terça, 22 agosto 2017

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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A desculpabilização

Escrito por domingo, 13 agosto 2017 02:04
Recentemente a senhora Ministra da Administração Interna admitiu que houve descoordenação no posto de comando da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) no incêndio de Pedrógão Grande e que o local onde foi instalado não foi o ideal.
 
Segundo as palavras da Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, também as falhas de comunicações do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) “dificultaram as operações de controlo e comando”.
 
Confirmou que houve falta de articulação entre a secretaria-geral da Administração Interna, PSP, ANPC e GNR no que diz respeito à deteção dos problemas nas comunicações e no acionamento e mobilização da Estação Móvel, que se refletiu numa excessiva morosidade da sua disponibilização e que os constrangimentos “foram potenciados pela escolha do local para a instalação do posto de comando e controlo da ANPC em Pedrógão Grande”.
 

Resultado disto tudo: Ninguém é responsável, nem ninguém é responsabilizado. Ou melhor, estamos perante uma “grande embrulhada”, onde todos retiram “a água do capote”. O Estado falhou e continua a falhar.

No entanto, a Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC) assegura que a estrutura de comando operacional no combate ao incêndio florestal que deflagrou em junho em Pedrógão Grande, causando 64 mortos, se revelou "adequada a cada momento específico".
 
A Inspeção-Geral da Administração Interna apontou que a Secretaria Geral não tem no seu plano de ação um procedimento estruturado de análise dos dados para avaliar o impacto das avarias e dos incidentes no sistema SIRESP.
 
Segundo o relatório do inquérito interno da Guarda Nacional Republicana (GNR) à atuação dos militares envolvidos nas operações no incêndio de Pedrógão Grande, “as primeiras instruções de coordenação recebidas pela Guarda” do Posto de Comando (PC) da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) “para a regularização e corte de trânsito no teatro de operações, designadamente na EN 236-1, foram emitidas pelas 22:00”.
 
O Instituto de Telecomunicações considera que existiram “faltas graves” na rede SIRESP (comunicações de emergência), com cortes prolongados no funcionamento normal do sistema, quando do incêndio de junho em Pedrógão Grande, do qual resultaram 64 mortes.
 
Resultado disto tudo: Ninguém é responsável, nem ninguém é responsabilizado. Ou melhor, estamos perante uma “grande embrulhada”, onde todos retiram “a água do capote”. O Estado falhou e continua a falhar.
 
Se Portugal fosse um País com um Governo normal, a senhora Ministra da Administração Interna assumiria naturalmente as suas responsabilidades. Que mal tem isso?
 
Mas uma coisa é certa, o Estado falhou.
 
* Deputado António Costa da Silva

Ao Estado a que chegamos!

Escrito por domingo, 16 julho 2017 00:36
O Estado falhou. Esta é uma conclusão que se tira com toda a facilidade. O nosso País está gravemente ferido nos seus pilares fundamentais: a segurança, proteção e a defesa das pessoas e dos bens, e no pilar social, na saúde, educação e transportes. O Estado falhou gravemente. O Estado falhou sem que se tenham verdadeiramente assumido os seus principais responsáveis. Não há responsáveis para nada!
 
As falhas do SIRESP e falta de liderança na tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande, mas também o assalto à Base Aérea de Tancos, são os exemplos mais flagrantes da degradação do Estado. Isso é incontestável!
 
É fácil constatar que estamos perante um País desorientado, com uma liderança extremamente frágil. Os nossos governantes não conseguem por ordem nas suas áreas de influência. 
 

Um Primeiro-ministro que deserta (de férias para a praia numa das ilhas espanholas) num dos momentos mais críticos na governação da geringonça, só nos pode deixar extremamente preocupados. Estamos claramente perante um País com uma liderança muito frágil e com o Governo num processo de degradação bastante avançado. Este Governo está a colapsar e encontra-se a perder a autoridade todos os dias.

Vivemos num País com medo, sem um Governo para os proteger. Um País onde o seu Primeiro-ministro apenas se preocupa com os índices de popularidade, logo após a ocorrência de um dos maiores desastres que conhecemos. Um Primeiro-ministro que se preocupa em criar um focus group para testar a sua popularidade, depois de morrerem dezenas de portugueses e muitos outros gravemente feridos, não nos pode merecer grande crédito. 

 
Um Primeiro-ministro que deserta (de férias para a praia numa das ilhas espanholas) num dos momentos mais críticos na governação da geringonça, só nos pode deixar extremamente preocupados.
 
Estamos claramente perante um País com uma liderança muito frágil e com o Governo num processo de degradação bastante avançado. Este Governo está a colapsar e encontra-se a perder a autoridade todos os dias.
 
Foi um ano de falhas graves: falta de assistentes operacionais nas Escolas; Escolas que encerraram; Escolas mais degradadas; desinvestimento no setor da saúde; piores condições para os médicos e enfermeiros; falta de investimento na área social; faturas adiadas; Estradas mais degradadas; Transportes públicos em piores condições; etc, etc, etc.
 
São muitas as razões que nos levam a desconfiar desta governação. Um ano cheio de cortes para justificar muitas outras despesas do Estado. A falta de transparência nas contas públicas. 
 
É um Estado das aparências. Pouco mais do que isso.
* Deputado António Costa da Silva

Quase 12 anos

Escrito por terça, 04 julho 2017 16:25
Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lado a Margarida, que havia sido minha chefe um ano antes, disse-me que precisava de falar comigo e perguntou-me se podia dirigir-me à Escola de Avis. Sem hesitar disse que sim, que iria falar com ela, mas logo me surgiu o porquê e, da mesma forma que sem hesitar lhe disse que sim, lhe coloquei a questão. Na altura disse-me que não queria falar por telefone e eu, naturalmente acedi e respeitei a sua posição, tendo-me então deslocado à escola no dia seguinte. Quando lá cheguei, com o cabelo quase tão comprido como quando tinha 18 anos, os cumprimentos e as conversas de ocasião preencheram uma parte do dia. Foi então que a Margarida, a Lena e a Luísa puxaram o assunto que me levara lá. Começaram por dizer que tinham pensado em mim para um projeto que era a minha cara, ser Coordenador de um PIEF. Para os menos familiarizados com estas coisas das siglas da Educação, um PIEF é um Programa Integrado de Educação e Formação que integra alunos com algumas particularidades como são o exemplo dos comportamentos disruptivos ou do abandono escolar precoce. No entanto a proposta traria mais qualquer coisa, anexa a ela vinha também o convite para integrar a Direcção do Agrupamento de Escolas de Avis. Na altura confesso que fiquei em estado de choque e duvidei mesmo das minhas próprias capacidades para desempenhar tal cargo, para ser sincero ainda hoje duvido um bocadinho que as tivesse. O que me disseram era que seria só um ano lectivo ao que eu respondi que era demasiadamente desorganizado com papéis para poder aceitar. De imediato a Lena disse-me que também não percebia nada de papéis (tudo mentira!) e aí a minha insegurança esbateu-se um pouco. Propus então falar com a minha família para rapidamente lhes transmitir a nossa decisão. E assim fiz. Questionei a Zézinha, os meus pais, o meu irmão e todos me deram força para aceitar o desafio. Aceitei-o numa de viver a experiência do outro lado, e como era só um ano, talvez não fosse tão doloroso tratar de papéis. Depois de passado esse ano, e sem que tivesse sequer dado pelo tempo passar, vieram quase mais 11. Saiu a Lena, entrou a Ana Rosa… saiu a Luísa e a Ana Rosa, entraram a Ana Isabel e a Joana… saiu a Joana entrou a Lina… e eu que era só para ficar um ano fui-me mantendo com a Margarida até hoje.
 

