sexta, 19 outubro 2018

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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O "Improvável" aconteceu no Casino

Escrito por sexta, 09 junho 2017 02:16
Lisboa, Casino Estoril. O Salão Preto e Prata encheu devido a um estremocense que, ainda por cima, dá-me a honra de ser meu amigo. Figuras públicas não faltaram e grandes músicos também não. Desta vez, foi o Nuno da Câmara Pereira, o Rodrigo, o Toy, o Tozé Brito, o António Pinto Basto, entre outros, que foram ver o Zé. O Zé gravou, em tempos, um disco em Estremoz e tirou uma foto encostado ao Arco de Santarém. "Já é cantado na Madeira ou nos Açores, o nosso Fado vai correndo Portugal", cantava o Zé na altura, sem saber que um dia iria encher este emblemático Salão e de facto percorrer Portugal com a sua música.
 
Há uns anos atrás, quando bebiamos um café às 9 horas na nossa Rádio Despertar, o Zé disse-me que tinha uma proposta para ir para Lisboa. Eu, sem hesitar, disse-lhe: "Vai. Há comboios que só passam uma vez". Disse isto e acreditei que este era o melhor conselho para um amigo. Não havia muito a pensar. O Zé tinha que estar ainda mais perto do "meio" onde tudo se passa. Ao pé do lume é que dá para nos aquecermos como deve de ser e só indo "para lá" ele estaria mais perto de todas as oportunidades.
 
O Zé, sei eu, não consegue ser mais um. Ele chegou e marcou a sua posição. Não se limitou a fazer os seus programas na Rádio Amália e a cantar de vez em quando. Começou a estar ainda mais perto dos amigos do meio, fez televisão, escreveu e compôs, mostrou bem ao que vinha. O Zé não deixou a "sua" Torre de Menagem só porque sim. 
 
O Zé, no Casino Estoril, cantou acompanhado pelo Ângelo Freire, que talvez seja o melhor na Guitarra Portuguesa. Cantou acompanhado pelo Júlio Resende que é "só" o pianista que ganhou a Eurovisão com o Salvador Sobral. Estava no palco, a noite era dele, mas não se esqueceu de onde veio. Agradeceu à Rádio Despertar, a Estremoz, aos estremocenses, aos amigos que o foram ver. Chamou para cantar aqueles que no início da sua carreira lhe deram a mão: Nuno da Câmara Pereira, Silvino Sardo, Rodrigo e António Pinto Basto. Chamou, para cantar consigo, outro Zé. Fez ao Zé Luis Geadas, aquilo que lhe fizeram em tempos e deu-lhe a oportunidade de mostrar o seu valor num palco destes e num acontecimento desta natureza.
 
Havia surpresas...e que surpresas. Ana Moura fechou a noite cantando com o Zé a "Maldição". Que luxo! A Ana Moura foi também, aí, anunciada como madrinha de um projeto solidário que o Zé apresentou e que vai angariar verbas para a Pediatria do IPO. Aqui, a expressão "Fechar com chave d'ouro" assenta que nem uma luva. 
 
Estive numa noite em que, sem dúvida, houve empatia entre público e artistas. Uma noite que tinha tudo para ser "Improvável" e foi mesmo. O "Improvável", o tal disco que foi apresentado nesta noite, é um sonho do Zé mas também uma maneira de celebrar a música. Um disco apenas ao alcance de quem escreve letras e compõe músicas como o Zé o faz.
 
O Zé, o tal que saiu de Estremoz um dia em busca de uma valorização profissional e também pessoal, está no melhor momento da sua carreira. Goste-se ou não do seu feitio e da sua maneira de estar ou até de cantar, o Zé é aquilo que todos vemos e ouvimos. Sabe de onde vem, sabe para onde vai e sabe bem qual é o caminho que deve seguir para chegar aos seus objetivos. Aconteça o que acontecer, há algo que já ninguém lhe vai tirar: o brilho nos olhos que todos vimos no Casino Estoril.
* Jornalista José Lameiras
 
Nos últimos tempos tenho recebido várias queixas sobre alguns problemas e dificuldades existentes no Centro de Saúde de Estremoz. As situações que me têm sido apresentadas nada têm a ver com as competências das pessoas que ali trabalham, mas sim, devido a falhas ao nível da falta de meios.
 
Um dos alertas que me é dado a conhecer tem a ver com a Inexistência de um Sistema de Triagem. O Sistema de Triagem é fundamental porque funciona como uma ferramenta de decisão e de gestão de risco, nomeadamente como ferramenta de gestão de risco clínico.
 
A inexistência desta ferramenta limita fortemente a qualidade dos serviços de saúde.
 
Outras das carências que me tem sido apontada tem a ver com o Raio X. A informação que me é dada a conhecer é que este equipamento fundamental está muitas vezes indisponível.
 
Mas, a mais grave das falhas que me é apontada tem a ver com a falta de meios humanos. Muitas vezes procuram suprir esta falha grave através do recurso a vínculos precários.
 

Outras das carências que me tem sido apontada tem a ver com o Raio X. A informação que me é dada a conhecer é que este equipamento fundamental está muitas vezes indisponível.
Mas, a mais grave das falhas que me é apontada tem a ver com a falta de meios humanos. Muitas vezes procuram suprir esta falha grave através do recurso a vínculos precários.

