quarta, 16 outubro 2019
segunda, 26 outubro 2015 23:09

Encontro com Freud - Crónica VI

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…”encontrei-me com Freud” para refletir o privado e o íntimo, dois conceitos semelhantes ou significativamente diferentes, incompatíveis ou complementares? …Momentos privados, aqueles que partilhamos com alguém, onde o nosso comportamento é pautado e/ou motivado por sentimentos, desejos, anseios e despido de preocupações, mais ou menos latentes relativamente à linguagem, à expressão corporal e até ao sentido crítico, que é como quem diz, menos formais e mais descontraídos… Partilhamos momentos privados nas nossas relações, sejam relações físicas, emocionais e em que os objetos (considera-se aqui “objeto” aquele com que nos relacionamos, aquele a quem dirigimos a nossa atenção em determinado contexto e situação) podem ser mais ou menos próximos, do ponto de vista de conhecimento pessoal. É comum ouvirmos falar em relações fugazes, um momento, uma noite, um espaço e um tempo com quem se esteve em privado ou anos de vida em privado, um namoro, um casamento, uma amizade, uma relação familiar, em todas elas temos consciência do grau de intimidade? Será que até hoje partilhámos efetivamente a nossa intimidade com alguém? Vou considerar o íntimo aquilo que guardamos na alma, o que desejamos em cada momento privado, os nossos medos, os nossos anseios, as nossas imperfeições, a forma como nos vemos e olhamos o mundo à nossa volta, o que nos satisfaz, o que gostamos, o que sentimos em cada momento, tempo e espaço, que às vezes é tão mutável e inconstante que tentamos apenas que passe e voltemos a sentir/ estar como é esperado.
 

A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse...

É tão fácil partilhar situações de felicidade, uma paixão, uma viagem que se realiza, um emprego que se ambiciona, um sonho que se realiza, e quando perdemos, quando a dor é maior que a vida inteira, quando o sofrimento abre uma ferida que teima em cicatrizar, tendencialmente fechamo-nos em “concha”, podemos até verbalizar mas será que partilhamos o que intimamente sentimos? É comum que cada um procure o seu espaço e tempo longe de tudo e de todos, é comum que o façamos com intuito de proteger os que nos estão próximos e aqui temos dois problemas fundamentais, por um lado o sofrimento aumenta e por outro provocamos nos outros um processo de “adivinhação” relativamente ao que sentimos, pensamos, queremos o que muitas vezes confunde reações e emoções de parte a parte.
 
Meus amigos, quando dividimos, quando partilhamos, o peso é menor… A intimidade é muito mais que partilhar corpos, beijos, abraços, discussões, ideias, espaços e tempos… Muitas vezes despimos a roupa mas sem nos despirmos de alma, essa guardamos porque é o que temos de mais precioso e único. A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse, aprendam que amar não significa controlar, escolher ou replicar o mesmo caminho mas sim orientar, escutar, aprender e respeitar que a felicidade e o amor se constroem e que o caminho é longo e todos necessitamos de um espaço e tempo onde a nossa intimidade não seja uma prisão, um peso e muito menos uma culpa de tudo e de coisa nenhuma. 
 
* Psicóloga Helena Chouriço
Modificado em segunda, 26 outubro 2015 23:37

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