quinta, 12 dezembro 2019
quarta, 20 novembro 2019 00:19

A vida tem destas coisas... de CONSCIÊNCIA

Escrito por
Há coisas na vida que aparentemente não têm qualquer tipo de justificação, ou pelo menos nós pensamos não ter. Talvez sejamos nós que não queremos encontrar justificações, talvez sejamos nós que temos dificuldade em observar com alguma clareza o que muitas vezes está mesmo à nossa frente. Na realidade o nosso cérebro, talvez inconscientemente, tende a procurar soluções tendencialmente proteccionistas para nós próprios perante determinadas situações que se nos vão deparando ao longo do percurso. Não raras vezes esse refúgio é enganador e, de certa forma, pode até resolver o problema imediato mas adia e em muitos casos agrava o problema de fundo (tenho ideia de já ter escrito isto em algum lado). E é aí que chega a consciência. De facto, muitas acções das nossas vidas serão extemporâneas, quase inconscientes, ou pelo menos são realizadas sem a reflexão necessária à resolução efectiva dos problemas. No fundo o nosso cérebro tem tendência a reagir de forma, digamos que ardilosa, e tenta encontrar um subterfugio para nos livrar desses problemas. Desconstruir essa situação acaba por ser o mais difícil. Quando o conseguimos fazer a nossa consciência fica liberta e vivemos a nossa vida plena e sem remorsos de qualquer tipo.
 
Tenho para mim que a experiência aliada à idade ou a idade aliada à experiência faz com que o treino do nosso cérebro vá dando as respostas aos problemas de forma mais célere mas também de forma mais ponderada e eficaz, não que sejam somente estes indicadores que o influenciam mas que se revelam de alguma importância não tenho qualquer tipo de dúvida. Também é certo que à medida que a idade vai avançando, os filtros vão desaparecendo. Quantas vezes não ouvimos já dizer “Eu já não tenho idade nem para fazer fretes, nem para me calar só porque sim”… mesmo que essa falta de filtros nos traga algumas vezes alguns dissabores?
 

Depois de tudo o que se tem dito e escrito sobre este assunto, não consigo ficar indiferente ao tema mas, apesar disso, mesmo depois de muita reflexão, não consigo ter uma posição clara e precisa sobre o caso. Se por um lado sinto uma enorme revolta pela atitude daquela progenitora e me recuso a chamar-lhe mãe, por outro também não consigo deixar de ter pena por aquela pessoa que eventualmente terá chegado ao limite dos limites para cometer o acto hediondo que cometeu.

É certo que cada pessoa é uma pessoa e as acções e reacções não são, obviamente, as mesmas perante a mesma problemática. Talvez seja também a tal consciência que minimiza ou maximiza o sentimento resultante dessas acções. 
 
 E pergunta o leitor o porquê desta conversa… toda esta conversa tem um propósito muito claro que traz aliado um misto de indignação mas, se calhar, também de comiseração.
 
De acordo com as notícias emanadas de toda a comunicação social, uma jovem de 22 anos deu à luz uma criança do sexo masculino e abandonou-a num qualquer contentor de ecoponto, nua e sem qualquer cuidado em resguardá-la do frio. Por mera sorte foi encontrada com vida, em plena luz do dia, por um sem-abrigo que eventualmente procurava sustento. Isto aconteceu na capital de Portugal, em pleno século XXI e com toda a informação que existe que, talvez por ser tanta se dispersa e se perde por essas ruelas (mas isto daria para muita conversa e ainda mais aprofundada). A progenitora foi encontrada e detida pelas autoridades para interrogatório. Acabou por ficar em prisão preventiva e poderá ser condenada, entre outros, pelo crime de exposição ao abandono do menor ou infanticídio.
 
Depois de tudo o que se tem dito e escrito sobre este assunto, não consigo ficar indiferente ao tema mas, apesar disso, mesmo depois de muita reflexão, não consigo ter uma posição clara e precisa sobre o caso. Se por um lado sinto uma enorme revolta pela atitude daquela progenitora e me recuso a chamar-lhe mãe, por outro também não consigo deixar de ter pena por aquela pessoa que eventualmente terá chegado ao limite dos limites para cometer o acto hediondo que cometeu. No entanto, nada disto significa que não ache que a jovem, também sem-abrigo, não mereça ser condenada nas instâncias judiciais pelo acto praticado.
 
Questiono-me para onde caminha este mundo? Questiono-me como é possível ser-se só numa cidade com meio milhão de habitantes? Questiono-me o que terá passado pela cabeça daquela jovem mulher? Questiono-me se estará ela arrependida do acto? Questiono-me o que terá acontecido para que a sua esperança fosse rio abaixo?
 
Tenho para mim que o facto de aquela mulher viver em condições indignas para qualquer ser humano não é motivo, por si só, para cometer uma atrocidade como aquela. Antigamente, quem não conseguisse criar os seus filhos, entregava-os a instituições, a familiares, a alguém que cuidasse deles com o mínimo de dignidade ou até mesmo, não se querendo expôr, deixava-os à porta de alguém.
 
Isto não quer dizer que nunca tenham acontecido factos como este ao longo dos tempos. Existiram e, infelizmente, continuarão a existir.
 
Poder-me-ão dizer que muita da juventude dos nossos dias não tem valores enraizados, que só o imediato e o seu “eu” lhes interessa, não se preocupando com o semelhante o que, até certo ponto, eu até concordo (… e aí somos nós os culpados pelo que transmitimos aos nossos filhos).
 
Poder-me-ão dizer também que, por um lado, a juventude desta mulher talvez não lhe tenha permitido ter a “bagagem” para agir de outro modo… mas por outro lado, nós sabemos lá qual a “bagagem” desta jovem, que vida terá tido, quantas portas se lhe terão fechado, o que lhe terá usurpado a esperança?… por muito que se diga e se escreva, só mesmo ela é que sabe.
 
Ainda assim, apesar do apelo da humanidade que me assola, não consigo ter a capacidade de, racionalmente, compreender a atitude em si. Talvez não me consiga decidir pelo lado certo. Pensando bem… haverá um lado certo? Se calhar até há, o lado certo tem que ser o da criança por ser o lado mais frágil, e quando penso nisso a minha revolta regressa e o meu desejo que aquela jovem que deu à luz seja condenada de forma implacável cresce. 
 
Tudo isto me faz reflectir ao ponto de afirmar que nós, talvez não tenhamos feito as apostas certas e que elas têm que advir precisamente da forma como educamos os nossos jovens. Temos mesmo que insistir e persistir em tentarmos deixar bons filhos no mundo e a aposta, essa tem que ser feita nos valores mais básicos como são os afectos, a vida, o amor, a responsabilidade, a verdade mas também a solidariedade e a humanidade. E pronto… quando se fala em solidariedade e humanidade tudo regressa à estaca zero. Quando penso que, sobre este caso específico, tenho uma posição definida, vem a consciência (…ai a consciência!!) e baralha tudo. Enfim… a vida tem destas coisas que fazem com que muitas lutas se façam na consciência e o que acontece é que, não raras vezes, não há vencedores nem vencidos nessas mesmas lutas. Tudo isto porque, por norma, há pessoas de ambos os lados... pessoas que, apesar de tudo, não deixam de o ser.
 
* Professor Luís Parente
 
Modificado em quarta, 20 novembro 2019 18:03

Deixe um comentário