Estes são algumas das preocupações mais importantes que me têm chegado. Há mais problemas que têm que ser resolvidos.
 
Uma coisa é certa, os estremocenses merecem e têm o direito ao acesso à saúde, como qualquer cidadão. Estas problemáticas não têm qualquer justificação.
 
Só se compreende porque este Governo cortou fortemente no investimento público. Tivemos uma quebra de 25% em 2016. Como é evidente, os equipamentos e serviços públicos são claramente prejudicados.
 
Outras das razões tem a ver com o agravamento da despesa na saúde. Voltamos ás práticas de esconder despesas “debaixo do tapete”.
 
Estremoz é um concelho com pouco mais de 14 mil habitantes, mas tem uma dinâmica empresarial muito interessante. Muita desta atividade está relacionada com a industria, agricultura e agroindústria (vinhos, enchidos, etc). Atividades com elevado grau de risco em acidentes.
 
Estremoz está também situada num cruzamento rodoviário muito importante: IP2, N4 e A6.
 
Estes elementos são fundamentais para que exista em Estremoz um Centro de Saúde de excelência.
 
Em termos práticos, as pessoas é que são penalizadas. E muito mais penalizados são os habitantes em territórios menos habitados e mais envelhecidos.
 
A minha expetativa é que estas insuficiências venham a ser rapidamente suprimidas.
 
Devemos fazer por isso.
* Deputado António Costa da Silva

A Lição do Salvador

Escrito por sexta, 12 maio 2017 10:05
O Salvador Sobral deveria ser, para todos, um exemplo. Não por ser perfeito, porque isso não existe, nem por cantar melhor do que os outros. O Salvador deveria ser um exemplo pela sua história e pela sua forma de encarar a vida.
 
A vida é feita de sonhos e objetivos. Todos deveremos ter algo para fazer e algo para sonhar. Os sonhos serão impossíveis para quem não sonha e para quem não trabalha para que eles se realizem. O Salvador Sobral, é apenas um jovem que decidiu rapidamente qual o caminho que queria e dele nunca se desviou um milímetro. Sonhou com este momento, foi à luta, ouviu muitas vezes a palavra "não", mas isso não fez com que desistisse.
 
Teria sido mais fácil, para o Salvador, ser diferente. Seria mais fácil ser como os outros e pensar numa personagem. Nada disso. Convicto de que a genuídade é, também, uma virtude, Salvador tem sido igual a si próprio e assumiu os riscos disso mesmo. O seu "estilo", a sua maneira de cantar e falar, de estar em palco completamente descomprometida com o "parece bem" ou "parece mal", passa ao lado da crítica estrangeira, de quem gosta da música e de música, e apenas o seu talento é julgado. Parece simples, não é? Mas, por cá, não.
 

Ouvimos o Salvador falar e tudo parece mais simples. No "Alta Definição" da SIC, Salvador disse isto: "Tenho muito mais coisas boas do que más. Esta doença que eu tenho é o único problema que eu tenho na minha vida" . Ouvi-lo, faz-nos pensar que somos nós que, grande parte das vezes, complicamos as coisas. Somos nós que valorizamos demais aquilo que não tem importância e desvalorizamos o que é essencial.

 
Salvador é genuíno mas não é rebelde. Não é aquele, desculpem a expressão, "gajo" que diz que ser diferente é que é "fixe" e os outros são todos uns "totós". Nada disso. Quem se atreveria, em pleno Festival da Eurovisão, a gritar "LINDOOO" durante a sua música? Pois, ele sente o que canta e, digo eu, a forma como canta a sua música leva a que mesmo quem não conheça uma palavra de Português entenda o sentimento que o cantor coloca na sua voz. É como os estrangeiros nas Casas de Fado em Portugal, não entendem uma palavra, mas também não precisam.
 
Salvador deu-nos uma lição a todos. Seja qual for o resultado no próximo sábado, os portugueses voltaram a ter orgulho numa canção no Festival da Eurovisão. O país voltou a ver este evento. Quantas pessoas em Portugal se lembram dos representantes portugueses dos últimos anos? Eu, que até trabalho numa rádio, nem me lembrava que Portugal não tinha participado no ano passado e do nome da nossa representante em 2015. Tive que ir pesquisar na internet. Tivemos, de facto, boas prestações em 2008, 2009 e 2010, anos em que estivemos na final. Agora, neste caso, a diferença é que, fique onde ficar, o Salvador já tem o mérito de colocar os portugueses a falar sobre a Eurovisão, mesmo que possamos dizer que as redes sociais tenham dado uma grande ajuda.
 
Ouvimos o Salvador falar e tudo parece mais simples. No "Alta Definição" da SIC, Salvador disse isto: "Tenho muito mais coisas boas do que más. Esta doença que eu tenho é o único problema que eu tenho na minha vida" . Ouvi-lo, faz-nos pensar que somos nós que, grande parte das vezes, complicamos as coisas. Somos nós que valorizamos demais aquilo que não tem importância e desvalorizamos o que é essencial. Ele, ao contrário de muita gente, é aquilo que vemos e que ouvimos. É um rapaz simples e, também, um simples rapaz. É genuíno e, como se costuma dizer agora, "sem filtros".
 
