentário elsa costa sexta, 11 dezembro 2015 12:21 postado por elsa costa

    É com um enorme orgulho que li as tuas palavras, querido amigo de longa data...por mais longe que estejamos e o tempo passe os bons momentos das nossas vidas marcam-nos para sempre...um forte abraço para ti luís parente e para toda a familha com muitas saudades....beijinhos Elsa Costa...

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