terça, 26 outubro 2021
sábado, 03 outubro 2020 00:27

O Sentido da Vida…

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O Sentido da Vida… DR
Integrar a própria morte, com todas as dúvidas e dificuldades, com receios e inseguranças, mas com a certeza de nunca sabermos quando é o dia, apenas sabemos que esse dia chegará. Faz cada vez mais sentido em qualquer fase da vida de alguém, aprender a viver, para que possa também saber morrer. “Aprenda a viver e saberá como morrer; aprenda a morrer e saberá como viver” - Morrie Schwartz, (2006).
 
Tenho boas memórias do tempo em que via os doentes numa longa varanda ao sol e onde as equipas de profissionais faziam o que de melhor sabiam com os recursos que dispunham, ouviam as preces dos que sofriam e rezavam com as famílias que, muito pouco podiam esperar daqueles que visitavam e que muitas vezes sucumbiam às malvadas doenças que teimavam em aparecer. De cuidados paliativos, em 1990, pouco se ouvia falar no Alentejo, onde cresci, morria-se maioritariamente de Doenças Cardiovasculares, e a morte era negada e encarada como derrota para muitos profissionais de saúde, um fracasso, uma frustração, eram essencialmente profissionais treinados para a doença aguda. “A morte não é pois, uma possibilidade, algo de eventual, mas um facto inexorável da própria vida e um facto com o qual as sociedades, em geral, e os profissionais de saúde, em particular, deverão aprender a lidar” - António Barbosa, et all (2016).
 
Aprofundar a essência da vida e aquilo que de fato faz sentido e marca toda a diferença, os pormenores, o querer dançar quando já se perdeu a mobilidade dos membros, as emoções sentidas, o medo de envelhecer, o perdão e até o dizer adeus aqueles que mais amamos, a nossa família.
 
Comecei a questionar a minha existência, a minha vida e obriguei-me a tomar decisões conscientes e com um único sentido, o alívio do sofrimento, porque mesmo sem doença podemos estar descontentes com a nossa existência e com algumas escolhas que fomos fazendo. Tantas vezes ouvimos nos últimos dias de vida de uma qualquer pessoa, questões como ”porque não fiz aquilo que devia quando era novo”, “porque não tomei aquela atitude na altura certa”, “porque não investi naquilo que mais sentido fazia para mim”, tantas questões se colocam quando percebemos que a nossa vida é finita e essencialmente, se achamos que a proximidade a esse dia chega. Cuidar pessoas com doença crónica e progressiva, dá-nos uma visão diferente daquilo que somos e daquilo que queremos ser. Permite-nos tentar viver a nossa vida de uma forma mais autêntica e com sentido.
 

Cuidar pessoas com doença crónica e progressiva, dá-nos uma visão diferente daquilo que somos e daquilo que queremos ser. Permite-nos tentar viver a nossa vida de uma forma mais autêntica e com sentido.

 
A OMS em 2002,“definiu os cuidados paliativos como uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida dos doentes – e suas famílias – que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso á identificação precoce de tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, como a dor, mas também dos psicossociais e espirituais”.
 
Perceber que o sofrimento de alguém está agravado por ter longe o filho que reside no estrangeiro, ou aquela mãe que cortou relações com a filha por ciúmes do irmão, ou simplesmente aquela utente que sempre viveu sozinha e que agora não tem ninguém que cuide dela, faz-nos pensar sobre as atitudes que habitualmente temos durante a nossa existência, que a atitude de quem ajuda o outro pode ter um impacto positivo ou negativo na que recebe, determinando a sua recetividade à oferta.
 
Quando a doença surge, percebemos que estamos aqui de passagem e que a finitude é real e pode não estar assim tão distante quanto aquilo que sempre achamos. Para Marie de Hennezel, os que vão morrer ensinam-nos a viver. “A morte, essa que todos havemos de viver um dia, a que fere os nossos próximos ou os nossos amigos, talvez seja o que nos leva a não contentarmos em viver á superfície das coisas e dos seres, o que nos move a penetrar na sua intimidade e na sua profundeza” - Marrie de Hennezel (2000).
 
Ser enfermeiro é para mim um enorme prazer na dedicação e na valorização do outro como alvo dos meus cuidados de forma única e individual. Cuidar de alguém, é uma tarefa de grande importância para o outro porque ele confia em nós para que lhe seja aliviado o sofrimento que advém de uma alteração no decurso da sua vida, com o aparecimento de uma doença grave que o irá levar á morte. É para todos, difícil conviver diariamente com a morte, a perda, a finitude daquilo que sempre achamos ser para sempre. A morte é, efetivamente, aquilo que quando nascemos temos mais certo na nossa vida, porque todos iremos morrer, só não sabemos como, nem em que condições. 
 

É para todos, difícil conviver diariamente com a morte, a perda, a finitude daquilo que sempre achamos ser para sempre. A morte é, efetivamente, aquilo que quando nascemos temos mais certo na nossa vida, porque todos iremos morrer, só não sabemos como, nem em que condições. 

 
Cabe-nos a nós profissionais de saúde cultivar um ambiente acolhedor e livre de sofrimento para que esse momento inevitável seja o menos doloroso para quem parte e também para quem fica que terá que conviver com a ausência daquele que fazia parte da sua vida e que inevitavelmente terá que morrer.
 
Conviver com a morte quotidianamente não é banaliza-la, mas sim viver a vida intensamente e valorizar cada minuto, como se fosse o último, aproveitando tudo o que é belo e nos faz sentido, como tal é para mim muito importante a comunicação com o doente mas também com a família, que experimenta momentos difíceis e muito angustiantes sem saber o que fazer, nem tão pouco o que dizer, porque tudo acarreta muito sofrimento, porque a inevitabilidade da perda existe.
 
Cada doente deixou o seu ensinamento na minha vida e ajudou-me a tentar ser cada vez melhor e procurar conhecimento para prestar cada vez melhores cuidados com base na evidência e na ciência. “Aqueles que passam por nós não vão sós nem nos deixam sós” - Antoine de Saint-Exupéry (2009). Por tudo isto: “Vivo, sem dúvida, mais intensamente, com uma consciência mais aguda, aquilo que me é dado a viver, alegrias e tristezas, mas também todas essas pequenas coisas quotidianas que são óbvias, tal como o simples facto de respirar ou de andar” - Marrie de Hennezel (2000).
 
Viver é sem dúvida um desafio, o corpo é apenas uma parte, porque somos muito maiores do que a soma das partes físicas, somos valores, pensamentos sobre o bem e o mal, temos emoções, discernimento e intuição e sem dúvida que as nossas vivências são também uma parte muito importante na construção do nosso ser único e individual e viver a trabalhar com estes doentes deu-me uma visão unificada de cada pessoa e de cada momento.
 
* Cristina Madeira - Enfermeira na Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos do ACES Alentejo Central
Enfermeira desde 2001, com formação avançada em Cuidados Paliativos pela Faculdade de Medicina de Lisboa
 
 
 
Modificado em sábado, 03 outubro 2020 01:51

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