segunda, 22 outubro 2018

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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O tempo e as marcas na paisagem

Escrito por sexta, 07 agosto 2015 00:04

 

Todas as coisas mudam com o tempo. Também assim é a paisagem. Costumamos dizer, na linguagem profissional da arquitetura paisagista, que o tempo é a quarta dimensão da paisagem.
 
Com efeito, todos os elementos da paisagem possuem três dimensões, que lhe são conferidas pelos elementos básicos (ponto, linha, plano) e pelo volume, mas é a sua quarta dimensão, o tempo, que maior influência tem na imagem da paisagem. Tal acontece porque o tempo confere mutabilidade à paisagem e aos seus elementos. As paisagens que conhecemos hoje são muito diferentes daquelas que existiram há cem ou há dois mil anos atrás e são o resultado da sucessiva e cíclica ação do tempo, dos fenómenos naturais e do Homem.
 

...de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz?

Os ciclos naturais, como a alternância entre o dia e a noite e as estações do ano, são a expressão mais percetível das alterações que o tempo impõe à paisagem e aos seus elementos, mas a sua passagem é também observável através das marcas que o Homem vai deixando no Mundo.
 
Tudo tem um tempo e um espaço associados e estas duas variáveis estão intimamente relacionadas, dando alma e carácter específicos a uma paisagem. Aquilo que existe hoje não pode nunca ser igual àquilo que foi ontem, nem será igual amanhã. Da mesma forma, aquilo que existe num determinado lugar é exclusivo desse lugar e não existe em qualquer outro lugar da mesma forma. É uma marca desse espaço e de um certo tempo.
 
Há marcas na paisagem que nos tocam mais do que outras e há algumas que não nos dizem absolutamente nada. Faz parte da natureza humana que assim aconteça, da mesma forma que mudar essas marcas, seja por alteração seja por anulação, também é próprio do ser humano, enquanto construtor da paisagem. Isto é válido para todo o tipo de marcas e para todo o tipo de paisagens e as decisões dos seres humanos, quando alteram um determinado espaço, têm sempre associado um tempo específico. Quer isto dizer que o Homem altera o espaço, cria as suas marcas, em função das suas necessidades e do tempo em que vive. Não pode, nem deve, continuar agarrado a marcas do passado, pois dessa forma dificilmente conseguirá olhar para o futuro e construir paisagens que satisfaçam as necessidades das gerações vindouras.
 
Por exemplo, de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz? Vale mais que pense nas vantagens que a nova Avenida Rainha Santa Isabel trouxe para a cidade, desde as relacionadas com a fluidez do trânsito e com a aproximação do centro urbano à periferia, ao contributo desta avenida como espaço gerador de convívio e de promoção da atividade física diária dos seus habitantes. O comboio e a linha foram, sem qualquer sombra de dúvida, uma marca incontornável da cidade de Estremoz, mas tiveram o seu tempo naquele espaço. Agora, a necessidade dos homens deu origem a novas espacialidades e a novas ambiências, mais adequadas ao tempo do presente e do futuro.
 

Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo.

E por que será que não temos também saudades da muralha seiscentista que foi mandada derrubar, em meados do século passado, para dar lugar à Avenida 9 de Abril e ao próprio caminho-de-ferro? Talvez porque também ela deixou de ter utilidade prática e, por isso, passou o seu tempo? Ou porque simplesmente nem nos lembramos dela existir? De facto é lamentável que tal tenha acontecido, mas acredito que, nesse tempo, tenham sido ponderadas todas as possibilidades e que a solução encontrada foi a que melhor deu resposta aos anseios da população da época. Há que respeitar isso, ainda que consideremos hoje que a destruição da muralha, que também já foi uma marca estremocense, foi um dos maiores atentados à memória e ao património da cidade. Contudo, o tempo não se deteve na época em que era necessário defender uma praça militar, nem hoje em dia dependemos dessa muralha para sobreviver.
 
Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo. Mas há quem insista em viver agarrado a essas marcas, a um tempo que já passou, não entendendo que algo só se torna memorável se for aceite e recordado por todos, ou pelo menos pela maioria. 
 
Para que as ações dos homens se tornem marcas na paisagem, seja qual for o tipo de paisagem, elas têm que significar algo para as pessoas que vivem e que habitam o território. Não vale a pena criar marcas que não são aceites e vividas pelas pessoas, pois mais rapidamente o tempo se encarregará de apagar estas marcas. É o mesmo que falar para uma plateia que não nos ouve ou escrever um artigo de opinião que ninguém lê (corro sérios riscos de isso também me acontecer...). Como disse Stephen King, um autor que muito admiro e cujas palavras são indubitavelmente uma marca nas inúmeras paisagens que escreve, "a boca pode falar, mas as histórias não existem se não encontrarmos ouvidos compreensivos para as ouvir".
 
