terça, 15 outubro 2019

Com a saúde não se brinca

quinta, 12 março 2015 00:31
Que país temos quando se poupa na saúde? Em plena sala de espera de um hospital público, dou por mim a pensar que, com toda a certeza, nenhum governante passa por isto. Não acredito que, quem tem a responsabilidade de decidir, passe algum tempo nas salas de espera de hospitais públicos. Corro o risco de ser injusto, eu sei, mas mesmo assim arrisco, pois não posso concordar com o que vejo.
 
Os médicos e os enfermeiros são verdadeiros heróis. Trabalham horas a fio e não podem falhar. Se eu falhar no meu trabalho, não será, à partida, uma falha grave e poderei remediar a situação. Se eles falharem, pode não haver segunda oportunidade. Eles, esses heróis, mexem com vidas humanas. Como é possível terem de fazer tantas horas seguidas? Como é possível serem tão poucos? Como é possível haver gente nos corredores e tempos de espera absurdos? Faz-me confusão, admito.
 
Gostaria que um governante, daqueles que mandam alguma coisa, passasse, incógnito, umas horas numa qualquer sala de espera de um hospital e tivesse a capacidade de olhar em seu redor. Gostaria que visse o desespero de um filho porque a mãe está lá dentro há dez horas. Gostaria que visse um espaço onde cabem dez macas e estão lá cinco ou seis a mais. Gostaria que visse a correria de médicos e enfermeiros para que nada falte aos doentes. Gostaria que visse a cara das pessoas que esperam, ansiosamente, que alguém as chame para que sejam atendidas.
 
Não posso concordar, nem pouco mais ou menos, com cortes no SNS. A Saúde e a Educação são áreas onde se deve investir e não cortar. Fiscalizem mais e cortem menos. Apertem com aqueles que não cumprem e gratifiquem os que cumprem. Estão em causa vidas humanas. Isso não será suficiente para acabar, de vez, com estes cortes absurdos? Estimulem os médicos e os enfermeiros a ficar por cá. Os bons têm de estar em Portugal. Fará algum sentido estarmos a formar médicos e enfermeiros e depois eles emigrarem? Não há verba? Basta olhar para o batalhão de assessores que se fabricam neste país, para se perceber quantos se poderiam trocar por médicos ou enfermeiros. 
 

Basta olhar para o batalhão de assessores que se fabricam neste país, para se perceber quantos se poderiam trocar por médicos ou enfermeiros.

 
É dificil, para quem utiliza o SNS, entender que tem de haver cortes no transporte de doentes, nas consultas, nos exames, no pessoal que está de serviço. Contratem mais profissionais e paguem o que é justo. Este país funciona mal em várias áreas. No entanto, com a saúde não se pode mesmo brincar. Não se pode cortar no bem-estar daqueles que passam a vida a descontar para isto, para aquilo e para o outro. Sim, porque esses são sempre os mais prejudicados. 
 
 
Um novo estudo da Universidade Nova de Lisboa indica que cerca de 10% dos portugueses não vão ao médico e 16% deixam de comprar medicamentos prescritos devido às dificuldades financeiras. É como quem diz, cerca de um millhão de pessoas em Portugal não vai ao médico porque não tem dinheiro. O SNS foi criado para que todos tivessemos acesso à saúde. Pelos vistos, ela só está ao alcance de alguns. E os que não podem comprar os medicamentos? O que lhe fazemos? Na grande maioria, são casos de desemprego ou de reformas muito baixas. São pessoas que trabalharam uma vida inteira e hoje recebem entre 200 e 300 euros por mês. Isto, quando em Portugal há quem receba seis mil euros de pensão. Sim, neste país pobre há quem receba seis mil euros para passear o cão, se o tiver. A questão é que nem todos conseguiram, enquanto estiveram no activo, serem, por exemplo, gestores de empresas públicas.
 
* José Lameiras - Jornalista
 
Modificado em terça, 22 setembro 2015 22:50