 Aceitei-o numa de viver a experiência do outro lado, e como era só um ano, talvez não fosse tão doloroso tratar de papéis. Depois de passado esse ano, e sem que tivesse sequer dado pelo tempo passar, vieram quase mais 11. Saiu a Lena, entrou a Ana Rosa… saiu a Luísa e a Ana Rosa, entraram a Ana Isabel e a Joana… saiu a Joana entrou a Lina… e eu que era só para ficar um ano fui-me mantendo com a Margarida até hoje.

A primeira reunião a que assisti enquanto membro da Direcção da escola foi em Portalegre e a ordem de trabalhos era constituída por um único ponto, a abertura do ano lectivo. Começou às três e meia da tarde e terminou quase às dez e meia da noite. Foram quase 7 horas de “seca”. Sim, confesso que detesto reuniões! E tudo o que seja mais de duas horas e meia, três horas já não consigo ouvir nada. Sempre fui assim, muito mais prático que teórico. Felizmente consegui arranjar estratégias para me entreter nas horas seguintes, normalmente eram passadas a desenhar ou a pensar disparates. Quando o tempo de reunião ultrapassa o tolerável para mim, observo as particularidades de cada um, a forma como os oradores se expressam, se são fanhosos, se são meio gagos, se repetem determinadas palavras ou expressões. Sobre isto, chego mesmo a contar o número de vezes que o fazem. Observo a conjugação da roupa, os tiques, os penteados. Imagino-os a fazerem as coisas mais absurdas que se podem imaginar e chego mesmo a esboçar uns sorrisos que, muitas vezes, quase passam a risos incontroláveis só de pensar no absurdo das situações. O que é certo é que tenho que controlar o meu cérebro para não me deixar adormecer. Enfim, como podem imaginar, esta minha primeira reunião foi para mim um suplício e no final da mesma perguntei à Margarida se isto era sempre assim, é que se fosse eu recusava-me a ir a mais alguma. Ela descansou-me e disse-me que não. Felizmente nunca mais, nestes anos todos, tive uma reunião tão longa.
 
Foram quase 12 anos de muitas reuniões, é um facto. Mas também foram quase 12 anos de muita aprendizagem, de partilhas, de cumplicidade, de entreajuda, de comprometimento… Não querendo, de forma alguma, fazer o papel de um político em campanha (Deus me livre!!) acho que é importante espelhar aqui o que foram estes quase 12 anos. Foram quase 12 anos de obrigados mas também de desculpas… foram quase 12 anos de cooperação, de planeamento, de confiança, de adaptação, de criatividade… foram quase 12 anos de flexibilidade, de comunicação, de esforço… foram quase 12 anos de amizade, de risos (“muuuitos” risos), de choro, de angústia, de compreensão, de alegria mas também de tristeza, de desilusão e de sacrifício pessoal e familiar. Nestes quase 12 anos acertámos mas também errámos, trabalhámos todos em equipa, em sinergia, ouvimos, inovámos, motivámos, fomos proactivos, dinâmicos, tomámos decisões fáceis mas também difíceis… Nestes quase 12 anos relaxámos, concordámos, discordámos, tivemos visão, olhámo-nos nos olhos, discutimos, zangámo-nos, criticámos, fomos criticados, obtivemos resultados bons, menos bons, gerimos conflitos, trocámos experiências, descentralizámos, trouxemos modernidade, personalidade, transformámos a Biblioteca em Centro de Recursos, equipámos a escola com material didáctico, informático, construímos o tão ambicionado campo de jogos para os alunos, transformámos uns antigos balneários e arrecadações num auditório para 147 pessoas, criámos, com a ajuda de muita gente, um Centro de Formação Desportiva de Remo, fizemos a manutenção e recuperação dos espaços da escola e principalmente tentámos apoiar os nossos colegas e funcionários respondendo, sempre que possível às suas solicitações, angústias, e tentando sempre resolver os problemas que surgiram com equidade e equilíbrio. Fundamentalmente tentámos dar aos nossos alunos a auto-estima necessária para que pudessem aprender e participar na vida da escola de forma autónoma, natural, equilibrada, em paz, com alegria, espírito de entreajuda e promovendo os valores do respeito, da honestidade, da humildade, do amor.
 
Em Janeiro último pediram-me para escrever o editorial do jornal da escola e nesse editorial fiz questão de expressar a minha opinião sobre o que é para mim a escola, a minha escola. Partilho-o aqui convosco:  
 
A existência de um jornal numa escola é fundamental para transmitir a toda a comunidade o que realmente se passa cá dentro. No fundo é como que um abrir das portas às pessoas para que elas entendam que aqui há vida, que aqui se aprende, que aqui se sente… que aqui se partilham saberes, momentos… que aqui se aprendem valores essenciais para se viver em comunidade… que aqui se aprende a ser dialogante, cooperante, autónomo… que aqui há liberdade, trabalho e responsabilidade… para que as pessoas percebam que aqui se transformam crianças em jovens e que se pretende que esses jovens saiam daqui com vivências, aprendizagens e experiências fantásticas para a vida e se formem cidadãos responsáveis… Aqui, ensinar é o caminho… aprender é caminhar. Mas não é só.
 
Se perguntarmos aos antigos alunos da nossa escola qual o sentimento que nutrem por ela, a quase totalidade vos dirá que têm saudades desses tempos, das amizades, das brincadeiras, de alguns cheiros, de alguns sabores… lembrar-se-ão dos dias de chuva, de calor, dos dias de festa, de determinadas matérias, daquela conversa, daquele teatro, daquela música, daquele beijo às escondidas… lembrar-se-ão dos colegas, dos funcionários, dos professores. Fruto das suas próprias experiências de vida, muitos deles dirão também que se pudessem voltar atrás e estudar mais do que o que fizeram, talvez a vida se encarregasse de lhes dar mais e melhores oportunidades.
 
Todos sabemos que nem todos podem ser doutores mas todos também sabemos que sem esforço, determinação, sacrifício e trabalho nada se consegue. No fundo, o que mais orgulho me dá, é ver que os nossos alunos se tornaram boas pessoas, sejam eles doutores ou não, tenham mais ou menos sucesso nos seus percursos de vida. Na realidade é a colocação do meu grãozinho de areia na construção da identidade de cada um que me dá mais prazer. 
 
A escola não é só aprender e ensinar, é viver! É, naturalmente, uma fase das nossas vidas que ao passar não mais regressará e que devemos aproveitar positivamente enquanto podemos. 
 