Assim acontece com a paisagem. Por muito que as queiramos impor nos espaços em que intervimos, as marcas só continuarão a existir na paisagem se os homens as tiverem aceitado como suas no seu tempo e se forem úteis ao tempo dos homens que a seguir habitarem essa paisagem.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

Encontro com Freud - Crónica III

Escrito por sábado, 25 julho 2015 19:39
Há alguns meses, presenciei numa cadeia de fastfood, uma cena que me deixou perplexa. Publiquei inclusive na minha página do Facebook. 
 
Resumidamente… Uma senhora, acompanhada de um grupo de crianças e uma jovem, entornou um copo de refrigerante e, de forma apressada mas como se fosse natural, limitou-se a mudar de mesa… a jovem, entre dentes, ainda sussurrou “chamamos alguém?”, mas sem aprovação da adulta, ficou por isso mesmo… E eu neste encontro de hoje pergunto: 
Que exemplos somos nós? Que legitimidade temos para afirmar que sabemos educar melhor que ninguém? Que modelos queremos ser ou deixar, pelo menos enquanto referencial, para os nossos filhos, sobrinhos, alunos, amigos, conhecidos e comunidade jovem?
 
A aprendizagem é um processo de imitação, é preciso estar atento, os olhos das crianças seguem-nos em muitas ocasiões para ver como fazer… A responsabilidade é enorme, as nossas crianças precisam de referenciais, precisam de modelos e não é só aos pais que devemos apontar esse dever, mas sim a todos nós, que já fomos crianças, que trabalhamos com crianças, que nos cruzamos com crianças e jovens… A RESPONSABILIDADE É DE TODOS NÓS. 
 
A palavra tem de estar na ação, a coerência, meus amigos, entre o que dizemos e o que fazemos é a melhor lição. Somos humanos e não é fácil, mas pelas nossas crianças, pela educação do carácter de cada uma delas, pela saúde sócio-afetiva, pela família… No final “a colheita será sempre melhor”. 

Na política, não pode valer tudo

Escrito por quarta, 15 julho 2015 01:00
A esposa de Pedro Passos Coelho está doente. Naturalmente, e infelizmente, isto é notícia. Laura, assim como infelizmente muitas mulheres e homens deste país, está a travar uma batalha contra uma doença terrível. Apesar de estar doente, Laura acompanhou o seu marido numa visita a Cabo Verde. O facto de se ter apresentado sem cabelo, não escondendo assim os efeitos da doença e a legítima procura da cura, foi criticado duramente no espaço público mais apetecível de hoje: as redes sociais.
 
Falou-se de aproveitamento político. É vergonhoso. Custa-me que neste mundo, aliás, neste país de políticos cada vez mais descredibilizados por estas e tantas outras atitudes, ainda exista quem pensa, e pior, quem diga uma coisa destas. Então a senhora deveria esconder-se? Deveria ficar em casa a sofrer ainda mais com uma doença cruel? Não será melhor seguir com a sua vida?
 
Esta e outras vezes, Laura Ferreira saiu de casa e sem adereços. Sabendo dos riscos que corria, e que pelos vistos tinham mesmo razão de ser, pois a reação nas redes sociais foi implacável, Laura não se escondeu. Fez bem. Fez muito bem. Pelos vistos, a luta difícil que está a travar é suficiente e não sente vontade de lutar contra aqueles que, a três meses das eleições, acham que se trata de aproveitamente político por parte do seu marido. É Vergonhoso.
 

Pedro Passos Coelho poderá ganhar ou perder as eleições. É a vida. Agora, tentarem passar a imagem de que este usa a doença da sua esposa para comover o eleitorado, só pode ser desespero e muita falta de respeito por esta Laura e por tantas outras Lauras que existem neste país.

Na política não pode valer tudo. Achariam, essas mentes iluminadas, que o povo muda o sentido de voto devido ao estado de saúde da mulher do primeiro-ministro? Ao contrário do que esses políticos possam pensar, as pessoas sabem no que vão votar. O povo saberá avaliar.
 
O marketing político é tratado ao pormenor. Toda a gente sabe disso. Toda a gente sabe que há sempre os "testas de ferro" para estas coisas. Toda a gente já percebeu que muita da campanha vai passar pelas redes sociais. Mas tenham respeito pelo sofrimento dos outros. Quem falou em aproveitamento político, foram precisamente os que tentaram tirar partido desta situação que, infelizmente, atinge muitas famílias em Portugal. 
 
Pedro Passos Coelho poderá ganhar ou perder as eleições. É a vida. Agora, tentarem passar a imagem de que este usa a doença da sua esposa para comover o eleitorado, só pode ser desespero e muita falta de respeito por esta Laura e por tantas outras Lauras que existem neste país. Fazer a vida normal faz parte do tratamento e desta luta. Apenas isso. Deixem a política para os políticos.
 

