domingo, 26 maio 2019

A Cozinha do Ganhão

quinta, 26 novembro 2015 02:51

 

Começa hoje mais uma Cozinha dos Ganhões. Durante quatro dias, Estremoz dá a conhecer, a todos aqueles que a visitam, um sensacional mundo de sabores que é também fruto da extraordinária interação do Homem com a Paisagem.
 
Em 1985, em boa hora se reuniu à mesa um grupo de estremocenses, apreciadores da boa gastronomia alentejana, dando assim o primeiro passo para a criação de um evento que é hoje considerado o maior certame gastronómico do Alentejo e que vai já na sua 23.ª edição.
 
Armando Alves, Jacinto Varela, João Albardeiro, João Paulo Ferrão e José Emílio Guerreiro, foram os mentores deste projeto e por isso merecem naturalmente ser referenciados, pois se não fosse esta sua ideia provavelmente a Cozinha dos Ganhões hoje não existiria.
 

Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.

A sua ideia base consistiu na realização de provas de cozinha típica alentejana e degustação de vinhos alentejanos, numa tasquinha improvisada para o efeito, no Rossio Marquês de Pombal, por ocasião da III Feira de Arte Popular e Artesanato de Estremoz, em julho de 1985. Ali, várias tascas, restaurantes e cozinheiros, em dias diferentes, tiveram oportunidade de dar a conhecer as suas especialidades aos visitantes.
 
Mas a ideia apenas se viria a formalizar como evento próprio nove anos mais tarde, em 1994, no Pavilhão do Mercado Abastecedor, pela mão do Município de Estremoz. Ali estiveram presentes onze tasquinhas, em representação das várias freguesias do concelho, cada uma com os seus pratos típicos, acompanhados com vinho novo e pela atuação de vários grupos etnográficos.
 
Muitos ainda se recordam das noites frias de final de novembro passadas naquele Pavilhão, das ambiências vivenciadas nas tasquinhas delimitadas com estruturas de madeira, do piso em terra batida e do cheiro do fumo proveniente das dezenas de assadores. Tal como nos sábados de manhã, em que a paisagem urbana de Estremoz se transforma e o campo visita a cidade no mercado tradicional, também naquela época a cidade, naquele espaço, dava as boas vindas aos sabores, cores, sons e cheiros do campo, num festival de características únicas.
 
Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.
 
As freguesias continuam lá representadas, através das tasquinhas, dos doceiros, dos artesãos, dos empresários do sector agroalimentar, dos vinhos... Os sabores, os sons, os cheiros, as cores, os saberes, tudo continua lá, nas mais diversas manifestações.
 
Contudo, tal como uma paisagem, tal como a própria vida, também a Cozinha dos Ganhões se teve de adaptar ao novo espaço e às vontades impostas pelo tempo e pelos Homens. No tempo em que vivemos, ela precisa de crescer e de acontecer num espaço que garanta as condições que deem resposta às exigências sociais, ambientais e económicas, impostas por vários agentes, designadamente em matéria de segurança, de higiene alimentar e de conforto humano.
 

Embora tenha algumas saudades dos tempos e das vivências que, seguramente, já não voltam a acontecer neste evento, confesso que gosto muito mais da Cozinha de hoje. Digo-o com a maior das convicções e com a confortável naturalidade de quem faz parte desta paisagem de sabores há 15 anos e, por isso, acompanhou a sua evolução de muito perto.
 
Com os seus altos e baixos, a Cozinha dos Ganhões evoluiu muito nestes 23 anos, mas o mais importante é que conseguiu, sempre, ser uma das melhores formas de promoção das potencialidades do concelho de Estremoz, sendo anualmente frequentada por milhares de visitantes, à procura dos sabores que só nós, alentejanos, sabemos introduzir na paisagem. Soube afirmar-se, soube conquistar o seu espaço, soube diferenciar-se e destacar-se das restantes feiras gastronómicas. Tem inovado, respeitando a tradição. É por isso que é única e merece o estatuto que adquiriu.
 
Nos últimos três anos, a Cozinha dos Ganhões tem-nos ainda remetido para um passado longínquo da humanidade, recordando-nos que todos nós temos um pouco de caçador-recoletor nos nossos genes. A Feira "Estremoz Caça e Pesca", que constitui um excelente complemento à Cozinha, é também uma mostra da forma como o Homem tira partido da paisagem para criar paladares ou para se recrear.
 
Nos próximos dias, esta minha paisagem vai encher-se de animação e de convívio, vai despertar todos os meus sentidos. Vou aproveitar, por isso, esta oportunidade que viver em Estremoz me proporciona e fazer jus ao nome que tenho. Porque afinal, esta também é a minha Cozinha...
 
Arquiteto Paisagista António Ganhão Serrano, 26/11/2015
 
 
Modificado em quinta, 26 novembro 2015 02:57

O Costa do Escadote

quarta, 25 novembro 2015 01:40
Agora, é mais fácil entender a boa disposição de António Costa, na noite das eleições de 4 de Outubro, quando os resultados apontavam para uma derrota do seu partido. Aliás, diga-se em abono da verdade, uma derrota sua. António Costa foi o grande derrotado dessas eleições. Seria relativamente fácil, para António José Seguro, vencer uma Coligação que estaria, por essa altura, a dar tiros nos pés. Não foi fácil, nem de perto nem de longe, o caminho que Passos e Portas tiveram de fazer juntos. A juntar às decisões impopulares que tomaram, e que só por si tiram votos nas urnas, algumas "rixas" internas deixaram o Governo muitas vezes a abanar e quase a cair. A Coligação renasceu das cinzas, mobilizou-se e venceu as eleições. António Costa tirou a António José Seguro o direito de lutar pelo lugar de primeiro-ministro, dizendo que este tinha conseguido um resultado "fraquinho" nas Europeias, e foi ele para a frente de combate, abandonando a Câmara de Lisboa com a certeza que São Bento seria a próxima paragem. No dia 24 de Novembro, chegou a confirmação de que afinal tudo valeu a pena.
 