Nos dias de hoje os alunos quase que passam mais tempo na escola do que em casa, por isso mesmo é importante que possam partilhar com as suas famílias e amigos um pouco do seu trabalho diário, um pouco das suas próprias vidas…
 
 Mas a escola, no seu sentido mais lato, não é só isto. Trabalhar como docente numa escola, nos dias de hoje, é uma tarefa quase hercúlea dada a quantidade de burocracia e de papéis que existem. Sobre a escola de hoje li há dias um texto que quero aqui reproduzir e cujo autor desconheço por completo mas que me fez reflectir bastante. Partilho convosco: 
 
"Somos o país das escolas vazias. E dos mega agrupamentos lotados. Onde há muitos professores sem trabalho e outros a enlouquecer pela quantidade do mesmo.
Somos o país onde na mesma sala há dois, ou três ou quatro anos escolares distintos. Mas não interessa, porque não há dinheiro para dois professores. Somos o país onde os programas escolares são gigantes e muitas vezes desenquadrados das necessidades de aprendizagem. Somos o país onde desde cedo se tem explicações, não porque os nossos alunos não sejam suficientemente inteligentes, mas porque o programa é louco. Onde os pais não conseguem ajudar a fazer os trabalhos de casa, agora mais exigentes e em maior quantidade. Somos o país onde não há praticamente psicólogos nas escolas, porque não há verba. Somos o país onde as crianças ou não têm tempo para brincar, ou já não sabem brincar. Somos o país onde o ensino especial é só para alguns e a diferença não é contemplada, sendo grande parte das vezes, só alvo de rótulo. Somos o país onde cada vez mais há crianças a entrar com 5 anos para a escola, anulando-lhe a possibilidade de mais um ano de brincadeira para melhor crescer e para desenvolver de forma consistente a concentração e atenção, fundamentais para o processo de aprendizagem. Somos o país onde o número de crianças com hiperatividade e de défice de atenção é, no mínimo, bizarro, onde a imaturidade reina e a falta de controlo de comportamento também. E de regras, com certeza. Somos o país com programa de ensino desfasado do desenvolvimento das suas crianças. Somos o país onde algumas crianças trabalham mais horas que adultos. Somos o país que premeia os quadros de mérito, mas não premeia a excelência humana. Que pena, talvez se assim fosse, os níveis de violência nas escolas fossem menores. Somos o país de pais cansados e desorientados. Somos o país de professores angustiados e revoltados. Somos um país de cortes. Que corta em tudo. E mais precisamente, no futuro do seu próprio país. Somos um país cheio de tanta coisa, mas vazio do que realmente interessa. Somos um país que precisa de dar um murro na mesa e defender aquilo que é seu. Nosso. A escola. As crianças."
 
Este texto reflecte, na generalidade, a parte pior daquilo que penso da escola de hoje, a escola que dá mais importância aos números do que às pessoas. Para ser o mais sincero possível, desde o primeiro dia que comecei a dar aulas até hoje, não senti que houvesse evolução no estado da educação no nosso país. A quantidade de vezes que se mudam os modelos educativos ou os conteúdos programáticos por exemplo, à medida que há mudanças de governos, proporciona e propicia uma completa rebaldaria que só confunde os agentes educativos, principalmente os alunos. Não existe consolidação de nenhum modelo pelo menos desde que comecei a dar aulas há quase 20 anos e isso reflecte-se no estado a que isto chegou. Interessa passar alunos para que os números dos relatórios sobre a educação em Portugal melhorem, não interessa transitá-los com qualidade nas suas aprendizagens. Com isto não estou sequer a abordar a sempre polémica transição ou não dos alunos, o que, na realidade, me importa é que eles saiam da escola não só com conhecimento mas também com valores humanos consolidados para viverem saudavelmente em sociedade. Os nossos governantes esquecem-se sempre daquilo que os docentes nunca esquecem, os jovens de hoje são os Homens de amanhã. Na educação não importa só o agora, importa sempre o depois, e mais que os números estão as pessoas.
 
Durante estes quase 12 anos, mesmo cumprindo as orientações da nossa tutela (concordando ou não com elas), tentámos que a vida na nossa escola fosse vivida pelos nossos alunos baseada em valores de humanidade. Se conseguimos ou não, não sei. Sei que trabalhámos com honestidade, responsabilidade e empenho para o conseguirmos.
 
Trabalhar na escola de Avis não é fácil. Não é fácil trabalhar em escola nenhuma. Nenhum dia é igual ao outro, não existem muitas rotinas, a não ser as do toque da campainha (quando existe). Fazendo um breve balanço destes quase 12 anos, o que mais detestei foi dar “castigos” aos alunos… a sério, não faz parte da minha personalidade! Nem tudo foram rosas neste tempo, é um facto. Esta história de gerir recursos humanos tem muito que se lhe diga. E quando os recursos são adultos ainda mais difícil se torna. É impossível evitar o choque de personalidades. Gerir egos e personalidades completamente díspares é muitíssimo complicado, há que ter um jogo de cintura absolutamente brutal. Era, de facto, interessante que todos os docentes pudessem passar por uma Direcção de uma escola para observarem não só esta realidade mas também a imensidão de coisas que têm que ser feitas, de forma a entenderem que, não raras vezes, a implementação de determinadas regras são oriundas das hierarquias e que as decisões tomadas não são autónomas mas, muitas vezes, impostas. Também era importante que, de X em X anos os docentes fossem conhecer outras realidades, viverem um ano ou dois noutras escolas, mesmo que próximas, para perceberem que ser “dinossauro” numa escola nem sempre é bom, pelo menos não lhes dá o direito de quererem que, por exemplo, o orçamento de uma escola seja gerido como se de um orçamento familiar se tratasse, até porque as diferenças são abismais, ou quererem que a escola seja como era antigamente. Os paradigmas mudaram. Mudam dia após dia e há que seguir em frente.
 
Passados quase 12 anos é altura de dizer adeus a Avis. Cheguei aqui com menos 30 quilos, sem cabelos brancos e a fumar desalmadamente. Saio daqui enriquecido pelas vivências que vivi, pelas pessoas que conheci, pelas amizades que fiz e levo comigo não só uma vila mas um concelho lindíssimo que merece ser visitado.
 

Passados quase 12 anos é altura de dizer adeus a Avis. Cheguei aqui com menos 30 quilos, sem cabelos brancos e a fumar desalmadamente. Saio daqui enriquecido pelas vivências que vivi, pelas pessoas que conheci, pelas amizades que fiz e levo comigo não só uma vila mas um concelho lindíssimo que merece ser visitado.

Da escola levo muito mais, levo o meu coração cheio… cheio com muito mais do que a amizade dos assistentes técnicos e operacionais, levo a simpatia do Sr. Feijão e da D. Elisa, a disponibilidade, cumplicidade e lealdade do Sr. Domingos, as artes manuais do Sr. Antunes, do Sr. António Corrula e do malogrado Sr. João Silva, levo comigo as constantes e hilariantes brincadeiras da D. Celestina, a competência e solidariedade da D. Maria José Carago e a cordialidade da D. Maria José Varela e do Sr. António Joaquim, levo a excelente comidinha da D. Maria do Rosário (hum!!!), da D. Ana Maria e da D. Isabel Lopes, a humildade da D. Margarida Matias, a presença da Elsa, do Sr. Zé e da D. Maria José e o fundamental apoio da D. Paula e da D. Maria Joana, levo comigo as fantásticas coseduras da D. Margarida Carrilho, a cortesia da D. Fernanda, as sábias benzeduras da D. Vitória e a elegante perspicácia da D. Aurora, levo os belos bolinhos com creme da Zéfinha e da Belinha, o chão molhado e o equilíbrio da Filomena, a sobriedade da Carmen, a criatividade do Tiago e a lealdade da Cristiana e levo finalmente comigo a sabedoria, a experiência, a cumplicidade, a responsabilidade e o altruísmo da D. Rosa que foi muitas vezes quase nossa mãe.  A todos, sem excepção… MUITO OBRIGADO!
 
