sábado, 14 dezembro 2019
quarta, 25 novembro 2015 01:40

O Costa do Escadote

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Agora, é mais fácil entender a boa disposição de António Costa, na noite das eleições de 4 de Outubro, quando os resultados apontavam para uma derrota do seu partido. Aliás, diga-se em abono da verdade, uma derrota sua. António Costa foi o grande derrotado dessas eleições. Seria relativamente fácil, para António José Seguro, vencer uma Coligação que estaria, por essa altura, a dar tiros nos pés. Não foi fácil, nem de perto nem de longe, o caminho que Passos e Portas tiveram de fazer juntos. A juntar às decisões impopulares que tomaram, e que só por si tiram votos nas urnas, algumas "rixas" internas deixaram o Governo muitas vezes a abanar e quase a cair. A Coligação renasceu das cinzas, mobilizou-se e venceu as eleições. António Costa tirou a António José Seguro o direito de lutar pelo lugar de primeiro-ministro, dizendo que este tinha conseguido um resultado "fraquinho" nas Europeias, e foi ele para a frente de combate, abandonando a Câmara de Lisboa com a certeza que São Bento seria a próxima paragem. No dia 24 de Novembro, chegou a confirmação de que afinal tudo valeu a pena.
 

António Costa rasteirou, em pouco tempo, três adversários políticos. Seguro, Passos e Portas foram ultrapassados por Costa nas suas ambições. Conseguiu alianças impensáveis e que serão muito difíceis de manter e de levar até ao fim. Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B. António Costa sabia que só precisava de garantir que a Coligação não tivesse maioria no parlamento. Depois, era garantir entendimentos para ir para o poder. Conhecedor da Constituição, António Costa lançou uma caça ao Governo, sabendo que seria fácil convencer o PCP e o BE, partidos que passaram a legislatura a pedir a demissão de Passos Coelho.
 
É claro que as Legislativas servem para eleger Deputados e não Governos. Esse é o argumento para quem agora defende esta solução para uma "estabilidade governativa". No entanto, eu vi, e ouvi, dois debates entre Costa e Passos, um na televisão e outro na rádio. Eram debates para que os portugueses escolhessem o primeiro-ministro. Passos conseguiu ser mais votado, foi indigitado e depois rejeitado. Costa foi considerado o grande derrotado e vai ser o líder do governo.
 

Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B.

Há muita gente dentro do PS que não concorda com isto. Uns dizem, outros nem por isso. Os portugueses nunca irão perdoar se algo correr mal. Seria mais seguro, e até mais lógico, o PS deixar passar o Governo da força política mais votada e depois tentar no parlamento fazer aprovar algumas das suas ideias, negociando também com o Governo os diplomas fundamentais. A grande questão é que António Costa jogou a sua sobrevivência política e liderar a oposição não era suficiente para as suas aspirações. Traçou como objectivo ser primeiro-ministro e vai conseguir. De regresso ao Governo, estarão alguns dos que lá estavam quando Portugal pediu um resgate ao FMI. Quatro anos depois, parece que nada aconteceu.
 
Desejo, honestamente, sorte a António Costa. Portugal precisa de alguém que olhe para o país, não no imediato, mas no futuro. Há muitos jovens desiludidos com os últimos anos de sucessivos governos especialistas em trapalhadas e governantes metidos em esquemas. De um lado e do outro, há poucos inocentes. Apesar da falta de dinheiro, ainda é bom ter poder em Portugal pois, se não o fosse, António Costa não tinha usado, mais uma vez, o seu escadote.
 
* jornalista José Lameiras
Modificado em quarta, 25 novembro 2015 01:46

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