Não deve ser um Ídolo, apesar de ter concorrido ao programa com esse nome. É, simplesmente, alguém que faz questão de ser puro, goste-se ou não, e de lutar por aquilo em que acredita. Não é politicamente correcto e nem o quer ser. É educado, bem formado, mas real. Tem outro grande mérito. Digo eu, que é o facto de ter feito, precisamente, muitas pessoas mudarem de opinião. Infelizmente, para muitos portugueses, foi preciso ouvirem a crítica internacional para aceitarem o seu valor e a sua qualidade. É triste, eu sei, mas é mesmo assim.
 
* Jornalista José Lameiras

Vamos dançar?

Escrito por sexta, 28 abril 2017 20:20
Para ser sincero sou aquilo a que se pode chamar de autêntico “pé de chumbo”. Não tenho o mínimo jeito para dançar. Coreografias, movimentos amplos, movimentos curtos, de pés, de mãos, de ancas, não percebo nada, mesmo. Naturalmente que ao longo da minha vida, muitas foram as ocasiões em que tive mesmo que dançar, quer dizer… dançar não é o termo mais correto, talvez seja melhor chamar-lhe qualquer coisa como “ocasiões em que fui quase obrigado a efectuar movimentos ritmados ao som de uma música”. Adoro música, adoro bater o pé ao ritmo de uma música, adoro fingir que toco bateria, transformo qualquer coisa em baquetas para tentar reproduzir o som da percussão, canetas, talheres, as próprias mãos, tudo serve para fazer “barulho”, ao ponto de, por vezes, em casa, ter alguém a dizer-me que já chega… eu tenho a noção que às vezes é difícil controlar-me neste aspecto. Mas quando toca a dançar… Ui!!! Valha-me Deus!!! Quando era mais novo, para não fazer figuras tristes nos bailes ou nas discotecas, optei por uma situação que, de alguma forma me pudesse proteger para não cair no ridículo, em primeiro lugar observava atentamente tudo o que me rodeava (a bater ritmadamente o pé ao som da música), a forma de uns e de outros se movimentarem, o local onde punham as mãos, se elas próprias faziam ou não parte das criativas coreografias que por lá apareciam. Algumas eram talvez um pouco excêntricas. Ao fim e ao cabo depois de tanta observação eu já conseguia distinguir as clássicas das excêntricas, pelo menos pensava eu…
 
A este propósito, de danças estranhas, recordo-me, numas férias no Luso irmos com o nosso grupo de jovens amigos, que se juntavam todos os anos no INATEL daquela localidade, à discoteca do Grande Hotel curtir a música daqueles finais dos anos 80. De entre dez a quinze jovens rapazes e raparigas destacou-se claramente na inovação da sua dança o amigo Filipe, um rapaz de Matosinhos com um sentido de humor fantástico (típico das gentes do norte) que com os seus movimentos como se estivesse a fazer exercícios de ginástica ou a correr (parado), sempre naqueles 50 centímetros quadrados, fazia com que ao seu redor ninguém ficasse indiferente… era uma risada geral. O que mais me intrigou na altura foi o sucesso da sua coreografia, se é que assim lhe posso chamar, junto do público feminino. Como é que aquele rapaz franzino, que dançava de forma ridícula (fala o entendido…) conseguia dominar a pista de dança e… as meninas? Ele lá sabia! Sabia que os seus movimentos atraíam a gargalhada e tinham sucesso no sexo oposto, e por isso, descomplexadamente, não hesitava um único segundo e continuava a dar o seu “show” para gáudio do pessoal. 
 

Para ser sincero, o meu relacionamento com a dança é estranho, como disse não tenho jeitinho nenhum, mas há músicas que me fazem alterar completamente a noção de equilíbrio, há músicas que me fazem apetecer movimentar-me como um louco. Se estiver em casa ou até num grupo restrito de amigos até sou capaz de fazer a malta rir um bocadinho, se for em público adopto, naturalmente o “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”.

Depois de reflectir não só sobre o que tinha ali assistido, mas também sobre a memória, sempre viva, dos meus pais a dançarem nos bailes da Sociedade dos Artistas (eles sim bons dançarinos!), onde o meu pai (que era de tamanho pequeno) dançava agarrado à minha mãe com a cabeça encostada ao seu peito, por ser até aí que a sua estatura o levava, formando ali um cenário igualmente engraçado e igualmente descomplexado, cheguei à conclusão que era altura de parar de só bater o “pézinho” e passar àquele que até hoje utilizo e se pode assemelhar a um passo de dança, o por mim chamado “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”. Que nome mais estranho e comprido! (nem queiram saber o nome que eu inventaria se o passo de dança fosse mais complicado). Deste modo consegui arranjar uma boa forma de colocar e movimentar ritmadamente os pés, acompanhando com clareza a métrica da música. E então as mãos? O que é que fazia às mãos? Para saber o que fazer com elas também tive os meus momentos de observação, observei todas as suas formas de movimentos e a conclusão a que cheguei é que, nada melhor que dançar com uma bebida na mão, pelo menos só temos que nos preocupar com a outra, visto que uma já fica ocupada. 
 