Todas as casas são castelos

Escrito por quinta, 09 julho 2015 10:51
Bem-vindos à minha casa, ao meu humilde castelo. Sim, a minha casa é um castelo, um castelo que me permite ter a liberdade de pensar naquilo que eu quiser sem me subjugar a pré-conceitos ou a ideias pré concebidas. Naturalmente que os pensamentos advêm também de experiências, vivências, acções e até impulsos. Neste caso específico dos impulsos, tenho para mim que muitas das vezes não são inócuos, chegando mesmo a revelarem-se prejudiciais para muitos. Tenho também para mim que o acto de agir de natureza impulsiva não pode trazer acoplado qualquer tipo de pensamento racional. Na minha opinião, a impulsividade quase nunca é boa aliada da decisão e muito menos da solução, para além disso, sempre ouvi dizer que era uma característica animal. Para dizer a verdade, o Ser Humano tem muitas características dos animais, desde logo, e uma das mais básicas, é a procura do alimento. Ainda assim, considero que há muito mais coisas que nos diferenciam deles do que aquelas que nos aproximam e uma das principais é efectivamente a capacidade de utilizarmos o nosso cérebro para pensar, de conseguirmos pesar os prós e os contras de determinado pensamento antes de agirmos.
 
Sem que me queira imiscuir com a liberdade que cada indivíduo tem para usar esta capacidade de acordo com a sua vontade, tenho que afirmar com todas as letras que, ainda que a tenhamos para desenvolver o raciocínio… ainda que tentemos utilizar o nosso cérebro na sua totalidade… e mesmo conhecendo o que conhecemos… não somos capazes de viver para nós. Poder-me-ão questionar o que quero dizer com isto. A resposta é simples, o ser humano deveria ter a capacidade de, por intermédio do pensamento,  poder facilitar a sua própria vida e não complicá-la.
 

Dir-me-ão que o mundo podia ser perfeito mas não é! Eu sei… E nós também não! No entanto podemos fazê-lo um bocadinho melhor!

O que se passa nos dias de hoje é sintomático daquilo que acabo de dizer e, para ser sincero, revela muito pouco sentido lógico.
 
Quando oiço pessoas a intrometerem-se nas especificidades dos outros, dando opiniões gratuitas e obscenas, inclusivamente sobre o que nem sequer imaginam que se passa nas suas vidas, nas suas casas ou no seu seio familiar… Quando é criticado e violentado o espaço do próximo baseado em meras suposições ou boatos… Quando se dá mais importância aquilo que os outros pensam ao invés daquilo que cada um pensa… Quando, por exemplo, a economia e a política (como dizia um amigo meu e muito bem) deveriam estar ao serviço das pessoas para lhes proporcionar uma melhor qualidade de vida e se verifica que esses políticos e essa economia fazem pender a balança para o lado dos mais frágeis, asfixiam, burocratizam e complicam… Quando o Homem destrói os preciosos recursos naturais que ainda vão existindo, pondo em causa o futuro do próprio planeta e, logicamente, da sua própria espécie… Quando parece que as vidas valem menos que qualquer “pataca” ou território… QUESTIONO a tal capacidade intelectual do Ser Humano.
 
Não seria mais fácil se todos pensássemos em ajudar em vez de obstaculizar?
 
Não seria tudo mais fácil se direccionássemos o nosso pensamento no sentido de podermos amplificar a partilha?
 
Não seria mais fácil se pudéssemos ajudar cada um a fortificar as suas muralhas? 
 
Não seria tudo mais fácil se enaltecêssemos o positivismo? 
 
Não seria tudo bem mais simples se canalizássemos o nosso tempo para unir e não para dividir? 
 
Não seria, de todo, mais útil se estabelecêssemos sinergias em torno do bem comum?
 
Sinto que vivemos num mundo cada vez mais desprovido de valores, num mundo em que os castelos construídos não têm sustentação, não têm fundações ou alicerces. Num mundo em que esses castelos são de cartas ou de areia e quando uma onda ou uma simples brisa do mar os envolve, eles desmoronam-se com tanta facilidade quão é abrir e fechar os olhos.
 
Sinceramente acho que já é tempo de haver respeito pelos castelos de cada um, ainda que frágeis e insípidos…  
 
já é tempo de não se falar “dos” mas sim “com os”… 
 
já é tempo de se perceber que cada indivíduo tem a sua verdade… 
 
já é tempo de nos colocarmos no papel do outro para que melhor o possamos entender… 
 
já é tempo de se dar importância ao essencial e não ao acessório, ainda que o essencial seja, como escreveu Antoine de Saint Exupéry “invisível aos olhos”… 
 
já é tempo de utilizarmos a nossa capacidade de pensar para facilitarmos as nossas vidas e aproveitarmos ao máximo a passagem por aqui…
 
já é tempo de se perceber que TODAS AS CASAS SÃO CASTELOS, castelos com cenários de batalhas, de romances, de histórias, de segredos, cenários de vivências boas, de experiências más, de erros, de acertos, de verdades, de mentiras. 
 
Dir-me-ão que o mundo podia ser perfeito mas não é! Eu sei… E nós também não! No entanto podemos fazê-lo um bocadinho melhor!
 