António Costa rasteirou, em pouco tempo, três adversários políticos. Seguro, Passos e Portas foram ultrapassados por Costa nas suas ambições. Conseguiu alianças impensáveis e que serão muito difíceis de manter e de levar até ao fim. Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B. António Costa sabia que só precisava de garantir que a Coligação não tivesse maioria no parlamento. Depois, era garantir entendimentos para ir para o poder. Conhecedor da Constituição, António Costa lançou uma caça ao Governo, sabendo que seria fácil convencer o PCP e o BE, partidos que passaram a legislatura a pedir a demissão de Passos Coelho.
 
É claro que as Legislativas servem para eleger Deputados e não Governos. Esse é o argumento para quem agora defende esta solução para uma "estabilidade governativa". No entanto, eu vi, e ouvi, dois debates entre Costa e Passos, um na televisão e outro na rádio. Eram debates para que os portugueses escolhessem o primeiro-ministro. Passos conseguiu ser mais votado, foi indigitado e depois rejeitado. Costa foi considerado o grande derrotado e vai ser o líder do governo.
 

Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B.

Há muita gente dentro do PS que não concorda com isto. Uns dizem, outros nem por isso. Os portugueses nunca irão perdoar se algo correr mal. Seria mais seguro, e até mais lógico, o PS deixar passar o Governo da força política mais votada e depois tentar no parlamento fazer aprovar algumas das suas ideias, negociando também com o Governo os diplomas fundamentais. A grande questão é que António Costa jogou a sua sobrevivência política e liderar a oposição não era suficiente para as suas aspirações. Traçou como objectivo ser primeiro-ministro e vai conseguir. De regresso ao Governo, estarão alguns dos que lá estavam quando Portugal pediu um resgate ao FMI. Quatro anos depois, parece que nada aconteceu.
 
Desejo, honestamente, sorte a António Costa. Portugal precisa de alguém que olhe para o país, não no imediato, mas no futuro. Há muitos jovens desiludidos com os últimos anos de sucessivos governos especialistas em trapalhadas e governantes metidos em esquemas. De um lado e do outro, há poucos inocentes. Apesar da falta de dinheiro, ainda é bom ter poder em Portugal pois, se não o fosse, António Costa não tinha usado, mais uma vez, o seu escadote.
 
* jornalista José Lameiras
Modificado em quarta, 25 novembro 2015 01:46

Sonhar é acreditar que sim

sexta, 13 novembro 2015 15:39
“Pelo sonho é que vamos.
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
Pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E do que é do dia-a-dia
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.”
 
Este é talvez um dos poemas mais conhecidos do Poeta e Professor Sebastião da Gama, fala precisamente do sonho. Na verdade, desde o início dos tempos que a humanidade sonha.
 
Ao longo dos séculos o sonho tem sido retratado por inúmeros escritores, pensadores, poetas, políticos, filósofos. Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira, Agostinho da Silva, António Gedeão, Alexandre O’Neill, José Saramago, Florbela Espanca, Mia Couto, Gabriel Garcia Marquez mas também Sigmund Freud, William Shakespeare, Martin Luther King e até John Lennon, Bob Marley ou Charlie Chaplin falaram sobre o sonho.
 
Quem é que nunca teve um sonho que o perseguisse todo um dia?
 
Quem é que nunca sonhou que vai cair num precipício e acorda repentinamente? 
 
Quem é que nunca acordou a meio de um agradável sonho e não tentou adormecer de novo para o poder retomar? 
 
Quem é que nunca sonhou ser aquilo que não é?
 
É verdade, todos sonhamos, todos mesmo, sem excepção! 
 
Classificar os sonhos de bons ou maus não faz para mim qualquer sentido, até porque, desse modo, se os sonhos são maus não são sequer sonhos, são pesadelos. Também não há para mim sonhos grandes ou pequenos, eles não se medem, não se pesam… se bem que há sonhos que tocam, que falam, que cheiram, que ouvem, que veem.
 
Sonhar não pode ser uma ousadia… sonhar só pode ser uma incomensurável liberdade… um despertar de sensações… sonhar só pode ser soltar as amarras, ultrapassar limites. De certo modo o sonho leva-nos a passar da tentação à acção, ainda que não seja claro que nos dê aquilo que a realidade nos nega.
 
Serão os canais que levam o sonho à realidade, os mesmos que o levam à utopia? Talvez. Ainda assim acredito que o sonho não seja só uma coisa do outro lado, dali… do inconsciente, até porque qualquer um pode sonhar acordado.
 
Muitas vezes questiono-me sobre a profundidade do sonho, sim porque não é só o sono que é profundo, o sonho também o é. Na minha perspectiva todo o sonho é profundo e não deixa mesmo de o ser nem quando os olhos se abrem, o que acontece é que ele está intimamente ligado ao desejo, e o desejo tanto existe no estado de sono como no estado de vigília. Tenho para mim que talvez o sonho e o desejo sejam a mesma coisa… ou então não… se calhar quando dormimos sonhamos e quando estamos acordados desejamos.
 
No fundo sonhar é voar, transpôr fronteiras, viajar, sentir… SONHAR É ACREDITAR QUE SIM!
 
Ninguém pode sonhar por nós! O sonho por mais que envolva mil e uma pessoas é sempre individual. No sonho todos somos o centro de tudo, todos somos protagonistas, aqueles a quem é entregue o papel principal, aqueles a quem a visão mais abrange, aqueles que acreditam que conseguem. Mesmo assim não considero que o sonho seja egocêntrico, senão vejamos, quando se tem filhos os nossos sonhos modificam-se (e de que maneira!), principalmente porque quase todos se passam a centrar neles. Obviamente que não esperamos que os nossos filhos não os tenham ou que queiramos que vivam os nossos sonhos, é importante para nós é que eles vivam nos nossos sonhos mas acima de tudo é imprescindível é que sonhem… que sonhem muito. 
 
