domingo, 17 fevereiro 2019

Maravilhas da vida

Escrito por  Publicado em António Serrano sexta, 08 fevereiro 2019 12:50
Envelhecer é, para muitos, sinónimo de decadência, de perda de aptidões e competências, de isolamento e de um sentimento de impotência perante o sinal de que o fim de tudo se aproxima a passos largos.
 
Perante esta constatação, muitos dos nossos idosos se conformam e se deixam absorver por este tipo de sentimentos, não aproveitando da melhor forma aqueles que realmente poderiam ser os melhores anos das suas vidas.
 
Quando somos crianças, de tenra idade, todos aspiramos ser mais velhos. Os rapazes rapam incessantemente os poucos pelos da cara, ansiando pela barba que nunca mais aparece. As meninas miram-se ao espelho, na expetativa de que o peito seja muito maior do que aquilo que realmente é. Todos desejam ter mais e mais anos, para que possam ser finalmente adultos.
 
Chegada a maturidade é tempo de desejar um bom curso, um trabalho ainda melhor, um companheiro ou companheira para a vida e, depois disso, um ou mais filhos. A seguir é vê-los crescer e passar pelos mesmos anseios e aspirações, na expetativa que a vida nos traga os netos.
 

Com todas elas tenho aprendido muito nestes últimos anos, em especial que a vida é dar e receber. Acima de tudo, a lição que estas Senhoras me transmitem todos os dias é que nunca é tarde para vivermos e concretizarmos os nossos sonhos. Nunca é tarde para prolongar e perpetuar a nossa breve passagem pelo Mundo. Nunca nos devemos conformar com o que temos, mesmo quando nos parece que temos muito.

Por esta altura já queremos que a vida abrande o seu ritmo e nos dê mais algum tempo. Mas não é assim. A vida não para e o tempo também não, parecendo cada vez haver menos tempo e paciência para tudo. 
 
Depois dos netos, muita gente se resigna a tudo o que já passou e, apesar de aparentemente haver muito tempo, nunca se consegue tempo para nada. E aí começa a decadência dos dias, das noites e da vida.
 
Contudo e apesar de nem sempre ser fácil, há quem não se contente e opte por ter ainda mais do que aquilo que já teve, garantindo assim um envelhecimento ativo e saudável, com muito mais qualidade de vida.
 
No passado fim-de-semana todos assistimos no Teatro Bernardim Ribeiro à prova de que é possível dar mais vida aos anos e aproveitar, mesmo quando já nos parece impossível, tudo aquilo que ainda podemos viver.
 
A “Maravilha de Revista”, levada a palco pelo grupo da Academia Sénior de Estremoz, é, acima de tudo, uma homenagem à vida. À vida que todos vivemos e àquela que ainda podemos viver. Uma força da natureza que nos transporta, ao longo de duas horas e meia, pelo universo dos nossos sonhos de meninos e pelas nossas esperanças de um futuro que todos desejamos ter. Há cantigas e rábulas que povoam o imaginário e a memória de todos, misturadas com momentos de boa disposição, apimentados com situações da vida real e muita crítica social aos tempos antigos e modernos. Uma verdadeira maravilha!
 
Tenho a honra e o privilégio de privar com esta “dúzia de velhas” (que por acaso até são treze) que, de forma inesperada surgiram na minha vida, muito graças ao facto de a sua encenadora e professora partilhar comigo a sua existência. 
 
Ao longo do processo criativo da “Maravilha de Revista” assisti a muitos ensaios, ouvi em casa, vezes sem conta, a “Avé Maria” e “Amar pelos Dois” até já não dar mais e testemunhei a fantástica evolução e o cunho pessoal que cada uma delas dava aos textos previamente definidos. Estava muito longe de imaginar o resultado final e que a letra que escrevi para a versão estremocense de New York, New York se traduzisse no final apoteótico que todos pudemos vivenciar. Uma experiência extraordinária que me fez ficar com lágrimas nos olhos do início ao fim! Como é bom ver crescer os sonhos das pessoas a quem desejamos o melhor. 
 
A minha Marisa é, também ela, uma força inspiradora da natureza. Sei que tudo o que faz é com o coração e com o único objetivo de proporcionar às suas meninas o melhor da vida. É um grande exemplo para mim e representa tudo aquilo que desejo que a nossa filha um dia venha a ser. No caso concreto do Grupo da Revista, bem como em outras disciplinas que tão bem leciona na Academia Sénior de Estremoz, sei que ela é um extraordinário apoio para as suas “velhotas” e que também elas são uma peça fundamental na sua e nas nossas vidas. A cumplicidade entre elas é notória em todos os momentos e sei que todas elas acabam por se completar umas às outras. Excecionais exemplos de vida e de saber viver.
 
Com todas elas tenho aprendido muito nestes últimos anos, em especial que a vida é dar e receber. Acima de tudo, a lição que estas Senhoras me transmitem todos os dias é que nunca é tarde para vivermos e concretizarmos os nossos sonhos. Nunca é tarde para prolongar e perpetuar a nossa breve passagem pelo Mundo. Nunca nos devemos conformar com o que temos, mesmo quando nos parece que temos muito. Nunca é tarde demais para começar a viver e a proporcionar aos outros grandes e maravilhosos momentos de alegria.
 
Espero, muito sinceramente, que um dia, quando já for velhinho e tudo pareça já não fazer sentido, que surja alguém como a minha Mulher e como esta “dúzia de velhas” e me consigam também manter bem acordado para todas as maravilhas da vida.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 

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