Ultrapassada que foi a vergonha ou o receio do ridículo, comecei a desenvolver a técnica nos bailaricos das aldeias e em algumas discotecas da região. 
 
Na irreverência dos meus 18 anos entendi deixar crescer o cabelo e, quando o mesmo já estava efectivamente grande, sucedeu comigo o impensável. Eu era talvez 50 quilos mais magro e um dia, numa tarde de domingo, num grupo de amigos, resolvemos ir a uma matiné a uma discoteca em Elvas (naquela altura ainda havia matinés, agora, sinceramente, não sei se há). Montados na carrinha Peugeot 504 do João Carlos, aí fomos nós até à discoteca “Luigi”. Até aqui nada de estranho, o estranho passou-se lá dentro quando, pouco depois de me ter aventurado na arte do “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”, um cromo, certamente com falta de vista, me confundiu com um elemento do sexo feminino e me pediu para dançar. Naquela altura a minha reacção foi só uma: “Desaparece daqui antes que te parta os…” enfeites, para não ser malcriado. O rapazito meteu o rabo entre as pernas e, obviamente, marchou-se. Naquele dia fiquei de novo a duvidar se a minha técnica de dança já estaria suficientemente consolidada para ser exposta ao público, cheguei a pensar se a mesma seria até efeminada. No entanto cheguei à conclusão que o problema era mesmo o tamanho do cabelo, ainda assim, e porque gostava de me ver com ele comprido, não o cortei mas tomei uma outra decisão para que não voltasse a acontecer nenhum episódio semelhante, deixar crescer a barba. Deu resultado! 
 
Talvez por não perceber nada da prática de dança (sim, porque a teoria sei-a toda!) tenha insistido para que, mais tarde, as minhas filhas frequentassem aulas de ballet na Classe de Dança do Orfeão de Estremoz “Tomaz Alcaide”, pelo menos tenho a certeza que não passarão muito tempo a observar, tímida e parvamente como o pai, as danças dos outros.
 
Para ser sincero, o meu relacionamento com a dança é estranho, como disse não tenho jeitinho nenhum, mas há músicas que me fazem alterar completamente a noção de equilíbrio, há músicas que me fazem apetecer movimentar-me como um louco. Se estiver em casa ou até num grupo restrito de amigos até sou capaz de fazer a malta rir um bocadinho, se for em público adopto, naturalmente o “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”. 
 
Bem, mas o propósito que me faz trazer este tema ao “Ardina” não é demonstrar os meus feitos ou peripécias na arte da dança. O que me faz trazer este tema é, efectivamente, enaltecer e dar destaque a todos quantos fazem da dança uma forma de vida, ainda que não profissionalmente mas que vivem a dança com intensidade e o demonstram publicamente e com uma qualidade absolutamente extraordinária através dos inúmeros grupos que vão proliferando por esse país fora. 
 
Existem inúmeros géneros de dança, a primitiva, a étnica, a cerimonial, a tradicional, a clássica, o ballet, a dança contemporânea, a dança de rua, o fandango, o flamenco, a dança teatral, o funaná, o hip-hop, o jazz, o Kizomba, o kuduro, a lambada, o samba, a polca, o folclore, o swing, a salsa, a dança de salão, o sapateado, o zumba, a dança no gelo, o break dance, a dança do ventre, de sedução, o tango, as danças africanas, orientais, enfim estaríamos aqui, seguramente, muitíssimo tempo só a falar de tipos de dança e das suas infindáveis variações. Há, de facto, alguns géneros que criam em mim algum fascínio pela sua beleza estética, como são o caso do tango ou da salsa, no entanto, noutro sentido, delicio-me com a perfeição e rigor do ballet clássico e com a liberdade criativa da dança contemporânea.
 
No próximo sábado, dia 29 de Abril, comemora-se o Dia Internacional da Dança. O objectivo da UNESCO em 1982 foi o de criar um dia que pudesse universalizar aquela arte, independentemente dos povos, das culturas, da ética, da religião ou dos sistemas políticos. 
 
Ainda que a UNESCO o não tivesse feito, teríamos sempre que reconhecer a importância da dança ao longo dos tempos, desde a pré-história, ao antigo Egipto, à Grécia antiga, à Idade Média, ao Renascimento, até mesmo aos nossos dias. De uma forma ou outra a dança revelou-se de extrema importância para a evolução do Homem, por isso mesmo há que a celebrar. Celebrar a dança é respeitar o rigor e movimentar-se entre silêncios… é revelar controlo no descontrolo… é ensinar mas também é aprender… Celebrar a dança é valorizar a expressão das emoções, dos sentimentos… Celebrar a dança é dar ao corpo a capacidade do movimento articulado ao som da música… Celebrar a dança é trazer para fora o que a alma transmite… é trazer liberdade ao som e à expressão corporal… Celebrar a dança é viver de ideias, é viver de ideais… Celebrar a dança é trazer o amor para fora… Celebremos então a dança! 
 