Se analisarmos bem, o sonho está sempre ligado à forma verbal, ou a um conjunto de verbos, está ligado ao ter, ao ser, ao querer, ao estar, ao ir, ao ficar. Verifiquemos por exemplo o verbo TER, há quem sonhe TER uma casa melhor (ou TER uma casa), há quem sonhe TER um bom carro (ou TER um carro), há quem sonhe TER uma vida melhor (ou TER uma vida). 
 
O sonho já foi sonhado, já foi pensado, já foi escrito, falado filmado, desenhado, contado, pintado, ouvido, dançado, gritado, cantado, já foi ostentado, silenciado, marginalizado, mas também já foi sentido, vivido e realizado.
 
Eu próprio tenho muitíssimos sonhos, talvez não tantos como Fernando Pessoa que tinha em si todos os do mundo. Sempre ouvi dizer que é o sonho que comanda a nossa vida, aliás já António Gedeão o dizia e Manuel Freire o cantava na sua “Pedra Filosofal”. Também sempre me disseram que só se era feliz e não envelhecia quem nunca havia desistido de sonhar. Ainda assim, quem sabe não me chegue ter todos os sonhos que tenho, talvez o que sonhe seja pouco, talvez muitos dos meus sonhos sejam utópicos.
 
Faço-vos uma inconfidência, um dos meus maiores sonhos é agarrar aquela estrela ali… aquela que brilha mais que as outras… a do meu pai. Agarrá-la e trazê-la até mim para que possa voltar a vê-lo, para lhe tocar de novo no rosto, para lhe dar de uma só vez os abraços e os beijos que não lhe dei, para voltar a sentir o seu cheiro e dizer-lhe tão simplesmente o quanto foi importante para mim, o quão importante ele é para mim.
 
Será que há sonhos depois da morte?
 
Se houver só espero que os dele se cruzem com os meus para voltarmos a partilhar juntos… AQUELES momentos!
 
* Professor Luís Parente

Ter dúvidas tem as suas consequências

quarta, 28 outubro 2015 13:21
Como sempre, não sabia acerca do que escrever neste artigo. Houve alguém que me disse para escrever sobre a vitória do Sporting (e a consequente derrota do Benfica) no jogo do passado domingo. Não o quis fazer, pois para além de não perceber nada de futebol, também não sou daqueles que "sofrem da bola" e considero que o meu tempo é precioso demais para dedicá-lo a esse tema. Além disso, como não sei nada sobre o assunto, corro o risco de ser vaiado nos comentários por aqueles que realmente percebem ou pelos que realmente sofrem. Assim sendo, jamais escreverei sobre futebol. Deixo isso para os entendidos.
 
Depois pensei escrever sobre a Playboy. Sim, leram bem: sobre a Playboy. Ao que parece, os editores e o fundador da revista decidiram que a mesma passará a não integrar fotografias de mulheres em nu integral. Asseguram que já não conseguem vender como antigamente, devido à facilidade com que este tipo de imagens prolifera pela Internet. Contam agora, através da publicação de imagens de mulheres apenas em poses provocantes, recuperar e alargar o público-alvo da revista, para que se dirija também aos adolescentes na faixa etária dos 13 anos. 

É bem provável que as vendas melhorem, pois é sabido que não existem na Internet milhões de imagens de mulheres em poses provocantes e as mesmas não estão acessíveis a jovens de 13 anos... Mas, tal como de futebol, também não percebo nada sobre este assunto e por isso decidi também não escrever sobre ele.
 
Atendendo à atualidade do tema, decidi escrever sobre os resultados das eleições legislativas, coisa que em Portugal é sinónimo de ir ao circo, com a óbvia vantagem de esta ida ao circo ser de graça e, mesmo assim, ter já proporcionado muitas e memoráveis gargalhadas (com o devido respeito que tenho pelas artes circenses, as minhas desculpas por esta comparação). Corro o risco de possuir ainda menos conhecimentos sobre política, mas atendendo à atual conjuntura e não obstante já terem sido escritos milhares de quilómetros de opiniões sobre o tema, parece-me que todos nós cada vez percebemos menos de política nacional.
 
Acredito piamente e apenas naquilo que os meus sentidos percecionam. E aquilo que vi foi a coligação Portugal à Frente vencer as eleições, independentemente de o ter conseguido com maioria relativa ou não. Foi a força política mais votada. A minha opinião é que deve ser esta coligação a governar, mau grado me tenha feito perder vencimento ao fim do mês, me obrigue a trabalhar mais uma hora por dia, me tenha tirado subsídios de férias e de natal e me tenha dado mais uma série de chatices, como a subida do IVA ou do IRS. Contudo, não gostava nada de ter feito todos estes sacrifícios para agora vir uma série de radicais, sabe-se lá com que ideias, arranjar maneira de ter de voltar a passar pelo mesmo daqui a meia dúzia de anos. Confesso que me causa uma certa estranheza, diria até um certo repúdio, uma maioria artificial, uma coligação pós-eleitoral, cujo programa conjunto se desconhece e não foi sufragado (aliás, duvido até que exista), vir agora reivindicar o direito de governar sem ganhar.  Tenham paciência... Como querem que o povo acredite nos partidos políticos, se eles se prestam a este tipo de manobras apenas para estar no poder? Quem os viu e ouviu durante a campanha eleitoral nunca pensou ver o PS, o PCP e o BE aos "beijinhos e abraços" uma semana depois. Cá para mim há outros interesses por detrás disto tudo, mas isto sou só eu a pensar, pois, tal como disse, eu não percebo nada de política...
 

Tato teve o Presidente da República, que indigitou quem tinha que indigitar para Primeiro-Ministro e teve a ousadia de "chamar os bois pelos nomes". Admiro a sua atitude de coragem, pois alguém tinha de chamar esta gente à razão. Há quem diga que o discurso de Cavaco Silva ainda deu mais força à "esquerda unida". Mas qual esquerda unida? Gostava que me explicassem onde existe esta união, pois eu não a consigo sentir. Parece-me que eles também não...

