sexta, 06 dezembro 2019
segunda, 15 abril 2019 13:41

aVARiado

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Entendo a aplicação do VAR. Entendo, completamente, a sua utilidade e possível mais valia. Não entendo, sinceramente, é a forma como é utilizado na prática. Sei que esta nova valência já resolveu algumas injustiças e foi verdadeiramente útil em determinados jogos, no entanto, a forma como é aplicado, semana após semana, só tem trazido ainda mais polémica ao futebol. Quando vemos jogadores a pedirem aos árbitros para irem ver os lances, entendemos que esta passou a ser, mais do que para os árbitros, uma ferramenta para os jogadores.
 
Quem está no campo, estando bem colocado, vê melhor grande parte dos lances. Principalmente nos lances de grande penalidade, o árbitro consegue perceber mais facilmente se é falta ou não, estando bem colocado dentro do campo. Todos nós sabemos que há pequenos toques que não impedem um jogador de seguir com a jogada. Com o VAR, os jogadores sabem que todas as jogadas são vistas várias vezes e, em caso de encontrar um toque, o VAR chama a atenção do árbitro. Isto não é a verdade desportiva. Isto é não entender que o futebol é, e espero que sempre seja, um jogo onde o contacto é inevitável em muitas ocasiões e nem sempre é à margem das leis.
 

Assim, à boa maneira portuguesa, o VAR tem sido aproveitado para criar ainda mais pressão sobre os árbitros. As vantagens que esta nova tecnologia poderia trazer, estão a diliuir-se na polémica que tem sido criada nos jogos mais mediáticos. É certo que o facto de duas equipas estarem a lutar pelo campeonato taco a taco, também faz com que com ou sem VAR a polémica se agudize. No entanto, digo eu, a forma como esta valência tem sido utilizada, fazendo com que os jogos tenham agora vários árbitros, não está a proteger a modalidade.

Faço relatos de futebol de jogos do Distrital. Também aqui há polémica, mas não há repetições de várias câmaras nem VAR. Aqui, permanece a primeira e única leitura dos árbitros. Estes árbitros amadores erram várias vezes e acaba por ser normal, pois são amadores, tal como os praticantes. São também contestados,, mas não têm a "muleta" do VAR. Só vêm os lances uma vez e não passam a semana a treinar para o jogo como fazem os profissionais. Fica, nestes casos, sempre o benefício da dúvida, pois não são muitos os jogos amadores que têm transmissão online e repetição dos lances. Em Portugal, abusa-se da repetição, do querer encontrar a verdade absoluta em lances onde duas pessoas podem ter opiniões diferentes.
 
O VAR veio para evitar injustiças. Veio para que não fosse anulado um golo onde o avançado esteja claramente atrás da linha defensiva ou não fosse validado um lance onde o avançado está dois metros em fora de jogo. O VAR veio para que sejam marcados golos quando a bola entra e, como foi uma jogada rápida demais, o árbitro não se apercebeu que a bola terá passado totalmente a linha. O VAR veio para punir agressões que passem despercebidas. O VAR veio para reparar injustiças e não para ser o árbitro dos árbitros. Se andarmos todos à procura de toques na grande área para marcar penaltis, ou de uma falta que poderá ter acontecido 30 segundos antes para anular um golo, nunca estaremos a defender a modalidade.
 
Com o VAR, os árbitros estão a marcar todos os toques na grande área. Vão ver os lances e depois se de facto existe toque, não têm outro remédio se não marcar penalti. Se ao vivo não conseguiu ver, onde tem uma visão previligiada do lance e até dá para ouvir as botas baterem nas caneleiras, não é pela televisão que se vai perceber a velha questão da intensidade. É bom também lembrar que os árbitros da primeira categoria já viram ao vivo lances de todos os tipos. Assim, deveria ser para eles mais fácil perceber se existe falta e se a mesma justifica a marcação de penalti. Por alguma coisa, as grandes penalidades são "o castigo máximo". Com o VAR, esse castigo é agora banalizado e é raro o jogo que não tem, pelo menos, um penalti.
 
Assim, à boa maneira portuguesa, o VAR tem sido aproveitado para criar ainda mais pressão sobre os árbitros. As vantagens que esta nova tecnologia poderia trazer, estão a diliuir-se na polémica que tem sido criada nos jogos mais mediáticos. É certo que o facto de duas equipas estarem a lutar pelo campeonato taco a taco, também faz com que com ou sem VAR a polémica se agudize. No entanto, digo eu, a forma como esta valência tem sido utilizada, fazendo com que os jogos tenham agora vários árbitros, não está a proteger a modalidade. Não sou contra o VAR, pois acho que pode ser útil. Sou sim, contra a forma como ele tem sido utilizado. O VAR está, na maioria das vezes, a servir para analisar jogadas duvidosas, quando deveria servir para analisar jogadas que sejam impossíveis de ver pela equipa de arbitragem. O VAR, não pode nem deve ser a solução para a falta de competência de alguns árbitros. Já vi, nesta época, o VAR marcar penaltis em que o árbitro principal está a dois ou três metros do lance. Também já vi foras de jogo clarissimos, vistos por qualquer adepto no campo, mas que agora não são logo assinalados, ficando depois o árbitro à espera do veredicto do VAR.
 
Dizia-se, em tempos, que quando um árbitro passava despercebido num jogo era muito bom sinal. O VAR tem de passar ainda mais despercebido e só aparecer em casos graves e onde a verdade desportiva seja de facto colocada em causa. Lances duvidosos, são para serem analisados no momento e no campo. Se o árbitro errar de forma grosseira, aí sim deve vir a correção do VAR. Foi para isto que o ele foi criado.
 
* Jornalista José Lameiras
 
 
Modificado em segunda, 15 abril 2019 13:46

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