Da minha parte celebrá-la-ei sempre com o seguro, discreto e habitual “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”.
* Professor Luís Parente

Desta água beberei…

Escrito por quinta, 20 abril 2017 15:01
É muito usual utilizarmos a expressão “nunca digas desta água não beberei que o caminho é longo e pode apertar a sede”. Somos feitos de vida, olhamos à nossa volta e vemos vidas tão diferentes das nossas, tão distantes às vezes, porque a vida traçará o nosso caminho e deixamo-nos ir ou seremos nós a traça-lo e a deixar a vida correr?!
 
Cruzamo-nos uns com os outros, conhecemos tantas vezes as histórias, os encontros e desencontros, somos juízes atentos e plenamente convencidos, tanta vez, que faríamos diferente, connosco jamais aconteceria isto ou aquilo porque somos e estamos convictos de um auto conhecimento quase inabalável e inflexível. Somos assim, como um ato consumado, fechamo-nos ao outro e à vida e vivemos tantas vezes com uma sede insaciável de beber, de provar as águas que correm enquanto a vida corre também, sede de viver o que ainda não vivemos mas que sonhámos, quem sabe? e ficou no fundo do baú da nossa infância e juventude, sede de sentir, sede de abraçar, sede de beijar, sede de partilhar e dizer sem medo “desta água eu vou beber porque é ela que me mata a sede” sem medo de ser feliz, sem medo do que não conheço mas que pode enriquecer-me como pessoa, sem medo de dar de peito aberto e mão estendida para acarinhar e beber da água que nos arranque das certezas que pensamos ter, sem medo de sair do que é confortável e aparentemente seguro.
 

...porque enquanto a água correr, sede eu vou sempre ter e desta água beberei porque o caminho é longo e a sede vai apertar ou terei de atracar num qualquer lugar… porque assim teve de ser ou porque esta é a água que me faz viver, mas dela precisarei sempre beber!

Continuamos com sede, porque demos de beber e não bebemos, porque matámos a sede e não saciámos a nossa e quando a sede apertar e a boca nos secar, então “desta água beberemos” da água que nos faz cair a máscara do perfeito ou imperfeito, a máscara que nos serviu tanta vez para arrancar sorrisos em vez de lágrimas, da máscara que nos despe e nos revela diante do outro como igual e semelhante e descobrimos que temos a mesma sede e bebemos da mesma água e chegamos a brindar termo-nos encontrado. Porque entende e eu entendo porque te permites e eu me permito, sentarmo-nos lado a lado e sermos apenas e somente pessoas.
 
São tantos os rios que correm, nascentes que rebentam, mares que se revoltam e a sede que aperta… Afinal todos temos sede, afinal e continuarei a afirmar que não seremos assim tão diferentes, uns navegam em mar alto, outros em rios extensos, outros ainda em pequenos riachos mas a corrente pega em todos e levar-nos-á até à margem onde descansaremos da travessia que fizemos, as tempestades que atravessámos, as paisagens que admirámos, as aventuras que vivemos, as vezes que quase naufragámos e o que deixámos pelos portos por onde passámos…
 
Sim “desta água beberei” da tua, da tua e da tua, quero beber de águas diferentes que matem a sede de aprender, de crescer, de perceber, de ouvir, de sentir e de viver, águas com sabores diferentes, cores diferentes mas que me matem a sede do que ainda não sei … porque enquanto a água correr, sede eu vou sempre ter e desta água beberei porque o caminho é longo e a sede vai apertar ou terei de atracar num qualquer lugar… porque assim teve de ser ou porque esta é a água que me faz viver, mas dela precisarei sempre beber!
 
Confuso? Talvez não… Matem a Vossa Sede enquanto Vivos e partilhem águas de Querer Ser… (Água para beber)!
* Psicóloga Helena Chouriço

Recentemente tive a oportunidade de fazer uma declaração política a título individual na Assembleia da República. Pretendi fazer uma comparação entre o trabalho do anterior e do atual governo em prol do distrito de Évora.

Sobre o sector agrícola, defendi a simplificação dos procedimentos de pagamento dos apoios aos agricultores no âmbito do PDR2020, o apoio do investimento comunitário público no regadio, a continuação da expansão irrigada pelo EFMA (Alqueva).
 
Quando o PSD esteve no governo (em coligação), recordei que se cumpriram os calendários e simplificaram os procedimentos de reembolso aos agricultores. Deu-se um rumo à agricultura com investimento e apoios concretos. Exemplos da conclusão da barragem de Veiros, do alargamento do regadio na Barragem da Vigia e de Lucefecit. E o que é que fez este governo com o apoio da geringonça? Haverá algo que nos possam mostrar?
 
No que respeita à valorização dos recursos endógenos do distrito, recordei que o governo liderado por Passos Coelho implementou o Plano de Ação Regional, definiu a Estratégia Regional de Especialização Inteligente, programou o Alentejo 2020 com as maiores verbas de sempre para a região, consolidou a atividade turística e a internacionalização do destino e apoiou a expansão de unidades turísticas regionais. Terá sido pouco? Não me parece! O que se espera é que este Governo venha a acrescentar ao que o anterior concretizou.
 

Enquanto fomos governo, em 14 concelhos, conseguimos criar 6 novos centros de saúde. Pergunto o que é que este governo nos tem para apresentar? Zero, a não ser problemas nos Centros de Saúde e falta de médicos (sobretudo especialistas) e equipamentos.

