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quarta, 23 setembro 2015 12:06

A foto que chocou o Mundo

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Fomos alertados, da pior forma, para um problema sério, gravíssimo, que a Europa atravessa. Colocando-me no lugar do editor que decidiu publicar a foto, admito que talvez não o tivesse feito. Talvez me faltasse a coragem para o fazer. Talvez pensasse nas crianças que comigo convivem e de quem gosto bastante. Talvez pensasse que, resumindo, se tratava de uma foto muito "forte". Eu, dificilmente a publicaria, alguém o fez e ela tornou-se, como se diz agora, "viral".

 
A foto veio abrir consciências. Veio fazer com que muitos pais olhassem para os filhos e percebessem, afinal, que eram uns privilegiados. Nós, que passamos o tempo a queixar-nos, afinal vivemos num país pobre, que foi resgatado, que tem muitos problemas sociais, mas que está em paz. Não somos obrigados, pelo menos, a fugir desta forma. Fugimos de outras, é certo. Mas desta, para já, não.
 
O problema que a Europa enfrenta, no que toca aos refugiados, é mais sério do que pensamos e não se resume questões políticas, religiosas e de segurança nacional. Falamos de pessoas, falamos de seres humanos que querem uma vida. Sim, eles querem ter uma vida, eles fogem da guerra. 
 
Uma imagem que também me emocionou, foi a de uma mãe a pedir a um jornalista para levar a filha, pequena, para a Alemanha: "Gosto muito dela e por isso quero que tenha um futuro...leve a minha filha, por favor". Só um coração de pedra pode ficar indiferente a isto. Este é um exemplo. Este é apenas um exemplo de tantas outras histórias que devem existir nos campos onde muito lutam, acima de tudo, pela vida.
 
Alguns virão para Portugal. Estima-se que quase cinco mil pessoas poderão fugir para Portugal, em busca de um futuro. Este mês, através do Facebook, foi marcada uma manifestação em frente à Assembleia da República, contra a "Invasão da Europa". 11 mil pessoas disseram, nessa rede social, que iriam...foram 150. “Portugal aos portugueses”, “Dois milhões em pobreza à espera de igualdade social”, “Primeiro os nossos”, “Mais apoio para os portugueses”, “Refugees not welcome” (“Refugiados não são bem-vindos”), foram as mensagens que tentaram passar. Algo me diz, que devemos estar mais atentos ao que vimos na televisão ou lemos nos jornais e menos ao que é passado no Facebook. Ser patriota, é muito bonito...mas temos de o ser nestas e em outras ocasiões. 
 

De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.

Felizmente, têm acontecido outras iniciativas em sentido contrário. De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.
 
Não sei o que o futuro nos reserva, mas penso que os terroristas não andam a passar fome, a lutar por comida e a saltar arames farpados. Se algum dia sofrermos alguma "invasão árabe", não deve ser desta maneira. Os terroristas já mostraram que têm os seus próprios meios para entrar onde lhes interessa. Estranho é, que não pensemos que todos temos um amigo ou um familiar que saiu de cá, de forma pacífica, para procurar uma vida melhor noutro país. Os portugueses, de um modo geral, têm sido bem acolhidos no mundo. Não temos o direito de impedir outros de terem uma vida. Pensar que se fecha um país ao terrorismo, não deixando cá entrar refugiados sírios, é pura demagogia.
 
No entanto, esta chegada terá de ser monitorizada. Têm de ser cidadãos com direitos mas também com obrigações. Têm de ser registados e devidamente acompanhados. Devem ser integrados, mas devem sentir que têm de respeitar o espaço onde foram inseridos. Resumindo, devem respeitar para serem respeitados. Essa é também uma obrigação, por alguns não cumprida, daqueles que por cá nasceram.
 
* José Lameiras
Modificado em quarta, 23 setembro 2015 15:00

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