Tato teve o Presidente da República, que indigitou quem tinha que indigitar para Primeiro-Ministro e teve a ousadia de "chamar os bois pelos nomes". Admiro a sua atitude de coragem, pois alguém tinha de chamar esta gente à razão. Há quem diga que o discurso de Cavaco Silva ainda deu mais força à "esquerda unida". Mas qual esquerda unida? Gostava que me explicassem onde existe esta união, pois eu não a consigo sentir. Parece-me que eles também não...
 
Chego à conclusão que falar sobre política nacional se revelou uma tremenda perda de tempo e por isso prometo que não o voltarei a fazer. Há certamente por aí gente muito melhor posicionada para isso, tal como o há para falar sobre futebol.
 
Mais valia que tivesse escrito sobre a construção da Zona Industrial de Arcos, que teve início no dia 8 de outubro. A tal zona industrial que alguns políticos locais não queriam viabilizar; a tal zona industrial que segundo eles nunca iria ser construída; a tal zona industrial que, também segundo esses mesmos políticos, não terá empresas interessadas em ali se instalarem. Estou "mortinho" por ver a cara destes políticos daqui a um ano...
 
Podia ter falado sobre as alterações que esta Zona Industrial vai conferir à paisagem, sobre os empregos que vão ser criados, sobre as pessoas que vão continuar a viver em Estremoz, sobre a dinâmica económica que isso proporciona, sobre a concretização de sonhos ou ainda sobre a influência que Pedro Passos Coelho teve na sua construção. Parece que desperdicei esta oportunidade e acabei por escrever sobre assuntos sem qualquer interesse. Ter dúvidas acerca do que escrever tem as suas consequências.
 
Para a próxima, juro que vou ter mais juízo e escreverei sobre algo mais profícuo, pois imaginar uma coligação de esquerda que não existe, nunca existiu e jamais existirá, é tão mau como folhear uma Playboy sem mulheres nuas e coloca-me sérias dúvidas se o Benfica, apesar de ter perdido com o Sporting, não devia estar em primeiro lugar no campeonato.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 
 
 
Modificado em quarta, 28 outubro 2015 13:57

Encontro com Freud - Crónica VI

segunda, 26 outubro 2015 23:09
…”encontrei-me com Freud” para refletir o privado e o íntimo, dois conceitos semelhantes ou significativamente diferentes, incompatíveis ou complementares? …Momentos privados, aqueles que partilhamos com alguém, onde o nosso comportamento é pautado e/ou motivado por sentimentos, desejos, anseios e despido de preocupações, mais ou menos latentes relativamente à linguagem, à expressão corporal e até ao sentido crítico, que é como quem diz, menos formais e mais descontraídos… Partilhamos momentos privados nas nossas relações, sejam relações físicas, emocionais e em que os objetos (considera-se aqui “objeto” aquele com que nos relacionamos, aquele a quem dirigimos a nossa atenção em determinado contexto e situação) podem ser mais ou menos próximos, do ponto de vista de conhecimento pessoal. É comum ouvirmos falar em relações fugazes, um momento, uma noite, um espaço e um tempo com quem se esteve em privado ou anos de vida em privado, um namoro, um casamento, uma amizade, uma relação familiar, em todas elas temos consciência do grau de intimidade? Será que até hoje partilhámos efetivamente a nossa intimidade com alguém? Vou considerar o íntimo aquilo que guardamos na alma, o que desejamos em cada momento privado, os nossos medos, os nossos anseios, as nossas imperfeições, a forma como nos vemos e olhamos o mundo à nossa volta, o que nos satisfaz, o que gostamos, o que sentimos em cada momento, tempo e espaço, que às vezes é tão mutável e inconstante que tentamos apenas que passe e voltemos a sentir/ estar como é esperado.
 

A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse...

É tão fácil partilhar situações de felicidade, uma paixão, uma viagem que se realiza, um emprego que se ambiciona, um sonho que se realiza, e quando perdemos, quando a dor é maior que a vida inteira, quando o sofrimento abre uma ferida que teima em cicatrizar, tendencialmente fechamo-nos em “concha”, podemos até verbalizar mas será que partilhamos o que intimamente sentimos? É comum que cada um procure o seu espaço e tempo longe de tudo e de todos, é comum que o façamos com intuito de proteger os que nos estão próximos e aqui temos dois problemas fundamentais, por um lado o sofrimento aumenta e por outro provocamos nos outros um processo de “adivinhação” relativamente ao que sentimos, pensamos, queremos o que muitas vezes confunde reações e emoções de parte a parte.
 
Meus amigos, quando dividimos, quando partilhamos, o peso é menor… A intimidade é muito mais que partilhar corpos, beijos, abraços, discussões, ideias, espaços e tempos… Muitas vezes despimos a roupa mas sem nos despirmos de alma, essa guardamos porque é o que temos de mais precioso e único. A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse, aprendam que amar não significa controlar, escolher ou replicar o mesmo caminho mas sim orientar, escutar, aprender e respeitar que a felicidade e o amor se constroem e que o caminho é longo e todos necessitamos de um espaço e tempo onde a nossa intimidade não seja uma prisão, um peso e muito menos uma culpa de tudo e de coisa nenhuma. 
 
* Psicóloga Helena Chouriço
Modificado em segunda, 26 outubro 2015 23:37

Queridos inimigos, eternos rivais

quarta, 21 outubro 2015 12:46
Em 1907, em Carcavelos, o Sport Lisboa e o Sporting Clube de Portugal defrontaram-se pela primeira vez. Pelo Sporting, alinharam oito jogadores que teriam deixado o Sport Lisboa, reza a história, em busca de melhores condições, nem só financeiras. O Sporting ganhou 2-1, um dos jogadores (Cândido Rodrigues) que tinha mudado para o outro lado da rua marcou um golo e o da vitória leonina acabou por acontecer através de um autogolo, imagine-se, de Cosme Damião. Este é apenas o primeiro episódio de uma rivalidade centenária. 
 