Para além disso, e como tenho um coração muito grande, levo muito mais gente, levo centenas de alunos (de que não me esquecerei, nunca!) e a maioria dos colegas que comigo compartilharam a vida na escola. No cantinho mais especial deste músculo que nos faz estar por aqui, levo as horas partilhadas com a Lena, as brincadeiras da Luísa, a seriedade da Ana Rosa e a invulgar capacidade de trabalho da Joana e levo, fundamentalmente, a parceria e habilidade da fantástica Lina, o genial profissionalismo e empenho da magnífica Ana Isabel, e o apoio, cumplicidade, solidariedade, inteligência e amizade da extraordinária Patrícia e da impetuosa mas versátil, sincera e honesta Margarida. Todas deram o melhor de si, de todas retirei ensinamentos e todas foram profissionais 5 estrelas… por isso… MUITO OBRIGADO!
 
Passados quase 12 anos é altura de dizer adeus a Avis. Saio daqui com a consciência tranquila do dever cumprido e de tudo ter feito em prole dos alunos. Saio com mais 30 quilos, com milhares de cabelos brancos mas pelo menos, deixei de fumar. É verdade, vou ter saudades do caminho, sempre diferente de dia para dia. Reafirmo que saio enriquecido pelas vivências que vivi, pelas pessoas que conheci, pelas amizades que fiz e levo comigo não só uma vila mas um concelho lindíssimo que merece ser visitado. Até sempre… ou até um dia AVIS!
 
* Professor Luís Parente

A arte na paisagem

Escrito por sábado, 01 julho 2017 18:31
As questões da arte e da beleza sempre estiveram presentes na relação do Homem com a Paisagem. Os seres humanos, ao longo da sua evolução, sempre se relacionaram com a paisagem com a finalidade de dela retirarem proveito, por razões de sobrevivência ou de recreação, e dessa relação surgiram diversas criações, mais ou menos artísticas e mais ou menos “belas”.
 
Usamos muitas vezes a palavra “belo” para adjetivar aquilo que consideramos bom, que nos provoca um sentimento prazeroso ou de que gostamos. Com efeito, em diversas épocas da nossa História houve uma ligação muito estreita entre o belo e o bom. Vejam-se os exemplos dos ideais estéticos da Antiguidade Clássica, sempre associados à proporção e à harmonia presentes nos fenómenos naturais; da beleza da simbologia da luz e da cor presentes na arte da Idade Média; da beleza da razão e do Homem, que serviu como medida de todas as coisas durante o Renascimento; da beleza inquieta das formas em movimento no Barroco; da beleza do retorno à pureza das formas neoclássicas; da beleza do bucólico no Romantismo e da extraordinária quantidade de novos ideais estéticos que surgem a partir do século XIX e se prolongaram até aos nossos dias, procurando descobrir o valor e a fecundidade presentes na matéria e que lhe conferem beleza. Por isso, Beleza e Arte sempre foram condição do tempo e do espaço com os quais conviveram. A beleza e a arte acompanham o espírito do tempo de determinada época, estando dependentes das suas características sociais, económicas e culturais. 
 

praticamente ainda não tinham sido colocadas nos locais em que estão expostas e sem que se esperasse qualquer tipo de esclarecimento sobre os motivos da exposição, muitas foram as vozes que se levantaram contra a sua instalação. Uns ficaram sem palavras, outros atribuíram-lhe adjetivos pouco felizes, outros ainda queixaram-se da falta de enquadramento, apesar do pouco conhecimento que tinham sobre o tema.

Ainda assim, a verdade é que a relação entre beleza e arte sempre foi muito ambígua, na medida em que, apesar de na maior parte das vezes a arte privilegiar a beleza dos fenómenos naturais e/ou culturais, ela pode representá-los de forma bela, ainda que aquilo que se representa não esteja conforme aquilo que se considera belo e que, pelo contrário, facilmente nos repugna ou nos influencia de forma negativa. Pode esta conversa parecer estranha, mas vejam-se os seguintes exemplos: a célebre “Guernica”, de Picasso, considerada uma das obras-primas do pintor e que, no entanto, é representativa do bombardeio da cidade espanhola com o mesmo nome, durante o regime de Franco. Poderá haver beleza na representação do extermínio de milhares de pessoas? A inquietante complexidade do tríptico do ”Jardim das delícias”, de Hieronymus Bosch, especialmente no painel referente ao Inferno. Que beleza encerra a representação de um local que a todos aterroriza? E o que dizer da cruel e tenebrosa beleza pintada por Goya na representação de “Saturno” a devorar um dos seus filhos? Estes exemplos, entre tantos outros que aqui poderiam ser citados, servem apenas para reforçar a ideia de que, na arte, até a representação daquilo que entendemos como feio pode ser feita de uma forma bela, pois induz em nós uma emoção e uma apreciação estética positiva.
 
Mais complexa é ainda esta relação entre arte e beleza se pensarmos na quantidade de correntes artísticas que surgiram desde os finais do século XIX até aos nossos dias. Com a idade contemporânea, em especial após o surgimento da corrente impressionista, a beleza da arte deixa de ser guiada por cânones ou ideais estéticos, passando a basear-se na subjetividade das emoções do observador e colocando-se-nos várias questões. Que beleza encontramos na fugacidade do momento captada pelos artistas do Impressionismo? Ou na excessiva decoração da afirmação burguesa na Arte Nova ou na arquitetura do ferro e do vidro? Ou ainda na beleza orgânica do Modernismo, tão presente por exemplo nas obras de Gaudi e seus contemporâneos? Mais subjetivo ainda – poderá um simples objeto de uso quotidiano ser considerado belo? 
 
Se consideramos a arte abstrata e todos os “ismos” que povoam a arte do século XX, rapidamente chegamos à conclusão de que não é fácil atribuir o rótulo da beleza à arte, pois dificilmente encontraremos duas opiniões iguais acerca de uma mesma obra. A estética contemporânea revaloriza a matéria, atribuindo-lhe um valor que vai muito para além da sua realidade física concreta. Na arte do nosso tempo, o mármore de uma escultura, por exemplo, não encerra apenas a forma visível da mesma, mas sim um conjunto de sensações que o artista pretende transmitir com a sua obra e que se revelam através do toque, do cheiro, dos sons ou até mesmo dos sabores. Para além disso, na arte contemporânea, as obras estão invariavelmente sujeitas às leis da física, transformando-se, desgastando-se, desenvolvendo-se. A forma deixa, assim, de obedecer a uma determinada função ou figuração, passando a ser explorada através de um número infinito de possibilidades, com o propósito único de emocionar.
 
Esta beleza, a que muitos chamam a beleza da provocação, proposta pelos vários movimentos de vanguarda e pelo experimentalismo artístico, não constitui um problema para os seus artistas. Isto acontece porque, para eles, se subentende que qualquer obra de arte é bela e não tem que seguir qualquer tipo de cânones estéticos. A proposta dos artistas contemporâneos nada tem que ver com a proporção e harmonia da natureza, mas sim com a consciencialização de que o mundo pode ser visto com olhos diferentes e de que não existem categorias de beleza facilmente definíveis.
 
