quarta, 13 novembro 2019
terça, 18 outubro 2016 11:57

Pensar "Fora da Caixa"

Escrito por
Gosto de pensar “Fora da Caixa”. Pensar “Fora da Caixa” pode ser assim como que deter uma capacidade de resistência à tentação do óbvio, pode ser conseguir esquecer ou pôr de parte, ali num cantinho, aquilo que nos inflama, aquilo que, de certa forma nos enraivece, aquilo que nos dá a volta às entranhas e nos pode fazer reagir sem reflectir, “disparar” por impulso - que é uma coisa que não faz muito parte da minha forma de ser. Se calhar às vezes até perco por isso, umas vezes por não conseguir outras por não querer. Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior. De certa forma, e como acredito que nada acontece por acaso, entendo que talvez tenha mesmo que ser assim, no fundo também serve como forma de aprendizagem e crescimento pessoal.
 

Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior.

Quem vai lendo o que por aqui escrevo já percebeu, certamente, que poucas vezes escrevi sobre a actualidade. Tento sempre fugir àquilo que os “opinion makers” trazem à luz do dia diariamente nas televisões, nos jornais, na blogosfera ou nas redes sociais, até porque eu acho que, não raras vezes, o que os mesmos pretendem é tentar influenciar opiniões e, desse modo, não existe, para mim, compatibilidade com o pensamento que quero independente e racional. Seria muito fácil opinar sobre a crescente tensão entre russos e norte americanos sobre o que se passa na Síria, sobre o orçamento de estado para o próximo ano, sobre a recente eleição do engenheiro António Guterres para Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, sobre a forma absurda como os agentes de autoridade portugueses são tratados pelos sucessivos governos, cuja autoridade é posta em causa a cada acção mais… tensa, digamos assim, ou até mesmo sobre se o Prémio Nobel da Literatura foi ou não bem atribuído ao letrista e cantautor Bob Dylan. 
 
Mas pensar “Fora da Caixa” não é só o que referi anteriormente, pensar “Fora da Caixa” é pensar alternativamente, é sair do convencional, quebrar convenções, é não seguir ideias pré-concebidas, é ter a liberdade para ousar pensar diferente… pensar “Fora da Caixa” é imaginar mundos de vida, sonhos de canela, calçadas de estrelas, céus de algodão, grãos de areia falantes – Jesus!! Se os grãos de areia falassem ninguém poderia estar na praia, dificilmente se conseguiria entender o que quer que fosse, nem o som das ondas do mar se faria ouvir. Pensar “Fora da Caixa” é mesclar a imaginação com a memória e recorrer a ela e às vivências passadas… é ter a capacidade de criar, inventar, sujar o pensamento com pinceladas de tudo e de todas as cores… é falar sobre o pêlo da marta, sobre o cheiro do campo, a cor da cidade, a textura dos mundos, o sabor da vida… pensar “Fora da Caixa” é contar histórias fantásticas, viver os sonhos sonhados, saborear o som do silêncio, observar o toque do tempo. No fundo é baralhar os sentidos, misturá-los e encadeá-los no mundo.
 
Já várias vezes aqui escrevi sobre a forma como o mundo em que vivemos está e sobre o resquício de valores adjacentes à vida dos nossos dias. Na realidade há algo que me faz acreditar que esta decadência pode ser revertida. Essa reversão só pode mesmo passar pelo facto de podermos pensar “Fora da Caixa”. Se calhar tudo dará mais trabalho mas acredito que esta pode ser a medida mais eficaz e duradoura para um mundo menos mau.
 

Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?

Quantos medicamentos e curas, por exemplo, não foram já descobertos pelo simples facto de ter havido um mero investigador que se lembrou de pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas soluções simples não foram já apresentadas para resolver problemas complexos só porque alguém arriscou a pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas vidas não foram já salvas porque o bombeiro, o enfermeiro ou o médico decidiram algo não convencional pensando “Fora da Caixa”?
 
Quantos novos cheiros não se sentiram só porque houve alguém que pensou “Fora da Caixa” e decidiu aquela mistura de fragâncias que ditaram um novo perfume?  
 
Quantos sabores novos e bons não se saborearam pelo simples facto do cozinheiro ter pensado “Fora da Caixa” e ter experimentado adicionar aquele ingrediente que ninguém imaginava?
 
Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?
 
Percebem agora, só por estes simples exemplos, o motivo pelo qual eu acho que uma das soluções para o mundo é pensar “Fora da Caixa”? Sinceramente eu sou daqueles que não acreditam que só consegue pensar “Fora da Caixa” quem conhece muito bem o interior da mesma. Para mim não é preciso conhecer cada canto interior da “Caixa”, é preciso é fazer com que a tampa da “Caixa” salte, ainda que de quando em vez, e o pensamento se espalhe para fora dela, pelo mundo fora.
 
* Professor Luís Parente
Modificado em terça, 18 outubro 2016 15:39

Deixe um comentário