Ainda assim é importante que TENHAMOS A NOÇÃO QUE SOMOS INSTANTES e que, lamentavelmente, desperdiçamos grande parte das nossas vidas dando importância ao acessório. Talvez um dia queiramos reverter tudo isto, mas pode ser tarde, pode ser… demasiado tarde.
 
* Luís Parente - Professor
 

A paisagem e a identidade

Escrito por sexta, 03 julho 2015 14:35
Apesar de ter estudado durante sete anos da minha juventude em Estremoz, nessa época nunca me apercebi da riqueza cultural desta cidade. Acontece assim com a maior parte dos naturais de Evoramonte, cujas vidas estão sempre mais relacionadas com Évora e não têm qualquer sentido identitário com Estremoz. Aqui apenas estudam (alguns), tratam de assuntos na Câmara ou nas repartições públicas e aqui se deslocam no sábado de manhã ao tradicional mercado. Sempre assim foi e assim continuará a ser. Até costumo dizer que a Ribeira de Têra parece constituir um enorme fosso intransponível que separa e afasta os habitantes de Estremoz e de Evoramonte, apesar de partilharem o mesmo concelho.
 
Ainda assim, tal acabou por não acontecer comigo e, apesar de continuar a guardar um considerável espaço para Evoramonte no meu coração, sinto hoje que pertenço muito mais a Estremoz do que à terra que me viu nascer e crescer.
 
Vem isto a propósito da identidade dos espaços e da forma como esta influencia o modo como vemos uma determinada paisagem, como a apreendemos e como posteriormente a recordamos. As paisagens possuem determinados atributos e potencialidades que nos chamam a atenção, originando que a elas nos prendamos, ao ponto de desenvolvermos um sentimento de pertença. Esses atributos podem ser materiais ou imateriais, naturais ou culturais e mais ou menos trabalhados pelo Homem, mas o que importa é que determinam aquilo a que habitualmente chamamos o espírito do lugar, o genius loci.
 
Ainda há dias, na cerimónia de fundação do Centro UNESCO para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz, no Museu Municipal, dei comigo a pensar que, curiosamente e apesar da minha juventude estar ligada, por via dos estudos, à cidade de Estremoz, nessa altura nunca me apercebi da importância da barrística estremocense. Para a minha ignorância nesta matéria muito contribuiu o facto de nunca, em momento algum da minha formação, os meus professores terem tido a audácia de nos dar a conhecer os Bonecos. Como foi possível tal ter acontecido? Estamos a falar de uma arte secular, de uma tradição das nossas gentes, de uma arte única no Mundo! Não faria sentido que nos tivesse sido dada a conhecer?
 
Felizmente despertei a tempo para a importância dos Bonecos de Estremoz e hoje sou daqueles que acreditam que, um dia, esta manifestação artística será reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Que me perdoem os defensores dos tapetes de Arraiolos, da Arte Chocalheira (também com raízes em Estremoz), das Festas do Povo ou das jangadas de São Torpes e de mais uma catrefada de situações que almejam receber esta classificação, mas acho que o Figurado de Barro de Estremoz tem muito mais condições para ser Património da Humanidade.
 

Em meu entender são os Bonecos de barro que melhor definem o carácter e a identidade de Estremoz.

 
Contudo, para lá chegarmos é necessário reunir ainda uma série de condições que julgo serem fundamentais para o sucesso desta candidatura. Em primeiro lugar, os artesãos da barrística, que são cada vez menos, não podem continuar de costas voltadas uns para os outros. Nesta jornada terão de caminhar de mãos dadas e lutar por um objetivo comum, tão ou mais importante que o da sua divulgação: perpetuar a arte, através da captação de novos aprendizes.
 
Em segundo lugar, depois de criadas as condições para a salvaguarda da tradição barrística, deve ser realizado um vasto trabalho de promoção por parte do Município, das Freguesias, do Museu Municipal e das Escolas, em todos os níveis de ensino, para que daqui a vinte anos ninguém se queixe, tal como eu, de que pouco sabe acerca dos Bonecos de Estremoz. Felizmente já existe muito deste trabalho promocional em desenvolvimento, tanto ao nível da promoção turística que o Município faz dos Bonecos, como ao nível das atividades educativas do Museu Municipal ou da integração das técnicas de modelação do barro nas disciplinas de expressão artística nas Escolas. Mas é preciso fazer mais.
 
No outro dia dizia-me um empresário estremocense que Estremoz precisa de se afirmar enquanto destino turístico, através daquilo que a diferencia de todas as outras cidades. Concordo em absoluto. É bem verdade que o mercado de sábado, o mármore, o urbanismo, o património arquitetónico, a nossa história, a gastronomia e os vinhos são tudo marcas identitárias da paisagem de Estremoz, que lhe conferem beleza e singularidade por todos reconhecidas. Mas em meu entender são os Bonecos de barro que melhor definem o carácter e a identidade de Estremoz, pela sua singularidade e pela forma como reproduzem os usos e tradições alentejanos, ou seja, pela forma como também eles reproduzem parte da nossa paisagem e das emoções humanas que a caracterizam. São, sem qualquer sombra de dúvida, uma das manifestações culturais que mais contribuem para a definição do espírito deste lugar e que lhe conferem um carácter único.
 