Uma obra de arte, seja qual for, tem sempre subjacente ao ato criativo a intenção de provocar uma sensação em quem a produz e em quem a observa. Tem como intenção prioritária estimular o sentido estético de alguém, de uma população ou de um lugar. Tem uma finalidade, uma teleologia implícita. Teleologicamente a obra de arte propõe-se estimular, expressar e invocar a apreciação estética de quem a observa. É única e desprovida de qualquer função, distinguindo-se por isso dos objetos artísticos, que apesar de serem suscetíveis de provocar um sentimento estético (e portanto uma apreciação da beleza) possuem uma função específica – uma peça de artesanato, por exemplo.
 
O concelho de Estremoz tem patente uma exposição temporária do conceituado escultor alemão Robert Schad, que resolveu desta forma integrar a nossa cidade, Evoramonte e Veiros no seu Percurso Lusitano, que começa em Valença do Minho, atravessa o país e termina no Algarve. Trata-se de uma exposição única, não só pela dimensão de cada uma das esculturas, mas também pela distribuição espacial das mesmas no território português. As linhas que compõem estas esculturas em aço constituem, tal como o artista define o seu trabalho, um “fio condutor” que atravessa o país, permitindo novos pontos de vista e perspetivas sobre os locais em que as esculturas se encontram em exposição. 
 
Não quero, obviamente, dedicar-me à apreciação e à discussão acerca da beleza ou do valor destas obras de arte pois, como já referi, a minha apreciação estética das esculturas é naturalmente diferente de todas as outras que possam ter surgido ou vir a surgir. Contudo e na minha opinião, todos devíamos ter ficado orgulhosos e agradecidos por ter em Estremoz as obras de Robert Schad, já que mais não fosse pelo facto de um artista de renome internacional ter escolhido o nosso concelho para acolher uma exposição desta dimensão.
 
Curiosamente, praticamente ainda não tinham sido colocadas nos locais em que estão expostas e sem que se esperasse qualquer tipo de esclarecimento sobre os motivos da exposição, muitas foram as vozes que se levantaram contra a sua instalação. Uns ficaram sem palavras, outros atribuíram-lhe adjetivos pouco felizes, outros ainda queixaram-se da falta de enquadramento, apesar do pouco conhecimento que tinham sobre o tema. Outros gostaram, não lhes causou qualquer impacto ou nem sequer notaram a diferença. É natural. As pessoas foram ao encontro das expetativas do artista e, como vimos atrás, daquilo que é expetável uma obra de arte transmitir – emoções e uma apreciação estética. Só por essa razão, calculo que o Robert Schad esteja a esfregar as mãos de contente, pois pelo menos as suas obras foram faladas e vistas, nem que seja apenas pela curiosidade de ver as supostas aberrações. Centenas de partilhas, likes, dislikes e comentários nas redes sociais, conversas nos cafés, nas esplanadas e nos restantes espaços de convívio do concelho, apenas serviram para dar ainda mais propósito a esta instalação – debater e chamar à atenção para a arte contemporânea, tão incompreendida por todos nós. 
 

Que me desculpem, mas não tolero demagogias. Não podemos estar em silêncio durante tanto tempo e de repente, só porque calha bem, acordamos e falamos ao jeito da maré. Muito menos se o fazemos invocando a liberdade de expressão e nos esquecemos que estamos a deixar lesada a liberdade de expressão dos outros. Neste caso concreto, por que razão não poderia o Robert Schad exprimir-se como bem entendesse?

Só não consigo entender a consternação de alguns perante esta instalação temporária, em especial quando perante outras situações mais prementes se quedam em silêncio. Questões de enquadramento com os monumentos ou os espaços em que se inserem? Estas pessoas querem mesmo falar sobre isso? Sobre o enquadramento dos monumentos? E o restante enquadramento, não fere? Que vozes se levantam contra a instalação de cabos telefónicos e elétricos nesses mesmos monumentos? Ou contra o crescimento de vegetação na sua envolvente, sem que nada façam ou diligenciem? Que têm a dizer sobre a degradação do património e sobre o facto de o Estado não intervir na sua recuperação? Não tenho visto grande preocupação por parte das pessoas que agora subscrevem opiniões sobre o enquadramento da arte na paisagem.
 
Que me desculpem, mas não tolero demagogias. Não podemos estar em silêncio durante tanto tempo e de repente, só porque calha bem, acordamos e falamos ao jeito da maré. Muito menos se o fazemos invocando a liberdade de expressão e nos esquecemos que estamos a deixar lesada a liberdade de expressão dos outros. Neste caso concreto, por que razão não poderia o Robert Schad exprimir-se como bem entendesse? Pode e deve fazê-lo, ainda mais porque foi legitimado para o fazer por quem tem a responsabilidade de gestão do espaço público, independentemente de gostarmos ou não daquilo que nos apresenta.
 
Tive muito gosto em conhecer pessoalmente o Robert Schad durante a sua permanência em Estremoz. É uma pessoa simples, humilde e com uma visão muito abrangente do mundo e das coisas, sempre muito preocupado com o tal “enquadramento” das suas obras e no diálogo que pretendia que elas fizessem com os monumentos e com a paisagem. Tanto em Estremoz, Evoramonte, Veiros ou noutros locais onde tem expostas as suas obras de arte, em minha opinião, acho que o faz de forma excecional e que as suas esculturas têm muito valor, opinião que é sempre discutível, o que aceito com a maior das naturalidades. 
 
Robert Schad ficará para sempre na minha memória, não só pela sua forma de ser, mas porque fiquei com a impressão de que, num conto de fadas, ele bem podia ser um príncipe encantado e a sua escultura o beijo que despertou a princesa, há tantos anos adormecida no castelo e que agora parece ter acordado para a vida. Fico muito feliz que esta exposição tenha servido para alguma coisa. Só não sei é se esta história vai poder terminar como os restantes contos de fadas, todos a viverem felizes para sempre, pois como todos sabemos, esta exposição é temporária…
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
Segundo informações surgidas na imprensa, existe o risco de fecharem serviços em mais de uma dezena de hospitais e centros de saúde em todo o País.
 
Segundo a mesma informação, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, já foi notificada de que os enfermeiros especialistas vão cessar funções diferenciadas a partir de 3 de julho caso não sejam revistos os seus contratos e remuneração.
 
No comunicado divulgado pela Ordem dos Enfermeiros é referido que tiveram “conhecimento, por escrito, das manifestações enviadas aos presidentes dos conselhos de administração e ao ministro da Saúde por enfermeiros especialistas em Saúde Infantil e Pediátrica, Reabilitação, Médico-Cirúrgica e Materno Obstétrica de todo o País: ACeS do Cávado III/Barcelos/Esposende, CH Baixo Vouga, ULS Castelo Branco, CH Lisboa Central, ULS Norte Alentejano, ULS Baixo Alentejo, CH Médio Tejo, Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), Hospital do Espírito Santo (Évora), Hospital Sra. da Oliveira (Guimarães), CH de Setúbal, CH do Oeste e ACeS Alto Ave”.
 
A situação apresentada é muito grave. Torna-se ainda mais dramática quando a esta temática juntamos a norma de execução orçamental publicada e apresentada pelo Governo, dia 6 de junho, que obriga os hospitais a cortarem em pelo menos 35% nos gastos com a contratação de médicos tarefeiros externos ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), a qual vai agravar este sistema que já se encontra altamente deficitário.
 
