sábado, 14 dezembro 2019
quinta, 26 novembro 2015 02:51

A Cozinha do Ganhão

Escrito por
A Cozinha do Ganhão DR

 

Começa hoje mais uma Cozinha dos Ganhões. Durante quatro dias, Estremoz dá a conhecer, a todos aqueles que a visitam, um sensacional mundo de sabores que é também fruto da extraordinária interação do Homem com a Paisagem.
 
Em 1985, em boa hora se reuniu à mesa um grupo de estremocenses, apreciadores da boa gastronomia alentejana, dando assim o primeiro passo para a criação de um evento que é hoje considerado o maior certame gastronómico do Alentejo e que vai já na sua 23.ª edição.
 
Armando Alves, Jacinto Varela, João Albardeiro, João Paulo Ferrão e José Emílio Guerreiro, foram os mentores deste projeto e por isso merecem naturalmente ser referenciados, pois se não fosse esta sua ideia provavelmente a Cozinha dos Ganhões hoje não existiria.
 

Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.

A sua ideia base consistiu na realização de provas de cozinha típica alentejana e degustação de vinhos alentejanos, numa tasquinha improvisada para o efeito, no Rossio Marquês de Pombal, por ocasião da III Feira de Arte Popular e Artesanato de Estremoz, em julho de 1985. Ali, várias tascas, restaurantes e cozinheiros, em dias diferentes, tiveram oportunidade de dar a conhecer as suas especialidades aos visitantes.
 
Mas a ideia apenas se viria a formalizar como evento próprio nove anos mais tarde, em 1994, no Pavilhão do Mercado Abastecedor, pela mão do Município de Estremoz. Ali estiveram presentes onze tasquinhas, em representação das várias freguesias do concelho, cada uma com os seus pratos típicos, acompanhados com vinho novo e pela atuação de vários grupos etnográficos.
 
Muitos ainda se recordam das noites frias de final de novembro passadas naquele Pavilhão, das ambiências vivenciadas nas tasquinhas delimitadas com estruturas de madeira, do piso em terra batida e do cheiro do fumo proveniente das dezenas de assadores. Tal como nos sábados de manhã, em que a paisagem urbana de Estremoz se transforma e o campo visita a cidade no mercado tradicional, também naquela época a cidade, naquele espaço, dava as boas vindas aos sabores, cores, sons e cheiros do campo, num festival de características únicas.
 
Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.
 
As freguesias continuam lá representadas, através das tasquinhas, dos doceiros, dos artesãos, dos empresários do sector agroalimentar, dos vinhos... Os sabores, os sons, os cheiros, as cores, os saberes, tudo continua lá, nas mais diversas manifestações.
 
Contudo, tal como uma paisagem, tal como a própria vida, também a Cozinha dos Ganhões se teve de adaptar ao novo espaço e às vontades impostas pelo tempo e pelos Homens. No tempo em que vivemos, ela precisa de crescer e de acontecer num espaço que garanta as condições que deem resposta às exigências sociais, ambientais e económicas, impostas por vários agentes, designadamente em matéria de segurança, de higiene alimentar e de conforto humano.
 

Embora tenha algumas saudades dos tempos e das vivências que, seguramente, já não voltam a acontecer neste evento, confesso que gosto muito mais da Cozinha de hoje. Digo-o com a maior das convicções e com a confortável naturalidade de quem faz parte desta paisagem de sabores há 15 anos e, por isso, acompanhou a sua evolução de muito perto.
 
Com os seus altos e baixos, a Cozinha dos Ganhões evoluiu muito nestes 23 anos, mas o mais importante é que conseguiu, sempre, ser uma das melhores formas de promoção das potencialidades do concelho de Estremoz, sendo anualmente frequentada por milhares de visitantes, à procura dos sabores que só nós, alentejanos, sabemos introduzir na paisagem. Soube afirmar-se, soube conquistar o seu espaço, soube diferenciar-se e destacar-se das restantes feiras gastronómicas. Tem inovado, respeitando a tradição. É por isso que é única e merece o estatuto que adquiriu.
 
Nos últimos três anos, a Cozinha dos Ganhões tem-nos ainda remetido para um passado longínquo da humanidade, recordando-nos que todos nós temos um pouco de caçador-recoletor nos nossos genes. A Feira "Estremoz Caça e Pesca", que constitui um excelente complemento à Cozinha, é também uma mostra da forma como o Homem tira partido da paisagem para criar paladares ou para se recrear.
 
Nos próximos dias, esta minha paisagem vai encher-se de animação e de convívio, vai despertar todos os meus sentidos. Vou aproveitar, por isso, esta oportunidade que viver em Estremoz me proporciona e fazer jus ao nome que tenho. Porque afinal, esta também é a minha Cozinha...
 
Arquiteto Paisagista António Ganhão Serrano, 26/11/2015
 
 
Modificado em quinta, 26 novembro 2015 02:57

Deixe um comentário