Ao nível da promoção da empregabilidade e qualidade do emprego, o PSD defende o apoio à expansão produtiva empregadora no tecido económico regional, privilegiando a contratação de desempregados de longa duração, maximizar as oportunidades de apoio à geração de emprego das atividades com caracter sazonal. 
 
Quando fomos governo apostámos na qualificação das infraestruturas e nas comunicações de suporte à atividade económica (ex: criação do Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo, Incubadora de base tecnológica Evoratech, Incubadora da ANJE, Centro de Negócios do NERE, etc, etc, etc). Pergunto: o que é que este governo nos tem para apresentar? Pergunto aos partidos que suportam o governo o que é que nos têm para apresentar?
 
Quanto ao sector da saúde, afirmei que o PSD propõe: melhorias do funcionamento da rede distrital de cuidados de saúde, garantir o melhor funcionamento dos equipamentos existentes, apoiar os cuidados de saúde primários, investir no Hospital Regional do Alentejo.
 
Enquanto fomos governo, em 14 concelhos, conseguimos criar 6 novos centros de saúde. Pergunto o que é que este governo nos tem para apresentar? Zero, a não ser problemas nos Centros de Saúde e falta de médicos (sobretudo especialistas) e equipamentos.
 
Depois de expor as propostas do PSD e o trabalho feito pelo anterior governo em matéria de sector social (vários lares criados no distrito: ex: Liga dos Combatentes em Estremoz, Lar da Misericórdia de Estremoz, Lar da Azaruja, Lar de Infância e Juventude Montemor, etc, etc), educação (renovação dos equipamentos escolares do distrito), juventude (ex: Pista de Atletismo e Campo de Rubgy em Évora, conclusão da Pousada da juventude em Évora) e cultura (ex: recuperação da Igreja de São Francisco em Évora, etc, etc, etc).
 
E a pergunta é a mesma: O que é que este Governo e os partidos que o suportam nos têm para mostrar? Nada.
 
Conclui a minha intervenção manifestando que a governação liderada pelo PSD tem muito trabalho para mostrar. Ao contrário, o atual executivo leva 17 meses e não tem nada para mostrar no distrito de Évora.
 
Fica lançado o desafio.
* Deputado António Costa da Silva

O Futebol dos Campeões Europeus

Escrito por quinta, 13 abril 2017 14:41
Fomos Campeões da Europa e pouco aprendemos. Aliás, não aprendemos nada e agora continuamos a ser notícia, lá fora, mas pelas piores razões. No país Campeão, há um constante clima de suspeição em relação à arbitragem. As nomeações dos árbitros, semana após semana, entram na ordem do dia e parecem ser mais importantes que a preparação das equipas. São analisados, até à exaustão, os erros dos árbitros e estes rapidamente se transformam nos maus da fita.
 
No país que é Campeão Europeu, foi "montada" uma claque de apoio à Seleção, em que o seu rosto mais visível é o chefe da claque dos "Super Dragões" e que têm recebido, por esse mundo fora, medalhas de bom comportamento. A uma semana do clássico da Luz, a claque organizada e apoiada pelo FC Porto esteve no Estádio da Luz a apoiar a equipa da casa. Parece confuso? Não, é o Futebol Português. Seria até bonito se tudo fosse normal e se vivesse o futebol e o desporto de outra forma. Na realidade atual, e com estes protagonistas, só poderia dar no que deu: cânticos despropositados e ambiente hóstil, num jogo importante da Seleção de Portugal, a tal que foi campeã.

 
No país Campeão Europeu, os Diretores de Comunicação dos clubes grandes têm protagonismo. Aqueles que deveriam ser os responsáveis pela comunicação e imagem do clube, fazem questão de ser protagonistas e de, eles próprios, entrarem na guerra de palavras. Não basta os presidentes, jogadores, claques e treinadores, agora também toda a gente sabe os nomes dos Diretores de Comunicação.
 
No país Campeão Europeu, os árbitros têm medo de apitar certos clubes dos Distritais. Ou seja, em início de carreira, certos árbitros já têm medo e não sabem o que pode acontecer durante um jogo. O que falta para existirem punições severas para quem agride, tanto na justiça desportiva como na justiça cívil? O que pensarão os jovens árbitros quando vêm adeptos "visitar" o Centro de Estágios dos seus ídolos?
 

No país Campeão Europeu, não há adversários, há inimigos. Os adeptos não gostam de futebol, gostam sim do seu clube e querem que ele ganhe, seja de que maneira for. Os próprios adeptos, são levados para estas brigas por quem, tendo muita responsabilidade, faz questão de manter o clima tenso e de constante guerrilha. Interessa é ganhar e o inimigo perder, seja no futebol, no andebol, no ténis de mesa ou até no berlinde. Estas constantes guerras de palavras, e que felizmente ainda são só de palavras, fazem com que se cultive ódio pelo inimigo e pouco respeito pelo adversário.

No país Campeão Europeu, demora uma enternidade, numa competição profissional, a ser analisado um caso que escapou ao árbitro. Também neste país, são outros clubes que não estiveram no jogo em questão a realizar as queixas. Por falar em queixas, neste país, há quem ache que os árbitros se vendem por uns jantares e uma camisola. 
 