Todos estes cortes e limitações no setor da saúde vão ter um impacto extremamente negativo no Alentejo. Isso parece-me evidente!
 
Uma região como o Alentejo, onde não existem médicos reumatologistas, mas também a falta de anestesistas, ginecologistas, oncologistas, pneumologistas, radiologistas e reumatologistas, pedopsiquiatras, entre outras especialidades, nos hospitais e centros de saúde da região, são uma realidade, torna toda esta problemática na área da saúde muito grave e problemática.
 
Na realidade, este governo deixou de investir no mais importante: nos médicos e enfermeiros. Logo, os mais afetados são as pessoas economicamente mais vulneráveis e mais envelhecidos.
 
Por isso, com uma situação de quebra de investimento por parte deste Governo (ao contrário do que o Governo do PSD/CDS se encontrava a fazer), estão criados todos os condimentos para que a situação do setor da saúde venha a ter contornos extremamente problemáticos.
 
Num território mais frágil e mais envelhecido, como é o caso do Alentejo, toda esta problemática na área da saúde acaba por ser muito mais grave.
 
A não ser que haja uma mudança de políticas a breve prazo, corremos o risco de todos estes problemas ganharem uma forte dimensão, difícil de controlar.
 
É desejável que assim não seja!
* Deputado António Costa da Silva

O "Improvável" aconteceu no Casino

Escrito por sexta, 09 junho 2017 02:16
Lisboa, Casino Estoril. O Salão Preto e Prata encheu devido a um estremocense que, ainda por cima, dá-me a honra de ser meu amigo. Figuras públicas não faltaram e grandes músicos também não. Desta vez, foi o Nuno da Câmara Pereira, o Rodrigo, o Toy, o Tozé Brito, o António Pinto Basto, entre outros, que foram ver o Zé. O Zé gravou, em tempos, um disco em Estremoz e tirou uma foto encostado ao Arco de Santarém. "Já é cantado na Madeira ou nos Açores, o nosso Fado vai correndo Portugal", cantava o Zé na altura, sem saber que um dia iria encher este emblemático Salão e de facto percorrer Portugal com a sua música.
 
Há uns anos atrás, quando bebiamos um café às 9 horas na nossa Rádio Despertar, o Zé disse-me que tinha uma proposta para ir para Lisboa. Eu, sem hesitar, disse-lhe: "Vai. Há comboios que só passam uma vez". Disse isto e acreditei que este era o melhor conselho para um amigo. Não havia muito a pensar. O Zé tinha que estar ainda mais perto do "meio" onde tudo se passa. Ao pé do lume é que dá para nos aquecermos como deve de ser e só indo "para lá" ele estaria mais perto de todas as oportunidades.
 
O Zé, sei eu, não consegue ser mais um. Ele chegou e marcou a sua posição. Não se limitou a fazer os seus programas na Rádio Amália e a cantar de vez em quando. Começou a estar ainda mais perto dos amigos do meio, fez televisão, escreveu e compôs, mostrou bem ao que vinha. O Zé não deixou a "sua" Torre de Menagem só porque sim. 
 
O Zé, no Casino Estoril, cantou acompanhado pelo Ângelo Freire, que talvez seja o melhor na Guitarra Portuguesa. Cantou acompanhado pelo Júlio Resende que é "só" o pianista que ganhou a Eurovisão com o Salvador Sobral. Estava no palco, a noite era dele, mas não se esqueceu de onde veio. Agradeceu à Rádio Despertar, a Estremoz, aos estremocenses, aos amigos que o foram ver. Chamou para cantar aqueles que no início da sua carreira lhe deram a mão: Nuno da Câmara Pereira, Silvino Sardo, Rodrigo e António Pinto Basto. Chamou, para cantar consigo, outro Zé. Fez ao Zé Luis Geadas, aquilo que lhe fizeram em tempos e deu-lhe a oportunidade de mostrar o seu valor num palco destes e num acontecimento desta natureza.
 
Havia surpresas...e que surpresas. Ana Moura fechou a noite cantando com o Zé a "Maldição". Que luxo! A Ana Moura foi também, aí, anunciada como madrinha de um projeto solidário que o Zé apresentou e que vai angariar verbas para a Pediatria do IPO. Aqui, a expressão "Fechar com chave d'ouro" assenta que nem uma luva. 
 
Estive numa noite em que, sem dúvida, houve empatia entre público e artistas. Uma noite que tinha tudo para ser "Improvável" e foi mesmo. O "Improvável", o tal disco que foi apresentado nesta noite, é um sonho do Zé mas também uma maneira de celebrar a música. Um disco apenas ao alcance de quem escreve letras e compõe músicas como o Zé o faz.
 
O Zé, o tal que saiu de Estremoz um dia em busca de uma valorização profissional e também pessoal, está no melhor momento da sua carreira. Goste-se ou não do seu feitio e da sua maneira de estar ou até de cantar, o Zé é aquilo que todos vemos e ouvimos. Sabe de onde vem, sabe para onde vai e sabe bem qual é o caminho que deve seguir para chegar aos seus objetivos. Aconteça o que acontecer, há algo que já ninguém lhe vai tirar: o brilho nos olhos que todos vimos no Casino Estoril.
* Jornalista José Lameiras
 
Nos últimos tempos tenho recebido várias queixas sobre alguns problemas e dificuldades existentes no Centro de Saúde de Estremoz. As situações que me têm sido apresentadas nada têm a ver com as competências das pessoas que ali trabalham, mas sim, devido a falhas ao nível da falta de meios.
 
Um dos alertas que me é dado a conhecer tem a ver com a Inexistência de um Sistema de Triagem. O Sistema de Triagem é fundamental porque funciona como uma ferramenta de decisão e de gestão de risco, nomeadamente como ferramenta de gestão de risco clínico.
 
A inexistência desta ferramenta limita fortemente a qualidade dos serviços de saúde.
 
Outras das carências que me tem sido apontada tem a ver com o Raio X. A informação que me é dada a conhecer é que este equipamento fundamental está muitas vezes indisponível.
 
Mas, a mais grave das falhas que me é apontada tem a ver com a falta de meios humanos. Muitas vezes procuram suprir esta falha grave através do recurso a vínculos precários.
 

Outras das carências que me tem sido apontada tem a ver com o Raio X. A informação que me é dada a conhecer é que este equipamento fundamental está muitas vezes indisponível.
Mas, a mais grave das falhas que me é apontada tem a ver com a falta de meios humanos. Muitas vezes procuram suprir esta falha grave através do recurso a vínculos precários.

Estes são algumas das preocupações mais importantes que me têm chegado. Há mais problemas que têm que ser resolvidos.
 
Uma coisa é certa, os estremocenses merecem e têm o direito ao acesso à saúde, como qualquer cidadão. Estas problemáticas não têm qualquer justificação.
 
Só se compreende porque este Governo cortou fortemente no investimento público. Tivemos uma quebra de 25% em 2016. Como é evidente, os equipamentos e serviços públicos são claramente prejudicados.
 
Outras das razões tem a ver com o agravamento da despesa na saúde. Voltamos ás práticas de esconder despesas “debaixo do tapete”.
 