Nesse primeiro jogo, entre esses oito jogadores que mudaram de lado, estavam dois fundadores do Sport Lisboa. Ou seja, isto não começou agora, nem há dez ou vinte anos. Tem sido uma rivalidade regada, fortalecida e, por vezes, alimentada e acentuada por atitudes irresponsáveis de alguns dirigentes que nunca o deveriam ter sido.
 

Mas, nem tudo é mau quando se trata destas rivalidades. Quando a mesma é racional, responsável e apenas no campo competitivo, alimenta a paixão que os adeptos têm pelo futebol. No campeonato de Lisboa, de 1908\1909, o nessa altura já Sport Lisboa e Benfica deslocou-se ao campo do Lumiar para defrontar o rival e ganhou por 2-1 com o golo da vitória a ser marcado depois de uma grande penalidade mal assinalada. Os "leões" protestaram muito depois do jogo, o Benfica reconheceu que o lance teria sido mal julgado e pediu que o jogo fosse anulado e repetido. A organização não permitiu e o resultado foi mesmo homologado. Alguém imagina que isto pudesse acontecer nos dias de hoje?
 
Em 1918, o Sporting apresentou-se no campo do Benfica apenas com 9 jogadores disponíveis para jogar. Foi atribuída a vitória ao Benfica, pois o Sporting não quis jogar com menos elementos. O Benfica não aceitou vencer desta forma e marcou-se nova data para o encontro que os encarnados haveriam de ganhar por 5-2.
 
Todos nós, que gostamos de futebol, esperamos sempre ansiosamente pelo dia do derby. Todos temos um amigo ou familiar que sofre pelo outro clube e isso é sempre motivo de conversa. É sempre um momento alto da época. Aconteceram, e acontecerão muitos mais, derbies históricos. Todos nós nos lembramos onde vimos aquele jogo que ficou na memória. Todos sabemos onde vimos os 6-3 com recital de João Pinto ou os 7-1 de Manuel Fernandes. O ambiente, em qualquer estádio, muda num jogo destes. Já assisti a alguns ao vivo e a atmosfera é completamente diferente. Em causa não está só a vitória numa competição, está a honra, está a história. Antes de começar, não sabemos o que vai acontecer. A história já mostrou que é impossível saber o que pode acontecer quando se defrontam estas duas equipas. Já vi goleadas, jogos sem golos mas muito intensos, jogadores que se revelaram num jogo como este e construíram, por isso, uma carreira, empates com muitos golos... enfim, a história já provou que neste jogo tudo pode mesmo acontecer. É precisamente por isto que este clássico é especial.
 

Tenho muita vontade que o "meu" clube ganhe no domingo por muitas e variadas razões. No entanto, tenho também muita vontade que toda a gente esteja em segurança a ver o jogo, seja no estádio ou num café onde existam adeptos dos dois lados, e que se grite muito, que se apoie muito durante os 90 minutos e que depois a vida prossiga normalmente.

Este texto vem nesta altura por um motivo óbvio: Domingo há jogo. Arrisco a dizer, que a época que estamos a viver ficará na história como um capítulo importante nesta rivalidade. Está num ponto alto e perigoso. O Sporting foi buscar um treinador que estava na Luz há seis anos e isso "incendiou", ainda mais, a segunda circular. Depois vieram as acusações e suspeitas, processos movidos em Tribunal, troca de acusações e gasolina para a fogueira. O derby do próximo domingo, vale muito mais que três pontos, parece que vale 30. Está, graças a tudo o que é dito e escrito, criado um ambiente que ultrapassa largamente a missão do futebol. Temos visto pouca gente preocupada sobre quem vai jogar de início ou a estratégia a utilizar por cada uma das equipas. Com o aproximar da hora do jogo, isto vai piorar.
 
A rivalidade, quando é saudável, é muito boa para o futebol. Ganhar ao rival faz com que as segundas-feiras sejam muito mais agradáveis. Faz com que se renove a confiança na equipa e na época. Agora, os dirigentes têm de perceber uma coisa: Apesar de tudo o que gira à volta do futebol, isto não é uma guerra. É certo que, para uns ganharem, outros têm de perder. No entanto, é apenas futebol, é apenas um jogo. É legítimo que se discuta se houve ou não penalty, se era ou não fora de jogo ou se a falta era para vermelho ou amarelo. Tudo isto é normal, dentro das regras da boa educação. Já não é normal, nem pouco mais ou menos, provocar o ódio entre apoiantes e não entender o que pode acontecer num local onde se juntam 65 mil pessoas, grande parte a puxarem para um lado e algumas para o outro.
 
Não é preciso falar em casos concretos ou trazer exemplos. De ambos os lados há responsabilidades para este clima, para esta "guerra". A luta deveria ser apenas dentro do campo. Tenho muita vontade que o "meu" clube ganhe no domingo por muitas e variadas razões. No entanto, tenho também muita vontade que toda a gente esteja em segurança a ver o jogo, seja no estádio ou num café onde existam adeptos dos dois lados, e que se grite muito, que se apoie muito durante os 90 minutos e que depois a vida prossiga normalmente. Afinal, o futebol serve para isto mesmo. Não deveria servir para albergar, tapar e amnistiar criminosos, gente sem caráter e mal formada. Viver o futebol ou, por outro lado, viver no futebol, deveria ser para quem pode...e não para quem quer. Que ganhe o melhor e mais competente, apenas isso.
 
* jornalista José Lameiras
 
Modificado em quarta, 21 outubro 2015 12:51

Saúde de Água na Boca

quinta, 15 outubro 2015 01:08
Desculpar-me-ão mas hoje falarei um pouco mais de mim. O assunto que vos trago é-me particularmente agradável. Do alto dos meus 110 quilos vou levar-vos numa viagem que vos vai falar de cheiros, sons, cores, texturas e sabores, no fundo vou partilhar convosco um dos maiores prazeres da vida… COMER.
 