No país Campeão Europeu, os jornalistas são vistos como "queridos inimigos". A ideia que passa é que são deste e daquele clube e por isso escrevem isto ou aquilo. Se escrevem a nosso favor, são os maiores e isentos. Se lemos algo de que não gostamos, é porque são deste ou daquele clube e não conseguem disfarçar. Só quem está completamente fora da realidade, ou com más intenções, é que pode dizer que um jornalista veste a camisola de um clube quando está a trabalhar. Neste mesmo país, os comentadores de futebol recebem "cartilhas orientadoras". Seria, digo eu, muito útil se fossem esclarecimentos eficazes. Ataques aos "inimigos", bastam, e sobram, os que já existem.
 
No país Campeão Europeu, uma claque organizada e apoiada pelo seu clube dá-se ao trabalho de entoar cânticos onde mistura tragédias com futebol, para assim demonstrar ódio ao rival. Neste mesmo país, antes de um clássico, é lançada confusão com os bilhetes e colocadas em causa questões de segurança de quem apenas quer ir "ver a bola".
 
No país Campeão Europeu, não há adversários, há inimigos. Os adeptos não gostam de futebol, gostam sim do seu clube e querem que ele ganhe, seja de que maneira for. Os próprios adeptos, são levados para estas brigas por quem, tendo muita responsabilidade, faz questão de manter o clima tenso e de constante guerrilha. Interessa é ganhar e o inimigo perder, seja no futebol, no andebol, no ténis de mesa ou até no berlinde. Estas constantes guerras de palavras, e que felizmente ainda são só de palavras, fazem com que se cultive ódio pelo inimigo e pouco respeito pelo adversário. 
 
Depois, levamos certos "banhos" de fair-play como aconteceu no caso do Dortmund com o Mónaco. Partilhamos logo no Facebook e aplaudimos. Passado pouco tempo, já estão uns a gritar que o "Avião da Chapecoense deveria de ser o do Benfica". 
 
* Jornalista José Lameiras

Idiotas precisam-se

Escrito por sexta, 31 março 2017 12:10
A ideia hoje é falar de idiotas. Há idiotas em todo o lado, literalmente. No futebol, na igreja, no café, no espectro político, na rua, enfim, em todo o lado… mesmo! Onde quer que haja uma pessoa há um idiota. Quando falo em idiotas não falo só da forma depreciativa que o termo acarreta, falo também da maravilha da ideia. As duas palavras (ideia e idiota) diferem bastante quanto ao seu significado. De acordo com os dicionários que consultei, para tentar entender um bocadinho mais sobre os seus significados e estabelecer, de certa forma, um paralelismo, verifiquei, efectivamente, a diferença entre eles. Se por um lado a ideia nos traz palavras como pensamento, lembrança, memória e fantasia entre muitos outros, idiota leva-nos mesmo para a imbecilidade, para a estupidez, para a ignorância, para a palermice ou mesmo para a burrice. Ainda assim continuo a achar que faz todo o sentido interligar uma com a outra, sim porque há ideias aparentemente idiotas que se provaram mais que acertadas quando efectivamente provadas.
 
Inúmeras ideias que foram surgindo no decorrer dos tempos, muitas delas absolutamente geniais que acabaram por mudar os diferentes paradigmas do mundo, terão partido certamente de completas idiotices, palermices sem aparente sentido. O que é certo é que acabaram por se revelar de grande utilidade para a humanidade em determinada altura. A roda que fez com que tudo mudasse, a bússola que se revelou de extrema importância na expansão do mundo que se conhece principalmente dos séculos XV a XVII, a imprensa do alemão Johannes Gutenberg, a lâmpada eléctrica de Thomas Edison, o telefone de Graham Bell ou mais recentemente a rádio, a televisão, a internet e todo um novo mundo que se desenvolveu a partir destas e de outras supostas idiotices sem qualquer nexo.
 

Quando falo em idiotas não falo só da forma depreciativa que o termo acarreta, falo também da maravilha da ideia. As duas palavras (ideia e idiota) diferem bastante quanto ao seu significado.

Há riscos, quanto a mim, ao se ser idiota. Os riscos que se correm podem ser divididos em diferentes dimensões, a dimensão do crer (acreditar), do querer (ter vontade de), do tentar, do almejar o sucesso mas também do esbarrar no ingrato insucesso. Senão vejamos, como completo absurdo (ou não… não sabemos… ainda) eu creio que aquando da morte na Terra, o nosso ser nasce num outro planeta, um planeta com um centro gravitacional idêntico ao nosso, numa outra galáxia não de nome via láctea (que é aquela onde ainda estamos), mas uma galáxia ainda sem nome. Proponho que ela se chame “AMOR” (sim, assim mesmo em Português). Quero muito que nessa galáxia haja planetas como o nosso mas que o ciclo da vida seja inverso, como já li algures num texto muito discutido sobre a sua verdadeira autoria, ou seja, quero que a vida comece pela morte, siga para a velhice, da velhice para a vida activa, para a adolescência, posteriormente para a infância e que termine num prazeroso acto físico. Quero que nos planetas dessa galáxia viva unicamente o amor nas suas mais variadas derivações (daí o nome para a galáxia), a amizade, a partilha, a verdade, e todos os verbos, adjectivos, etc. que demonstrem positividade. No fundo o que eu quero é um mundo perfeito. Será possível? Não sei! Aqui na Terra, no nosso mundo, não me parece! Ainda que eu e muitos outros continuemos a tentar fazer dele um mundo melhor, esbarramos mais vezes no insucesso do que almejamos o sucesso. No entanto cada pequeno sucesso é uma alegria e por isso mesmo continuaremos a ser os idiotas suficientes para que, quem sabe algum dia, algum ignorante, não tenha uma ideia completamente absurda, estúpida e sem qualquer sentido que consiga mudar o rumo do mundo. Será possível? Se calhar, enquanto estivermos nesta galáxia não! Mas alguém cá ficará e, mesmo na estupidez, poderá fazer acontecer algo que muitas vezes já aconteceu, mudar isto tudo. O mundo precisa mesmo de idiotas… e de ideias!
 