Por essa razão, deverão ser também os Bonecos os nossos embaixadores no Mundo e os principais atores na definição da estratégia que venha a ser desenvolvida, a curto ou a médio prazo, para a criação do destino turístico Estremoz.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

Encontro com Freud - Crónica II

Escrito por sábado, 27 junho 2015 00:16
Os mais novos estão de “Férias “ e com elas, surgem propostas de ocupação dos tempos livres, atl’s, ateliers entre muitas outras. Para os pais surge a preocupação, do que escolher, das atividades mais interessantes, da segurança que proporciona quem supervisiona e dos horários que melhor se adaptem às rotinas de cada família. 
 
Tudo isto está, parece-me que muito certo e naturalmente bem equacionado… no entanto e depois deste encontro com o pai da psicologia Freud e para o qual chamei também Jean Piaget e Daniel Stern, dei connosco a refletir no seguinte: 
Sabemos de facto o que interessa aos nossos filhos? Acompanhamos realmente os mais novos ao ponto de perceber o que mais gostam de fazer nas suas férias? Escolhemos nós o que achamos que eles gostam ou baseamo-nos no conhecimento que temos das crianças e temo-lo como ponto de partida para as nossas planificações, metodologias e expectativas?... 
 

Acompanhamos realmente os mais novos ao ponto de perceber o que mais gostam de fazer nas suas férias?

 
Deste modo falo na família, nas associações, instituições e na comunidade em geral. E chego onde quero neste encontro, “o ato mais sério de uma criança é brincar” e neste brincar coloco uma liberdade que se define entre pares, um espaço e um tempo que lhes pertence, onde o jogo simbólico é rei e deve reinar. Neste ato sério também se aprende, a socializar, a estabelecer regras, a copiar modelos, a desenvolver raciocínio, a resolver problemas, a fazer escolhas, a criar, a partilhar e a descobrir. 
 
É importante a supervisão, mas meus amigos, tenho receio que durante estes períodos nos apropriemos, indevidamente, de um espaço ou espaços e de tempos que deverão ser das crianças. Estes períodos servem para sair da rotina e muitas vezes observo que rotina se mantem apenas alteramos o conteúdo…. Enquanto responsável de um atl também eu tenho receio de me apropriar desse espaço e desse tempo… Deixem brincar as crianças! Boas Férias para todos e brinquem com as crianças, às crianças, só. 

Baralha e volta a dar

Escrito por quarta, 17 junho 2015 23:34
Estávamos em 1993, bem no pico do Verão. No Estádio da Luz, soaram as sirenes pois o "inimigo" preparava-se para atacar em força um plantel do Benfica com ordenados em atraso. Os alvos eram os melhores, ou por outro lado, jogadores essenciais na equipa encarnada: Paulo Sousa, Pacheco e João Vieira Pinto. 

Apanhado completamente de surpresa, Jorge de Brito ainda deixou "fugir" os dois primeiros. João Vieira Pinto, conta quem viveu de perto este episódio, foi resgatado em cima da meta. Rui Costa foi sondado, também nesse Verão, mas de pronto recusou.
 
Mas isto não começa aí. Aliás, nem se sabe bem quando começa esta rivalidade centenária. Luís Figo, diz-se, foi várias vezes aliciado para mudar de rua e, antes de 1993, Paulo Futre disse que viria para o seu clube do coração (Sporting) e depois assinou pelo Benfica. Sousa Cintra percebeu as fragilidades financeiras do vizinho da frente e atacou forte. A vinda de Paulo Futre, pelos números envolvidos, deixou feridas na tesouraria encarnada difíceis de sarar. Resumindo, Paulo Sousa foi, Pacheco também e João Vieira Pinto ficou no Benfica. Nessa época, os encarnados foram campeões, após o célebre 3-6 em Alvalade, com um hat-trick de JVP. Mais tarde, em 2000, depois de dispensado pelo Benfica de Vale e Azevedo, JVP acaba mesmo por ir para o Sporting e ser, também aí, campeão nacional.
 
Ao contrário do que já aconteceu entre Porto e Sporting, entre Benfica e Sporting não existe o hábito de negócios ou troca de jogadores. Isso perdia a piada. Aqui, o normal é cobiçar os jogadores do rival, ou então jogadores que tenham passado pelo rival e que tenham deixado saudades nos adeptos. Cada vez que se consegue um negócio destes, é como se de um título se tratasse. Simão Sabrosa é um bom exemplo, assim como Paulo Bento. 
 

Que plantel terá JJ à sua disposição no Sporting? Depois de JJ ir para o Sporting, Vieira manterá a ideia de investir pouco em novos jogadores e apostar na formação? Que tolerância terá Rui Vitória, por parte dos adeptos do Benfica?