Talvez não seja aconselhável a leitura deste texto a vegetarianos e vegans. Arriscar-me-ia mesmo a não aconselhá-lo também a quem não goste de comer, ou então não, quem sabe esta leitura não vos sirva de inspiração ou vos reavive a memória de sabores já esquecidos, de pratos confeccionados pelas mães, pelas avós ou por quem quer que seja.
 
O dia 16 de Outubro foi instituído como “Dia Mundial da Alimentação” e é comemorado um pouco por todo o lado com inúmeras actividades que apelam ao consumo de uma alimentação variada e sobretudo saudável. Naturalmente a alimentação varia de povos para povos, de culturas para culturas e até mesmo de estratos sociais para estratos sociais. Sinceramente o termo estrato social não é um termo que me agrade particularmente, sei que sempre os houve mas por mim alinho muito mais na igualdade pela diferença, ainda assim reconheço que infelizmente possa ser um pouco utópico pensar desta forma mas… adiante.
 
Como grande apreciador de comida, para mim o ideal seria partilhar o prazer de experimentar, de degustar, de saborear, de conviver. Para mal dos meus pecados, e feliz ou infelizmente a Gula é um deles, detesto “enganar o estômago”. Para mim ou se come ou não se come.
 
Quando pensei em abordar este assunto, comecei por pensar na imensidão de termos que proliferam na esfera culinária. Palavras como gratinar, misturar, triturar, demolhar, escaldar, derreter, confitar, envolver, barrar, virar, alourar, espremer, estufar, fritar, bater, cozer, emulsionar, aveludar, grelhar, enfim… algumas só de as pronunciar já as papilas gustativas ficam em transe.
 
Posteriormente lembrei-me de expressões que vulgarmente utilizadas no dia-a-dia se relacionassem directa ou indirectamente com comida ou com o acto de comer, e aí surgiram-me várias de onde nem sequer sei a origem: “Quem não trabuca não manduca.”; “Cada cor seu paladar.”; “Perdoa-se o mal que faz para o bem que 

sabe.”; “Quem não é para comer não é para trabalhar”; “Saco vazio não se segura de pé.”; Os gostos não se discutem.”; “Não vivemos para comer, comemos para viver.”; “Os olhos também comem.”; “Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és.”; ou ainda “Somos o que comemos.”. Na realidade qualquer uma destas expressões pode revelar-se falsa, senão vejamos, por exemplo, quantos petiscos, pitéus, quantos acepipes ou iguarias não podem ser degustadas enquanto se discute o gosto de cada um?… quantas pessoas não são bafejadas pela sorte de terem uma qualquer lombriga ou uma bicha solitária que lhes permita comer tudo e mais alguma coisa sem sequer engordarem um graminha?... No meu caso concreto costumo dizer que basta que inspire um pouco mais fundo e lá vem mais um quilinho. É verdade eu sou mesmo aquilo que como, sem tirar nem pôr, e apesar de fazer uma alimentação variada não consigo, ainda, controlar a quantidade. Não consigo, por exemplo, resistir a um bom Pastel de Nata, aliás há anos que digo que o meu bolo de aniversário de sonho é um Pastel de Nata gigante, como um bolo de aniversário comum mas com toda aquela massa folhada estaladiça, todo aquele creme… hum… (acorda Luís, acorda!). É um facto! Sou mesmo um perdido por doces. Adoro Sopa Dourada (muitos acham enjoativo, eu não!), Baba de Camelo (feita pela minha mulher), Semifrios de qualquer espécie, Tarte de Natas… tudo de natas, e mousse… Mousse de Chocolate… ai o que eu gosto de Mousse de Chocolate, hum… Papos de Anjo, Barrigas de Freira, Pães de Deus, Pão de Rala e um sem número de doces conventuais, Ovos-moles, Sericaia com Ameixa, Tigeladas de Abrantes (são de facto as melhores!), Clarinhas de Fão, Bolo de Laranja, de Canela, Bolas de Berlim, Queijadas, o belo do Bolo de Requeijão da Adelina, os quadradinhos fofos da minha Quiquia, os Nógados, o Bolo Rei, os Bolos de Côco, o Bolo do Caco, as Cornucópias, os Bábás. Vou fazer-vos mesmo uma inconfidência, se há coisa que sempre adorei fazer foi raspar o recipiente do bolo cru com o tal do utensílio com nome de ditador do Estado Novo, na verdade era capaz de comer um bolo sem sequer ir ao forno.
 
Mas se pensam que o meu gosto incide essencialmente nos doces, enganam-se, ainda assim prefiro salgados. Da Sopa de Feijão com Mogango ao Cozido de Grão, das favas com Chouriço e Mouro à Sopa de Feijão com Couve, do Ensopado à Cachola, do Creme de Coentros à Sopa da Pedra ou ao Caldo Verde… tudo me faz crescer água na boca. Ainda assim, no que diz respeito às sopas alentejanas sou um bocado atípico, gosto de todas mas… sem pão (estranho não é?) desde a Açorda com Bacalhau e Ovo à Sopa da Panela ou da Sopa de Cação (ou Caldeta como também lhe chamam) à Sopa de Tomate com ovos escalfados. 