Estremoz é um concelho com pouco mais de 14 mil habitantes, mas tem uma dinâmica empresarial muito interessante. Muita desta atividade está relacionada com a industria, agricultura e agroindústria (vinhos, enchidos, etc). Atividades com elevado grau de risco em acidentes.
 
Estremoz está também situada num cruzamento rodoviário muito importante: IP2, N4 e A6.
 
Estes elementos são fundamentais para que exista em Estremoz um Centro de Saúde de excelência.
 
Em termos práticos, as pessoas é que são penalizadas. E muito mais penalizados são os habitantes em territórios menos habitados e mais envelhecidos.
 
A minha expetativa é que estas insuficiências venham a ser rapidamente suprimidas.
 
Devemos fazer por isso.
* Deputado António Costa da Silva

A Lição do Salvador

Escrito por sexta, 12 maio 2017 10:05
O Salvador Sobral deveria ser, para todos, um exemplo. Não por ser perfeito, porque isso não existe, nem por cantar melhor do que os outros. O Salvador deveria ser um exemplo pela sua história e pela sua forma de encarar a vida.
 
A vida é feita de sonhos e objetivos. Todos deveremos ter algo para fazer e algo para sonhar. Os sonhos serão impossíveis para quem não sonha e para quem não trabalha para que eles se realizem. O Salvador Sobral, é apenas um jovem que decidiu rapidamente qual o caminho que queria e dele nunca se desviou um milímetro. Sonhou com este momento, foi à luta, ouviu muitas vezes a palavra "não", mas isso não fez com que desistisse.
 
Teria sido mais fácil, para o Salvador, ser diferente. Seria mais fácil ser como os outros e pensar numa personagem. Nada disso. Convicto de que a genuídade é, também, uma virtude, Salvador tem sido igual a si próprio e assumiu os riscos disso mesmo. O seu "estilo", a sua maneira de cantar e falar, de estar em palco completamente descomprometida com o "parece bem" ou "parece mal", passa ao lado da crítica estrangeira, de quem gosta da música e de música, e apenas o seu talento é julgado. Parece simples, não é? Mas, por cá, não.
 

Ouvimos o Salvador falar e tudo parece mais simples. No "Alta Definição" da SIC, Salvador disse isto: "Tenho muito mais coisas boas do que más. Esta doença que eu tenho é o único problema que eu tenho na minha vida" . Ouvi-lo, faz-nos pensar que somos nós que, grande parte das vezes, complicamos as coisas. Somos nós que valorizamos demais aquilo que não tem importância e desvalorizamos o que é essencial.

 
Salvador é genuíno mas não é rebelde. Não é aquele, desculpem a expressão, "gajo" que diz que ser diferente é que é "fixe" e os outros são todos uns "totós". Nada disso. Quem se atreveria, em pleno Festival da Eurovisão, a gritar "LINDOOO" durante a sua música? Pois, ele sente o que canta e, digo eu, a forma como canta a sua música leva a que mesmo quem não conheça uma palavra de Português entenda o sentimento que o cantor coloca na sua voz. É como os estrangeiros nas Casas de Fado em Portugal, não entendem uma palavra, mas também não precisam.
 
Salvador deu-nos uma lição a todos. Seja qual for o resultado no próximo sábado, os portugueses voltaram a ter orgulho numa canção no Festival da Eurovisão. O país voltou a ver este evento. Quantas pessoas em Portugal se lembram dos representantes portugueses dos últimos anos? Eu, que até trabalho numa rádio, nem me lembrava que Portugal não tinha participado no ano passado e do nome da nossa representante em 2015. Tive que ir pesquisar na internet. Tivemos, de facto, boas prestações em 2008, 2009 e 2010, anos em que estivemos na final. Agora, neste caso, a diferença é que, fique onde ficar, o Salvador já tem o mérito de colocar os portugueses a falar sobre a Eurovisão, mesmo que possamos dizer que as redes sociais tenham dado uma grande ajuda.
 
Ouvimos o Salvador falar e tudo parece mais simples. No "Alta Definição" da SIC, Salvador disse isto: "Tenho muito mais coisas boas do que más. Esta doença que eu tenho é o único problema que eu tenho na minha vida" . Ouvi-lo, faz-nos pensar que somos nós que, grande parte das vezes, complicamos as coisas. Somos nós que valorizamos demais aquilo que não tem importância e desvalorizamos o que é essencial. Ele, ao contrário de muita gente, é aquilo que vemos e que ouvimos. É um rapaz simples e, também, um simples rapaz. É genuíno e, como se costuma dizer agora, "sem filtros".
 
Não deve ser um Ídolo, apesar de ter concorrido ao programa com esse nome. É, simplesmente, alguém que faz questão de ser puro, goste-se ou não, e de lutar por aquilo em que acredita. Não é politicamente correcto e nem o quer ser. É educado, bem formado, mas real. Tem outro grande mérito. Digo eu, que é o facto de ter feito, precisamente, muitas pessoas mudarem de opinião. Infelizmente, para muitos portugueses, foi preciso ouvirem a crítica internacional para aceitarem o seu valor e a sua qualidade. É triste, eu sei, mas é mesmo assim.
 
* Jornalista José Lameiras

Vamos dançar?

Escrito por sexta, 28 abril 2017 20:20
Para ser sincero sou aquilo a que se pode chamar de autêntico “pé de chumbo”. Não tenho o mínimo jeito para dançar. Coreografias, movimentos amplos, movimentos curtos, de pés, de mãos, de ancas, não percebo nada, mesmo. Naturalmente que ao longo da minha vida, muitas foram as ocasiões em que tive mesmo que dançar, quer dizer… dançar não é o termo mais correto, talvez seja melhor chamar-lhe qualquer coisa como “ocasiões em que fui quase obrigado a efectuar movimentos ritmados ao som de uma música”. Adoro música, adoro bater o pé ao ritmo de uma música, adoro fingir que toco bateria, transformo qualquer coisa em baquetas para tentar reproduzir o som da percussão, canetas, talheres, as próprias mãos, tudo serve para fazer “barulho”, ao ponto de, por vezes, em casa, ter alguém a dizer-me que já chega… eu tenho a noção que às vezes é difícil controlar-me neste aspecto. Mas quando toca a dançar… Ui!!! Valha-me Deus!!! Quando era mais novo, para não fazer figuras tristes nos bailes ou nas discotecas, optei por uma situação que, de alguma forma me pudesse proteger para não cair no ridículo, em primeiro lugar observava atentamente tudo o que me rodeava (a bater ritmadamente o pé ao som da música), a forma de uns e de outros se movimentarem, o local onde punham as mãos, se elas próprias faziam ou não parte das criativas coreografias que por lá apareciam. Algumas eram talvez um pouco excêntricas. Ao fim e ao cabo depois de tanta observação eu já conseguia distinguir as clássicas das excêntricas, pelo menos pensava eu…
 
A este propósito, de danças estranhas, recordo-me, numas férias no Luso irmos com o nosso grupo de jovens amigos, que se juntavam todos os anos no INATEL daquela localidade, à discoteca do Grande Hotel curtir a música daqueles finais dos anos 80. De entre dez a quinze jovens rapazes e raparigas destacou-se claramente na inovação da sua dança o amigo Filipe, um rapaz de Matosinhos com um sentido de humor fantástico (típico das gentes do norte) que com os seus movimentos como se estivesse a fazer exercícios de ginástica ou a correr (parado), sempre naqueles 50 centímetros quadrados, fazia com que ao seu redor ninguém ficasse indiferente… era uma risada geral. O que mais me intrigou na altura foi o sucesso da sua coreografia, se é que assim lhe posso chamar, junto do público feminino. Como é que aquele rapaz franzino, que dançava de forma ridícula (fala o entendido…) conseguia dominar a pista de dança e… as meninas? Ele lá sabia! Sabia que os seus movimentos atraíam a gargalhada e tinham sucesso no sexo oposto, e por isso, descomplexadamente, não hesitava um único segundo e continuava a dar o seu “show” para gáudio do pessoal. 
 