Trago este assunto, assim como esta introdução, para falar do caso que marca o "defeso" futebolístico. Reconhecendo o bom trabalho realizado pelo treinador no rival de sempre, e assim também enfraquecendo o campeão em título, Bruno de Carvalho tomou como prioridade a contratação de Jorge Jesus. Com uma "cajadada", BdC mata dois coelhos: Contrata um treinador ganhador e profundo conhecedor do futebol português e tira este activo ao rival. Sabendo que a relação entre Luís Filipe Vieira e JJ estava difícil de voltar a dar em casamento, devido às diferenças de opinião em relação à construção do plantel e aos números do ordenado do treinador, BdC atacou e foi feliz, pelo menos, para já.
 
Para suceder a JJ, e com a difícil missão de continuar a dar títulos ao Benfica, LFV chamou Rui Vitória. Era público, que esta era a escolha do presidente no dia em que JJ saísse do clube. Houve ainda algum movimento de vários grupos benfiquistas para que o presidente chamasse Marco Silva. Aqui, parece-me, inconscientemente, houve alguma sede de retaliação. LFV é um homem que aprendeu com os erros e não caiu na tentação de dar troco. 

Mais tarde ou mais cedo, Marco Silva treinará o Benfica. Este era mesmo o momento de Rui Vitória, um treinador competente e que estará à altura do desafio, um benfiquista que está ansioso pela Supertaça e que diz que dava a vida pelo clube.
 
Agora, e depois de todos estes episódios de uma novela que não tem fim, o campeonato que aí vem já é o mais aliciante dos últimos anos. Há muitas dúvidas por esclarecer e a guerra vai continuar, principalmente na formação dos plantéis. Em algumas contratações, a marcação será intensa pois há jogadores que serão cobiçados pelos dois clubes. Que plantel terá JJ à sua disposição no Sporting? Depois de JJ ir para o Sporting, Vieira manterá a ideia de investir pouco em novos jogadores e apostar na formação? Que tolerância terá Rui Vitória, por parte dos adeptos do Benfica? 
 
Quanto à tão falada relação entre treinador e presidente do Sporting, que muitos vaticinam poderá ter várias roturas, penso que esse será o menor dos problemas. O estatuto com que JJ chega a Alvalade não é o mesmo de que gozou Marco Silva. Aqui, BdC saberá estar no seu lugar. Se não o fizer, saberá que tem quem o ligue à terra. BdC aposta tudo nesta época. Aliás, com o cenário de eleições à vista, tinha de o fazer. O despedimento de Marco Silva, e as razões apontadas, mostram que ou era agora, ou já não era. Mesmo que alguns não o admitam, os sportinguistas estão felizes com esta vinda de Jesus para Alvalade. Do outro lado, mesmo que também o custem a admitir, a maior parte dos benfiquistas não perdoa JJ. Até aqueles que sempre o contestaram, estão preocupados com o que poderá acontecer nesta época. A fé na vitória e em Vitória é grande, mas jamais será esquecida a traição de Jesus. Mais a norte, Jorge Nuno Pinto da Costa vai-se divertindo. Estranhamente, ou não, continua com a aposta em Lopetegui. A experiência diz-lhe que é a ver "guerras" de longe que se tiram os grandes dividendos. É que, para os menos atentos, é bom lembrar que na época que findou, o FC Porto foi o único clube grande em Portugal a ficar de mãos vazias.
 
* José Lameiras - Jornalista
 
 
 
 

Música para todos os ouvidos

Escrito por sexta, 12 junho 2015 02:16
Talvez a Música apareça na minha vida logo quando fui gerado. Desde sempre me lembro de a ouvir, quase de certeza ainda dentro do ventre da minha mãe. A Música terá tido em mim uma evolução não muito diferente da maioria das pessoas, com as canções de embalar, as músicas infantis, as dos desenhos animados (ainda me lembro de muitas!) e até mesmo as dos anúncios da televisão que ainda hoje estão na memória de muito boa gente. Quem da minha geração não se lembra das músicas dos anúncios do “Boca Doce”, da “Cerelac”, do “Corneto”, de muitos outros da “Coca-Cola” ou mesmo do Vitinho da “Milupa” que nos fazia ir para a cama?
 
Só para que se tenha a noção do significado da música na minha vida, em casa brincava com o meu irmão fazendo gravações em cassetes de áudio de músicas que iam passando nas rádios nacionais que depois transformávamos em programas de rádio “colando” as nossas vozes em cima dessas gravações. Posteriormente até tive a sorte de, só com 11 ou 12 anos, começar a fazer umas brincadeirinhas na Rádio Despertar Voz de Estremoz também com o meu irmão (brincadeiras essas que se transformaram em paixão e que ainda hoje se vão mantendo, com menos regularidade, é certo, mas vão-se mantendo!). E é aí que a Música tomou uma nova dimensão na nossa vida, despertou em nós novos sentidos, suscitou curiosidade, ansiedade na procura de novos sons. Nessa altura era muito mais difícil o acesso a outras músicas, não se sonhava que a internet virasse tudo do avesso. Comprava-se o jornal “Blitz” que agora é revista, ouviam-se outras rádios, principalmente as de âmbito nacional, e a partir daí era, basicamente, esperar que cá chegasse alguma coisa para as podermos passar na “nossa” rádio.
 