Enquanto a nossa mente for efectivamente maior do que o nosso corpo… enquanto nós conseguirmos que o nosso consciente viva da persistente emoção positiva… enquanto houver estímulos químicos, eléctricos ou mecânicos que façam acontecer os impulsos nervosos para os neurónios trabalharem… enquanto tudo isto acontecer, para falar com sinceridade, ainda acredito na humanidade… nem que seja noutra galáxia!
 
* Professor Luís Parente

No meu Encontro com Freud, falei de solidão...

Escrito por quinta, 23 março 2017 18:06
Hoje o tema foi-me proposto…
 
Muitas vezes pensamos em vários temas e situações sobre as quais gostaríamos de dar o nosso contributo, aparentemente mais fácil para quem escreve, no entanto, o desafio hoje é escrever sobre um tema que me foi proposto depois de o solicitar e que veio através de “solidão, é uma coisa que me assusta, escreva sobre a solidão...” 
 
Aceitei…
 
Quando imaginamos a solidão mentalmente, enquanto imagem, cada um de nós possivelmente atribui-lhe uma cor ou um rosto, ou um momento ou vamos buscar ao mais íntimo de nós, quando foi a primeira e última vez que nos sentimos sós. Sim, solidão é sentirmo-nos sós ou estarmos sós?
 
Provavelmente, diríamos todos, que o facto de estarmos sós não significa sentirmo-nos sós, tal como quando estamos acompanhados não significa que não sentimos uma profunda solidão. O sentir é tão diferente do estar! Ou são dois impostores que convivem muitas vezes em sintonia. Impostores porquê? Porque muitas vezes nos disfarçamos e utilizamos máscaras para esconder o que sentimos (quando me sinto só, não digo, porque não quero que sofras por mim, mas quero-te comigo para não estar tão só e talvez até consigas que não me sinta tão só, mesmo sem te dares conta).
 

A solidão vem quando o que digo não corresponde ao que sinto, quando me deixo parecer e não ser. A solidão, esta de que vos falo hoje, é aquela solidão que nos habituou a ser companhia, é aquela solidão visceral que consome a alma, é aquela solidão que não se exprime mas também não se suporta. Solidão o maior dos medos, o não ter com quem partilhar até o silêncio.

Serão então duas faces de uma mesma moeda, gostamos de estar sós quando nos sentimos confortáveis, ouvindo música, lendo um livro, um jornal, olhando a televisão, escutando rádio, escrevendo, pensando … mas então aí já não estamos sós, a nossa mente está a absorver uma série de informação, interagimos através do que pensamos sobre os assuntos, pensamos para nós mesmos como reagiríamos a isto ou áquilo, então continuaremos a estar sós? 
 
E quando efetivamente e no meio da multidão, muita ou pouca não importa, nos sentimos sós, existe um vazio entre o que somos naquele momento e tudo o que nos rodeia, há um muro entre o que somos e o que os outros representam para nós, há um deserto de dentro para fora, preenchido tantas vezes com conversas circunstanciais ou sorrisos de simpatia e enquanto isso, o vazio aumenta como aumenta o sentimento de solidão, o medo, a fragilidade, a angústia e tantos mais…que nos impedem de agir… as fraquezas não se revelam, dos fracos não reza a história e tantos clichés mais nos tornaram prisioneiros de nós próprios, a solidão vem quando eu não sou capaz de me partilhar e de me permitir dizer “eu hoje sinto-me só”.
 
A solidão vem quando o que digo não corresponde ao que sinto, quando me deixo parecer e não ser. A solidão, esta de que vos falo hoje, é aquela solidão que nos habituou a ser companhia, é aquela solidão visceral que consome a alma, é aquela solidão que não se exprime mas também não se suporta. Solidão o maior dos medos, o não ter com quem partilhar até o silêncio. 
 
Então aprendamos a estar connosco mesmos, seremos para nós a primeira descoberta, o que somos e como nos sentimos, não podemos mais adiar, permitamo-nos sentir as coisas comos elas se nos apresentam, permitamo-nos tempo para as aceitar e permitamo-nos espaços para partilhar.
 
Um dia a solidão pode chegar mas com ela quero ter uma vida inteira para contar… então não me sentirei Só!
 
* Psicóloga Helena Chouriço