quarta, 16 outubro 2019
sexta, 07 agosto 2015 00:04

O tempo e as marcas na paisagem

Escrito por

 

Todas as coisas mudam com o tempo. Também assim é a paisagem. Costumamos dizer, na linguagem profissional da arquitetura paisagista, que o tempo é a quarta dimensão da paisagem.
 
Com efeito, todos os elementos da paisagem possuem três dimensões, que lhe são conferidas pelos elementos básicos (ponto, linha, plano) e pelo volume, mas é a sua quarta dimensão, o tempo, que maior influência tem na imagem da paisagem. Tal acontece porque o tempo confere mutabilidade à paisagem e aos seus elementos. As paisagens que conhecemos hoje são muito diferentes daquelas que existiram há cem ou há dois mil anos atrás e são o resultado da sucessiva e cíclica ação do tempo, dos fenómenos naturais e do Homem.
 

...de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz?

Os ciclos naturais, como a alternância entre o dia e a noite e as estações do ano, são a expressão mais percetível das alterações que o tempo impõe à paisagem e aos seus elementos, mas a sua passagem é também observável através das marcas que o Homem vai deixando no Mundo.
 
Tudo tem um tempo e um espaço associados e estas duas variáveis estão intimamente relacionadas, dando alma e carácter específicos a uma paisagem. Aquilo que existe hoje não pode nunca ser igual àquilo que foi ontem, nem será igual amanhã. Da mesma forma, aquilo que existe num determinado lugar é exclusivo desse lugar e não existe em qualquer outro lugar da mesma forma. É uma marca desse espaço e de um certo tempo.
 
Há marcas na paisagem que nos tocam mais do que outras e há algumas que não nos dizem absolutamente nada. Faz parte da natureza humana que assim aconteça, da mesma forma que mudar essas marcas, seja por alteração seja por anulação, também é próprio do ser humano, enquanto construtor da paisagem. Isto é válido para todo o tipo de marcas e para todo o tipo de paisagens e as decisões dos seres humanos, quando alteram um determinado espaço, têm sempre associado um tempo específico. Quer isto dizer que o Homem altera o espaço, cria as suas marcas, em função das suas necessidades e do tempo em que vive. Não pode, nem deve, continuar agarrado a marcas do passado, pois dessa forma dificilmente conseguirá olhar para o futuro e construir paisagens que satisfaçam as necessidades das gerações vindouras.
 
Por exemplo, de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz? Vale mais que pense nas vantagens que a nova Avenida Rainha Santa Isabel trouxe para a cidade, desde as relacionadas com a fluidez do trânsito e com a aproximação do centro urbano à periferia, ao contributo desta avenida como espaço gerador de convívio e de promoção da atividade física diária dos seus habitantes. O comboio e a linha foram, sem qualquer sombra de dúvida, uma marca incontornável da cidade de Estremoz, mas tiveram o seu tempo naquele espaço. Agora, a necessidade dos homens deu origem a novas espacialidades e a novas ambiências, mais adequadas ao tempo do presente e do futuro.
 

Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo.

E por que será que não temos também saudades da muralha seiscentista que foi mandada derrubar, em meados do século passado, para dar lugar à Avenida 9 de Abril e ao próprio caminho-de-ferro? Talvez porque também ela deixou de ter utilidade prática e, por isso, passou o seu tempo? Ou porque simplesmente nem nos lembramos dela existir? De facto é lamentável que tal tenha acontecido, mas acredito que, nesse tempo, tenham sido ponderadas todas as possibilidades e que a solução encontrada foi a que melhor deu resposta aos anseios da população da época. Há que respeitar isso, ainda que consideremos hoje que a destruição da muralha, que também já foi uma marca estremocense, foi um dos maiores atentados à memória e ao património da cidade. Contudo, o tempo não se deteve na época em que era necessário defender uma praça militar, nem hoje em dia dependemos dessa muralha para sobreviver.
 
Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo. Mas há quem insista em viver agarrado a essas marcas, a um tempo que já passou, não entendendo que algo só se torna memorável se for aceite e recordado por todos, ou pelo menos pela maioria. 
 
Para que as ações dos homens se tornem marcas na paisagem, seja qual for o tipo de paisagem, elas têm que significar algo para as pessoas que vivem e que habitam o território. Não vale a pena criar marcas que não são aceites e vividas pelas pessoas, pois mais rapidamente o tempo se encarregará de apagar estas marcas. É o mesmo que falar para uma plateia que não nos ouve ou escrever um artigo de opinião que ninguém lê (corro sérios riscos de isso também me acontecer...). Como disse Stephen King, um autor que muito admiro e cujas palavras são indubitavelmente uma marca nas inúmeras paisagens que escreve, "a boca pode falar, mas as histórias não existem se não encontrarmos ouvidos compreensivos para as ouvir".
 
Assim acontece com a paisagem. Por muito que as queiramos impor nos espaços em que intervimos, as marcas só continuarão a existir na paisagem se os homens as tiverem aceitado como suas no seu tempo e se forem úteis ao tempo dos homens que a seguir habitarem essa paisagem.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 
Modificado em sexta, 07 agosto 2015 00:20

Deixe um comentário