Mas, para além de tudo isso, a minha família é uma família de músicos, amadores, é certo, mas amadores de muita competência e sempre ligados à Música. A minha avó materna concluiu o 3º ano de Piano, os meus pais e tios, desde sempre fizeram parte do Orfeão de Estremoz “Tomaz Alcaide”, o meu irmão é um excelente conhecedor e consumidor de inúmeros géneros musicais (como muito poucos que conheço!) e eu continuo a ser… um… muito bom ouvinte! Nunca aprendi Música, conheço muito poucas notas musicais, só conheço os nomes pelos quais são chamadas, mas acho que tenho um ouvido muito estruturado. Talvez por nunca ter estudado Música tenho tido o cuidado de poder permitir aos meus filhos essa possibilidade, a possibilidade de a aprenderem e de tocarem os instrumentos musicais que quiserem. Não sei quase nada de Música, é verdade, mas considero-me um bom ouvinte! Gosto de todos os tipos de Música, do fado ao rock, do jazz ao funk, da clássica ao heavy metal. Obviamente que gosto mais de uns do que outros, mas consigo ouvi-los todos e consigo saber apreciá-los. É claro que se me perguntarem se gosto, por exemplo, de todo o tipo de Música alternativa, ou todo tipo de jazz ou rock, estaria a mentir se dissesse que sim.
 
Mas o que é certo é que não existe Música boa ou Música má, há simplesmente Música, até porque como diz o povo “Os gostos não se discutem!”. 
 
Tudo isto sempre me fez questionar o que é afinal isto da Música?
 

Música está efectivamente no meu ADN. Na realidade para mim a Música é respirar, é viver, é amar.

 
Reflectindo bem sobre o assunto, para mim a Música é tudo e mais alguma coisa!
 
Música é harmonia, é timbre, é intensidade, altura, vibração … Música é magia, é cultura, são cores, tons, frequências, ondas, notas, escalas…
 
A Música pode ser tradicional, erudita, étnica, religiosa… Música é postura, é linguagem, é gramática, filosofia, geometria, é ter, é falar, é cantar, é conhecer, é aprender, é ensinar… Música é razão, é coração, é celebração, é o dó, o ré, o mi, o sustenido, a colcheia, é a clave de sol, as breves e as semi-breves… A Música é responsabilidade, autonomia, liberdade, é cidadania, respeito, sentimento, é composição, literatura, técnica, relaxamento, ressonância, aquecimento… A Música pode ser fado, rock, pop, jazz, é flexibilidade, é projecção, é apoio e é extensão… A Música é o fá, o sol, o lá, o si, é Matemática, é Física, é mistério, é drama, é teoria e prática… Música é energia, é saúde, é ouvir, socializar, sentir, memorizar, saborear, criar, é inspiração, tranquilidade e esperança… Música é contágio, sabedoria, sensibilidade, é equilíbrio, é disciplina e é vontade, é inteligência e é partilha… Música é Português, Inglês, Espanhol, Francês, Alemão… Música é improviso, é regra, é o grave e o agudo, é design, é estética, é consciência, código, terapia e crescimento… A Música é branco, é vermelho, é azul e amarelo, laranja, verde e cor-de-rosa… A Música é tudo isto e mais aquilo para onde a nossa mente nos levar…

A Música está efectivamente no meu ADN. Na realidade para mim a Música é respirar, é viver, é amar.
 
Da parte que me toca só tenho mesmo a agradecer a quem, de alguma forma, contribuiu para que a Música fizesse e continue a fazer parte integrante de mim… aos meus pais, ao meu irmão e no fundo a toda a minha família, aos meus amigos, aqueles que mesmo não sendo amigos, de uma forma ou outra se cruzaram comigo pela Música e até mesmo à própria Rádio Despertar pela grande influência que teve.
 
Tal como não me parece ser possível viver sem amor, também me parece ser impossível viver sem Música. Acho que não conheço ninguém a quem um dia uma Música não tenha “tocado”. Friedrich Nietzsche dizia que “Sem a Música, a vida seria um erro”… não poderia estar mais de acordo!
 
 A Música é a arte soberana, transmite inúmeros sentimentos… alegria… tristeza… inspiração… calma… inquietude… tranquilidade… euforia… emoção… animação… esperança… faz-nos vibrar… sonhar… reflectir… conta-nos histórias… transmite valores… faz-nos envolver… atrai… estimula sensações… libera a criatividade… inspira a memória.
 
A vida é feita disto, de coisas boas, de coisas menos boas, de pequenos “tudos” e de pequenos “nadas” mas uma coisa é certa… como dizia Miguel de Cervantes: “Onde há Música não pode haver coisa má”.
 
