quarta, 16 outubro 2019
sexta, 18 setembro 2015 00:44

Fuga para a Vida

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Para falar com sinceridade hesitei bastante em trazer para aqui o assunto que hoje trago. No entanto não consigo ficar indiferente ao que se passa no mundo e tendo isso em conta decidi avançar.
 
Por muito que se tente dificilmente alguém consegue esquecer a imagem chocante e revoltante da criança sem vida, à beira mar, numa praia da Turquia por causa de uma fuga que levava o sonho de um futuro melhor.
 
Quando se diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”, esta vale com certeza mais que um milhão.
 
Muito já foi dito e escrito sobre o assunto dos refugiados, sobre as suas motivações, os riscos que correm ao atravessarem o perigoso mar mediterrâneo em botes de borracha.
 
Esta gente foge da guerra, da fome, da desgraça, das atrocidades cometidas por pessoas sem qualquer tipo de escrúpulos… esta gente tem sonhos, tem ambições e mesmo correndo todos os riscos e mais alguns quer uma vida nova para si e para os seus. Existe naturalmente a legitimidade que com todas as condicionantes das vidas, as pessoas que se sentem ameaçadas tentem procurar a protecção num novo rumo.
 

Por muito que se tente dificilmente alguém consegue esquecer a imagem chocante e revoltante da criança sem vida, à beira mar, numa praia da Turquia por causa de uma fuga que levava o sonho de um futuro melhor.

Ainda assim esta migração sem precedentes veio colocar novos desafios mas também um sem número de problemas ao continente europeu. Se por um lado temos os partidários da solidariedade total mas responsável para com os refugiados, por outro encontramos os apologistas da suspensão total do acordo de Schengen de forma a serem encerradas de imediato as fronteiras dos países para que não entrem mais refugiados. Na realidade ambas as situações acarretam riscos, senão vejamos. Muitas correntes receiam que, infiltrados e “camuflados” nos grupos de migrantes, estejam elementos de alguns grupos criminosos que façam abalar a segurança da Europa. O receio principal das pessoas (e perfeitamente legítimo) é o de que os grupos radicais como por exemplo o denominado Estado Islâmico, iniciem uma série de ataques terroristas em solo europeu de forma a imporem as suas regras (se é que se regem por algumas). O Alto Comissário das Nações Unidas para os refugiados, o português António Guterres, a este propósito, afirmou qualquer coisa como “quem arrisca a vida num simples barco de borracha para chegar à Europa não traz armas consigo para fazer ataques terroristas”. Outros questionam o motivo pelo qual os refugiados não se deslocam para os seus países vizinhos.
 
O que é certo é que, nesta altura, existe o receio de que atrás de muitas verdades possam vir algumas mentiras. Ainda assim, tenho para mim que neste momento não nos devemos preocupar em quem atribuir culpas de toda esta situação, até porque culpados haverá com certeza de ambos os lados do mediterrâneo. Temos mesmo é que nos preocuparmos em, seriamente, com planeamento e de forma ultra rápida resolver este problema. Talvez se revele como sendo esta a maior prova que a União dos países europeus tem para mostrar e demonstrar essa mesma união. Dizem que “a união faz a força” mas será mesmo que essa união existe? Acredito sinceramente que só com os países unidos se conseguirá resolver alguma coisa… se cada um remar para seu lado, os naufrágios serão certamente mais e de maior dimensão.
 
Está mais do que na hora deste mundo inverter as prioridades. Guerras sempre existiram. Por motivos religiosos também. Talvez também seja este o momento das diferentes religiões se unirem. Talvez seja esta a altura em que os responsáveis máximos pelas igrejas judaicas, cristãs, islâmicas, hindus, budistas, etc. se juntem e apelem, insistam e aprofundem o diálogo inter religioso e inter cultural como forma de tentar erradicar o extremismo e o fundamentalismo e valorizar o contágio do humanismo, da liberdade religiosa, da justiça e da igualdade, da paz e sobretudo do respeito pela diversidade, pela dignidade e pela vida do ser humano. Já que falo em contágio, nunca é demais recordar as palavras do unanimemente considerado simples Papa Francisco quando diz que “Se o mal é contagioso, o bem também o é” .
 

Agora também é verdade que a nossa preocupação não pode ser só canalizada para esta situação em concreto, quantas crianças noutras partes do mundo não precisam também de apoio e solidariedade?

Se me perguntarem qual é a minha opinião pessoal sobre todo este assunto, tenho que confessar que, apesar de tudo o que oiço e que leio, não me consigo abstrair minimamente dos valores da humanidade. Para mim esta crise não é humanitária, esta crise é de humanidade e parece não ter fim à vista enquanto a ela se sobrepuserem opções económicas e políticas.
 
Aquelas pessoas que vimos diariamente nas nossas televisões a pedirem tão unicamente que lhe salvem os filhos, aquelas que vão à procura de ter uma VIDA, aquelas pessoas que vêm os filhos perecer à sua frente… são isso mesmo… pessoas… pessoas com medos e fragilidades como todos nós.
 
Ainda assim, no meio de tudo isto, o que verdadeiramente me preocupa são as crianças. Os adultos, mal ou bem sabem defender-se, as crianças não! Precisam de apoio, colo, amor, protecção, mimo e vê-las a assistir ao que assistem parte-me o coração. Não consigo sequer imaginar o sentimento daqueles pais ao terem que decidir arriscar o que arriscam. Nesta altura a Europa tem mais de 100 000 pedidos de asilo só de crianças. É um número assustador.
 
Agora também é verdade que a nossa preocupação não pode ser só canalizada para esta situação em concreto, quantas crianças noutras partes do mundo não precisam também de apoio e solidariedade?
 
E pergunto eu… porquê? Porque é que o mundo continua a não aprender com a História? Por que motivo as pessoas se continuam a não entender? Porque é que, num mundo globalizante como é o nosso, a comunicação entre os povos é tão difícil? Acredito piamente que todos… mesmo todos falhamos. Falhamos quando somos preconceituosos, quando ignoramos a opinião dos outros, quando tentamos sobrepor os nossos conceitos aos do próximo sem sequer os tentarmos analisar, quando somos indiferentes ao que nos rodeia, quando damos maior importância à economia do que à humanidade, quando desrespeitamos a vida humana.
 
Se olharmos para as fotos das crianças nesta chamada crise dos refugiados questionamo-nos porquê? 
 
Porque terão estas crianças que viver o terror do risco? 
 
Porque terão estas crianças que vivenciar atrocidades?
 
Porque terão elas que crescer abruptamente?
 
Porque terão elas que enfrentar uma fuga para viver?
 
Sinceramente… devia ser proibido que as crianças sofressem!
 
Convido-vos a verem as imagens destas crianças e a reflectir nestes porquês. 
 
* Luís Parente - Professor

Modificado em sexta, 18 setembro 2015 01:23

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