Para ser sincero, o meu relacionamento com a dança é estranho, como disse não tenho jeitinho nenhum, mas há músicas que me fazem alterar completamente a noção de equilíbrio, há músicas que me fazem apetecer movimentar-me como um louco. Se estiver em casa ou até num grupo restrito de amigos até sou capaz de fazer a malta rir um bocadinho, se for em público adopto, naturalmente o “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”.

Depois de reflectir não só sobre o que tinha ali assistido, mas também sobre a memória, sempre viva, dos meus pais a dançarem nos bailes da Sociedade dos Artistas (eles sim bons dançarinos!), onde o meu pai (que era de tamanho pequeno) dançava agarrado à minha mãe com a cabeça encostada ao seu peito, por ser até aí que a sua estatura o levava, formando ali um cenário igualmente engraçado e igualmente descomplexado, cheguei à conclusão que era altura de parar de só bater o “pézinho” e passar àquele que até hoje utilizo e se pode assemelhar a um passo de dança, o por mim chamado “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”. Que nome mais estranho e comprido! (nem queiram saber o nome que eu inventaria se o passo de dança fosse mais complicado). Deste modo consegui arranjar uma boa forma de colocar e movimentar ritmadamente os pés, acompanhando com clareza a métrica da música. E então as mãos? O que é que fazia às mãos? Para saber o que fazer com elas também tive os meus momentos de observação, observei todas as suas formas de movimentos e a conclusão a que cheguei é que, nada melhor que dançar com uma bebida na mão, pelo menos só temos que nos preocupar com a outra, visto que uma já fica ocupada. 
 
Ultrapassada que foi a vergonha ou o receio do ridículo, comecei a desenvolver a técnica nos bailaricos das aldeias e em algumas discotecas da região. 
 
Na irreverência dos meus 18 anos entendi deixar crescer o cabelo e, quando o mesmo já estava efectivamente grande, sucedeu comigo o impensável. Eu era talvez 50 quilos mais magro e um dia, numa tarde de domingo, num grupo de amigos, resolvemos ir a uma matiné a uma discoteca em Elvas (naquela altura ainda havia matinés, agora, sinceramente, não sei se há). Montados na carrinha Peugeot 504 do João Carlos, aí fomos nós até à discoteca “Luigi”. Até aqui nada de estranho, o estranho passou-se lá dentro quando, pouco depois de me ter aventurado na arte do “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”, um cromo, certamente com falta de vista, me confundiu com um elemento do sexo feminino e me pediu para dançar. Naquela altura a minha reacção foi só uma: “Desaparece daqui antes que te parta os…” enfeites, para não ser malcriado. O rapazito meteu o rabo entre as pernas e, obviamente, marchou-se. Naquele dia fiquei de novo a duvidar se a minha técnica de dança já estaria suficientemente consolidada para ser exposta ao público, cheguei a pensar se a mesma seria até efeminada. No entanto cheguei à conclusão que o problema era mesmo o tamanho do cabelo, ainda assim, e porque gostava de me ver com ele comprido, não o cortei mas tomei uma outra decisão para que não voltasse a acontecer nenhum episódio semelhante, deixar crescer a barba. Deu resultado! 
 
Talvez por não perceber nada da prática de dança (sim, porque a teoria sei-a toda!) tenha insistido para que, mais tarde, as minhas filhas frequentassem aulas de ballet na Classe de Dança do Orfeão de Estremoz “Tomaz Alcaide”, pelo menos tenho a certeza que não passarão muito tempo a observar, tímida e parvamente como o pai, as danças dos outros.
 
Para ser sincero, o meu relacionamento com a dança é estranho, como disse não tenho jeitinho nenhum, mas há músicas que me fazem alterar completamente a noção de equilíbrio, há músicas que me fazem apetecer movimentar-me como um louco. Se estiver em casa ou até num grupo restrito de amigos até sou capaz de fazer a malta rir um bocadinho, se for em público adopto, naturalmente o “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”. 
 
Bem, mas o propósito que me faz trazer este tema ao “Ardina” não é demonstrar os meus feitos ou peripécias na arte da dança. O que me faz trazer este tema é, efectivamente, enaltecer e dar destaque a todos quantos fazem da dança uma forma de vida, ainda que não profissionalmente mas que vivem a dança com intensidade e o demonstram publicamente e com uma qualidade absolutamente extraordinária através dos inúmeros grupos que vão proliferando por esse país fora. 
 
Existem inúmeros géneros de dança, a primitiva, a étnica, a cerimonial, a tradicional, a clássica, o ballet, a dança contemporânea, a dança de rua, o fandango, o flamenco, a dança teatral, o funaná, o hip-hop, o jazz, o Kizomba, o kuduro, a lambada, o samba, a polca, o folclore, o swing, a salsa, a dança de salão, o sapateado, o zumba, a dança no gelo, o break dance, a dança do ventre, de sedução, o tango, as danças africanas, orientais, enfim estaríamos aqui, seguramente, muitíssimo tempo só a falar de tipos de dança e das suas infindáveis variações. Há, de facto, alguns géneros que criam em mim algum fascínio pela sua beleza estética, como são o caso do tango ou da salsa, no entanto, noutro sentido, delicio-me com a perfeição e rigor do ballet clássico e com a liberdade criativa da dança contemporânea.
 
No próximo sábado, dia 29 de Abril, comemora-se o Dia Internacional da Dança. O objectivo da UNESCO em 1982 foi o de criar um dia que pudesse universalizar aquela arte, independentemente dos povos, das culturas, da ética, da religião ou dos sistemas políticos. 
 
Ainda que a UNESCO o não tivesse feito, teríamos sempre que reconhecer a importância da dança ao longo dos tempos, desde a pré-história, ao antigo Egipto, à Grécia antiga, à Idade Média, ao Renascimento, até mesmo aos nossos dias. De uma forma ou outra a dança revelou-se de extrema importância para a evolução do Homem, por isso mesmo há que a celebrar. Celebrar a dança é respeitar o rigor e movimentar-se entre silêncios… é revelar controlo no descontrolo… é ensinar mas também é aprender… Celebrar a dança é valorizar a expressão das emoções, dos sentimentos… Celebrar a dança é dar ao corpo a capacidade do movimento articulado ao som da música… Celebrar a dança é trazer para fora o que a alma transmite… é trazer liberdade ao som e à expressão corporal… Celebrar a dança é viver de ideias, é viver de ideais… Celebrar a dança é trazer o amor para fora… Celebremos então a dança! 
 
Da minha parte celebrá-la-ei sempre com o seguro, discreto e habitual “movimento horizontal de pés, esquerda encontra direita, direita encontra esquerda”.
* Professor Luís Parente

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