terça, 15 outubro 2019
quarta, 09 outubro 2019 23:12

Perigosas Abstenções

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Há várias formas de interpretar que a abstenção tenha os valores que tem, de há alguns anos a esta parte, em Portugal. Tem subido o número de eleitores que não está para ir votar e quem de facto tem alguma responsabilidade nisto, simplesmente, ignora. Não chega fazer apelos nas entrevistas para que as pessoas vão votar. Não chega campanhas publicitárias a apelar ao voto. Nada disso chega. É preciso, sim, tomar medidas concretas e, já agora, tentar perceber os motivos que levam as pessoas a ignorar uma eleição que mexe diretamente com a sua qualidade de vida.
 
Existe um argumento que não é válido, mas que ouvimos bastantes vezes na boca de quem não está para ir votar. Dizer que são todos iguais e que isto não adianta nada, é a prova de que há muita gente descontente, mas com pouca vontade de contribuir para que algo mude. Há mesmo, também, outra forma perfeitamente aceitável de mostrar esse descontentamento, que é votar em branco. Já em relação aos votos nulos, acho mesmo que é só perder tempo, para não dizer outra coisa.
 
Uma das medidas que deve ser, pelo menos, estudada, é se o domingo será o dia certo para chamar os portugueses a votar. Já há exemplos de outros países que realizam eleições noutros dias da semana e penso que esta é uma situação a ser avaliada. Ir votar após um dia de trabalho ou durante a hora de almoço, não me escandaliza. Há também muita gente que trabalha por turnos e, se pensarmos bem, há também muita gente que trabalha aos domingos e que, fruto disso, também não vota. Em Portugal, fazem-se tantos estudos que não resolvem nada, penso que se poderia fazer um estudo prévio e realizar uma experiência deste tipo, fazendo umas eleições, por exemplo, numa sexta-feira e com as urnas a fecharem mais tarde do que as 19 horas. 
 

Apesar de eu achar que pode não ter diretamente a ver com o fenómeno da Abstenção, a forma como são eleitos os deputados da Assembleia da República não convida a votar nos Distritos, por exemplo, do Alentejo. No total, no Alentejo são eleitos oito deputados. Tanto em Évora como em Portalegre e em Beja, só são eleitos deputados do PS, CDU e PSD. Aliás, nem do PSD agora foram eleitos. Isto não convém dizer, mas é a verdade. A minha pergunta é simples: O que vale, em termos efectivos, por exemplo em Évora, um voto num partido "pequeno", com quem até nos identifiquemos?

 
Depois, a questão mais sensível, digo eu, a não obrigatoriedade do voto. Este foi um direito que custou bastante a ser adquirido e é um desperdício metade dos portugueses não quererem votar. Votar nos cafés e nos bancos de jardim, não resolve nada. Nas redes sociais, resolve ainda menos. Não nos fica bem passarmos o tempo a reclamar de tudo e de todos e depois para mudar de facto alguma coisa, ficarmos em casa. Sinceramente, não sei se seria justo o voto passar a ser obrigatório. Seria uma medida polémica e que iria ser alvo de muita contestação. No entanto, não votar não é uma medida de protesto para mostrar descontentamento pela forma como as coisas estão. Não votar, é mostrar indiferença em relação ao presente e ao futuro do país.
 
Apesar de eu achar que pode não ter diretamente a ver com o fenómeno da Abstenção, a forma como são eleitos os deputados da Assembleia da República não convida a votar nos Distritos, por exemplo, do Alentejo. No total, no Alentejo são eleitos oito deputados. Tanto em Évora como em Portalegre e em Beja, só são eleitos deputados do PS, CDU e PSD. Aliás, nem do PSD agora foram eleitos. Isto não convém dizer, mas é a verdade.
 
A minha pergunta é simples: O que vale, em termos efectivos, por exemplo em Évora, um voto num partido "pequeno", com quem até nos identifiquemos? A resposta é clara, apesar de nunca assumida: nada! Que me perdoem esses partidos, os que nunca elegeram deputados nos circulos pequenos, mas esta é a realidade. Quando é que, por exemplo, um PAN, um IL, um CHEGA, ou até um CDS sozinho conseguirá eleger um deputado em Évora? A única forma desses deputados chegarem a ter voz na Assembleia, é através dos grandes circulos eleitorais. 
 
Há ainda muita gente que pensa que vota para eleger o primeiro-ministro, ou seja, que está, em Estremoz, a votar no António Costa ou no Rui Rio. Apesar disso, e também fruto do que aconteceu em 2015, já há mais eleitores a perceberem que isso não é bem assim. Eu sei que se vota para eleger deputados que depois podem fazer a diferença, para que esses depois sejam indigitados para o Governo, mas aqui vota-se para muito pouco. O pior, é que esta é uma forma de eleger deputados que agrada a esses grandes partidos. Se são esses próprios partidos que estão na Assembleia, é claro que isto nunca irá mudar. Será justo que Lisboa tenha 48 deputados e Portalegre tenha dois? Assim, um voto em Lisboa ou no Porto pode valer mais do que um voto em Évora. Depois, fica muita gente incomodada quando se fala do "voto útil", mas isto assim também desmotiva a ida às urnas e os partidos, chamados, "pequenos", são os mais prejudicados. 
 
É importante que se faça algo. Não pode ser metade do país a decidir pela outra metade. É preciso mostrar às pessoas que o seu voto conta efetivamente e analisar se é este o sistema eleitoral mais justo. É bom que na Assembleia haja um pouco de tudo, mas é também bom que as pessoas se interessem verdadeiramente pela política, escolham um partido para votar consoante as suas propostas e depois percebam que o seu voto é importante. É preciso acabar com este sentimento de que "não vale a pena".
 
* Jornalista José Lameiras
 
 
 
 
 
 
Modificado em quinta, 10 outubro 2019 15:24

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