quarta, 16 outubro 2019
terça, 11 agosto 2015 23:14

O Melhor dos Mundos

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Na sequência do meu último texto publicado no “Ardina do Alentejo” cheguei à conclusão que a nossa vida tem, na realidade, muitas coisas boas. Às vezes nem sequer é preciso procurar muito para, num simples gesto, num olhar singelo, num humilde toque ou num mero acto olfactivo descobrirmos uma imensidão de sentimentos positivos que nos fazem amar viver.
 
A vida não são só coisas boas, é um facto. O dia-a-dia stressante em que a vida dos nossos dias é vivida repele-nos, na maioria das vezes, dos momentos mais especiais, empurra-nos e afasta-nos dos realmente importantes, faz-nos esquecer os que efectivamente nos dão alegria e prazer. O que é certo é que essa mesma vida de stress nos faz perder demasiado tempo. Não há dúvida que despendemos tempo excessivo das nossas vidas com assuntos meramente burocráticos e damos uma importância que consideramos vital a questões acessórias. Naturalmente que tudo isso faz com que o essencial fique ocultado, escondido e, não raras vezes, esquecido. Atrevo-me mesmo a dizer que vivemos muito menos as coisas boas da vida do que realmente merecemos. Como é possível que o tempo bom passe tão depressa?
 

Sou um piegas, é verdade… um lamechas mesmo… ainda hoje me custa a acreditar que Deus me deu a missão de amar três filhos. Sim porque é disso que se trata… AMOR.

Estas férias fizeram-me reflectir bastante acerca deste assunto e, devo confessar-vos, senti que não tenho aproveitado O MELHOR DOS MUNDOS. O melhor do mundo, como toda a gente sabe, são as crianças. O MELHOR DOS MUNDOS são, obviamente, as minhas. Sou um piegas, é verdade… um lamechas mesmo… ainda hoje me custa a acreditar que Deus me deu a missão de amar três filhos. Sim porque é disso que se trata… AMOR. Vi-os respirar o primeiro segundo de vida e posso dizer-vos que é indiscritível aquilo que se sente quando naquele instante se vê que uma vida de nove meses abruptamente se transforma para enfrentar, no segundo seguinte, um novo mundo. Foram três momentos demasiadamente felizes que, ainda que tudo possa desabar, jamais esquecerei.
 
Mesmo antes de nascer a Mariana percebi que naquela altura havíamos passado para segundo plano, depois com a Matilde, para terceiro e com o Miguel para quarto. É verdade… Deus deu-nos a possibilidade de multiplicarmos o nosso amor por três. As nossas prioridades passaram a estar todas ali, mesmo em frente aos nossos olhos e deixaram de estar num mero reflexo do espelho.
 
A cada passo dado pelos filhos, o nosso coração fica mais apertadinho, com receios… muitos… mas ao mesmo tempo, esse mesmo coração apertadinho enche-se de esperança, esperança de que os caminhos que vão sendo trilhados os façam crescer, os façam desenvolver personalidades repletas de valores bem vincados e definidos.
 
Os meus pais sempre me disseram “Filho és, pai serás!”. Sempre os ouvi dizer que, provavelmente, só depois de termos filhos é que os iríamos compreender… que grande verdade! Nunca imaginei que às vezes desse por mim a chorar só de contemplar os meus filhos. Agora sim percebo as inquietações, as preocupações, o amor incondicional, aquele que ultrapassa qualquer obstáculo e que tem a coragem de se pôr à frente a defender o que tem que ser defendido… agora sim entendo a necessidade de dar o exemplo, de ser chato, insistente, persistente e consistente… agora sim percebo que este amor incondicional e profundo nos dá coragem, nos dá mais vida… agora sim compreendo o quão importante é deixarmos filhos melhores para o mundo. 
 
Sinceramente, como vos disse, sinto que não tenho aproveitado da melhor maneira as coisas boas da vida. E as coisas boas da vida são também O MELHOR DOS MUNDOS. Talvez no dia de hoje os meus filhos não entendam nada do que aqui escrevo mas quando forem mães e pai, certamente compreenderão. 
 

Fico completamente fora de mim quando oiço dizer que um pai ou uma mãe subtraiu a vida de um filho. Como é que é possível um progenitor fazer tal barbaridade aos filhos? Os pais servem para confiar, proteger, tratar, cuidar, beijar, amar, brincar.

Se querem que vos diga acho que a idade nos faz entender as coisas de uma forma menos imatura, mais racional (também agora percebo isso!). Fico completamente fora de mim quando oiço dizer que um pai ou uma mãe subtraiu a vida de um filho. Como é que é possível um progenitor fazer tal barbaridade aos filhos? Os pais servem para confiar, proteger, tratar, cuidar, beijar, amar, brincar. Não querendo justificar o que no meu ponto de vista é injustificável, talvez o tal tempo dedicado a coisas fúteis favoreça uma acção desta natureza.
 
Está na hora de dar mais importância ao que realmente importa, é tempo de dar valor ao olhar, ao abraço, ao momento, ao beijo, ao cheiro, ao toque, ao instante, ao gesto. É tempo de nos deixarmos de preocupar com a casa desarrumada, com a cama por fazer ou com a roupa e os brinquedos espalhados. Que bom que é termos tudo de pernas para o ar, que bom que é não termos, às vezes, vida própria, que bom que é vermos as birras e as zangas, QUE BOM QUE É TERMOS VIDA DENTRO DAS NOSSAS CASAS! Eu quero lá saber de não ter dinheiro para mim… quero lá saber que O MELHOR DOS MUNDOS se suje, ande descalço pelo quintal ou faça muitos disparates… quero lá saber das cenas que fazem e que às vezes me envergonham. Eu quero mesmo é demonstrar o meu incondicional amor ao ponto de, talvez, me revelar um pouco egoísta querendo que os olhos d’O MELHOR DOS MUNDOS sejam os meus, querendo estar onde eles estiverem, chegando ao ponto de querer que todas as estrelas se juntem e, num simples rasto, iluminem e lhes mostrem o caminho… caminho esse que eu quero seguir, pisando a marca dos seus passos, ao ponto de querer deixá-los voar, de vê-los voar e voar com eles. 
 
A vocês, MELHOR DOS MUNDOS quero-vos dizer que quero é estar mais tempo convosco e desejar que sejam as pessoas mais felizes dos mundos, quero dizer-vos que quero brincar o que vocês brincarem, quero saltar por onde vocês saltarem, quero correr pelos campos que correrem, quero sorrir onde vocês sorrirem, chorar o que chorarem, quero escolher o que vocês escolherem, quero lutar o que vocês lutarem, quero ver aquilo que virem, quero ser aquilo que forem… a vocês, MELHOR DOS MUNDOS, quero-vos dizer que quero sentir o que vocês sentirem, sonhar os sonhos que sonharem e quero sofrer para não sofrerem. EU SEI… A VIDA É VOSSA, MAS POR FAVOR PERCEBAM QUE A VOSSA VIDA É A MINHA VIDA!! É mesmo por isso que quando eu perecer e ingressar numa outra estação quero viver as minhas recordações que, na realidade, serão também as vossas. E mesmo num outro mundo (aproveitando as palavras de Pedro Chagas Freitas), só peço que me deixem poder OLHAR-VOS… PARA SEMPRE.
 
* Professor Luís Parente
Modificado em quarta, 12 agosto 2015 01:22

1 comentário

  • Ligação de comentário Ilídio Saramago sábado, 15 agosto 2015 22:59 postado por Ilídio Saramago

    Apenas uma palavra que certamente dirá tudo o que senti ao ler o texto: fantástico.

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