* Luís Parente - Professor

A água e a paisagem

Escrito por quinta, 04 junho 2015 09:59
A água tem sido, desde os tempos mais remotos da existência humana, um elemento fundamental na paisagem, na medida em que nela desempenha um conjunto de importantes funções ecológicas, culturais e estéticas.
 
Da mesma forma, a água sempre exerceu sobre o Homem um poder de atração fascinante. Por um lado, porque é um elemento essencial a todas as formas de vida, por outro, porque possui propriedades físicas e estéticas que lhe conferem plasticidade e simbolismo, o que determinou, desde os tempos mais remotos, a sua manipulação para os mais diversos fins.
 
Tratando-se de um bem essencial à vida, a água impulsiona o Homem a fixar e a desenvolver as suas atividades na sua proximidade, para dela melhor tirar partido, quer seja para abastecimento humano e animal, quer para rega de plantas e de culturas agrícolas ou, simplesmente, como elemento de fruição estética e/ou artística.
Veja-se o exemplo da cidade de Estremoz que, de acordo com os dados disponíveis, foi fundada na sua localização devido à abundância de água que existe no subsolo e que está na origem da existência de inúmeras fontes e nascentes, que determinaram a fixação do Homem nesta região. Mais tarde, já nos séculos XVI e XVII, durante as guerras da restauração da independência, a cidade reforçou as suas muralhas precisamente para proteger este bem precioso e tão necessário para as tropas que aqui se aquartelaram - a água. 
 
Em pleno século XXI é também a água que motiva as alterações que a paisagem está a sofrer na zona norte do concelho de Estremoz, mais precisamente junto à vila de Veiros. 
 
Velha aspiração das gentes estremocenses, tão velha que já era referida em 1885 como fundamental para o desenvolvimento do regadio no "Alemtejo", a Barragem de Veiros foi inaugurada no passado dia 26 de maio pela Ministra da Agricultura, Assunção Cristas.
 
Com a construção do paredão e a limpeza de vegetação na superfície que vai ser ocupada pelo plano de água, desde logo a paisagem se começou a alterar. Em primeiro lugar porque uma área anteriormente ocupada por montado deixou de ser revestida por vegetação, dando lugar a uma paisagem quase desértica. De seguida, porque o aprisionamento das águas da Ribeira de Ana Loura no regolfo da albufeira teve como consequência a definição de um extenso plano de água, causando o impacto oposto ao da limpeza da vegetação. Neste caso, a morte da paisagem original teve como resultado uma paisagem plena de vida.
 

Acredito ainda que a Albufeira de Veiros tem um potencial enorme enquanto espaço de recreio ativo das populações e como pólo de atração de visitantes, podendo assim contribuir para a promoção do desenvolvimento turístico do concelho de Estremoz.

 
Espera-se que a paisagem na envolvente à Barragem de Veiros ganhe ainda mais vida. O aproveitamento hidroagrícola da Albufeira permitirá irrigar 1114 hectares, constituindo uma extraordinária oportunidade para os agricultores desta região modernizarem as suas explorações e poderem obter melhores produções e maiores rendimentos agrícolas, através do regadio. E também aqui a paisagem irá mudar e encher-se de uma nova vida, o que se notará essencialmente na alteração da cor amarelada dos campos de sequeiro para a cor esverdeada das culturas de regadio.
 
Espero que se encha também de vida humana, pois não será possível que esta paisagem se altere sem a intervenção do Homem. É dele que depende o sucesso deste empreendimento, o qual medir-se-á não só através da quantificação das produções, mas também, e principalmente, pelo número de postos de trabalho gerados, pelo número de pessoas que se fixem na região e pelas expetativas que sejam criadas para a sobrevivência das gerações futuras.
 
Acredito ainda que a Albufeira de Veiros tem um potencial enorme enquanto espaço de recreio ativo das populações e como pólo de atração de visitantes, podendo assim contribuir para a promoção do desenvolvimento turístico do concelho de Estremoz. São várias as utilizações recreativas possíveis: desportos náuticos, pesca desportiva, campismo, área balnear, passeios pedestres... apenas para citar alguns. Também desta forma a água estará a criar mais vida.
 
E não podemos esquecer-nos do abastecimento de água. Já foi assumido pelos nossos governantes que a Albufeira de Veiros poderá, em caso de seca, assegurar o abastecimento de água para consumo dos habitantes do concelho de Estremoz. Espero, sinceramente, que não tenha que ser utilizada com essa finalidade, pois isso significa que continuaremos a ter bons anos hidrológicos e os níveis freáticos do aquífero de Estremoz continuarão a ter capacidade para satisfazer as necessidades de consumo da população.
 
Independentemente da paternidade do empreendimento, que muito tem sido reclamada por quem muito pouco fez para que ele se concretizasse, devemos encarar a Barragem de Veiros como mais uma oportunidade para o desenvolvimento sustentado do concelho de Estremoz e reunir sinergias para retirarmos o máximo partido desta nova paisagem que agora começa a ganhar forma.