De carne gosto de quase tudo… delicio-me com as tradicionais Migas com Carne do Alguidar, com as Burras Assadas no Forno, com a Feijoada à Transmontana, com a Carne de Porco à Alentejana, com as Migas de Espargos (as de Cabeção são das melhores), Arroz de Pato, Coelho à 
Caçador, Leitão à Bairrada, Cozido à Portuguesa, Arroz de Cabidela, Escalopes de Vitela com Champignons, com bifes feitos de todas as maneiras 
e feitios, com o tradicional Frango no Churrasco. Adoro qualquer tipo de enchidos, desde os Chouriços aos Paios, dos Painhos às Morcelas, das Farinheiras às Alheiras… eu sei lá! Passava aqui tempo sem fim só a falar de carne. Mas desiludam-se se pensam que não gosto de peixe ou de outros crustáceos e moluscos. Posso dizer-vos que aprecio uma boa Sardinhada, aliás, qualquer peixe grelhado me satisfaz. Adoro Arroz de Polvo, de Lapas, de Marisco, Lulas, Chocos, Ameijoas (feitas das mais variadas maneiras), Camarão, Sapateira, 
Lagosta, Lavagante, Conquilhas, Tamboril, Salmão, Achigãs, Robalos, Salmonetes, Cherne, Linguado, Cataplana de Marisco, Douradas, Atum, Carapau, Biquerão, Petinga ou “Jaquinzinhos” fritinhos com arroz de tomate… mas de todos tenho que destacar o “Fiel Amigo”, o belo do bacalhau, não resisto a um bom prato de bacalhau, seja Dourado, à Zé do Pipo, com espinafres, com natas, à Gomes de Sá, à Narcisa… enfim, é um gosto só de falar.
 
Purés, sopas, omeletes, pão, molhos, croquetes, pastéis, queijos, carne, peixe, massas, pastas, frutas, doces… tudo entra nas minhas preferências. Basicamente há muito poucas coisas de que não goste. Quem me conhece e olhe para mim dir-me-á: “Nota-se!”.

Adoro comer! E adoro comer utilizando todos os sentidos, sim porque comer não é só um acto cultural e social, comer não é só ingerir, não é só mastigar, consumir, devorar, emborcar, engolir… comer não é só almoçar, lanchar, jantar ou cear… comer é apurar os sentidos, é observar as cores, é tocar e sentir a textura dos alimentos, ouvir o crocante da bolacha, dos cereais e das batatas fritas, é viver o prazer de inúmeros paladares, é sentir os aromas, o perfume dos tempêros. 
 
A minha sorte talvez seja a tão propalada Dieta Mediterrânica, a tal que foi classificada pela UNESCO como Património Mundial e Imaterial da Humanidade, aquela que tem mil e um significados… simbólicos, espirituais, comerciais, culturais, sociais e essencialmente ligados à saúde. Está mais que provado que se pode ter saúde de água na boca. Sim, é disso que se trata, de saúde. Por muito que adore de comer, valores mais altos se levantam. Está na hora de mudar o meu rumo!... pelos meus filhos… pela minha família… pelos meus amigos… pela minha saúde… POR MIM!!!
 
* Professor Luís Parente
 
Modificado em quinta, 15 outubro 2015 01:29

Encontro com Freud - Crónica V

sábado, 10 outubro 2015 11:51
…hoje pensei em vários temas para refletir neste meu “Encontro com Freud” e dei por mim a pensar, tão somente no “outro”, aquele com quem me relaciono, seja o que for, seja quem for, amigos, marido, namorado, namorada, mulher, filhos, conhecidos, colegas, professores, alunos, pais, avós, tios, primos… e muitos mais provavelmente que vão cruzando as nossas vidas… O que fazemos nós por estas relações, como as alimentamos, de que forma as deixamos morrer, o que esperamos de todos e de cada um?... Somos exigentes no que toca ao afeto, reconhecimento, preocupação, segurança, cuidado e tantos outros “sentires” do “outro” em relação ao “eu” e muitas vezes esquecemos que, tendo todos esta condição inalterável que é Ser Humano, procuramos e exigimos do “outro” o que o “outro” inevitavelmente procurará no “eu”.
 

Todos gostamos de ver reconhecido o nosso papel, seja ele qual for, na família, no emprego, no grupo de amigos, interessante, o “outro” também. Todos gostamos de ouvir o quanto somos amados, desejados e queridos, curioso o “outro” também. Todos procuramos o melhor para nós e para os nossos, coincidência, os “outros” também.

Todos gostamos de ver reconhecido o nosso papel, seja ele qual for, na família, no emprego, no grupo de amigos, interessante, o “outro” também. Todos gostamos de ouvir o quanto somos amados, desejados e queridos, curioso o “outro” também. Todos procuramos o melhor para nós e para os nossos, coincidência, os “outros” também.
 
Afinal, não seremos assim tão diferentes…
 
Pais, Educadores, Professores, Técnicos e Sociedade em geral, é preciso construir modelos se queremos perpetuar nas nossas crianças e jovens o melhor que temos. É nossa responsabilidade, é nosso dever. Não fiquemos à espera que por um “ato de magia” eles aprendam e interiorizem a sociedade com que sonhámos amanhã. É preciso dizer “Bom dia” primeiro para que ao fim de um tempo ouçamos do outro lado um “Bom dia” de volta. É preciso valorizar e reforçar para que os mais novos possam reconhecer o seu próprio valor mas também os dos “outros”. É preciso verbalizar o “sentimento” em relação aos que nos são queridos para que os jovens facilmente possam expressar o que sentem e o que pensam. É preciso evidenciar o respeito pelo próximo, ainda que não estejamos em concordância, seja ela de que ordem for, para que os mais novos aprendam a respeitar a si mesmo e o “outro”.
 
Será difícil?... Talvez… Impossível?... Claro que não.
 
Podemos começar desde já a “treinar”, “eu” com os “outros”. 
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 
Modificado em sábado, 10 outubro 2015 12:06

Estremoz e a chegada do Outono

sexta, 02 outubro 2015 01:08
Chegou o Outono e com ele um novo ciclo. A paisagem, na sua incessante mutação, pinta-se de tons quentes. Nas árvores e arbustos de folha caduca, o tom verde da folhagem dá lugar aos amarelos e aos vermelhos tão característicos desta época do ano. As folhas caem e atapetam pavimentos, relvados e prados. Estes últimos, que foram tingidos de amarelo pelo calor do Verão, começam agora a renascer e a tornar-se verdes, por terem bebido da água das primeiras chuvas. Os dias ficam mais curtos e as noites tornam-se interminavelmente longas. O frio regressa às paisagens mediterrânicas, antevendo o rigoroso Inverno que está para vir. Até aqui, nada de novo. Sempre assim foi e sempre assim será, com maiores ou menores variações, no clima mediterrânico em que nos inserimos.
 
Novidade é que, com a chegada do Outono deste ano, Estremoz passou a ter um Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Sustentável (PEDU), iniciando também um novo ciclo para a reabilitação urbana deste concelho. Este plano, aprovado pelo Município de Estremoz, tem um horizonte temporal de cinco anos (2016/2020) e insere-se no âmbito de uma candidatura aos fundos comunitários e submetida ao Programa 
Operacional Regional do Alentejo (Alentejo 2020).

O documento elaborado e candidatado pelo Município abrange o território concelhio, mas centra-se especialmente na cidade de Estremoz e nas vilas de Evoramonte e Veiros, pois as regras ditavam que apenas os centros históricos podiam ser alvo do Programa.
 
Trata-se de uma oportunidade única para vermos satisfeitas as aspirações dos muitos estremocenses que, uns mais outros menos, se preocupam com as questões da degradação do espaço urbano. Confesso que me incluo no grupo dos estremocenses que se preocupam muito com estas questões, apesar de ter a noção de que muitas vezes não é possível reabilitar. Porque não há verbas, porque tudo tem um fim, porque também as cidades se alteram com o tempo e especialmente porque a sua manutenção, a sua existência, está sujeita à vontade dos Homens. Ainda assim, é necessário que nos preocupemos com o seu presente e com o seu futuro.
E o futuro de Estremoz, de Evoramonte e de Veiros muito irá depender da execução deste PEDU. Os investimentos municipais previstos neste plano, independentemente de concordarmos ou não com eles, contribuirão para dar uma nova vida (diria até, uma nova esperança) à cidade e àquelas duas freguesias.
 
De uma forma geral, parece-me que os objetivos definidos no plano traduzem bem aquilo que serão as necessidades efetivas de intervenção na regeneração deste três centros urbanos. Se assim não fosse, a estratégia definida neste documento não teria sido aceite de forma tão consensual e não teria merecido aprovação por unanimidade pela Assembleia Municipal de Estremoz.
 
Há uma particularidade do PEDU que me parece muito interessante e que julgo fazer todo o sentido. Cronologicamente, o plano prevê que na cidade de Estremoz se iniciem as intervenções no lugar onde tudo começou há mais de oito séculos atrás: na acrópole da cidade, que abrange a cidadela medieval e inclui o Bairro de Santiago. De acordo com o PEDU, as intervenções terão como objetivo recuperar o edificado e criar condições para a fixação de população, de comércio e de serviços. Dar vida a esta zona da cidade, promover a sua reabilitação física, social e económica, é um dos objetivos fundamentais da estratégia definida no plano. Só depois de se ter concretizado este objetivo, se avançará para a zona baixa da cidade, ligando os dois núcleos urbanos, através de intervenções consideradas estruturantes, tanto em espaço público como no edificado.
 

O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação.

Não quero, nem posso, efetuar aqui uma apresentação aprofundada do plano, mas na minha opinião há propostas no PEDU que merecem ser destacadas, nomeadamente: a recuperação e valorização das muralhas, baluartes e edifícios civis e militares da cidade de Estremoz; a reabilitação do Bairro de Santiago, em todas as dimensões a que o termo reabilitação se refere - social, ambiental e económica; a criação do Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz, como forma de potenciar e dar a conhecer esta arte única e tão característica de Estremoz; a recuperação do "Edifício Luís Campos" e do Largo General Graça, acrescentando dinâmicas a este espaço público e aproximando-o do Rossio e das pessoas; a inevitável regeneração das frentes leste e sul do Rossio, criando melhores condições de fruição, estadia e utilização da maior praça do País, sem contudo a descaracterizar; a recuperação e revitalização dos centros históricos de Evoramonte e Veiros, que tanto precisam que se olhe para eles com outros olhos... só para mencionar algumas das propostas. Para uma compreensão mais detalhada destas e de outras ações que estão incluídas no PEDU, aconselho vivamente a sua leitura e análise, quando a Câmara Municipal o tiver disponibilizado no seu site. 
 
O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação. Neste caso, beneficiarão de instrumentos financeiros (ou seja, subsídios reembolsáveis) para fazer face aos custos com as empreitadas de reabilitação de edifícios destinados a habitação, comércio ou serviços, desde que os imóveis tenham uma idade superior a trinta anos ou, não a tendo, comprovadamente se encontrem num nível de degradação que justifique a intervenção.
 
Também a propósito da reabilitação, é de salientar que foram aprovadas pelo Município de Estremoz as Áreas de Reabilitação Urbana (ARU) de Estremoz, Evoramonte e Veiros. Para além do acesso dos particulares aos instrumentos financeiros do Portugal 2020 e outros programas na área da reabilitação (Jessica, reabilitar para arrendar...), também a autarquia proporciona benefícios fiscais e incentivos a quem promover a recuperação de edifícios dentro da ARU: redução de 30% da taxa do IMI por um período de 5 anos a partir da data de conclusão da obra, redução de 10% do valor das taxas administrativas de licenciamento e IVA à taxa reduzida de 6% nas empreitadas de reabilitação.
 
Com a chegada deste Outono abriu-se mais uma janela de oportunidades para o concelho de Estremoz e, por isso, é importante que nos informemos sobre todas estas possibilidades que agora surgem e que irão melhorar este território que habitamos. Podia até parecer que este Outono não traria nada de novo, que era só mais uma preparação para um duro Inverno. Foi exatamente o contrário. Para mim, a chegada do Outono traz com ele a Primavera mais próspera que Estremoz já conheceu na sua História contemporânea.
 
* António Serrano | arquiteto paisagista
Modificado em sexta, 02 outubro 2015 09:10